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Alfredo Jaar fica otimista sob o céu de Fortaleza

Alfredo Jaar
Alfredo Jaar, A Luz do Nosso Céu, no pátio da Pinacoteca do Ceará.

Em janeiro de 2020, centenas de manifestantes que protestavam, em Washington, contra o assassinato brutal de George Floyd, foram ameaçados pela presença brutal de helicópteros que pairavam sobre a organização pacífica.

Nenhuma descrição dá conta do que é sentir o vento forte sobre as cabeças e é exatamente isso que faz da instalação multimídia 06.01.2020 18.39 (2022) tão única. O artista chileno radicado em Portugal, que participou dessas manifestações, conseguiu recriar em sua obra, e de forma dramática, o que significa ter uma ameaça sobre a cabeça.

“Os helicópteros eram um sinal de morte no Chile, era deles que corpos de militantes eram despejados no mar amarrados em pedra”, relembra o chileno, em conversa momentos antes da abertura de sua retrospectiva Você e Eu e os Outros, na Pinacoteca do Ceará, em Fortaleza, em meados de agosto passado.

A instalação é composta pela junção de diversas gravações de celular realizadas pelos próprios manifestantes, contatados por Jaar, e que, para efeitos de homogeneização da imagem, foram transformados em preto e branco. Quando os helicópteros surgem, grandes ventiladores no teto da sala começam a funcionar produzindo um vento intenso e violento e é como se fôssemos transferidos para o meio da cena. Dá medo.

Olhando para a obra de Jaar, raramente o artista força a barra na dramatização da violência, sua poética se tornou mais conhecida, aliás, por evitar a violência, mas é como se o atual momento dos Estados Unidos o convocasse para uma outra atitude. “Não posso me calar frente ao que vejo”, diz.

Em 1982, ele, que nasceu em 1956, deixou o Chile após ter se formado em arquitetura, migrando para Nova York. Lá construiu uma carreira internacional como artista bastante extensa, tendo participado de cinco edições da Bienal de Veneza, uma em cartaz agora, três na de São Paulo e duas na Documenta de Kassel, feito alcançado por raros artistas. Desde o ano passado, Jaar vive em Lisboa. “Não tinha condições de viver sob outro governo Trump”, desabafa.

Você e Eu e os Outros, com curadoria de Moacir dos Anjos, é a primeira retrospectiva de um artista internacional desse porte na Pinacoteca do Ceará, inaugurada há quase quatro anos. “Estamos programando essa mostra desde antes da abertura da Pinacoteca, a ideia original era trazer a mostra do Sesc Pompéia, mas só agora conseguimos”, conta o artista Rian Fontenele, diretor geral e artístico da Pinacoteca do Ceará.

A exposição antológica apresenta 16 trabalhos produzidos entre os anos 1980 e 2026, incluindo algumas de suas mais conhecidas e celebradas instalações imersivas, como O som do silêncio, que estava na mostra Lamento das Imagens, no Sesc Pompeia, em 2021.

A novidade na Pinacoteca do Ceará é a instalação
A luz do nosso céu (2026), criada para o pátio interno do museu, composta por uma superfície espelhada que faz um ângulo de cerca de 45 graus do chão, refletindo a imagem do céu para dentro do museu. Ver nuvens em movimento traz um caráter mais otimista à carreira de Jaar.

Otimista porque fala das transformações constantes da natureza, criando praticamente uma obra cinética, já que os espelhos refletem a movimentação permanente do céu do Ceará, marcado por fortes ventos, ao mesmo tempo em que remete ao aquecimento global, quando o sol se reflete nos espelhos, o que impede os visitantes de olharem para a imagem de forma contínua.

“Por 40 anos ignorei a natureza, o que me deixou culpado, mas nos últimos 10 anos comecei a tratar da natureza, da ecologia do planeta”, conta Jaar. Em Veneza, sua obra O fim do mundo tem essa temática na mostra legada pela curadora dos Camarões, Koyo Kouoh. Lá, em uma imensa sala vermelha, que também nos cega, um pedestal reúne em um pequeno quadrado os dez minerais mais importantes do planeta, seleção feita pelo geólogo Adam Bobbette, a pedido de Jaar. É uma espécie de altar para aquilo que produz algumas das mais nefastas condições para a vida no planeta, como as baterias de celular.

Para se ver A luz do nosso céu, é preciso olhar por uma parede envidraçada da Pinacoteca e, sob ela, está a frase em neon, Maravilho-me do que consegui não ver, retirada de um texto do poeta português Fernando Pessoa, reforçando aqui a costumeira reflexão sobre o poder (ou não) das imagens. Nesse caso, está mais para a crítica ao excesso de imagens do mundo atual e a necessidade de uma desintoxicação delas. Nada mais adequado do que olhar, então, para o céu, como uma espécie de limpeza visual que propõe Jaar com A luz do nosso céu.

Em sua poética, ele está sempre buscando estratégias para mobilizar o visitante. “Os trabalhos de Alfredo Jaar nunca se reduzem, contudo, à tematização das questões que lhe importam. O que o artista busca sempre fazer é criar mecanismos e dispositivos sensíveis que envolvam o espectador fisicamente; que o impliquem, como corpo físico e político, nas questões que apresenta”, aponta Moacir.

Uma parte importante da mostra diz respeito a obras que tematizam questões do continente africano, como Buscando por África em LIFE (1996), na qual Jaar reúne todas as 2.128 capas da revista norte-americana Life, que circulou entre 1936 e 1996 e, de todas elas, apenas três, sim três, abordaram a África.

Sua dedicação aos meios de comunicação, de fato, faz parte de uma estratégia desenvolvida logo no início de carreira quando ele decide que para falar sobre o mundo, devia entender o que nele ocorria, e daí a leitura diária e sistemática de jornais, o que revelou, como na obra de Life, que nem sempre era lá que estavam as melhores fontes de informação.

Atualmente, Jaar conta que se dedica a ler diariamente 67 publicações do mundo todo. “Outras fontes da internet e redes sociais nos salvaram da ditadura dos meios de comunicação”, afirma. Para ele, a Internet é um “campo de batalha”.

A mostra traz ainda uma obra sobre o Genocídio em Ruanda, quando cerca de um milhão de pessoas foram brutalmente assassinadas, entre abril e julho de 1994, assim como a instalação O som do silêncio, que constrói uma narrativa imersiva a partir da famosa imagem do fotojornalista sul-africano Kevin Carter (1960 – 1994), na qual um menino faminto no Sudão é observado por um abutre, que lhe rendeu um prêmio Pulitzer e o suicídio, por anos de coberturas de guerra.

Jaar dedicou seis anos de sua carreira a investigar o Genocídio em Ruanda, tendo ido ao local, o que poucos artistas já fizeram. Essa proximidade com a África, conta ele, tem a ver com sua formação, já que viveu por dez anos na Martinica, no Caribe, tendo estudado no Liceu Schoelcher até os 16 anos. Lá, se formaram lideranças negras importantes como Frantz Fanon (1925 – 1961) e Édouard Glissant (1928 – 2011), tendo Aimé Césaire (1913 – 2008) como professor. O nome de Fanon, aliás, é um dos neons que tematizam lideranças importantes na mostra.

Outra temática da exposição diz respeito ao conceito de América, presente em duas obras. Nas cinco fotografias de Um logo para a América (1987), estão os registros de imagens criadas por ele para um painel luminoso da Times Square, em Nova York, onde em uma delas se lê This is not America (Esta não é a América) sob um mapa dos Estados Unidos, pura ironia frente à estupidez sistêmica sobre o continente americano de boa parte da população estadunidense, agora elevada à máxima potência por seu presidente.

No mesmo sentido está o neon Cien años de soledad (no realmente), de 1985, que parafraseia o livro de Gabriel Garcia Márquez, para afirmar que latino-americanos não estão isolados.

Já o título da mostra, que segue até 7 de março de 2027, vem de uma obra composta por um conjunto de três cubos em uma vitrine: um criado a partir de vários vidros sobrepostos, outro por um cubo espelhado e outro cubo vazio de vidro. Com os espaços entre os cubos e a vitrine seria possível preencher todo o espaço com 42 cubos, uma ode à diversidade. Sua poética, como defende Moacir, “propõe conexão e supõe igualdade entre diferentes, advogando a formação de alianças e a aproximação de quem está distante”. Nada mais necessário em um momento de grandes polarizações.

Editorial #76

Estamos profundamente sensibilizados. Nesta semana, perdemos Aracy Amaral na madrugada de 15/09/2026, aos 96 anos. Crítica, curadora e historiadora da arte, maior referência da arte brasileira que acompanhou nosso tempo, Aracy foi uma força inesgotável de observação e pesquisa. Professora, escritora e curadora, nos deixou um legado sobre o modernismo brasileiro e, nos últimos anos, um mergulho na arte contemporânea em diálogo com a América Latina.

Ontem, um jovem artista paulistano, Rodrigo Cass, de 43 anos, faleceu em um afogamento acidental na praia de Copacabana. Rodrigo vivia um período de projeção internacional, com exposições recentes no Nevada Museum of Art nos Estados Unidos e na Universidade Católica Portuguesa, em Portugal. Pudemos encontrá-lo ainda na inauguração da mostra do 39º Panorama da Arte Brasileira, no MAM SP, onde participa com uma série de sete vídeos e pinturas que poderão ser vistos até janeiro de 2027.

Foram quase 100 edições exaltando Lygia Clark, Tunga, Hélio Oiticica, Alex Flemming, Waltercio Caldas, Arnaldo Antunes, Cildo Meirelles, León Ferrari, Glauco Rodrigues, Francisco Brennand, Thomaz Farkas, Carlito Carvalhosa, Regina Silveira, Mario Cravo Neto, Henrique Oliveira, Antônio Dias, Ailton Krenak, Marcelo Moscheta, Beatriz Milhazes, Alex Vallauri, Marcius Galán, José Resende, Rivane Neuenschwander, Denilson Baniwa, Cícero Alves dos Santos (Veio), Francisco Graciano, Nelson Leirner, Daniel Senise, José Rufino, Adriana Varejão, Arthur Bispo do Rosário, Lucia Koch, Angela Detanico, Rafael Lain, Gustavo Caboco, Claudia Andújar, Ernesto Neto, Jac Leirner, Sergio Sister, Marcia Xavier, Rosana Paulino, Rosângela Rennó, Antônio Obá, Chico da Silva, José Antonio da Silva, Abdias Nascimento, Lucas Arruda, Paulo Pasta, Nazareth Pacheco, Arjan Martins, Ge Viana, Dalton Paula, Lia de Castro. Todos eles e os que esquecemos aqui foram lembrados várias vezes em exposições, entrevistas, em mostras nacionais e internacionais, em suas participações em instituições brasileiras e fora do Brasil.

Desde 2023, demos um passo na descentralização da nossa tarefa editorial. Fomos atrás do Espírito Santo, de Minas Gerais, do Ceará, do Pará, do Maranhão, de Pernambuco, do Rio de Janeiro, da Bahia e, agora, iremos atrás do Paraná e do Rio Grande do Sul.

Esta edição marca o lançamento da nossa assinatura anual da revista impressa. Esperamos que ela chegue a todos e produza a mesma alegria que nos provoca tê-la em mãos.

Traz o olhar do Fabio Cypriano na Pinacoteca do Ceará e da sua estada no Centro Cultural do Cariri. Maria Hirszman viajou a convite da 36ª Bienal de São Paulo a Berlim para acompanhar uma das suas itinerâncias. Comentamos o texto do curador José Augusto Ribeiro sobre a mostra Uma Língua Nova na Galeria Estação. Leonor Amarante entrevistou Antonio Somaini, curador da exposição O Mundo Através da IA, em cartaz no Sesc 24 de Maio, e ainda escreve sobre a volta do Alex Flemming ao Brasil, depois de três décadas em Berlim. O curador Tálisson Melo comenta a reabertura do MAM São Paulo e analisa a mostra do 39º Panorama da Arte Brasileira, com curadoria de Diane Lima, “Depois que tudo foi dito”.

