
Em agosto de 2019 o céu de São Paulo tornou-se subitamente escuro, em função das queimadas da região Norte. Anos antes não pudemos sair de casa porque o PCC assumiu um ataque massivo contra a polícia. Vez ou outra as chuvas interditam ruas e estradas do país destruindo casas e barragens.
Estes momentos de exceção trazem transtorno, medo e desordem pois neles nossa vida prática se vê obstruída. Temos que parar e pensar. A lei do dia a dia é revogada e surge uma brecha na ordem das coisas. Tais momentos nos lembram que por mais que tenhamos sonhos de controle sobre a natureza, sobre os outros e sobre nós mesmos, há ainda uma força maior que nos submete.
Não estamos mais acostumados a enfrentar o poder da natureza, sem que ele esteja combinado com a imprudência, imperícia ou negligência humana.
Quando algo dá errado nos dirigimos inevitavelmente à busca de culpados e responsáveis, como se estes, uma vez localizados, nos autorizassem a voltar a dormir o sono dos justos. A pandemia de covid-19, que alastra-se pelo Brasil, faz lembrar as lições trazidas, desde sempre, pela peste como estado de exceção. A primeira delas é que a peste é democrática, atingindo ricos e pobres, mulheres e homens, brancos e negros, crianças e idosos, ainda que sobre estes últimos ela seja mais impiedosa e letal. Como dizia Hegel, diante da doença temos que nos lembrar que só há um mestre absoluto: a morte. Ela é a razão e medida de todas as vidas e diante dela somos todos iguais. Por isso ela pode ao mesmo tempo nos colocar tão juntos e solidários quanto separados e concorrentes.
A peste materializa e sintetiza nossa relação com os outros, porque mobiliza a ideia de contágio e transmissão pelo contato. Coisas que passam de um para outro se prestam a simbolizar que a essência do convívio humano é a troca. Por isso a peste encarna nosso imaginário sobre a origem do mal. O mal não está e nem vem de nós mesmos, mas vem do outro, ele vem de longe, vem do Oriente, vem da China, que como os bárbaros da antiguidade, não fala nossa língua. A peste nos ameaça porque não ataca apenas nossos corpos, mas nossas identidades, nossos sentimentos de pertença e de filiação a uma determinada ordem. Toda doença séria e potencialmente letal levanta esta pergunta moral: o que fiz para não ser tão amado e protegido pelo Outro que me envia isto. Nossa irresistível tendência a ler a doença como uma mensagem tem a ver com a resistência a aceitar que existem coisas que não conhecemos e, portanto, não dominamos. Quando isso acontece nós criamos ficções e hipóteses para ler e atribuir significado ao que, em princípio, não tem sentido.
É como a metáfora da desordem que, durante a idade Média, a lepra punia com a degradação do corpo aqueles que se deixavam levar pela luxúria. É como a deshumanização, animalização e imputação de irracionalidade que tornamos a loucura o grande mal da modernidade, esta época definida pela razão. Durante os anos 1990, lemos na aparição do HIV-AIDS uma espécie de castigo divino contra homossexuais e todos que exerciam “demasiadamente” sua liberdade sexual. Ou seja, desde sempre transformamos o medo de um objeto que vem de fora na angústia indefinida de um pavor que vem de dentro. Tendemos a moralizar eventos naturais que escapam ao nosso controle, depositando sobre eles um sentido que eles não possuem. É assim que a experiência de adoecer e entrar nesta espécie de intervalo ou parênteses da vida, pode tornar-se uma experiência de culpa e desamparo.
Na grande peste de 1666 erguiam-se fogueiras imensas nas encruzilhadas que davam caminho para as grandes cidades, como forma de evitar a peste bubônica. A teoria por trás da prática era de que o medo predispunha a pessoa a contrair a peste. A prova de coragem, enfrentando o fogo, ao mesmo tempo purificava e autorizava a chegada do estrangeiro puro e afastava o estrangeiro impuro. A peste transmitia-se pelo olhar invejoso que o doente lançava sobre o sadio. Nossa tendência diante do que não compreendemos é ficar junto, criar grupos e dar as mãos. Ora, a crueldade adicional imposta pelo coronavírus é que justamente isso é o que não devemos fazer.
A peste convoca em nós esta dupla tarefa de enfrentar o medo e de fazer frente à angústia. O medo nos faz agir, avaliar riscos e calcular estratégias. Diante do medo podemos atacar ou fugir. Ele nos incita a tomar medidas protetivas, obedecer restrições de contato social, ou métodos de higiene e limpeza. Só um tolo desfaz do medo apegando-se à ideia de que não há motivo para o temor, que a fé nos protegerá ou que a doença é apenas uma invenção imaginativa.
