ARCOmadrid
Vista geral, ARCOmadrid. Foto: Divulgação

Por Victor Valery*

“Objetivo cumprido”. Este é o título da matéria publicada no website da feira de arte contemporânea ARCOmadrid no dia do encerramento de sua 40ª edição. O objetivo? Reativar o mercado, promover a venda de arte e possibilitar o reencontro entre os profissionais do meio e grandes colecionadores mundo afora. Mas como garantir a qualidade de conteúdo e a presença internacional de galerias e colecionadores enquanto enfrentamos uma das maiores pandemias da história? Para tentar responder a esta questão, estive presente nas últimas duas edições, antes e já durante a pandemia.

A edição do ano passado da feira ARCOmadrid ocorreu entre 26 de fevereiro e 1º  de março de 2020, encerrando uma semana antes da Europa se fechar completamente devido à Covid-19. Já a edição de 2021, ano de seu aniversário de 40 anos, ocorreria também em fevereiro, porém foi remarcada para ocorrer entre os dias 7 e 11 de julho na IFEMA (Instituição de Feiras de Madrid).

Assim como as semanas de moda regem as tendências do setor, no mercado da arte não é diferente: o calendário das feiras de arte pelo mundo aponta os artistas em ascensão, consolida novas galerias e reafirma a presença dos grandes players do circuito. Feiras como a Art Basel (Suíça), Art Basel Miami Beach (EUA), FIAC (França), SP-Arte e ArtRio (Brasil) e as feiras de Nova York (EUA) passaram o ano de 2020 montando quebra-cabeças e oscilando entre formatos presenciais e virtuais para que pudessem ocorrer de maneira segura.

ARCOmadrid
Vista geral, ARCOmadrid. Foto: Divulgação

Com o avanço da vacinação na Europa esperava-se uma rápida recuperação do mercado, que sofreu sua maior crise dos últimos tempos, culminando no fechamento de inúmeras galerias. Sendo assim, a ARCOmadrid deu o pontapé inicial na tentativa de reativar este lugar de encontro de galerias, colecionadores e profissionais da arte dos cinco continentes. Nesta edição, o número de visitantes diário foi limitado, além dos três primeiros dias serem de acesso exclusivo aos colecionadores e profissionais da arte, liberando para o público geral apenas nos dois últimos dias.

Curiosamente, tanto em 2020 quanto em 2021 o número de galerias na feira foi o mesmo: no primeiro, 209 galerias de 30 países (sendo 36 latino-americanas); e neste ano 209 galerias (15 latinoamericanas) de 30 países. Isto se deve a uma possível redução dos requisitos para entrar na feira devido à pandemia. Outra curiosidade foi a dimensão da feira, pois os stands eram maiores para evitar aglomerações, tornando os espaços amplos e as distâncias percorridas mais longas.

A única representante na feira com filial no Brasil foi Baró Galeria, que trouxe trabalhos do também brasileiro Sidival Fila. A galerista e fundadora Maria Baró, além de possuir filiais em Lisboa, Madri e São Paulo, inaugura sua nova sede em Palma de Mallorca (Espanha) esta semana e comenta sobre o trabalho do artista: “Fila tem uma história de vida muito interessante, pois vive em Roma há 35 anos e aos 28 anos se tornou frei franciscano, deixando de lado a arte para estudar teologia, porém retornando às práticas artísticas há 15 anos com uma força incrível. Não vejo a hora de, no próximo ano, apresentá-lo no Brasil pela primeira vez”.

A galerista também vendeu, pela primeira vez na ARCOmadrid, uma obra em NFT (non-fungible token). O trabalho Tree Hash (2021) do artista Solimán López, que trabalha o conceito de NFT desde 2013, consiste na fotografia 3D de uma árvore bonsai em uma estrutura de plástico biodegradável; o arquivo original do 3D está armazenado em blockchain e o colecionador recebe um certificado com a localização geográfica (latitude e longitude) real que a árvore está plantada.

Conversando com o artista, ele se diz satisfeito com a venda da obra, que foi adquirida pela fundação El Secreto de la Filantropía, porém afirma que “ainda há um certo medo por parte dos colecionadores e galeristas em assimilar o NFT como arte, e não apenas especulação”. Soliman conclui dizendo que “todo mercado é especulação, o da arte inclusive”, e acredita que a arte, biologia e tecnologia ainda têm um caminho muito longo para trilhar.

Outra presença brasileira na feira foi na seção Remitente (remetente, em espanhol), projeto do curador Mariano Mayer para encurtar a distância entre a feira e a arte latino-americana. Trata-se de uma exposição com obras de 19 artistas da América Latina representados por 15 galerias da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru; suas obras compartilhavam o mesmo espaço expositivo. Destacam-se, entre as obras, a escultura Bichinha quadrada circular (2020), de Lyz Parayzo (Casa Triângulo), e com os vídeos Campo (1977), de Regina Silveira, e Photokinetic (2020), de Hector Zamora, ambos trazidos pela Luciana Brito Galeria.

A ARCOmadrid trouxe qualidade nos trabalhos expostos, porém baixas vendas em comparação às edições anteriores. Mesmo promovendo soluções como a comercialização de NFT, o mercado ainda reafirma o modelo tradicional de apresentar artistas já consolidados: no geral homens, brancos, acima dos 50 anos ou já falecidos, ignorando que os jovens artistas poderiam ser a chave no combate à crise do mercado que vivemos hoje. Se não aos colecionadores, instituições ou grandes galerias, a quem cabe encurtar o abismo e fazer a ponte entre jovens artistas e o mercado?

Próximos eventos da ARCO:

A ARCOlisboa, braço lusitano da feira de Madri, acontecerá entre os dias 16 e 19 de setembro deste ano. Serão 71 galerias de 17 países trazendo mais de 470 artistas na Doca de Pedrouços. A ARCOmadrid 2022 celebrará sua 41ª edição de 23 a 27 de fevereiro nos pavilhões 7 e 9 da IFEMA MADRID.

* Victor Valery tem formação em Produção Cultural e atua no mercado da arte, curadoria e representação de artistas. Em 2019 inaugurou um apartamento-galeria em São Paulo, que funciona, entre outros, como espaço conservação do acervo da VANDL ART, selo que promove seus artistas em parcerias de arte, música, moda e tecnologia (@victorvalery).

 

 

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