Muito obrigada a todos os novos assinantes, cientes de que fazem parte da nossa sobrevivência.

Colaboradores #76

FABIO CYPRIANO Jornalista, é crítico de arte, professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Artes da PUC-SP. Nesta edição, viaja ao Ceará e escreve sobre exposições em cartaz na Pinacoteca do Estado e no Centro Cultural do Cariri.

TÁLISSON MELO Curador, pesquisador e professor. Atualmente é curador no Instituto Tomie Ohtake e pesquisador no Programa MASP Pesquisa. Para esta publicação, percorre o 39º Panorama da Arte Brasileira no MAM São Paulo, com curadoria de Diane Lima.

LUIZA LORENZETTI é jornalista, especialista em Mídia, Informação e Cultura pelo CELACC-USP. Atualmente, é Gerente Web da Arte!Brasileiros. Nesta edição, revela os bastidores da exposição que marca os 20 anos do Inhotim e conversa com o pintor maranhense Romildo Rocha.

LARA ARRUDA PAIVA é jornalista formada pela Universidade de São Paulo. Tem passagem pela Folha de S.Paulo, Arte!Brasileiros e Jornal da USP. Nesta edição, analisa Histórias Latino-Americanas no MASP.


LEONOR AMARANTE é jornalista, curadora e editora. Trabalhou no Jornal O Estado de S.Paulo, na revista Veja, na TV Cultura e no Memorial da América Latina. É editora e repórter de Arte!Brasileiros desde 2015. Para a atual edição, escreve sobre o retorno do Alex Flemming ao Brasil e sobre a mostra O Mundo Através da IA, em cartaz no Sesc 24 de Maio.

MARIA HIRSZMAN é jornalista e crítica de arte. Trabalhou no Jornal da Tarde e em O Estado de São Paulo. É pesquisadora em história da arte, com mestrado pela USP. Na edição atual, visita a itinerância da 36ª Bienal de São Paulo em Berlim, na Haus der Kulturen der Welt.

Fotos: arquivo pessoal

Museu Vale amplia atuação no Espírito Santo e prepara nova sede no Porto de Vitória

Claudia Afonso, Diretora do Museu Vale
Claudia Afonso, Diretora do Museu Vale
Por Giuliano de Miranda

Com a nova sede em construção no Porto de Vitória, o Museu Vale mantém sua programação por meio de uma atuação extramuros que alcança parques, escolas, praças e instituições parceiras em diferentes regiões do Espírito Santo. Esse período ampliou a circulação das atividades, fortaleceu parcerias e aproximou a instituição de comunidades que nem sempre frequentam espaços museológicos.

As últimas exposições promovidas pelo museu receberam mais de 258 mil visitantes. O resultado reúne projetos dedicados à arte contemporânea, às culturas afrodiaspóricas e indígenas, à literatura, à ciência, à memória e ao patrimônio. Além dos números, a instituição considera a diversidade dos públicos, o alcance territorial, a participação de escolas e a adesão às ações educativas como critérios para avaliar cada iniciativa.

A principal atividade em cartaz é IMAGINALIVRE!, dedicada à trajetória do coletivo carioca OPAVIVARÁ!. Instalações, vídeos e dispositivos relacionais ocupam a Galeria Gabinete, no Parque Cultural Casa do Governador, em Vila Velha, o Parque Botânico Vale e o Parque Costeiro, em Vitória. A mostra reúne trabalhos de diferentes períodos e uma nova obra, Colagem dos tempos, uma linha do tempo produzida no local para apresentar a história do coletivo  por meio de exposições realizadas no Brasil e no exterior. O conjunto propõe experiências compartilhadas, nas quais corpo, convivência e participação se tornam elementos constitutivos da criação artística.

Paralelamente à programação, o Museu Vale implanta sua futura sede no Armazém 4 e no edifício anexo, no Porto de Vitória. O projeto reunirá exposições temporárias, acervo ferroviário, atividades educativas, residências artísticas, auditório, biblioteca e o Centro de Memória da Estrada de Ferro Vitória a Minas.

Em entrevista à ARTE!Brasileiros, a diretora Claudia Afonso aborda a circulação do museu pelo território capixaba, a concepção de IMAGINALIVRE!, as políticas de acessibilidade e os planos para o novo espaço.

Cultura em circulação

ARTE!Brasileiros: Durante o período extramuros, o Museu Vale passou a ocupar parques, escolas, praças e instituições parceiras. O que essa circulação modificou na relação com os diferentes territórios e públicos do Espírito Santo?

Claudia Afonso: Esse período tem sido um grande desafio e, simultaneamente, uma oportunidade de ampliar nossa presença no território, fortalecendo o diálogo com públicos, comunidades, escolas e instituições parceiras em diferentes regiões do Espírito Santo.

Ao ocupar parques, praças, escolas e outros espaços culturais, desenvolvemos novas formas de atuação e construímos relações próximas com pessoas que talvez não tivessem o costume de frequentar museus regularmente. A circulação ampliou também nossa escuta e trouxe aprendizados importantes sobre acessibilidade, formação de públicos e trabalho em rede.

Fortalecemos parcerias fundamentais e criamos conexões que continuam gerando desdobramentos. Trata-se de um legado construído nos últimos anos e que seguirá conosco. Vejo esse percurso como um processo de aprendizagem e expansão, responsável por reafirmar a importância de manter o museu conectado às pessoas e às diferentes realidades do estado.

A!B: As últimas exposições promovidas pelo Museu Vale reuniram mais de 258 mil visitantes. Além do número de público, quais critérios permitem avaliar o alcance cultural, educativo e social dessas iniciativas?

CA: Receber muitos visitantes sempre constitui motivo de satisfação, mas observamos outros aspectos capazes de demonstrar o impacto das ações realizadas. Consideramos a diversidade dos públicos alcançados, a participação de escolas e grupos organizados, a adesão às atividades educativas, o alcance territorial das iniciativas e a qualidade das parcerias construídas em cada projeto.

Buscamos ainda ouvir quem participa, interessa-nos muito compreender como as pessoas vivenciam a visita, quais reflexões surgem desse contato e de que maneira a atividade contribui para aproximá-las da arte e da cultura. Tal escuta orienta novas propostas para a programação do museu e é importante para criar vínculos, gerar aprendizado, estimular a participação cultural e fortalecer a presença da arte na vida das pessoas, especialmente dos capixabas.

IMAGINALIVRE! e a participação do público

IMAGINALIVRE! 2026. Foto: Felipe Amarelo

A!B: IMAGINALIVRE! reúne obras de diferentes momentos dos mais de 20 anos do OPAVIVARÁ!. Quais critérios orientaram a seleção e a concepção da exposição para o Espírito Santo?

CA: O convite para realizar IMAGINALIVRE! partiu da celebração dos mais de 20 anos de atuação do OPAVIVARÁ!, um marco raro na trajetória de um coletivo artístico e uma oportunidade especial de comemorar, no Espírito Santo, a permanência e a atualidade de uma produção construída ao longo de mais de duas décadas. A meu ver, a produção do coletivo é uma das mais interessantes e importantes da cena artística. Desde o princípio, a curadoria foi feita coletivamente, em diálogo com os artistas e em consonância com o modo de produção do OPAVIVARÁ!, constituído por encontros, trocas, escutas e construção compartilhada. A seleção apresenta trabalhos de diferentes períodos, revelando continuidades e deslocamentos.

IMAGINALIVRE! 2026. Foto: Felipe Amarelo.

O projeto inclui uma nova obra, Colagem dos tempos, linha do tempo feita in loco que narra a história do grupo principalmente por meio de suas exposições no Brasil e no exterior. Ao trazer a mostra para o Espírito Santo, procuramos estabelecer uma conversa sensível com o território e com o momento atual do Museu Vale. Os trabalhos escolhidos aproximam-se de aspectos presentes na vida capixaba, entre eles a paisagem, o litoral, os espaços públicos, a convivência e a vida ao ar livre, mas também de uma questão que nos parece especialmente importante hoje: como recuperar a proximidade entre os corpos, as pessoas e os lugares que vivenciamos.

A!B: As obras dependem do toque, da presença e da participação dos visitantes. Como o trabalho educativo prepara o público para compreender seu papel na construção da experiência artística?

CA: A elaboração do trabalho educativo começou pelo diálogo com o OPAVIVARÁ!. Procuramos compreender a natureza das obras, suas intenções e os modos de interação para definir como acolher e convidar os públicos. Pensamos a mediação quase como uma não mediação. Os próprios trabalhos fazem um convite muito direto à presença, ao toque e ao encontro, despertam curiosidade e vontade de experimentar antes de qualquer explicação. Em vez de conduzir, o educativo procura estar disponível e próximo, acompanhando, escutando e abrindo espaço para que cada visitante descubra a exposição à sua maneira.

Essa prática ocorre pela presença, pela escuta e pela multiplicidade de trajetórias. Cada pessoa chega com repertórios e memórias, enquanto as obras permitem o encontro dessas experiências.

A!B:O que motivou a distribuição da exposição entre a Galeria Gabinete, o Parque Botânico Vale e o Parque Costeiro Vale?

CA: A implantação em diferentes espaços está alinhada à atuação extramuros do Museu Vale. Temos buscado ampliar o acesso à cultura e criar oportunidades para que a arte encontre as pessoas em vários territórios e contextos. Cada local oferece possibilidades próprias de relação com as obras. Na Galeria Gabinete, no Parque Cultural Casa do Governador, o visitante conhece um conjunto amplo da produção do OPAVIVARÁ!, incluindo instalações, vídeos e dispositivos relacionais que ajudam a compreender a trajetória do coletivo.

A escolha desse importante espaço cultural do Espírito Santo ganha sentido também pela presença de Magic Square #3, de Hélio Oiticica, referência para o OPAVIVARÁ! e para um movimento da arte brasileira que deslocou a experiência artística do campo da contemplação para o da participação, do corpo e da relação.

Nos parques Botânico Vale e Costeiro, os trabalhos estabelecem um diálogo mais direto com a paisagem, a natureza e a experiência ao ar livre.

Essa circulação reforça algo comum ao OPAVIVARÁ! e ao Museu Vale: a arte acontece nos deslocamentos, nas ruas, de maneira ambulante e compartilhada, nos espaços mais múltiplos que as cidades podem nos oferecer.

A!B: Trabalhos como Karaokente, Fonte de Refrescos e Saia Como aproximam arte, cozinha, música, corpo, cores e sabores. Como referências cotidianas favorecem o contato de diferentes públicos com a produção contemporânea?

CA: O deslocamento de usos e sentidos desperta primeiro a curiosidade e, para aqueles que se permitem, o desejo de experimentar. Um fogão vira karaokê, uma saia surge de talheres e uma instalação envolve cores e sabores. Nesse ponto, o OPAVIVARÁ! dissolve parte da seriedade e do distanciamento que muitas vezes cercam a arte, principalmente em ambientes institucionais.

As obras funcionam como dispositivos para a invenção, criando diferentes coreografias e possibilidades de participação. Cada pessoa entra por um caminho, a partir do seu próprio repertório, e pode descobrir novos sentidos para aquilo que, até então, parecia absolutamente familiar e cotidiano.

A!B: De que maneira Sistemar e Rede Social articulam participação, ludicidade e reflexão ambiental?

CA: As duas obras abordam questões que surgem durante sua ativação. Em Rede Social, o convite à pausa, à permanência e à convivência direciona o olhar para a qualidade das relações estabelecidas entre nós e nosso entorno. Sistemar, por sua vez, transforma referências aos resíduos plásticos e aos oceanos em uma experiência coletiva, sonora e festiva.