O problema começa quando o medo do que vem de fora se contamina com a angústia que vem de dentro. Percebe-se assim como a ideia de contaminação é uma ideia objetiva e subjetiva
Ela fala da transmissão real de um vírus de corpo para corpo, da passagem simbólica da cultura entre nativos e estrangeiros, mas também da mistura imaginária entre o bem e o mal dentro de nós. Por isso a doença é o pretexto ideal para ativar preconceitos, invocar fantasmas e revitalizar complexos infantis. É como se diante da possibilidade da morte nos víssemos diante da inadmissível falta de sentido da vida e contra isso respondêssemos com nossas crenças inconscientes.
Podemos distinguir três reações básicas diante da peste: o tolo, o confuso e o desesperado. O tolo desconhece a importância do medo. Desprevenido e desinformado ele irá em busca de culpados. Ele não é corajoso porque não reconhece os riscos e resolve atravessá-los mesmo assim. Ele simplesmente não quer saber do perigo, por isso também não toma providências. O confuso é aquele que lida com a angústia tentando transformá-la inteiramente em medo real. Ele estocará quilos de papel higiênico porque ouviu algo sobre a Coréia, andará com tonéis de álcool em gel no bolso e saberá tudo que todos os governantes falam, mas também acompanhará todos os boatos e disseminará todas as hipóteses conspiratórias. Finalmente, a reação dos desesperados transformará todo o medo, gerado pela indeterminação, em motivo para incremento de angústia. No fundo ele já estava inquieto antes disso tudo, a doença só veio dar corpo e carne aos seus piores fantasmas. Acalmar-se é algo que ninguém pode fazer por você. Se você espera que apenas mais notícias, informações e comentários venham a te pacificar, ou se você acha que aumentar o estoque de máscaras vai sanear sua angústia, você está se enganando.
O verbo chama-se “acalmar-se”, e não ser acalmado pelos outros e seus objetos. O medo se combate com precaução e medidas objetivas, a angústia com cuidado de si e trabalho subjetivo.
Neste sentido a peste tem muito a nos ensinar, especialmente quanto a nossas ilusões de controle e dominação sobre o mundo e sobre nosso destino. A cultura do ódio e da emulação, a crença digital de que somos muitos importantes e tantas outras promessas nos fazem acreditar que somos soberanos sobre nossas vidas. Daí aparece um pequeno micro-organismo, bastante limitado do ponto de vista de sua capacidade reprodutiva e de estrutura biológica de RNA e nos derruba. Ou seja, do ponto de vista de nossa angústia o coronavírus não poderia ter um nome melhor: ele nos tira do trono de nós mesmos e coloca a coroa de nossas vidas em sua justa dimensão.
É a coroa de espinhos que convoca uma experiência escassa em nossa época: a humildade. Diante desta pequena e destrutiva força da natureza nosso grandiloquente narcisismo se dobra como um vassalo encurralado.
Apesar de dolorosa como um espinho na alma esta pode ser uma experiência profundamente transformativa. Descobrir que podemos muito menos do que pensamos, aceitar o imponderável que nos governa e acolher com humildade o que ainda não dominamos, pode ser muito benéfico. Pode ser uma verdadeira terapia, para aqueles que precisam descansar a cabeça do peso de sua coroa de espinhos narcísicos.
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O MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand exibe Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo. A mostra reúne 25 trabalhos que contemplam a produção artística de Claudia
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O MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand exibe Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo. A mostra reúne 25 trabalhos que contemplam a produção artística de Claudia Alarcón (La Puntana, Argentina, 1989) & Silät, coletivo formado por mais de cem tecedeiras do povo Wichí. Com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico, MASP, e Laura Cosendey, curadora assistente, MASP, a exposição marca a estreia da artista e do grupo em um museu brasileiro.
As obras são produzidas com fios de chaguar, uma bromélia de fibras resilientes nativa do clima semiárido do Gran Chaco, maior bioma da América Latina depois da Amazônia, que ocupa as regiões norte e nordeste da Argentina, chegando até o Paraguai. A preparação do chaguar e a técnica de entrelaçar os fios com as mãos, sem o uso de um tear, provêm da confecção das bolsas yicas, objeto central para a cultura wichí. Tradicionalmente, a yica tem formato quadrado, com padrões geométricos que representam a flora e a fauna de seu território, remetendo a temas como orelhas de tatu, olhos de coruja e cascos de tartaruga. Embora seja o ponto de partida do trabalho de Alarcón & Silät, suas obras transcendem esse repertório tradicional. A partir de oficinas que propunham pensar novos formatos para as bolsas yicas, o coletivo Silät se organizou em 2023, passando a produzir tecidos dentro do contexto artístico.
Historicamente, os têxteis produzidos pelos Wichí tinham tons terrosos, avermelhados e azuis acinzentados, mas as artistas passaram a adicionar cores mais intensas com anilinas no processo de preparação dos fios, chegando a matizes exuberantes de tons laranja e fúcsia, por exemplo. Outra importante inovação do trabalho de Alarcón & Silät está no próprio processo de produção dos tecidos: enquanto tradicionalmente as mulheres sempre teceram individualmente, as integrantes do Silät desenvolveram métodos para que várias integrantes pudessem trabalhar simultaneamente em uma mesma peça ou dar continuidade ao trabalho de outra tecedeira.
