Page 23 - ARTE!Brasileiros #60
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“Esse chão hoje existe e foi montado algumas vezes Segundo Kunsch, diversas famílias enviaram cartas
no Goetheanlage, meu parque preferido na cidade. Mas para políticos locais, e a demanda que ela recebeu do
o projeto original cresceu — para ocupar uma sala do grupo foi listar tudo o que comporia o trabalho, no caso
Fridericianum — e esteve, desde o início, fortemente de sua compra pela prefeitura de Kassel, por meio da
enraizado na cidade de Kassel. A partir da minha pesquisa Lumbung Gallery.
local, conheci Elke Avenarius, que se tornou uma grande “Estou preparando um pequeno dossiê sobre o
parceira de trabalho. Juntas, desenhamos o espaço que trabalho, mas, em linhas gerais, a minha proposta,
ocupa aproximadamente 200 metros quadrados, no tér- e da minha parceira Elke Avenarius, é que a prefei-
reo do museu”, contou Kunsch, em leitura de sua carta. tura possa designar um novo espaço para a creche
Segundo Kunsch, o espaço por ela concebido para ser instalada, que assuma uma reforma básica do
a documenta quinze era dividido em salas de ver e ler espaço (caso isso seja necessário para o espaço ser
e uma creche parental, com entrada gratuita pelos habitado — por exemplo, um banheiro e cuidados
fundos do museu. A área da creche possuía espaços com elétrica e hidráulica), e nós duas cuidaremos
de cuidado — como trocadores de fralda, uma cozinha, de adequar o projeto à nova situação, usando parte
poltronas de amamentação e uma sala de dormir, onde os do valor da venda para essa produção/construção”,
adultos cuidam dos bebês. E a creche possuía espaços prosseguiu a artista. “É claro que essas propostas
de brincar, onde os bebês eram capazes, como diria a levantam o maior desafio da continuidade do projeto,
pediatra húngara Emmi Pikler (1902-1984), de cuidar de que é: quem cuida de tudo isso?”.
si mesmos. Adultos estavam ali, presentes, explica a Para responder essa pergunta, continuou Kunsch,
artista, mas não precisavam ensinar as crianças como ela contou como gosta de trabalhar como artista: “No
brincar ou como movimentar seus corpos. lugar de pensar e decidir tudo sozinha, sempre busco
Após o término da documenta quinze, explicou deixar a ideia inicial o mais aberta possível e envolver
Kunsch, seu desejo era remontar a creche parental pessoas de fora do contexto da arte nessa construção.
em São Paulo, enviando móveis e materiais de brincar O próprio sentido de arte é construído coletivamente,
por contêiner. “Mas muitas famílias começaram a ampliando os entendimentos do que é arte e a própria
me procurar, defendendo a permanência do projeto noção de arte”.
em Kassel. Perguntaram-me se havia algo que elas Para encerrar, Kunsch afirmou que a continuidade
poderiam fazer, para o projeto continuar na cidade. da proposta poderia implicar em uma mudança no
Eu me limitei a responder que elas poderiam se auto- título em alemão: “No lugar de Eltern und Kleinkinder
-organizar. Bem, elas se auto-organizaram”, contou Krippe [creche de pais e bebês], passar a chamá-la de
a artista, no texto que leu durante sua apresentação. Öffentliche Elterliche Krippe [Creche Parental Pública],
marcando a transforma-
ção do projeto artístico
em política pública que,
como semente — para usar
o vocabulário lumbung —,
ou como as árvores de
Beuys, poderá se espalhar
e abrir novas paisagens.
Tanto para a vida, como
para a arte”, concluiu.
Área de comer e Entdeckerraum
[Sala das descobertas] da Creche
Parental Pública, na documenta
quinze, e o protesto de famílias
de Kassel pela continuidade do
projeto na cidade
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