Criada em referência ao Great Pacific Garbage Patch, grande área de plástico flutuante acumulado no norte do Oceano Pacífico, Sistemar torna evidente a preocupação com o presente e o futuro do meio ambiente. O trabalho alude ainda a Divisor, uma das obras mais emblemáticas de Lygia Pape. O plástico, a paisagem sonora evocativa do mar e a participação fazem com que questões ambientais e mudanças climáticas atravessem a vivência de modo sensível, sem se sobrepor a outras leituras possíveis.

IMAGINALIVRE! 2026. Foto: Felipe Amarelo.

Acredito que um dos aspectos mais brilhantes do OPAVIVARÁ! esteja justamente nessa capacidade de abordar questões complexas, suas tensões e até mesmo formas de protesto, por meio de experiências acessíveis, irreverentes e festivas. A participação não é apenas um recurso para aproximar o público, mas uma forma de produzir pensamento e abrir outras possibilidades de relação com aquilo que nos cerca.

A!B: Como crianças, estudantes, famílias, idosos e pessoas com deficiência poderão participar das experiências propostas pela exposição?

CA: Em IMAGINALIVRE!, o trabalho educativo acontece sobretudo pela presença e pela escuta. A própria produção do OPAVIVARÁ! oferece tal possibilidade. As obras convidam ao movimento, à interação e ao uso dos sentidos, criando formas de participação para pessoas de idades e repertórios variados. Assim como ocorre nas demais programações, pensamos uma exposição capaz de acolher crianças, estudantes, famílias, idosos e pessoas com deficiência, respeitando especificidades e interesses de cada grupo.

Um exemplo dessa prática integra a programação da 20ª Primavera dos Museus, entre 22 e 25 de setembro. A partir de IMAGINALIVRE!, serão desenvolvidas atividades para diferentes públicos, incluindo visitas mediadas com intérprete de Libras, ações destinadas a pessoas cegas ou com baixa visão, experiências sensoriais para bebês acompanhados dos responsáveis e uma visita adaptada a pessoas neuroatípicas. Essas iniciativas refletem a preocupação permanente em ampliar o acesso, criando condições para uma participação cultural acolhedora e significativa.

Quem tem medo de bicho pau, 2026, Museu Vale. Foto: Felipe Amarelo

A nova sede no Porto de Vitória

A!B: Em que etapa se encontram as obras da nova sede do Museu Vale e qual é a previsão atualizada para a abertura ao público?

CA: As obras estão em andamento, e a data de inauguração permanece em definição. Enquanto isso, a atuação extramuros permitiu ampliar nossa presença no território capixaba por intermédio de instituições parceiras, reafirmando o compromisso com a democratização do acesso à arte e à cultura.

As últimas mostras desenvolvidas receberam mais de 258 mil visitantes. Entre elas estão Línguas Africanas que fazem o Brasil, Quebra-mapa, Quem Tem Medo de Bicho-Pau?, Vidas em Cordel, Transitar o Tempo, Folhear, O Extraordinário Universo de Leonardo da Vinci, Memórias do Futuro: Um olhar sobre a coleção do IHGB e De onde surgem os sonhos: Coleção Andrea e José Olympio Pereira.

Línguas Africanas que fazem o Brasil, 2026, Museu Vale em parceria com o Museu da Lingua Portuguesa. Foto: Felipe Amarelo.

O Museu Vale será instalado no Armazém 4 e no prédio anexo, ocupando uma área total de 3,9 mil metros quadrados no Porto de Vitória. Cerca de 850 metros quadrados do armazém serão destinados a exposições temporárias. Dois dos cinco andares do edifício receberão a mostra de longa duração formada pelo acervo histórico da Estrada de Ferro Vitória a Minas. O projeto prevê uma sala para o programa educativo, áreas de ateliê e residências artísticas, auditório e biblioteca, além de abrigar o Centro de Memória da Estrada de Ferro Vitória a Minas. Na cobertura, haverá um restaurante/café com vista panorâmica para a Baía de Vitória e o centro histórico da capital.

Transitar o Tempo, 2026, Museu Vale. Foto: Felipe Amarelo.

A!B: De que forma a futura sede integrará arte contemporânea, educação, memória ferroviária, história portuária e produção cultural capixaba?

CA: A nova sede está sendo pensada como lugar de encontro entre memória, criação, educação e cultura. Sua localização no Porto de Vitória possui um valor simbólico importante, pois reúne histórias ligadas à ferrovia, à atividade portuária e ao desenvolvimento do Espírito Santo. 

Levaremos o aprendizado extramuros para o novo endereço e queremos construir não apenas um espaço de preservação da memória ferroviária e portuária, mas um ambiente para a produção contemporânea, a cena cultural capixaba e as vozes que constituem o território.

Perspectiva

O período extramuros alterou a relação do Museu Vale com o Espírito Santo. A ausência temporária de uma sede fixa não interrompeu as atividades. Ao contrário, levou projetos a novos endereços, aproximou comunidades, favoreceu parcerias e incorporou experiências que poderão orientar a próxima etapa institucional.

IMAGINALIVRE! sintetiza esse movimento. Distribuída por três espaços, a mostra combina arte contemporânea, participação, educação, acessibilidade e contato com a paisagem. A presença de Magic Square #3, de Hélio Oiticica, na Galeria Gabinete amplia o diálogo entre gerações da arte brasileira ligadas à participação e à experiência corporal.

A futura instalação da nova sede no Centro de Vitória significa um importante capítulo na história do museu. Ao reunir memória ferroviária, história portuária, criação artística e produção local, o novo Museu Vale poderá consolidar um espaço conectado à capital capixaba e, simultaneamente, capaz de projetar o Espírito Santo no circuito cultural brasileiro.

36ª Bienal de São Paulo em Berlim

A itinerância da 36ª Bienal de São Paulo, que pode ser vista até dezembro na Haus der Kulturen der Welt (HKW), em Berlim, parece ir além do título da mostra original. Se “Nem todo viandante anda estradas” foi o mote escolhido para nomear a exposição paulistana, buscando causar certo estranhamento e abrir possibilidades de novos caminhos, a versão berlinense adota a continuidade do poema. O verso seguinte, escrito por Conceição Evaristo em “Da calma e do silêncio”, tem relação mais potente com o recorte e a montagem propostos por Alya Sebti: “Há mundos submersos, que só o silêncio da poesia penetra.” “Peguei a continuidade do poema”, diz ela para explicar a presença de obras sutis, que remetem a coisas que não vemos. Essa sensação é reforçada pela menor escala do espaço expositivo, que permite uma conexão mais íntima com as obras.

Coube a ela desenhar o conjunto berlinense, por ser cocuradora da mostra paulistana e integrante do time curatorial do HKW, adotando dois critérios principais: selecionar os autores com maior relação, por nascimento ou escolha, com a capital alemã e, sobretudo, buscar enfatizar as sintonias entre os dois espaços expositivos, tanto em termos arquitetônicos como por um intenso vínculo com a natureza ao redor. Importantes exemplos da arquitetura modernista, mesmo que vinculados a diferentes projetos políticos (desenvolvimentismo nacionalista, no caso do Brasil, e gesto de superioridade do Ocidente, em plena Guerra Fria), os dois prédios são projetos ousados, ambiciosos, que desafiam a gravidade e as convenções de seu tempo.

A ponte que conecta o Parque do Ibirapuera ao Tiergarten e seus fluxos de água (o rio Spree, que corre visível ao lado da instituição em Berlim, e o Córrego do Sapateiro, que outrora banhava o Ibirapuera e hoje é uma das vítimas do processo de aterramento que sufocou boa parte dos cursos d’água paulistanos) é fundamental no desenho concebido por Alya. O objetivo é deixar evidente que não existe uma relação de hierarquia entre homem e ambiente. “Não somos tão importantes”, diz a curadora.

Subsiste na mostra o recurso às cortinas coloridas, que mimetizam o movimento das águas, e até o chão ganha potência cromática. Trabalhos como o de Rebeca Carapiá, Theo Eshetu e María Magdalena Campos-Pons fazem alusão direta ao efeito restaurador, curativo das plantas e formas orgânicas. Em sentido contrário, Emeka Ogboh recria uma cena quase pós-apocalíptica, mas que na verdade não está muito distante da paisagem deixada pelos incêndios cada vez mais frequentes em tempos de colapso climático, fazendo com que pesadelo e sonho convivam e se entrelacem.

Tanka Fonta, artista que enfrentou as majestosas colunas de Niemeyer com seu grafismo que mescla referências a mitologias, filosofia, matemática e música, cria como que uma espécie de plataforma meditativa. Residente em Berlim, o camaronês faz uma conexão entre o espaço externo do prédio do HKW (em cuja fachada está seu trabalho mais recente, feito especialmente para a exposição) e o interior, que abriga uma obra permanente de sua autoria feita em 2023. Wolfgang Tillmans, o único alemão da seleção, também parte desse desejo de criar algo “para além do grande barulho do mundo”, em busca de um reset, um estado de atenção plena. No trabalho, em que edita sons e imagens como costumava fazer no início dos anos 2000, associa diferentes paisagens e ritmos, do caótico trânsito de Nova York em dia de chuva ao movimento das ondas e da grama, passando a uma imagem astronômica: vendo a sombra sobre Vênus, o que vemos é o movimento da Terra.

No campo do combate contra os efeitos deletérios de uma exploração ininterrupta do homem e da natureza, em que alguns poucos se beneficiam enquanto as benesses nunca chegam para os habitantes do lugar, estão os vídeos Delta-Delta: People’s Court I, do coletivo Forensic Architecture, e O Ouro negro é a Gente, de Aline Baiana. O primeiro filme trata do terrível efeito do derramamento de petróleo no Delta do Níger depois de um ataque inglês ao Benin em 1897, que tornou estéril um dos lugares mais férteis do mundo. É uma tragédia corporificada na impactante imagem do mar pegando fogo. Aline Baiana, que simbolicamente ocupa a sala batizada de Marielle Franco, elabora projeto semelhante. Dá voz à luta dos pescadores quilombolas da Ilha de Maré, sacrificados pela falsa promessa de um progresso que para eles nunca chega. Evocando a força do coletivo, Aline cita um mote zapatista, em defesa de “um mundo onde caibam muitos mundos”.

A ideia de coletividade é central em toda a mostra. Está presente na força anímica das bandeiras de Alberto Pitta, ligadas à memória afro-brasileira e ao carnaval, que adquiriu muito mais evidência na montagem berlinense, e na experimentação têxtil, visual e simbólica que Manauara Clandestina desenvolve com a comunidade trans e que também pode ser vista na Bienal de Veneza.

Comunidade, aqui, se mescla claramente com uma ideia de família, de grupo do qual não apenas derivo, mas ao que escolho pertencer. Pode estar presente na relação íntima e afetiva de mãe e filha – como as marroquinas Malika e Amina Agueznay, que trazem um conjunto de monotípias desenvolvidas a quatro mãos. Ou na curiosa proposta de Leo Asemota, artista conceitual do Benin radicado em Londres, cuja ação consistiu em replicar um Kissi Penny – moeda que circulou em uma região da África nos séculos XIX e XX e que teria “alma”, funcionando como uma espécie de talismã – e deu um exemplar a cada um dos artistas presentes nesta 36ª Bienal. Trata-se de uma peça extremamente delicada, quase invisível instalada num canto ordinário do prédio. Apenas um rastro de presença, silenciosamente em conexão com o entorno.

A inexistência de identificações das obras e textos de apoio, que causou bastante controvérsia na grandiosa exposição no Brasil, se mantém. Para compensar a ausência, foi produzido um alentado handbook com informações do espaço e dos artistas. Trata-se de uma opção clara da curadoria geral da mostra, que adere à interpretação de que notas explicativas interferem na percepção dos trabalhos, desviando o foco dos visitantes. São duas ativações diferentes, explica Alya: “‘Penso, logo existo’ é nossa mente. A ativação desejada é ‘eu sinto, logo sou livre’.”