A mitologia do povo Wichí também compõe os trabalhos de Alarcón & Silät. Em Kates tsinhay — Mujeres estrellas [Mulheres-estrelas], 2023, Claudia Alarcón evoca o mito das mulheres-estrelas. A crença narra que as mulheres eram estrelas no céu e desciam à Terra todas as noites por fios de chaguar que elas mesmas haviam tecido. Vinham se alimentar, roubando os peixes que os homens pescavam. Quando os homens descobriram, cortaram esses fios e as mulheres ficaram na Terra. Essa obra e outras inspiradas por esse enredo simbólico mesclam as geometrias ancestrais com elementos figurativos para delinear estrelas, luas, astros e céus estrelados.
“Recupero lendas e histórias do nosso povo, sinto que tem muito trabalho a ser revivido. Penso em como recuperar isso, porque é algo que talvez não possa ser dito oralmente, não podemos gritar isso. Mas o tecido também fala. Há quem possa entender ou sentir isso no tecido. Eu me dei conta de que, embora teçamos em silêncio, tudo está dito no tecido”, comenta Alarcón.
Os wichís chamam seu território de tayhi e o consideram parte fundamental da identidade, tendo uma dimensão espiritual e simbólica. Em espanhol, o nome para a região é monte. Porém, ainda que o nome remeta a montanhas, o relevo local é majoritariamente plano. A experiência cotidiana, o vento, o dia, o entardecer, a noite, as constelações e muitos outros elementos da vivência no monte estão presentes nas cores, formas orgânicas e geométricas dos trabalhos de Alarcón & Silät. O olhar sensível das tecedeiras para os ciclos naturais retrata na abstração Kyelhkyup — El otoño [Outono], 2023, da coleção do MASP, as mudanças de tons, texturas e luz durante a passagem das estações no monte.
Tecer em conjunto, somado às inovações implementadas, possibilitou a elaboração de composições têxteis que trazem uma multiplicidade de vozes e cores, articulando padrões tradicionais com um repertório visual e poético contemporâneo. “Os tecidos tornaram-se bandeiras de luta, estandartes que portam mensagens, histórias, e dão vozes às mulheres da comunidade”, afirma Laura Cosendey.
Tanto a singularidade das artistas quanto a dimensão do coletivo são demonstradas na instalação Hilulis ta llhaiematwek — Un coro de yicas [Um coro de yicas] (2024-25), que reúne mais de cem bolsas, cada uma delas produzida por uma integrante do grupo. As escolhas pessoais de cor e padrão são destacadas quando os trabalhos são exibidos lado a lado, enquanto a apresentação em conjunto reforça o caráter político da articulação do coletivo, que possibilitou criticar questões como a desvalorização do saber ancestral e a precarização do trabalho das tecedeiras.
Na exposição, as obras são apresentadas em molduras ou em estruturas verticais de madeira, que remetem à maneira como esses tecidos são produzidos e, ocasionalmente, apresentados na comunidade onde vivem as tecedeiras. O conjunto N’äyhay wet layikis — Caminos y cicatrizes [Caminhos e cicatrizes] é um dos trabalhos exibidos nesse suporte expográfico proposto pelo MASP. A composição têxtil foi pensada pelo coletivo, em 2025, para o Nove de Julho, dia em que se comemora a independência da Argentina. A criação artística foi tecida pelas mulheres para denunciar a repressão violenta cometida ao longo do tempo pelo Estado argentino contra populações indígenas.
Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo integra a programação anual do MASP dedicada às Histórias latino-americanas. A agenda do ano também inclui mostras de La Chola Poblete, Sandra Gamarra Heshiki, Santiago Yahuarcani, Colectivo Acciones de Arte, Damián Ortega, Sol Calero, Carolina Caycedo, Pablo Delano, Rosa Elena Curruchich, Manuel Herreros e Mateo Manaure, Jesús Soto e uma exposição coletiva internacional.
Serviço
Exposição | Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo
De 06 de março a 02 de agosto
Terças grátis, das 10h às 20h (entrada até as 19h); quarta e quinta das 10h às 18h (entrada até as 17h); sexta das 10h às 21h (entrada gratuita das 18h às 20h30); sábado e domingo, das 10h às 18h (entrada até as 17h); fechado às segundas.
Agendamento on-line obrigatório pelo link masp.org.br/ingressos
Período
Local
MASP
Avenida Paulista, 1578, São Paulo
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A Simões de Assis inaugura, em São Paulo, a exposição “Corpo de Vento”, individual da artista Thalita Hamaoui, com texto crítico assinado pela socióloga, professora e pesquisadora brasileira Ana Paula
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A Simões de Assis inaugura, em São Paulo, a exposição “Corpo de Vento”, individual da artista Thalita Hamaoui, com texto crítico assinado pela socióloga, professora e pesquisadora brasileira Ana Paula Cavalcanti Simioni. A mostra apresenta onze pinturas inéditas, realizadas em tinta a óleo e pastel oleoso sobre tela e linho, em dimensões variadas. Entre os destaques estão “Corpo de Vento” (2026), pintura de grande formato que se estende por mais de cinco metros; e “Acontecimento Memorável” (2026).
