Page 22 - ARTE!Brasileiros #60
P. 22

VII SEMINÁRIO DEMOCRACIA E REPARAÇÃO



               O curador também salientou que o trabalho feito na
            documenta quinze não partia de um tema — lumbung,
            lembrou ele, significa literalmente celeiro de arroz, em
            sua língua —, mas de um conjunto de práticas em aberto,
            ilimitadas. “Não procuramos artistas que ilustrassem
            um conceito. Era muito mais algo ligado a uma maneira
            de fazer coisas”, explicou.
               Em seguida, Rakun disse que a curadoria da docu-
            menta quinze tentou não seguir a lógica de uma direção
            de arte clássica, numa posição de jogo de poder, optando
            por delegar decisões às pessoas. E antes mesmo do
            início da mostra, o ruangrupa buscou agrupar artistas,
            fazer com que antes de sua abertura eles se conheces-  Graziela Kunsch
            sem e construíssem afinidades, adquirissem confiança
            e, essa era a esperança, pudessem participar de modo
            a fazer projetos colaborativos também.          colecionador, como colecionar coletivamente, como
               O curador elencou alguns dos pontos altos da edição   colecionar trabalhos que não sejam concebidos como
            de 2022 da documenta, entre eles a ausência de com- objetos”, explica. “Não se trata apenas de comprar, mas
            petitividade entre os participantes — Graziela, afirmou   pensar contratos que incluam um compromisso político
            ele em sua fala, poderia ser um exemplo de alguém que,  ou ideológico, do comprador em relação ao artista.”
            apesar de tomada por certa “febre lumbung”, devido ao   Um dos projetos mais comentados da documenta
            entusiasmo com seu projeto, jamais buscou holofotes.  quinze, uma estrutura comunitária dinâmica que tra-
            Outro fruto da documenta quinze é a lumbung gallery,  duziu bem a proposta de lumbung do ruangrupa, foi a
            um dos muitos desdobramentos de sua experiência que   Creche Parental Pública, da mãe, educadora e artista
            devem vir a seguir. Ele lembrou que cerca de 95% dos   brasileira Graziela Kunsch, que encerrou o Vii Seminário
            colaboradores — algo em torno de 1500 nomes — que   Internacional. Em sua apresentação, Kunsch recordou
            convidou não são representados por galerias.    como nasceu seu projeto. Numa carta endereçada ao
              “Estamos tentando pensar numa forma de galeria,  ruangrupa, ele falava sobre o “Chão da Manu”, ou o
            por falta de palavra melhor, mais conectada com os   projeto de uma creche parental, que então seria tão
            nossos valores. A precificação, por exemplo, é algo   somente um pedaço de chão (ou um enorme tapete
            em que temos pensado muito. Como adquirir como   de pano), com materiais abertos de brincar sobre ele.”




















           FOTOS: COIL LOPES | PHOTO GK











            22
   17   18   19   20   21   22   23   24   25   26   27