São muitas as tentativas de conseguir a atenção do espectador por meio do uso recorrente de símbolos, cosmogonias e referências que procuram desviar de uma lógica racional, num exercício que – em função da dimensão inferior do prédio e do número menor de obras – parece funcionar mais em Berlim do que em São Paulo. Outro aspecto curioso, talvez pela escala menor do projeto, é que nesta versão não há grande diferença entre o peso dos trabalhos no espaço. O resultado é fluido e sem grandes protagonismos. A espetacularização da arte, tema de debate recorrente em torno da Bienal de São Paulo, deixa de ser uma questão.

Raul Mourão ocupa o Cais das Artes, no Espírito Santo, com esculturas cinéticas

Raul Mourão
Por Giuliano de Miranda

Às margens da Baía de Vitória, o Cais das Artes começa a incorporar sua área externa à programação de artes visuais. O complexo cultural projetado por Paulo Mendes da Rocha, na capital do Espírito Santo, recebe o Ala Mar, iniciativa voltada à ocupação de sua praça e de outros espaços abertos com trabalhos de artistas contemporâneos e ações educativas. A abertura reúne duas esculturas de Raul Mourão, Hourglass e The Flag, de 2020, e mundo-casa-mundo, instalação comissionada do capixaba Rick Rodrigues, com curadoria de Clara Sampaio.

A presença de Mourão estabelece uma relação particular com um edifício cuja arquitetura se impõe pela escala e pela materialidade. Nascido no Rio de Janeiro em 1967, o artista desenvolve desde o final dos anos 1980 uma produção que atravessa desenho, fotografia, vídeo, escultura e instalação . Cidade e espaço urbano ocupam posição recorrente nesse percurso, embora sua pesquisa não se restrinja a uma única linguagem ou série.

Conhecido também por Grades, trabalho iniciado a partir da observação das estruturas de proteção que passaram a modificar a paisagem das cidades brasileiras, Mourão incorporou posteriormente movimento e participação a parte de sua produção escultórica. No Cais das Artes, essa investigação chega a um espaço aberto, atravessado não apenas pelo público interessado em exposições, mas pela circulação cotidiana da cidade. Em entrevista à ARTE! Brasileiros, Raul Mourão fala sobre as duas obras, a passagem das Grades para a produção cinética, sua relação com arquitetura e urbanismo e o interesse crescente por projetos de grande escala no espaço público.

Cais das Artes. Foto: Metro Arquitetos

Giuliano de Miranda: As duas esculturas apresentadas no Cais das Artes foram criadas em 2020. Em que contexto elas surgiram?

Raul Mourão: São duas esculturas que desenhei durante a pandemia. Elas foram criadas naquele momento de isolamento social, absolutamente terrível, de convivência com a morte, que afetou todos nós. Eu estava isolado e desenhei muito, fiz muitos trabalhos. Essas duas esculturas nasceram naquele momento.

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THE FLAG #1, aço corten 300 x 350 x 250 cm, 2020.Foto: Fabíola Fraga

GM: Em que momento o público passa a fazer parte da obra?

RM: Toda essa série de esculturas cinéticas e interativas contempla a participação do público, que toca a obra e aciona o movimento. A proposta é ter o público como parceiro, uma espécie de cocriador. A escultura tem uma vida estática, mas, quando o espectador a aciona, entra em movimento. É como se existissem dois modos distintos: o parado e o movimento. Essa participação também coloca o espectador em uma posição privilegiada de observação. Ele aciona a obra como se fosse uma máquina e começa uma dança de formas. Esse movimento geométrico pede outro tipo de engajamento. O espectador se torna corresponsável pela operação completa da obra.

GM: Como você pensou essas esculturas para o espaço do Cais das Artes?

RM: Elas foram criadas em 2020, mas eu as escolhi depois para apresentar no Cais das Artes. Havia várias outras opções e achei que essa dupla era a mais adequada para ocupar essa grande praça onde o museu está pousado. É um grande espaço público que Paulo Mendes da Rocha generosamente entrega para a cidade, para a população de Vitória. O museu poderia ser simplesmente um prédio fechado, mas ele suspende o edifício e deixa a paisagem livre.

A arquitetura do Cais das Artes é muito material. O concreto é protagonista. É uma arquitetura bruta, de grandes volumes geométricos. Na minha escultura também existe esse elemento da geometria, da forma geométrica pura. Acho que há um diálogo muito direto: esculturas que celebram as linhas da geometria diante de uma arquitetura que também possui essa característica

Hourglass
Hourglass, aço corten 465 x 350 x 250 cm, 2020. Fotos: Fabíola Fraga

GM: Como sua pesquisa artística evoluiu desde a série Grades?

RM: A série Grades é um trabalho que comenta a crise das políticas de segurança pública nas grandes cidades brasileiras, o aumento da violência, a sensação de insegurança e como isso afeta a vida das pessoas e modifica a paisagem. Na minha infância, os prédios que eu frequentava no Rio de Janeiro não eram cercados por grades. Na juventude, comecei a ver a chegada dessas estruturas e também de outros itens de segurança, como câmeras e vários dispositivos que foram modificando e encobrindo a paisagem da cidade. Foi essa transformação que originou a série. Produzi muitos trabalhos em suportes diferentes: fotografias, serigrafias, instalações e esculturas. Paralelamente, desenvolvia outras pesquisas. Em determinado momento, as Grades acabaram se transformando em esculturas cinéticas e interativas. Houve uma experiência em que uma peça era apoiada sobre outra e esse movimento passou a fazer parte de uma coreografia. A partir daí fui desenvolvendo vários trabalhos que seguem até hoje.

GM: A dimensão cinética tornou-se o elemento principal da sua produção?

RM: Não. As esculturas cinéticas são uma das séries que desenvolvo. Trabalho com vídeo, tenho esculturas estáticas, pinturas e outras pesquisas. Meu trabalho não se restringe a um único corpo. Várias séries conseguem conviver ao mesmo tempo, dialogando paralelamente. A série cinética é importante, tem uma dimensão grande dentro da produção e ainda possui muita coisa a ser desenvolvida, mas não restringe o trabalho.

GM: O que ainda desperta seu interesse na relação entre arte e cidade?

RM: O espaço público da cidade é um desejo. Quando você começa a trabalhar com escultura, naturalmente aparece essa ambição de ter uma obra na cidade, criando um marco escultórico, um marco urbanístico. Sempre foi uma meta minha e tenho trabalhado cada vez mais nessa direção, tentando implementar projetos no espaço público, fazer com que o trabalho seja um acontecimento fora das paredes das galerias, dos museus e das coleções.

Nos últimos anos tenho desenvolvido diversos projetos nessa direção, temporários e permanentes. É um grande desejo realizar trabalhos em escala maior, nessa dimensão pública.

GM: É possível equilibrar a liberdade de interação do público e a preservação das esculturas?

RM: Com certeza. O trabalho foi pensado justamente para isso. Ele é interativo, mas também foi concebido e executado tecnicamente para sobreviver ao tempo, para permanecer. É uma obra construída em aço corten e o manuseio, o movimento, oferece desgaste, mas tudo isso faz parte da maneira como ela foi pensada.

A questão também está em a obra ser incorporada pelo morador, pelo visitante, pela administração pública, criar identificação e engajamento com aquele espaço. Isso ajuda a fazer com que ela permaneça íntegra. O importante é que não seja apenas ornamento ou decoração. Ela precisa ter conteúdo poético e participar da invenção da cidade.

GM: De que maneira a arquitetura e o urbanismo alimentam seu processo criativo?

RM: Tenho admiração pelos grandes arquitetos, sou um observador de arquitetura, viajo, compro livros, vejo documentários. Mas diria que existem também questões parecidas no que diz respeito ao desenvolvimento de um projeto. Há o desenho, que vira maquete eletrônica, depois maquete e desenho técnico, até ser executado. Existe uma semelhança no fazer técnico, na rotina do ateliê. Ele se parece com um escritório de arquitetura ou de design, onde você tem conceito, desenho, projeto e execução. No urbanismo, tenho especial apreço e admiração pelo Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Acho uma obra genial. É uma experiência muito particular dentro da cidade.

GM: O que você espera que o visitante leve consigo depois de vivenciar essas esculturas?

RM: Espero que saia mais curioso. Acho que uma obra de arte é para tocar o sensível, para perturbar. Também é para encantar, despertar novos desejos, esquentar o coração, mexer com a cabeça. Esperamos despertar alguma coisa no espectador, fazer pensar, provocar um pouco de euforia, emoção, vida. É isso que pretendemos quando colocamos uma obra de arte no mundo.

GM: E qual é o papel da arte quando ela ocupa o espaço público?

RM: A arte é uma luta por território. Todo artista luta pelo seu espaço, pela sobrevivência dos seus pares, da sua prática, da sua experiência poética. Tornar a arte mais acessível, democratizar, levar para outros lugares, produzir conteúdo educativo, difundir, lutar pela circulação, pela preservação dos espaços de arte e pela criação de novos espaços: tudo isso fortalece o sistema cultural. É uma luta permanente.

GM: Em mais de três décadas de carreira, o que mais mudou na sua forma de criar?

RM: Existe uma coisa que se perpetua e que para mim é preciosa: a liberdade de transitar por diferentes meios e não ficar apegado a dogmas. Qualquer objeto, qualquer cena que vejo pode ser uma inspiração, e qualquer meio pode ser suporte para uma ideia. Posso me expressar através de vídeo, texto, performance, objeto, escultura ou pintura. Isso atravessa todo o meu percurso.

O que mudou foi uma questão material. No começo eu trabalhava sozinho em uma sala pequena. Hoje tenho um ateliê preparado para transformar uma ideia em uma obra final. Existe o espaço físico, mas também existem pessoas para transformar as ideias em coisas no mundo. Você consegue construir um ambiente que faz isso acontecer. Aquilo que poderia permanecer como um devaneio poético ou um risco numa folha de papel pode virar uma escultura porque existem condições materiais para realizá-la.

GM: Quais pesquisas e projetos você pretende desenvolver nos próximos anos?

RM: Volto à escultura pública, aos projetos de grande escala, ao espaço urbano e às exposições de grande escala. Há também um momento em que os curadores começam a olhar para os percursos e reunir trabalhos de diferentes períodos de maneira mais organizada, com um olhar de pesquisa. Isso começa a acontecer na minha trajetória. Mas continuo muito interessado nessa dimensão pública, em projetos que possam ganhar escala e estabelecer uma relação com a cidade.

Curadoria

A escolha das obras de Raul Mourão integra uma proposta mais ampla para as áreas externas do Cais das Artes. O Ala Mar estabelece uma programação de instalações e ações educativas ao ar livre, ocupando espaços como a Praça do Cais e o vão livre do complexo e aproximando arte contemporânea, arquitetura e paisagem, com abertura marcada por Hourglass e The Flag, de Mourão, e mundo-casa-mundo, de Rick Rodrigues. Na instalação do artista capixaba, uma casa em escala humana recebe intervenções em bordado realizadas com a participação dos visitantes, por meio de oficinas e atividades de mediação.

Clara Sampaio, Curadora. Foto: arquivo pessoal.

Curadora do Cais das Artes, Clara Sampaio é artista e pesquisadora, doutora em Arte Contemporânea pela Universidade de Coimbra e mestre em Artes pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Para ela, o ala mar não deve ser compreendido simplesmente como um programa de arte pública. Como as intervenções permanecem vinculadas ao território da instituição, a curadora prefere falar em “arte e ações educativas ao ar livre”.

GM: Como surgiu a proposta do Ala Mar?