Com trajetória iniciada na estamparia têxtil, onde aprofundou seus estudos sobre cor e forma, Hamaoui dedica-se integralmente à pintura desde 2013. Suas pinturas constroem paisagens de caráter fantástico, nas quais formas orgânicas se expandem por superfícies luminosas e figura e fundo se misturam. Elementos botânicos, como folhagens, flores e frutos, aparecem em sobreposições que combinam cores saturadas e tonalidades mais suaves. Esses arranjos não buscam o realismo, mas se organizam em ritmos que aproximam matéria vegetal e construções fictícias, sugerindo um modo de habitar próximo do onírico.
Em “Corpo de Vento”, a artista apresenta obras desenvolvidas a partir de um aprofundamento no uso do óleo e do pastel oleoso, em que amplia a escala das obras e experimenta diferentes formatos, incluindo pinturas compostas por duas ou três telas articuladas e suportes de contorno orgânico, como em “Vento Correnteza” (2026). Produzidas simultaneamente, as pinturas foram concebidas em diálogo umas com as outras, estabelecendo continuidades cromáticas e formais no espaço expositivo.
Sobre a produção da artista, Ana Paula Cavalcanti Simioni comenta: “A pintura de Thalita se apresenta como sugestiva, sem nos impor um sentido prévio. É um convite ao encantamento, ao prazer por saborear opticamente cada tela devagar, com encanto. É nas grandes telas que Thalita afirma sentir-se mais à vontade, pois nelas pode explorar com maior liberdade e fluidez o caráter gestual de sua prática”.
Todas as obras foram produzidas especialmente para a exposição, que permanece em cartaz até 09 de maio de 2026. Thalita Hamaoui também participa de “A World Far Away, Nearby and Invisible”, mostra coletiva com trabalhos selecionados pela Coleção Jorge M. Pérez, que acontece até agosto deste ano, no El Espacio 23, em Miami, EUA.
Serviço
Exposição | Corpo de Vento
De 19 de março a 09 de maio
Segunda a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 15h
Período
Local
Simões de Assis (Lorena)
Alameda Lorena, nº 2050 - Jardim Paulista
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A DAN Galeria inaugura a exposição Máscaras, Ivald Granato – Quem é você?, com curadoria de Maria Alice Milliet. A mostra inédita reúne um conjunto de pinturas realizadas por Granato
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A DAN Galeria inaugura a exposição Máscaras, Ivald Granato – Quem é você?, com curadoria de Maria Alice Milliet. A mostra inédita reúne um conjunto de pinturas realizadas por Granato no fim da década de 1990 e as coloca em diálogo com máscaras africanas preservadas nas coleções de Christian-Jack Heymès e da família Mastrobuono. A abertura acontece em São Paulo e se conecta à agenda da 22º edição da SP-Arte.
A exposição parte de um dado central para a leitura da trajetória de Ivald Granato. Durante décadas, sua presença pública, suas ações performáticas e sua energia irreverente ocuparam lugar decisivo na recepção de sua obra. Esse aspecto é incontornável, mas não a resume.
Granato foi também um pintor de grande domínio técnico, um desenhista excepcional e um conhecedor profundo da história da arte. Transitava entre linguagens e repertórios com intimidade rara, não para repetir estilos, mas para tensioná-los a partir de uma inteligência visual muito própria. Maria Alice Milliet lembra que, ao chegar à maturidade, depois de mais de três décadas de exposições, premiações e reconhecimento, Granato já ocupava um lugar de destaque na cena artística brasileira. Talentoso desenhista e pintor, havia atravessado os “ismos” e a Pop Art em estreita sintonia com seu tempo.
Essa mostra ajuda a recolocar esse ponto em evidência, situando-o como parte de uma investigação consistente, em que pintura, memória, teatralidade e identidade se entrelaçam. No fim dos anos 1990, Granato se afasta, por um momento, do embate mais imediato com a contemporaneidade e volta o olhar para dimensões profundas de sua própria formação. É desse movimento que nasce a série ligada às máscaras. Segundo a curadora, essa passagem corresponde a uma inflexão em sua carreira, quando o artista procura valores ligados ao passado, à ancestralidade e à memória cultural brasileira. Em 1998, Granato realiza uma série de pinturas sobre papel chamada The Mask. Na sequência, desenvolve obras de maior fôlego reunidas sob o título Quem é você – The Mask. Para o artista, essas máscaras eram anotações visuais de rostos que povoavam seu imaginário.
