[Elaborados pelo Professor titular em Psicanálise e Psicopatologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP, Christian Dunker, este é o primeiro texto de uma serie de 7(sete) que publicaremos, a partir da segunda feira 10 de Setembro, semanalmente.

Resumo 

Pretendo mostrar como as práticas de mediação convidam ao encontro com a obra como experiência de leitura reconstrutiva. Este processo pode ser entendido como experiência ética de reconhecimento, envolvendo forma estética e contradição social. A função ética do discurso, concentrada na noção de letra determina modos de relação com a obra que são também modelos de relação intersubjetiva com o outro. Apresento este tema a partir de sete desafios éticos para os museus contemporâneo

  1. Curadoria como Escuta de Sistemas Simbólicos em Conflito

Cheguei a esta discussão sobre museus e artes visuais em função de minhas pesquisas sobre a origem dos fazeres que constituíram historicamente a psicanálise. A versão oficial é que nossa prática tinha sido uma derivação do método clínico da medicina, nascido em fins do século XVIII. Freud teria subvertido este método ao deslocar seu centro do olhar para a escuta, da fala do médico para a associação livre do paciente. Mas além de uma clínica a psicanálise é também uma terapêutica, ou seja, uma espécie de técnica ou de arte para reduzir o sofrimento psíquico. Mas o que realmente me surpreendeu foi descobrir que além de uma clínica e de uma terapêutica a psicanálise era também uma espécie de cura.

Cura não é nem um conceito primitivamente médico nem religioso, mas filosófico.

Cura (epimeléia heateau), para os gregos, ou cura sui, para os latinos, é uma experiência transformativa, geralmente envolvendo o diálogo entre um mestre, cujo protótipo é Sócrates e um discípulo, cujo exemplo clássico é Alcebíades. A cura é um trajeto ético, no qual se analisa a posição do sujeito diante do outro e do mundo, mas principalmente a posição de poder de alguém tematizada desde o início, pela demanda a um mestre, suposto saber bem governar. Examinar seus próprios sonhos, meditar sobre seus medos fundamentais, examinar a origem e a função das ideias que nos assediam, analisar nossos laços de amizade ou de inimizade, adquirir algum domínio erótico sob si, escrever sobre a unidade de nossa vida, ponderar sobre a inclinação para certos afetos, como o ódio e a emulação, são exemplos de práticas que compunham o cuidado de si. Característico da experiência ética da cura é o exame prudente (sophrosine) de como a enunciação da verdade sobre nosso próprio desejo, por meio da fala franca (parhesia), ou sobre nosso próprio destino, no caso da tragédia, transforma aquele que a enuncia.

Curar é cuidar da experiência ao longo do tempo, manter o processo, sustentar uma política para o desejo dos envolvidos, não é voltar ao estado de harmonia e remover os sintomas, normalizando a pessoa.

Este novo e antigo sentido para a experiência da cura aproximou-se imediatamente de uma prática museológica importante que é a curadoria. As mudanças relativamente recentes no âmbito do sistema das artes, notadamente associadas com uma mudança do lugar social do museu questionam o papel tradicional do curador. Este papel combina o sentido jurídico, daquele que trata dos bens ou negócios daqueles que se encontram incapacitados, quanto o sentido artístico que cuida ou supervisiona  montagem de uma exposição, selecionando peças e ordenando o roteiro e a execução de um espaço de arte.

Combinando as coisas podemos dizer que o curador tem uma função dupla: ele tutela, administra e educa, mas também cuida, ampara e escuta. Cuidar e educar não são portanto práticas idênticas, e a diferença reside principalmente na posição de poder envolvida. Mas do que o curador cuida?

 

  1. Das obras, que ele pesquisa escolhe e conserva

  2. Do diálogo entre artistas e público,

  3. Do patrimônio de um país ou de uma fundação,

  4. Da diversidade cultural,

  5. Da relação entre a coisa pública e os interesses privados

  6. Das pessoas que se enriquecem com o acesso aos bens simbólico

Ora, se retemos o sentido antigo da noção de cura, o que o curador faz é cuidar do processo e das relações nele envolvidas, daí a sua função ser sintetizada pela noção de mediação. Mas aqui podemos situar a mudança particular ocorrida na museologia contemporânea. Ela não se orienta mais para a eleição de um cânone, com o qual o público manterá uma posição vertical de submissão e até reverência. A nova curadoria reconhece que os sistemas simbólicos dos quais ela cuida estão em conflito e que, o ato de cura envolve uma tomada de posição neste universo de conflitos. Um ato cuja característica primeira é determinar qual é o conflito e em qual linguagem, ou em qual forma estética, ele será posto.

Pela noção de “posto” (stellen) devemos entender, sobretudo, o gesto de trazer e inscrever uma obra no espaço público. Este é o ato museológico fundamental: tornar público, tornar lembrável, tornar de interesse público, uma determinada objetalidade ou eventualidade. Para tanto é preciso antes de tudo escutar o conflito e ser afetado por ele.

Ora, se retemos o sentido antigo da noção de cura, o que o curador faz é cuidar do processo e das relações nele envolvidas, daí a sua função ser sintetizada pela noção de mediação. Mas aqui podemos situar a mudança particular ocorrida na museologia contemporânea. Ela não se orienta mais para a eleição de um cânone, com o qual o público manterá uma posição vertical de submissão e até reverência. A nova curadoria reconhece que os sistemas simbólicos dos quais ela cuida estão em conflito e que, o ato de cura envolve uma tomada de posição neste universo de conflitos. Um ato cuja característica primeira é determinar qual é o conflito e em qual linguagem, ou em qual forma estética, ele será posto.

Por exemplo, na 33 Bienal de São Paulo, as obras de Vânia Mignone e Lucia Nogueira, são igualmente acolhidas. A primeira trabalha com frases e mensagens bem delineadas sobre a paradoxalidade da experiência, tais como “Você podia ter me dito uma mentira” ou, a legenda “seus limites”, recobrindo alguém que estende uma corda de equilibrista entre duas frágeis escadas. A segunda compõe-se de traços verticais de coloração viva ou de figuras estreliformes flutuantes, suscitando certa ingenuidade representativa. Duas obras que aparentemente pertencem a séries simbólicas distintas, apesar de serem autores contemporâneos entre si, são postas (ex-postas) em um mesmo espaço comum.

Este e o sentido primeiro da noção de mediação.

 

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