Clara Sampaio: O Ala Mar surge como um programa de instalações artísticas ao ar livre, concebido para ativar e dar novos usos e sentidos às áreas externas do Cais das Artes. A proposta parte do entendimento de que esses espaços, muitas vezes percebidos como de passagem, possuem grande potencial de convivência e experimentação. Assim, o programa busca aproximar arte, arquitetura e paisagem, criando situações de permanência que são também de contemplação e pensamento crítico.

GM: O que diferencia essa proposta?

CS: Eu não chamaria exatamente de programa de arte pública, por se tratar de uma proposta totalmente vinculada à instituição propositora. Temos chamado de “arte e ações educativas ao ar livre”, justamente por entendermos que estamos circunscritos ao território do Cais. O programa se diferencia por estabelecer um diálogo direto e contínuo com a arquitetura do museu e com sua inserção urbana. Mais do que obras dispersas no espaço público, acolhe propostas artísticas de forma integrada, considerando escala, fluxos, relação com a paisagem e a criação de ações de mediação educativa a partir desses elementos.

GM: Por que Raul Mourão foi escolhido para a abertura?

CS: A escolha de Raul Mourão parte de uma trajetória e de uma investigação consistente sobre o espaço urbano e as estruturas que organizam a vida em sociedade. Seu trabalho propõe um olhar atento e crítico sobre os dispositivos que supostamente construímos para nos proteger, delimitar e habitar o mundo. Iniciar o programa com um artista que reflete sobre essas escalas do viver coletivo é especialmente significativo diante da monumentalidade do Cais, criando um ponto de partida que tensiona e aproxima arquitetura, cidade e experiência cotidiana.

Além disso, o artista tem participado de diversas exposições no Espírito Santo, tendo realizado recentemente uma exposição individual na Galeria Gabinete, no Parque Cultural Casa do Governador, o que evidencia também uma relação já estabelecida com o contexto artístico local.

GM: Como as obras dialogam com a arquitetura do Cais das Artes?

CS: Os trabalhos selecionados para o ala mar existem de duas maneiras: por convite, para apresentação de trabalhos existentes, ou por propostas comissionadas e, portanto, inéditas. Em relação direta com a arquitetura e as dinâmicas sociais provocadas pelo Cais das Artes, estabelecem relações de aproximação e contraste com sua escala, materialidade e vocação simbólica. Em vez de competir com o edifício, as intervenções procuram evidenciar suas particularidades e tornar visíveis seus potenciais usos. Esse diálogo reforça o caráter público e aberto do Cais, ao mesmo tempo em que convida o público a experimentar o espaço de maneira livre e participativa.

A presença das esculturas de Raul Mourão no Cais das Artes ultrapassa, nesse sentido, a realização de uma exposição ao ar livre. Ao aproximar a produção de um artista de trajetória nacional da arquitetura de Paulo Mendes da Rocha e, simultaneamente, abrir espaço para a produção capixaba, o complexo estabelece possibilidades de interlocução que durante muito tempo foram insuficientes no Espírito Santo. Mais do que receber artistas de outros estados, importa construir um circuito capaz de promover trocas, estimular a circulação e inserir a produção realizada aqui em diálogos mais amplos. O Cais das Artes pode contribuir para esse movimento ao colocar Vitória novamente no mapa das discussões sobre arte contemporânea, arquitetura e espaço público no Brasil.

Na sua 26ª edição, FILE reflete sobre a criação entre homem e máquina

Ancestors, de Hanna Haaslahti. Foto: Patri Rastenberger

O Centro Cultural FIESP recebe a exposição A Intercriatividade, do Festival Internacional de Linguagem Eletrônica – FILE, que chega à sua 26ª edição. Neste ano, o evento reúne cerca de 160 obras de artistas de 48 países para pensar na criatividade como um processo compartilhado entre humanos, sistemas inteligentes, organismos vivos e ambientes tecnológicos.

Conversamos com Paula Perissinotto, que criou o festival em 2000 ao lado de Ricardo Barreto e, juntos, assinam a curadoria desta edição com Clarissa Vidotto e Victor Sardenberg. Ela explica que, durante muito tempo, discutiu-se no FILE a relação entre homem e máquina como oposição. Hoje a discussão é outra: como diferentes criatividades e inteligências passam a criar juntas. Daí o título desta edição. 

O FILE surgiu antes da criação das redes sociais, dos smartphones e da popularização da inteligência artificial. Na primeira edição, a interação se dava exclusivamente por teclado e mouse. As pessoas chegavam, encontravam uma fileira de computadores era preciso sentar, navegar, escolher. Aquilo criou um comportamento que foi se transformando com o passar dos anos. Ao mesmo tempo, Paula afirma que o festival “nunca foi um evento de tecnologia. Ele sempre foi um um evento sobre a cultura contemporânea”, diz. “A tecnologia é o meio pelo qual nós observamos as transformações da sociedade e, dentro dessa transformação, a gente vai tentando acompanhar as produções estéticas que estão alinhadas com essa visão”.

Com essas transformações da inteligência artificial, Paula conta que não é otimista nem pessimista: “O nosso papel é criar um espaço onde ela [a IA] possa ser discutida criticamente através de expressões estéticas. E cada um tem uma realidade, cada um tem um parâmetro. Quando eu falo cada um, é cada realidade de mundo. Por isso essa relação internacional é importante”.

Algorithmic Perfumery, de Frederik Duerinck.

A seleção

Anualmente, artistas de todo o globo podem se inscrever por meio do edital do festival. Nesta edição chegaram mais de mil propostas, de mais de 40 países. O tema aparece depois que a seleção é feita: “Se a gente tematiza a priori, ele não expressa o conjunto das coisas que a gente gostaria de mostrar.” Primeiro se entende o que chegou e quais questões estão sendo tratadas, então se elabora o tema.

Uma das obras de destaque da mostra é a Algorithmic Perfumery, do holandês Frederik Duerinck. Nela, o visitante recebe um formulário com perguntas pessoais sobre  memórias, emoções, referências. O formulário gera um código. Esse  código vai para uma máquina, que combina essências e devolve um frasco com etiqueta própria. O perfume sai pronto e vai embora com quem o encomendou.

Paula também menciona a obra Ancestors, de Hanna Haaslahti, que propõe que o visitante se torne o primeiro membro de uma família que nunca existiu. Então, a máquina cria descendentes digitais e conecta a história à de pessoas que ele nunca conheceu. Ao longo da exposição, uma árvore genealógica coletiva é formada. 

Entre os brasileiros, estão Amir Admoni e Fabito Rychter com a obra Gravidade VR. Em realidade virtual, o público entra em um universo em que tudo está em queda. Não há horizonte, não há chão, não há referências de cima ou de baixo. A sensação impactante busca refletir sobre a existência, o tempo e a transformação.

O público ainda encontra obras como A Walled City, de Weidi Zhang e Rodger Luo e INEVITABLY BLUE, de Sophia Bulgakova.

    

Gravidade VR, Amir Admoni e Fabito Rychter

O brasileiro

Apesar de artistas brasileiros trabalharem com tecnologia, a falta de apoio não deixa de ser uma questão. O que o FILE observou em 26 anos de atuação é como outros países se desenvolveram com apoios, escolas específicas, cursos e pós-graduações dedicados. “Cada vez que eu vou [para outros países] e vejo, a gente fica deprimido, porque os caras têm tudo”, afirma em relação aos artistas norte-americanos e europeus. “É cruel a diferença.”

A brasilidade que interessa ao festival não é um repertório de símbolos nacionais, embora ela reconheça a importância disso, está na maneira como se pensa e se trabalha com tecnologia aqui. Improvisação, diversidade e questões ambientais são perspectivas distintas das que aparecem em centros mais industrializados. Muitos artistas brasileiros trabalham com baixa tecnologia, reaproveitamento de objetos, eletrônica experimental, inteligência coletiva. 

EchoVision, Jiabao Li e Botao Amber Hu

O que não se calcula

A abertura da exposição fica por conta de uma conferência inédita no Brasil, “Human Creativity versus Artificial Intelligence”, do matemático argentino-americano Gregory Chaitin, ao lado da epistemóloga Virginia Chaitin. 

O matemático, de acordo com Paula, inventou um número, o ômega, que é incomputável, uma fresta daquilo que, na matemática, não pode ser algoritmizado, por isso a sua importância. “Ele traz essa ideia fundamental de que existem limites para aquilo que pode ser calculado”, diz ela. “E esse limite é fundamentalmente humano.” Ligado à imaginação, à intuição. “A máquina até pode ser criativa, porque ela reinterpreta os dados e cria, mas ela não imagina. Chaitin nos lembra que nem tudo pode ser reduzido ao algoritmo.”

Para Paula, o que está acontecendo hoje é uma tomada de consciência mais efetiva, afinal “foram os seres humanos que inventaram tudo isso”. “Esses seres enlouquecidos que inventam coisas absurdas, coisas que o planeta não precisa mais, que a gente não precisa”, reflete.

Ancestors, de Hanna Haaslahti.

O público que se construiu

Todo ano, entre 30% e 40% dos visitantes são pessoas que nunca estiveram no festival. “Isso significa que a gente está vivo”, celebra Paula. É esse público que ela aponta como como seu ompromisso — junto com a equipe e com os fornecedores, que também aprendem interfaces, softwares e linguagens de instalação que nunca tinham manuseado. “É uma rede sutil de desenvolvimento. Não é uma rede explícita, porque inclusive somos uma organização independente. Se a gente tivesse um suporte maior, talvez fosse uma coisa bem mais efetiva.”

Recentemente o festival montou um repositório digital com interface do Tainacan, software brasileiro voltado para gestão e publicação de acervos digitais, utilizado por museus e instituições culturais. Ali entram tanto as propostas recebidas quanto o que já passou pelo evento. As obras, em geral, não funcionam mais, já que a obsolescência é o destino corrente da arte eletrônica, mas a documentação, ao menos, é preservada.

SERVIÇO
Centro Cultural FIESP –Galeria de Arte e Galeria de Arte Digital | Av. Paulista, 1.313 (em frente à estação Trianon-Masp do metrô)
Visitação: 20 de agosto a 11 de outubro de 2026
Funcionamento: Galeria de Arte, terça a domingo, das 10h às 20h; Galeria de Arte Digital, todos os dias, das 19h às 6h
Entrada gratuita: não é necessário fazer reserva para conhecer a exposição
Agendamentos de grupos e escolas: [email protected]
Informações: sesisp.org.br/eventos e file.org.br

O teatro detrás das grades

A atriz e diretora alemã Judith Malina na prisão em Belo Horizonte, Minas, em 1971. Foto: Esko Murto/Arquivo pessoal
A atriz e diretora alemã Judith Malina na prisão em Belo Horizonte, Minas, em 1971. Foto: Esko Murto/Arquivo pessoal

No dia 9 de fevereiro de 1970, Zé Celso Martinez Corrêa e Renato Borghi foram até Paris para um encontro com Judith Malina e Julian Beck, fundadores da radical companhia de teatro experimental norte-americana The Living Theatre.

“Eles tinham um entusiasmo e um jeito natural de amaciar seu discurso que contrastavam com o desespero do que relataram. Seu teatro foi fechado. Seu trabalho era ameaçado por grupos paramilitares de extrema direita; e que, quando eles encenaram o Galileu, de Brecht, os atores portavam armas consigo no palco. O quê? Nas dobras das vestes de Galileu, uma arma? Eles querem que a gente vá ao Brasil”, escreveu Judith, sobre o encontro com os brasileiros. Dois anos antes, em julho de 1968, o Comando de Caça aos Comunistas, um bando de celerados da extrema direita, tinha atacado o Teatro Galpão, em São Paulo, onde estava sendo mostrada a peça Roda Viva, de Chico Buarque, com direção de Zé Celso, espancado atores e atrizes e humilhado o elenco, além de destruir os cenários.