Ao tratar dessa produção, Maria Alice Milliet desloca a leitura habitual que costuma aproximar esse tipo de repertório apenas da tradição europeia do moderno. No caso de Granato, ela está ligada à busca de raízes culturais e ao desejo de afirmação identitária. A curadora recupera sua origem miscigenada, com ascendência negra e indígena, e inscreve essa série num campo de pertencimento, reconhecimento simbólico e reverência, marcado por uma aproximação que nasce de dentro. Esse aspecto é decisivo para a compreensão da mostra. A ancestralidade africana aparece como força estrutural na cultura brasileira e como chave para reler uma parte importante de sua obra.
Milliet observa que, depois de uma primeira incursão em figuras mais próximas de um universo popular e carnavalesco, Granato volta-se para as máscaras tribais. Na série cuja pergunta organiza o título da exposição, vemos uma sucessão de caras estranhas emergirem de fundos escuros, em composições que condensam intensidade gráfica, energia cromática e forte carga simbólica. A representação tem, nesse conjunto, um peso particular. Ela é figura de passagem, condensação de gesto, invenção de persona e presença ritual. Dez anos após sua morte, Máscaras, Ivald Granato – Quem é você? nos faz compreender com mais nitidez a complexidade do artista.
Serviço
Exposição | Máscaras, Ivald Granato – Quem é você?
De 28 de março a 25 de junho
Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira das 10:00h às 19:00h, sábados das 10h às 13h
Período
Local
DAN Galeria
Rua Estados Unidos, 1638 01427-002 São Paulo - SP
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A Casa de Cultura do Parque apresenta a exposição “Badauê”, de Andrea Brazil (Gabinete), como parte de seu I Ciclo Expositivo. Com curadoria de Claudio Cretti, diretor artístico da Casa,
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A Casa de Cultura do Parque apresenta a exposição “Badauê”, de Andrea Brazil (Gabinete), como parte de seu I Ciclo Expositivo. Com curadoria de Claudio Cretti, diretor artístico da Casa, e texto de Ana Avelar, a mostra reúne trabalhos marcados pela geometrização e a reconfiguração visual da arquitetura vernacular.
A trajetória de Andrea Brazil (São Paulo, 1972) entre Salvador e a Ilha de Itaparica, no Recôncavo Baiano, fundamenta sua visualidade funcional. A artista cresceu em contato com uma arquitetura litorânea marcada por intervenções anônimas – feitas com cacos de telha e sobras de material – que configuram o que ela chama de “desenho no espaço”.
Nesse processo, fachadas de casas e estabelecimentos, grades e outros elementos urbanos, se reorganizam como linhas, cores e vazios. “Trata-se de uma produção coletiva e vernacular que condensa história, clima, técnica e desejo estético em um mesmo gesto construtivo”, afirma Avelar.
O olhar de Brazil para a arquitetura vernacular de sua infância se aprofundou durante uma viagem à região do Algarve, em Portugal. Lá, a influência moura, reconhecível nos cantos arredondados e padrões geométricos, ressoou com o que a artista conhecia da Bahia.
Para Avelar, a conexão não é casual: Brazil observa que os negros malês, protagonistas da revolta de 1835 em Salvador, eram em sua maioria de origem muçulmana e portadores de uma tradição visual que se infiltrou na cultura material da cidade. O ornamento, nesse sentido, guarda estratos históricos que a superfície das fachadas não revela explicitamente.
Uma das séries apresentadas é construída sobre chapas de madeira com camadas de massa corrida sobrepostas em duas etapas. O desenho das grades — fruto de uma memória visual internalizada — é entalhado na superfície até revelar a cor subjacente. Quando o trabalho aposta na cor, destaca-se pela vibração óptica, transitando entre a estridência da Pop Art e o silêncio das superfícies opacas.
Além da individual de Brazil, o I Ciclo Expositivo inclui a mostra coletiva “O horror, o humor e o absurdo” (Galeria do Parque) e “Calendário”, de Felipe Rezende (Projeto 280X1020). O ciclo transita no limiar entre o real e o imaginário e articula a fabulação como instrumento indispensável para subverter as atuais configurações de mundo. Claudio Cretti afirma que este ciclo busca, através de diferentes linguagens, “tensionar os limites entre o concebível e o inconcebível, ressaltando o potencial da ficção para se pensar criticamente a realidade”.
Por fim, o programa de Performances será aberto no dia 28 de março de 2026, às 17h, pela performer e dançarina Maria Noujaim, com “Lago”. Através da transposição da mitologia em movimento, a artista explora os hibridismos entre animal e humano, tomando como ponto de partida o mito grego de Leda e o Cisne.
O I Ciclo Expositivo tem curadoria de Claudio Cretti e é uma idealização do Instituto de Cultura Contemporânea (ICCo) e foi realizado com recursos da Lei Rouanet, Ministério da Cultura, com patrocínio do banco BV, Laranjinha e Banco Itaú.
Serviço
Exposição | Badauê
De 28 de março a 28 de junho
Quarta a domingo, das 11h às 18h
Período
Local
Casa de Cultura do Parque
Av. Prof. Fonseca Rodrigues, 1300 - Alto de Pinheiros, São Paulo - SP, 05461-010
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A Nara Roesler São Paulo tem o prazer de apresentar Festa das falas. Com curadoria de Moacir dos Anjos, esta é a primeira exposição de um ciclo de mostras que
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A Nara Roesler São Paulo tem o prazer de apresentar Festa das falas. Com curadoria de Moacir dos Anjos, esta é a primeira exposição de um ciclo de mostras que celebra os 50 anos de atuação de Nara Roesler como galerista e que se estenderá pelos próximos meses nos três espaços da instituição, São Paulo, Rio de Janeiro e Nova York.
Em Festa das Falas, o curador reúne obras emblemáticas de artistas que pontuam o percurso de Nara Roesler desde 1976 até o momento. Apresentando obras de artistas “que provêm da mesma região de Nara, o Nordeste, em particular do Recife”, o curador, também nascido na capital de Pernambuco. Ele observa que “esta exposição busca resgatar uma forma de falar, uma inflexão nessa linguagem, nesse repertório, de artistas que independentemente de trazerem ou não referências visuais de um determinado território, fazem isso com certo jeito, uma afirmação de um pertencimento”. “Na fala de Nara, na voz de Nara, há esse sotaque, como há na minha fala também, e na fala de outros artistas que vêm dessa região”.
Além de obras provenientes do acervo da galeria, a mostra apresenta trabalhos oriundos de coleções particulares, como o raríssimo painel de cerâmica Sem título (1976), com quase oito metros de comprimento por dois de altura, de Francisco Brennand (11 de junho de 1927, Recife – 19 de dezembro de 2019, Recife), pouco visto pelo público. A presença de trabalhos de José Cláudio (1932, Ipojuca, Pernambuco – 2023, Recife) é marcante por ele ter sido o primeiro artista com que Nara Roesler trabalhou, antes de ter sua própria galeria, e em 2022 ganhou uma mostra retrospectiva com curadoria de Aracy Amaral, na Nara Roesler São Paulo.
Frequentador de exposições de arte contemporânea muito antes de se dedicar à área, Moacir dos Anjos conheceu Nara Roesler ainda nos anos 1980 e depois fez duas curadorias para a galeria. A primeira foi em 2013, Cães Sem Plumas [Prólogo] – na edição #24 do Roesler Hotel, projeto criado em 2002 para promover o diálogo entre as comunidades artísticas nacional e internacional, com curadores e artistas convidados a fazer experimentos no espaço da galeria em São Paulo. Em 2016, Moacir dos Anjos foi o curador de Deriva, individual de Cao Guimarães na Nara Roesler Nova York, e, no mesmo espaço, em 2022, da mostra Hotel Solidão, individual de Marcelo Silveira.
Sobre esta exposição agora, na Nara Roesler São Paulo, Moacir dos Anjos diz que “é como uma festa de falas”. “Estamos reunidos aqui ouvindo esses artistas, o modo deles estarem no mundo. É celebrar esse cinquentenário da atividade de Nara como galerista convocando essas vozes, convocando essas falas, convocando esses sotaques que foram tão importantes na formação dela e ainda hoje são importantes no fato dessa galeria ter algo que é diferente de outras”, salienta.
O curador lembra que há 50 anos a cena artística
Serviço
Exposição | Festa das falas
De 31 de março a 9 de maio
Segunda a sexta, das 10h às 19h, sábados, das 11h às 15h
Período
Local
Galeria Nara Roesler - SP
Avenida Europa, 655, São Paulo - SP
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Com curadoria de Ayrson Heráclito e Rodrigo Moura, a exposição Mestre Didi – invenção e ancestralidade na arte afro-brasileira, no Itaú Cultural, engloba todo o percurso do sacerdote-artista, evidenciando sua importância tanto
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Com curadoria de Ayrson Heráclito e Rodrigo Moura, a exposição Mestre Didi – invenção e ancestralidade na arte afro-brasileira, no Itaú Cultural, engloba todo o percurso do sacerdote-artista, evidenciando sua importância tanto para o alargamento dos horizontes do mundo das artes quanto para a evolução da luta contra o racismo.
Em sua trajetória, o baiano Mestre Didi (1917-2013) percorreu e distendeu os domínios das artes e da religiosidade. As muitas habilidades artísticas e artesanais de Didi lhe conferiram o lugar de mestre, assim como sua vocação e sua atuação religiosa o colocaram em cargos de destaque nos cultos. E é esse itinerário que ganha o Itaú Cultural (IC) no período de 8 de abril a 5 de julho de 2026.
Além das criações de Didi no campo das artes visuais, a individual aborda sua produção textual/literária e sua participação no desenvolvimento de relevantes organizações e eventos, no Brasil e em outros países, voltados para a pesquisa e a promoção das culturas africanas e afrodiaspóricas. O espaço expositivo também explora as conexões entre Didi e outros criadores, como o seu contemporâneo Abdias Nascimento – tema de mostra do projeto Ocupação Itaú Cultural em 2016.