Capa do livro
Capa do livro de memórias de Judith Malina. Foto: Juvenal Pereira

Recém-lançado nos Estados Unidos, o livro The Diaries of Judith Malina (1969-1971) traz um vertiginoso mergulho na memória do teatro brasileiro sob a égide do AI-5, no auge do terror da ditadura militar no Brasil. Como se sabe, a trupe de Judith e Julian não somente atendeu ao convite de Zé Celso e Borghi e veio ao Brasil, no qual desembarcou em 25 de julho de 1970, como acabou indo parar nas masmorras do regime militar, presa em Ouro Preto em 1º de julho de 1971. Feminista, pacifista, intelectual de estofo, encenadora reconhecida em todo o mundo, Judith Malina preconizava a quebra das barreiras entre palco e plateia, entre atores e personagens, entre sociedade e teatro. Nascida em Kiel, na Alemanha, filha de um rabino, emigrou com a família para os Estados Unidos quando tinha 3 anos, para fugir da ascensão do nazismo.

No dia em que foi presa, Judith ouviu no rádio do carro uma canção de Roberto Carlos, Jesus Cristo. A acusação para a prisão dos artistas foi de porte de maconha – foram denunciados pelos vizinhos de Minas, que sequer conheciam. “Marijuana? Eu pensava que o DOPS era uma polícia política. O que estão fazendo na nossa casa?”, escreveu a diretora. Ela pensava que os policiais tinham vindo até sua residência para fazer algumas perguntas. “Vocês estão presos”, disse o homem. Pegaram ela e Julian pelo braço e os enfiaram num camburão lado a lado, mas em compartimentos fechados. “Estou com medo”, ela disse ao companheiro. “Seja forte”, ele respondeu. “Eu te amo”.

Ficaram na cadeia até 4 de setembro de 1971 e voaram de retorno aos Estados Unidos, onde seguiram encabeçando uma das grandes experiências de ruptura das artes cênicas no mundo com o Living Theatre e na associação com o La MaMa. A filha Isha, de 4 anos, foi separada dos pais e enviada para os Estados Unidos. Na prisão, Julian Beck (1925-1985), o companheiro de Judith, leu Os Sertões, de Euclides da Cunha. Tentaram montar uma peça com detentos.

A aventura brasileira do Living Theatre, na documentação de Judith Malina, é uma radiografia profunda da cena, do ativismo, da política, do ambiente e dos sonhos das artes brasileiras que emergiram nos anos 1960 em meio à “Realidade Brasileira e Seu Enorme Desespero”, como ela definiu. Judith narra encontros com Raul Cortez, Walmor Chagas, Glauber Rocha, Sábato Magaldi, Sérgio Mamberti, Antonio Pedro, Oswaldo Mendes, Marilena Ansaldi, e experimenta os primórdios do Teatro Oficina. “Boal é inteligente, mas hostil”, pondera Judith. Descreve a participação em rituais de umbanda (“Não sou familiarizada com os costumes, ainda que seja familiarizada com o transe. Estou viajando”) e analisa a então controversa arquitetura de Lina Bo Bardi.

Foto: Juvenal Pereira

Registros históricos importantíssimos emergem das memórias de Judith Malina. Como, por exemplo, a descrição do encontro do casal com o escritor, poeta e dramaturgo francês Jean Genet (1910-1986) em São Paulo. Genet veio ao Brasil em 1970 para a encenação de sua peça O Balcão, no Teatro Ruth Escobar, sob direção do argentino Victor Garcia. Foi um acontecimento cênico sem igual. O interior do teatro foi ocupado por um funil cilíndrico de acrílico transparente de 30 metros de altura, e a plateia sentava-se em bancos dispostos em espiral em passarelas ao redor daquela estrutura; os atores se movimentavam no interior do funil por elevadores hidráulicos. Judith descreveu a peça como “um sonho dos construtivistas” de Frederick Jacob Kiesler (1890-1965).

Jean Genet era então o autor maldito do teatro francês. Profano, rebelde, obsceno, desbocado. Ele abandonou o teatro no meio do espetáculo, após dormir na plateia. “O Living Theatre tem uma dupla reputação, de trabalho cênico e político. Mas agora vocês estão numa associação com pessoas que podem até estar genuinamente interessadas no pensamento revolucionário, mas que, na verdade, estão interessadas em ver suas fotos no jornal. Elas se importam, de verdade, em ver seus nomes impressos no jornal”, alertou Genet a Judith e Julian. “A imprensa aqui está toda contra mim porque eu sou insolente – eu disse a eles: não falo a uma imprensa censurada porque eu não falo com ou para o censor”.

Genet chegou em meio à conquista da Copa do Mundo do México pela seleção brasileira de futebol, e viu o desfile dos jogadores nas ruas, registrando que sentia uma “profunda tristeza” nos brasileiros, algo que a euforia encobria como uma máscara, e observou que as pessoas permaneciam de pé, aplaudindo e gritando em coro “Brasil, Brasil”, à medida que os heróis do tricampeonato passavam com as bandeiras, mas que logo a seguir aquela máscara caía e as expressões se fechavam de novo. “Uma observação de dramaturgo”, anotou Judith.

Judith Malina
A atriz e diretora alemã Judith Malina. Foto: Juvenal Pereira

“Eu sou, por temperamento e disposição, contra os militares”, afirmou o francês, famoso por se bater contra toda noção de moralidade. “Toda vez que eu ando pela rua nos Estados Unidos, eu vejo uma demonstração de extrema direita. O dia a dia dos americanos é racista. As histórias de discriminação estão nos ônibus, nos aeroportos”, disse Genet.

O livro também dialoga com os desafios comportamentais do seu tempo. Interessada em Sacher-Masoch, Judith entra em uma espécie de laboratório de experiências sadomasoquistas, formando um “trisal” de sexo caliente com o ator argentino Osvaldo De la Vega e a atriz brasileira Suzana de Moraes (filha primogênita do poeta e diplomata Vinicius de Moraes). Houve toques de humilhação e autoconhecimento no relacionamento. “Ainda assim, nós nos agarramos uns aos outros e fizemos amor juntos, e Osvaldo fez amor comigo frouxamente, mas a pegou com força. Mas eu não reclamei. Eu disse te amo pra ela e senti mesmo isso. Mas eu sabia o que tinha acontecido. Eu devia esperar. Eu devia acreditar nele. Ele seguiu me tranquilizando”.

Essas experiências eram corriqueiras numa geração que buscava o descondicionamento social, a quebra de paradigmas comportamentais. Mas há, na revisão de Judith, também o senso crítico e a busca de respostas para questões que hoje permeiam o debate público, como o patriarcalismo.

Os atores do Living Theater só foram libertados pelo DOPS em 1971 devido à intervenção de dezenas de intelectuais do Brasil e do mundo, como o filósofo francês Jean-Paul Sartre e o ensaísta canadense Marshall McLuhan, que enviaram telegramas ao ditador brasileiro Emílio Garrastazu Médici. À frente desses esforços de berrar ao mundo pela sua libertação, esteve a incansável Ruth Escobar. O teatro vivia uma proximidade arriscada com o mundo da resistência à ditadura – a atriz Nilda Maria tinha sido presa sob a acusação de ter escondido o líder guerrilheiro Carlos Lamarca. A companhia estadunidense, entretanto, foi alvo de uma armadilha: era evidente que a polícia política estava querendo silenciar de algum modo a trupe de ativistas estrangeiros, pelo que representavam de impulsos de liberdade e autogestão.

Judith achava que tinham plantado a maconha na casa deles em Ouro Preto, e os vizinhos eram claramente suspeitos de colaboracionismo. Desconhecidos foram à polícia relatar comportamentos suspeitos, sendo que a casa era aberta o tempo todo e não havia nenhum tipo de hostilidade na rotina. A maior parte das fotografias publicada no livro The Diaries of Judith Malina: 1969-1971 é de autoria do fotógrafo mineiro Juvenal Pereira, que acompanhou os passos da trupe teatral por Ouro Preto na época. “Esperta, ligada, charmosa, inteligente, vaidosa e líder”, lembra o fotógrafo, que fez o registro da capa do livro em Ouro Preto, na casa onde vivia a trupe.

Living Theatre em Ouro Preto
Ensaios do grupo Living Theatre em Ouro Preto, em 1971. Foto: Juvenal Pereira

Em 1991, Judith Malina interpretou a Vovó Addams no filme A Família Addams, dirigido por Barry Sonnenfeld. Judith seguiu trabalhando no teatro e no cinema e escreveu diários a vida toda, até os derradeiros dias de vida. Os textos são preciosos não apenas numa observação arguta, mas também em estilo e capacidade narrativa. Em 20 de março de 2015, no seu último registro, ela escreveu: “É o primeiro dia de primavera e está nevando de um jeito desordenado. A neve não acumula no chão; está quente demais para isso. Mas há uma cortina branca entre mim e o céu”. Judith morreria no dia 10 de abril de 2015.

THE DIARIES OF JUDITH MALINA: 1969-1971. Organizado e editado por Kate Bredeson. Northwestern University Press, 2026. 304 páginas, R$ 200 (Amazon Books)

TRECHO:

“Os brasileiros falam de si mesmos sempre como “Os brasileiros” ou “Nós brasileiros”. Eles insistem no tema de que não é possível para europeus, norte-americanos (e nesse ponto nem mesmo argentinos) entenderem a “realidade brasileira”. A realidade brasileira é suficientemente reconhecível. Essa é a situação especial na qual essas pessoas encontram a si mesmas. Seu desenvolvimento especial, as relações internas e externas, a economia, a psicologia, a história: é claro que isso tudo é, pela natureza da história e da geografia do Brasil, muito especial. É claro que é único e claro que, como estrangeiros nessa terra, não conseguimos arranhar o real significado de suas qualidades especiais. Podemos aprender um pouco, mas não poderemos nunca saber tudo. Mas então, nesse ponto, os brasileiros fazem um rebuliço dentro de suas cabeças: nós não podemos entendê-los completamente, mas o opressor também não pode entendê-los completamente, então nós temos isso em comum com o opressor. Eles foram colonizados e nós não fomos colonizados (eles estão errados, nós somos colonizados, mas eles se recusam a ver isso). Portanto, nós estamos no papel do colonizador. Essa distorção, essa simples recusa de que aceitem nossa camaradagem na luta comum (porque o “nós” sendo “não nós” deverá ser “eles”) revela uma falta de solidariedade consciente com o mundo em mudança e com a mudança do mundo”

Carolina Ruas e os novos caminhos da cultura no Espírito Santo

Carolina Ruas
Carolina Ruas Secretária de Cultura do Estado do Espírito Santo, 2026. Foto: Fabíola Fraga.
Por Giuliano de Miranda

Carolina Ruas chegou ao comando da Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo depois de uma trajetória de quase duas décadas ligada à produção cultural. Jornalista de formação, começou a se aproximar desse universo ainda na Universidade, entre o movimento estudantil, a Rádio Universitária, a cobertura de exposições e eventos e o contato com artistas e produtores. Passou por redação e teatro, mas a experiência como repórter acabou despertando outro interesse: participar diretamente da realização daquilo que antes acompanhava. Vieram trabalhos em festivais de música e no Festival de Cinema de Vitória, além da convivência com uma geração que, diante das lacunas existentes no Estado, buscou criar os eventos e circuitos que desejava frequentar.

Carolina integrou posteriormente o programa Rede Cultura Jovem, participou da elaboração do Plano Estadual de Cultura, passou pela Secretaria Municipal de Cultura de Vitória e, em 2019, foi convidada por Fabrício Noronha (Secretário de Cultura do Estado do Espírito Santo) para assumir uma subsecretaria na Secult. Agora, como titular da pasta, assume projetos cuja formulação e desenvolvimento acompanhou de perto.