No dia 7 de abril, às 19h, acontece a abertura de Mestre Didi – invenção e ancestralidade na arte afro-brasileira. Para celebrar esse momento, o terreiro Ilê Asipá apresenta Oro Ojés, cerimônia tradicional realizada em todas as festividades do espaço fundado pelo próprio Didi, em Salvador.
Serviço
Exposição | Mestre Didi – invenção e ancestralidade na arte afro-brasileira
De 8 de abril a 5 de julho
Terça a sábado, das 11h às 20h, domingos e feriados, das 11h às 19h
Pisos 1, -1 e -2
Período
Local
Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149, Sâo Paulo - SP
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Delírio Tropical – Recanto apresenta um amplo panorama da produção visual brasileira contemporânea, no Sesc Pinheiros, reunindo cerca de 280 obras de aproximadamente 130 artistas de todas as regiões do
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Delírio Tropical – Recanto apresenta um amplo panorama da produção visual brasileira contemporânea, no Sesc Pinheiros, reunindo cerca de 280 obras de aproximadamente 130 artistas de todas as regiões do país. Com curadoria de Orlando Maneschy e curadoria adjunta de Keyla Sobral, a mostra propõe um percurso imersivo por diferentes modos de imaginar o Brasil, articulando imagens históricas e produções contemporâneas em torno de temas como identidade, memória, território, gênero e meio ambiente.
A exposição reúne distintas linguagens como fotografia, vídeo, pintura, escultura, cartazes, publicações, objetos e instalações, em uma narrativa que investiga o papel das imagens na construção do imaginário brasileiro. O conjunto inclui obras de artistas como Anna Maria Maiolino, Ayrson Heráclito, Cildo Meireles, Claudia Andujar, Dalton Paula, Denilson Baniwa, Rosângela Rennó e Karim Aïnouz, entre outros.
Ao reunir artistas comprometidos com seus territórios e modos de existência, a mostra coloca em diálogo perspectivas indígenas, negras, LGBTQIAPN+ e outras vozes fundamentais da arte contemporânea brasileira, propondo reflexões sobre as disputas simbólicas, os afetos, as violências e as formas de resistência que atravessam o país.
Originalmente apresentada na Pinacoteca do Ceará, como parte do Fotofestival Solar, a exposição chega ao Sesc Pinheiros em versão adaptada ao espaço expositivo da unidade, com nova expografia e obra inédita de Keyla Sobral.
A programação inclui ainda visitas mediadas, ações educativas e atividades formativas, ampliando as possibilidades de aproximação do público com a mostra
Serviço
Exposição | Delírio Tropical – Recanto
De 6 de maio a 13 de outubro
Terça a sábado, das 10h30 às 21h, domingos e feriados, das 10h30 às 18h
Período
Local
Sesc Pinheiros
Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, São Paulo - SP
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O MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand exibe Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo. A mostra reúne 25 trabalhos que contemplam a produção artística de Claudia
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O MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand exibe Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo. A mostra reúne 25 trabalhos que contemplam a produção artística de Claudia Alarcón (La Puntana, Argentina, 1989) & Silät, coletivo formado por mais de cem tecedeiras do povo Wichí. Com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico, MASP, e Laura Cosendey, curadora assistente, MASP, a exposição marca a estreia da artista e do grupo em um museu brasileiro.
As obras são produzidas com fios de chaguar, uma bromélia de fibras resilientes nativa do clima semiárido do Gran Chaco, maior bioma da América Latina depois da Amazônia, que ocupa as regiões norte e nordeste da Argentina, chegando até o Paraguai. A preparação do chaguar e a técnica de entrelaçar os fios com as mãos, sem o uso de um tear, provêm da confecção das bolsas yicas, objeto central para a cultura wichí. Tradicionalmente, a yica tem formato quadrado, com padrões geométricos que representam a flora e a fauna de seu território, remetendo a temas como orelhas de tatu, olhos de coruja e cascos de tartaruga. Embora seja o ponto de partida do trabalho de Alarcón & Silät, suas obras transcendem esse repertório tradicional. A partir de oficinas que propunham pensar novos formatos para as bolsas yicas, o coletivo Silät se organizou em 2023, passando a produzir tecidos dentro do contexto artístico.
Historicamente, os têxteis produzidos pelos Wichí tinham tons terrosos, avermelhados e azuis acinzentados, mas as artistas passaram a adicionar cores mais intensas com anilinas no processo de preparação dos fios, chegando a matizes exuberantes de tons laranja e fúcsia, por exemplo. Outra importante inovação do trabalho de Alarcón & Silät está no próprio processo de produção dos tecidos: enquanto tradicionalmente as mulheres sempre teceram individualmente, as integrantes do Silät desenvolveram métodos para que várias integrantes pudessem trabalhar simultaneamente em uma mesma peça ou dar continuidade ao trabalho de outra tecedeira.