Giuliano de Miranda: Você costuma dizer que é uma pessoa “da cena, da rua”. Como essa experiência prática conduziu sua trajetória até a gestão pública?

Carolina Ruas: Minha trajetória nunca foi planejada para chegar a esse lugar, mas, quando olho para trás, percebo que as experiências acabaram me conduzindo até aqui. Trabalho com produção cultural há quase 20 anos e praticamente toda a minha vida profissional esteve ligada a esse campo. Comecei ainda na universidade, participando do movimento estudantil, organizando atividades e fazendo coisas com meus amigos. Sou jornalista de formação e minhas primeiras experiências profissionais também já estavam relacionadas à cultura. Na rádio universitária, por exemplo, fazia um programa com outros estudantes e entrevistava artistas. Foi assim que conheci boa parte da cena do Espírito Santo. Minha formação é muito prática. Sou da rua, não do gabinete. Até hoje, quando chego aos lugares, muitas vezes as primeiras pessoas que conheço são os montadores, os técnicos, os fornecedores, porque são eles que estão fazendo as coisas acontecerem.

GM: Você e Fabrício Noronha trabalhavam juntos antes da Secretaria? O que caracterizava aquela geração de produtores?

CR: Somos parceiros há muitos anos, desde antes de ele ser Secretário. Fazemos parte de uma geração muito de arregaçar as mangas e fazer, de tentar produzir a cena que queríamos para o Estado.

Havia muitas lacunas e falta de oportunidades, tanto para receber exposições, shows, filmes e outras atividades quanto para os próprios artistas daqui conseguirem se projetar para fora. Nós nem éramos artistas e fomos nos encaixando nesse lugar da produção porque queríamos construir aquilo que desejávamos ver. Queríamos realizar festivais para trazer artistas de que gostávamos, ter acesso a determinados tipos de música e cinema e, ao mesmo tempo, movimentar o Espírito Santo. Houve também um período muito marcado pelos coletivos, que foram importantes para reunir pessoas e alimentar essa movimentação.

Hélio Oiticica, Magic Square #3, no Parque Cultural Casa do Governador, em Vila Velha (ES)

Da produção à formulação de políticas públicas

A experiência no Rede Cultura Jovem abriu uma nova frente no percurso de Carolina. O programa, voltado a políticas culturais para a juventude, tinha editais, formação de agentes comunitários e uma equipe também jovem, pensada para estabelecer diálogo direto com esse público.

Depois, a participação na elaboração do Plano Estadual de Cultura ampliou sua percepção sobre o território. O trabalho envolveu percorrer diferentes regiões para identificar potencialidades, deficiências e expectativas. Se os coletivos haviam ajudado a compreender principalmente Vitória e a movimentação ao seu redor, o plano permitiu enxergar o Espírito Santo em outra escala.

Em 2018, Carolina integrou a Secretaria Municipal de Cultura de Vitória e trabalhou com a Lei Rubem Braga (lei de incentivo à cultura) durante um período de retomada e reformulação. A passagem foi breve. No ano seguinte, ingressou na Secult como subsecretária.

GM: O que essas primeiras experiências na gestão mudaram na sua compreensão sobre política cultural?

CR: O Rede Cultura Jovem foi minha primeira experiência diretamente ligada à política pública do Estado. Havia editais que podiam ser acessados por jovens a partir dos 15 anos, formação para agentes comunitários e uma equipe formada também por pessoas muito jovens, justamente para criar uma relação com esse público. Depois fui convidada para participar da elaboração do Plano Estadual de Cultura. Percorremos todo o Espírito Santo para fazer um diagnóstico, entender as potências e as deficiências nos municípios e ouvir o que as pessoas desejavam para construir um plano decenal. Foi muito importante porque, se o trabalho com os coletivos tinha me ajudado a compreender Vitória e aquela cena mais próxima, esse processo me permitiu compreender o Espírito Santo como um todo, sua formação e suas raízes.

Em seguida, fui para a Secretaria Municipal de Cultura de Vitória trabalhar com a Lei Rubem Braga. Em 2019, Fabrício Noronha me convidou para assumir a subsecretaria na Secult.

GM: Você participou diretamente da gestão anterior. Agora, como secretária, a prioridade é manter o que já vinha sendo feito ou abrir novas frentes?

CR: É continuar no trilho abrindo novos caminhos. A política de cultura é um contínuo. Política pública precisa de tempo para se consolidar, e muitas coisas foram pavimentadas ao longo desses anos e agora entram em outras etapas.

Construímos, por exemplo, um modelo de gestão para equipamentos como o Parque Cultural Casa do Governador e o Cais das Artes do Espírito Santo por meio de parcerias com outras instituições. Esse modelo precisa ser consolidado, avaliado e refinado. No Cais, houve um momento em que a prioridade era finalizar uma etapa da obra e abrir. Agora é necessário avançar na estruturação como equipamento cultural. Entram a discussão do programa que será oferecido à sociedade, o plano museológico e as diretrizes curatoriais.

Há muitas coisas em andamento que começaram anteriormente. Temos também a instalação de seis CEUs (Centros Culturais) previstos para municípios do Estado do Espírito Santo: Vila Velha, Cariacica, Serra, Linhares, Baixo Guandu e Fundão. A proposta é descentralizar os equipamentos e ativar esses territórios. Nem tudo será construído e entregue em um período curto, mas podemos iniciar e estruturar esses processos.

Intercâmbio, circulação e uma política para além do edital

Entre as frentes que Carolina Ruas considera estratégicas para os próximos anos está o audiovisual. Na avaliação da secretária, os editais continuam necessários, mas o setor já exige um desenho mais amplo, capaz de reunir qualificação profissional, acesso a mercados, atração de produções e troca com agentes externos.

Essa abertura também aparece quando ela fala de artistas, espaços e instituições. A circulação, em sua leitura, não pode significar apenas a saída de profissionais capixabas em direção a centros maiores. Interessa criar relações nos dois sentidos: levar a produção do Espírito Santo para fora e trazer outros projetos, referências e interlocutores para o Estado.

GM: O audiovisual é uma das áreas em que você identifica a necessidade de uma política mais específica?

CR: Sim. É um setor estratégico porque alavanca muitos outros. Nos últimos anos mantivemos uma política de fomento por meio dos editais, mas agora precisamos conectar outras frentes. Isso envolve formação, qualificação profissional, oportunidades em janelas de mercado fora daqui e também atração de produções para o Espírito Santo. A ideia é criar intercâmbio entre quem produz aqui e quem produz em outros lugares. É uma frente que já conseguimos começar a estruturar como programa.

GM: E essa lógica de intercâmbio pode alcançar outras áreas da cultura?

CR: Acho que sim. É sempre muito saudável. Quando você encontra o outro, encontra aquilo que é diferente, troca e percebe também o que pode estar faltando. Podemos articular espaços, colocá-los em contato, dar circulação e visibilidade às atividades. Eles podem aprender mutuamente e ter experiências para fora. Mas não é só sair. Sair é importante, assim como voltar e trazer coisas para cá.

Considero termos uma síndrome de pensar que somos muito pequenos. Podemos ser pequenos em número, mas, pela qualidade da produção e pela consistência do trabalho, somos relevantes. Há artistas daqui circulando e também começamos a perceber um interesse maior de artistas de fora em vir para o Espírito Santo. Existem barreiras estruturais e centros como São Paulo e Rio de Janeiro terão sempre uma concentração e um mercado muito maiores. Isso não significa que apenas eles possam ocupar lugares de vanguarda. Nós também temos condições. 

Os limites do fomento por editais

A ampliação do fomento, entretanto, trouxe um problema que Carolina considera necessário enfrentar. O acesso aos editais não ocorre em condições iguais. Quem já domina os processos de inscrição, possui recursos técnicos e acesso à informação tende a acumular experiência e aumentar as chances de ser novamente contemplado. Para quem ainda não entrou nesse circuito, as barreiras permanecem maiores.

A solução, segundo ela, passa por mecanismos capazes de distribuir melhor os recursos e ampliar o alcance territorial. Mas o desafio não termina na seleção dos projetos: a gestão precisa pensar também no que permanece quando o recurso financeiro se encerra.

GM: O edital continua sendo indispensável, mas precisa ser corrigido?

CR: Ele é fundamental, principalmente para expressões de menor visibilidade e mais frágeis do ponto de vista do mercado. Ao mesmo tempo, pode reproduzir desigualdades que já existem na sociedade. Quem tem mais acesso à informação, aos recursos e à tecnologia acaba largando na frente. Se uma pessoa já aprovou um projeto, ela aprende como aquele mecanismo funciona e tende a ter mais facilidade nas próximas vezes. Quem nunca acessou encontra mais dificuldade. Por isso precisamos fazer correções e induções para tornar os recursos mais distributivos. Cotas e mecanismos de territorialização ajudam nesse sentido.

Também não basta entregar o recurso. O desafio é fazer com que o projeto tenha longevidade, conectar iniciativas que acontecem em lugares diferentes e estimular trocas. O ideal é que essas ações consigam existir para além daquele financiamento específico.

GM: Como encontrar um equilíbrio entre o apoio público e a sustentabilidade desses espaços?

CR: O estímulo é importante para que continuem existindo, mas essas instituições também precisam amadurecer. Algumas vão nascer e encerrar seu ciclo; outras têm condições de construir um trabalho mais robusto, crescer e encontrar formas de sustentabilidade. A política pública precisa ser indutora da cena, não responsável inteiramente por ela. É necessário criar um ambiente no qual outros atores consigam se desenvolver, buscar alternativas e ampliar suas relações. Também é interessante perceber como um espaço alimenta o outro. Surge um lugar, forma-se uma movimentação ao redor, outras pessoas criam novos espaços e aquela rede começa a se retroalimentar.

Formação, patrimônio e espaços de encontro

Entre o que ainda não avançou na medida que gostaria, Carolina destaca a formação cultural. A expansão de projetos, recursos e equipamentos criou novas oportunidades, mas também aumentou a demanda por profissionais qualificados.

Nas artes cênicas, o tema ganha peso adicional. Ela observa que as gerações estão mudando e que o Estado precisa formar novos atores, dramaturgos e outros profissionais. A ausência de uma política continuada, capaz de articular cursos livres e formação técnica, é apontada como uma lacuna.

Outro campo que exige abordagem própria é o da cultura popular. Para Carolina, os editais não conseguem responder sozinhos à preservação dos saberes transmitidos por mestres e mestras. Reconhecimento, registro e acompanhamento são dimensões igualmente necessárias.

GM: Quais são hoje as lacunas mais evidentes que ainda precisam ser enfrentadas?

CR: Uma delas é a formação. Ainda não conseguimos construir uma política mais robusta e contínua, que trabalhe em vários níveis, desde cursos e oficinas livres até qualificação técnica. Se temos instituições e uma produção mais estruturada, também precisamos de pessoas bem formadas para trabalhar nesse ambiente. Nas artes cênicas isso aparece de maneira muito clara. As gerações vão mudando e é necessário formar novos atores, dramaturgos e outros profissionais.

Outra questão é a salvaguarda da cultura popular, especialmente dos mestres e mestras. Existem ações e editais, mas esse campo exige uma delicadeza diferente. Não é apenas o recurso que fará a diferença. É preciso reconhecer, acompanhar, registrar expressões e saberes populares e dar visibilidade a conhecimentos que muitas vezes são orais e transmitidos entre gerações. É uma política que precisa avançar por meio das próprias pessoas que mantêm esses saberes vivos.

Parque Cultural Casa do Governador
Parque Cultural Casa do Governador, 2026. Foto: Fabíola Fraga.

GM: O que o Parque Cultural Casa do Governador revela sobre novas formas de pensar um equipamento cultural?

CR: Ele é um primeiro passo na direção de um tipo de espaço que não tínhamos antes. Muitos equipamentos são especializados em determinados públicos. O Parque é multicultural. Circula por ali todo tipo de gente: crianças, pessoas mais velhas, estudantes de artes, quem vai à feira de artesanato, quem pratica ioga, quem leva o cachorro para caminhar. Há pequenas comemorações acontecendo de forma completamente autônoma e espontânea. Isso é muito interessante porque a gente não precisa falar de arte o tempo todo para estar falando de cultura. Cultura também é o lugar onde as pessoas se encontram, se conectam e trocam experiências.

Theatro Carlos Gomes
Theatro Carlos Gomes, 2026. Foto: Fabíola Fraga

Entre a recuperação do patrimônio cultural e a construção de novos espaços

O Theatro Carlos Gomes representa uma experiência diferente. O desafio foi preservar um equipamento centenário e, ao mesmo tempo, atualizá-lo. Carolina considera a reabertura um símbolo da possibilidade de conciliar tradição, acessibilidade e recursos técnicos contemporâneos. A retomada do teatro também se relaciona a um período em que diversos palcos permaneceram fechados ou com atividades reduzidas. A reconstrução de um circuito para as artes cênicas, portanto, envolve tanto prédios quanto formação e circulação.

No Cais das Artes, a etapa atual passa pela consolidação institucional. Além do programa, do plano museológico e das diretrizes curatoriais, permanece no horizonte a entrega do teatro do complexo, concebido para receber produções que exigem uma estrutura inexistente hoje em outros espaços do Estado.

A ampliação do acesso não se restringe, porém, aos grandes equipamentos. Carolina Ruas cita a Biblioteca Transcol, instalada em terminais do sistema metropolitano de transporte, como exemplo de uma experiência que coloca os livros no caminho cotidiano de milhares de passageiros. Para ela, iniciativas que funcionam podem ser replicadas e levadas a outros lugares.

A Secretária também recorre à formação acadêmica em Economia para explicar uma preocupação com o futuro: previsibilidade. Uma política continuada permite que artistas, produtores, curadores e técnicos vislumbrem condições para desenvolver suas trajetórias no Espírito Santo. Sem isso, repete-se um movimento conhecido por sua geração: profissionais que saem para estudar ou trabalhar em grandes instituições e acabam construindo a carreira fora. Carolina não questiona a circulação; ao contrário, considera a troca necessária. O que defende é a possibilidade de sair, retornar ou permanecer sem que o deslocamento se transforme na única alternativa de crescimento.

GM: O que mais preocupa quando você pensa no futuro da cultura no Estado?

CR: Existe uma necessidade de permanecer vigilante e acompanhar aquilo que foi construído. A continuidade dá previsibilidade. Se alguém começa agora como artista, produtor ou curador, precisa encontrar oportunidades para se desenvolver com qualidade aqui. Minha geração viu muita gente sair para estudar e depois trabalhar em outras instituições, inclusive fora do país. Isso faz parte da circulação e pode ser muito positivo. Mas também precisamos criar condições para que existam trajetórias no Espírito Santo. Ir para fora é importante, voltar também é. Essa troca alimenta o que fazemos aqui. Quando damos um passo, percebemos o quanto ainda existe para caminhar. A política precisa continuar amadurecendo, ampliando acesso e criando novas possibilidades.

Ao final, Carolina retorna à comparação com os grandes centros. Reconhece as diferenças de escala, mas rejeita que elas sejam usadas para medir a qualidade da produção local. Para ela, artistas circulando, equipamentos mais preparados, espaços independentes e maior interesse de agentes externos indicam que o Espírito Santo tem condições de ocupar posições mais afirmativas no circuito cultural.

GM: O Espírito Santo ainda se enxerga como pequeno diante dos grandes centros?

CR: Acho que ainda existe um pouco essa ideia, mas não somos tão pequenos assim. Podemos ter uma escala menor, porém isso não diminui a qualidade e a consistência daquilo que é produzido aqui. Temos artistas muito bons, instituições mais fortes e espaços capazes de receber projetos. Nossos artistas estão circulando e profissionais de fora também começam a demonstrar interesse em vir para o Estado. Centros maiores continuarão tendo mercados maiores. Isso não significa que tenham exclusividade sobre a vanguarda. Nós também temos condições de ocupar esse lugar.

Um século de rupturas e reinvenção

Sob uma chuva fina subo a colina que circunda a Usina de Arte, em Água Preta, Pernambuco. No alto encontro Óculo, escultura de Arthur Lescher, uma das obras mais recentes instaladas no parque. O grande arco de metal não detém o vento nem a garoa, mas enquadra a paisagem e os prédios da antiga Usina Santa Terezinha, produtora de açúcar desativada há quase 30 anos. Como uma objetiva, a obra reorganiza o olhar sobre um lugar onde estruturas industriais arruinadas, vegetação e exemplares de arte contemporânea passaram a dividir o mesmo território.

Óculo, de Arthur Lescher

Criada em 2015, a Usina de Arte ocupa hoje cerca de 45 hectares e reúne mais de 50 obras e instalações de artistas brasileiros e estrangeiros.  O empresário Ricardo Pessôa de Queiroz e sua mulher, a arquiteta Bruna, são os proprietários do local e administradores do projeto. Para visitar esse museu a céu aberto não há um percurso a seguir. Os trabalhos aparecem de forma aleatória entre árvores, lagos, antigas construções e restos da estrutura industrial, algumas vezes incorporando a própria memória do lugar.

O primeiro curador contratado, o artista José Rufino trabalhou diretamente com esses vestígios. Em Scopulus, utiliza uma antiga cadeira e madeiras encontradas nas oficinas para construir uma figura associada ao senhor de engenho e, em Ligas, reúne facões usados no passado para o corte da cana. Márcio Almeida também se aproxima desse passado em Eremitério Tropical, que tangencia a morfologia “radicante”, que se refere às plantas que produzem raízes no processo de deslocamento. A construção de alvenaria é gradualmente tomada pela vegetação, na qual trabalho e ócio aparecem como questões ligadas ao universo da cana.

Na fachada do prédio da antiga destilaria, Alfredo Jaar instalou Claro-Escuro, um letreiro de neon de 18 metros com uma frase de Antonio Gramsci sobre o intervalo entre um mundo que desaparece e outro que ainda não nasceu. A localização acrescenta outra camada à obra: o neon atravessa um edifício que perdeu sua função original e hoje integra um projeto exclusivamente dedicado à arte.

A história ajuda a entender o que permaneceu nessa paisagem. Adquirida em 1926 por José Pessoa de Queiroz, bisavô de Ricardo e sobrinho do presidente Epitácio Pessoa, que governou o Brasil de 1919 a 1922, a Usina Santa Terezinha tornou-se um complexo açucareiro que chegou a ser o mais importante do País, reunindo milhares de trabalhadores, vila operária, escola, igreja, mercado, hangar e uma ferrovia própria com mais de cem quilômetros.

Usina de Arte

A primeira grande ruptura ocorreu com a Revolução de 1930. Ligado ao grupo político derrotado, José Pessôa de Queiroz passou a ser perseguido. O Jornal do Comércio, de sua propriedade, foi invadido e o palacete, no Recife, incendiado. Ele deixou o país e a usina passou por um período de administração externa e por uma longa disputa para a retomada de seu controle. Mais de meio século depois, em 1982, nos últimos anos da ditadura militar, uma intervenção ligada ao SNI (Serviço Nacional de Inteligência) afastou os acionistas da administração. A produção foi interrompida, processos trabalhistas se acumularam e, nos anos seguintes, parte do patrimônio foi fragmentado. Trilhos, locomotivas, vagões e equipamentos foram vendidos. A atividade industrial não voltaria a se recuperar.

Parte considerável do corpo da fábrica, no entanto, permaneceu de pé, com galpões, moendas e equipamentos. Ao longo dos anos, terras e imóveis foram sendo readquiridos pela família, muitos deles em leilões judiciais. É sobre parte desse território que surge, décadas depois, a Usina de Arte, agora o projeto começa a avançar também para dentro do antigo corpo industrial. A recuperação da cobertura e dos caixilhos abriu caminho para uma nova etapa, com intervenções nas lajes e a perspectiva de transformar parte desses grandes espaços em um futuro museu. A arquitetura industrial permanece exposta, com linhas retas, grandes vãos e uma escala determinada pela antiga função das máquinas.

Ricardo entende que “o objetivo nunca foi devolver ao conjunto uma aparência de novo, mas preservar sua arquitetura e adaptá-la aos futuros espaços expositivos, mantendo visíveis as marcas deixadas pelo açúcar, vapor e trabalho”. Com esse princípio, no interior da Usina, a arte contemporânea começa a ocupar alguns espaços já restaurados, como a instalação Autômatos (2017/2025), de André Komatsu, uma das primeiras obras incorporadas ao futuro museu. Formada por cinco módulos construídos com grades de aço, ferro, vidro aramado e plástico, o trabalho investiga os permanentes processos de construção e desconstrução que moldam as cidades contemporâneas. Esse trabalho dialoga diretamente como o edifício que também atravessa um processo de restauração. No mesmo período, Rodrigo Sassi inaugurou sua obra modular Fractal, outra integrante do acervo. Na antiga destilaria da Usina, com pé direito de 14 metros, as 12 peças de encaixes idênticos formam várias composições que se destacam sobre as paredes impregnadas de histórias.  Assim, o futuro museu começa a tomar forma sem que o edifício precise esconder aquilo que já foi.

André Komatsu, Autômatos (2017/2025)

Do lado de fora, entre dezenas de artistas, Marina Abramović ocupa a paisagem com Generator, um muro de 25 metros com conjuntos de almofadas de quartzo que propõem ao visitante uma experiência corporal e de concentração. A inauguração da obra contou a presença da artista que performou junto com os visitantes.

Marina Abramović, Generator

Em um contexto crítico, Diva de Juliana Notari intervém diretamente sobre uma colina com um trabalho de grande força em defesa do corpo da mulher. Em Átrio, Marcelo Silveira, retoma a estrutura do pátio interno da antiga Casa Grande. Cabeça de Bandeirante, de Flávio Cerqueira, coloca na horizontal uma figura historicamente destinada ao pedestal, enquanto Matheus Rocha Pitta, em Um Campo da Fome, aborda um assunto fundamental na sociedade brasileira e responsável pelos dramáticos deslocamentos do Nordeste para o Sudeste e o Sul do país, sobretudo no período de 1940 a 1970.

Hoje, o território da Santa Terezinha ganha outra dimensão com a inauguração da Praça Leonardo da Vinci, em 18 de junho último, instalada no centro da vila operária, onde vivem antigos funcionários da usina ou descendentes deles. Ali, o artista cearense Narcélio Grud reúne três esculturas interativas concebidas a partir do movimento e de princípios mecânicos: Roda Riacho, acionada pela água, vento ou por uma manivela, Pêndulos Interativos, balanços que criam efeitos diversos a partir do deslocamento dos corpos e Playground Eólicas, estruturas que respondem à ação do vento e produzem movimentos, sons e efeitos visuais. O projeto nasceu da parceria entre a Usina de Arte e O Pequeno Colecionador, iniciativa criada por Arthur Lescher e Marianne Klettenhofer para aproximar as artes visuais do universo lúdico. Alguns artistas brasileiros já participaram do projeto em outras cidades. Para Ricardo, Leonardo da Vinci simboliza a curiosidade como motor do conhecimento. “Nossa intenção é despertar nos jovens a vontade de compreender como as coisas funcionam, inspirando-os a olhar para o mundo com inventividade”, resume.

Entre a contemplação proposta por Lescher e a experiência física imaginada por Grud, a Usina de Arte encontra sua medida: preservar a memória sem imobilizá-la, para que ela continue produzindo novos sentidos.