A mitologia do povo Wichí também compõe os trabalhos de Alarcón & Silät. Em Kates tsinhay — Mujeres estrellas [Mulheres-estrelas], 2023, Claudia Alarcón evoca o mito das mulheres-estrelas. A crença narra que as mulheres eram estrelas no céu e desciam à Terra todas as noites por fios de chaguar que elas mesmas haviam tecido. Vinham se alimentar, roubando os peixes que os homens pescavam. Quando os homens descobriram, cortaram esses fios e as mulheres ficaram na Terra. Essa obra e outras inspiradas por esse enredo simbólico mesclam as geometrias ancestrais com elementos figurativos para delinear estrelas, luas, astros e céus estrelados.
“Recupero lendas e histórias do nosso povo, sinto que tem muito trabalho a ser revivido. Penso em como recuperar isso, porque é algo que talvez não possa ser dito oralmente, não podemos gritar isso. Mas o tecido também fala. Há quem possa entender ou sentir isso no tecido. Eu me dei conta de que, embora teçamos em silêncio, tudo está dito no tecido”, comenta Alarcón.
Os wichís chamam seu território de tayhi e o consideram parte fundamental da identidade, tendo uma dimensão espiritual e simbólica. Em espanhol, o nome para a região é monte. Porém, ainda que o nome remeta a montanhas, o relevo local é majoritariamente plano. A experiência cotidiana, o vento, o dia, o entardecer, a noite, as constelações e muitos outros elementos da vivência no monte estão presentes nas cores, formas orgânicas e geométricas dos trabalhos de Alarcón & Silät. O olhar sensível das tecedeiras para os ciclos naturais retrata na abstração Kyelhkyup — El otoño [Outono], 2023, da coleção do MASP, as mudanças de tons, texturas e luz durante a passagem das estações no monte.
Tecer em conjunto, somado às inovações implementadas, possibilitou a elaboração de composições têxteis que trazem uma multiplicidade de vozes e cores, articulando padrões tradicionais com um repertório visual e poético contemporâneo. “Os tecidos tornaram-se bandeiras de luta, estandartes que portam mensagens, histórias, e dão vozes às mulheres da comunidade”, afirma Laura Cosendey.
Tanto a singularidade das artistas quanto a dimensão do coletivo são demonstradas na instalação Hilulis ta llhaiematwek — Un coro de yicas [Um coro de yicas] (2024-25), que reúne mais de cem bolsas, cada uma delas produzida por uma integrante do grupo. As escolhas pessoais de cor e padrão são destacadas quando os trabalhos são exibidos lado a lado, enquanto a apresentação em conjunto reforça o caráter político da articulação do coletivo, que possibilitou criticar questões como a desvalorização do saber ancestral e a precarização do trabalho das tecedeiras.
Na exposição, as obras são apresentadas em molduras ou em estruturas verticais de madeira, que remetem à maneira como esses tecidos são produzidos e, ocasionalmente, apresentados na comunidade onde vivem as tecedeiras. O conjunto N’äyhay wet layikis — Caminos y cicatrizes [Caminhos e cicatrizes] é um dos trabalhos exibidos nesse suporte expográfico proposto pelo MASP. A composição têxtil foi pensada pelo coletivo, em 2025, para o Nove de Julho, dia em que se comemora a independência da Argentina. A criação artística foi tecida pelas mulheres para denunciar a repressão violenta cometida ao longo do tempo pelo Estado argentino contra populações indígenas.
Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo integra a programação anual do MASP dedicada às Histórias latino-americanas. A agenda do ano também inclui mostras de La Chola Poblete, Sandra Gamarra Heshiki, Santiago Yahuarcani, Colectivo Acciones de Arte, Damián Ortega, Sol Calero, Carolina Caycedo, Pablo Delano, Rosa Elena Curruchich, Manuel Herreros e Mateo Manaure, Jesús Soto e uma exposição coletiva internacional.
Serviço
Exposição | Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo
De 06 de março a 02 de agosto
Terças grátis, das 10h às 20h (entrada até as 19h); quarta e quinta das 10h às 18h (entrada até as 17h); sexta das 10h às 21h (entrada gratuita das 18h às 20h30); sábado e domingo, das 10h às 18h (entrada até as 17h); fechado às segundas.
Agendamento on-line obrigatório pelo link masp.org.br/ingressos
Período
Local
MASP
Avenida Paulista, 1578, São Paulo
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A DAN Galeria inaugura a exposição Máscaras, Ivald Granato – Quem é você?, com curadoria de Maria Alice Milliet. A mostra inédita reúne um conjunto de pinturas realizadas por Granato
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A DAN Galeria inaugura a exposição Máscaras, Ivald Granato – Quem é você?, com curadoria de Maria Alice Milliet. A mostra inédita reúne um conjunto de pinturas realizadas por Granato no fim da década de 1990 e as coloca em diálogo com máscaras africanas preservadas nas coleções de Christian-Jack Heymès e da família Mastrobuono. A abertura acontece em São Paulo e se conecta à agenda da 22º edição da SP-Arte.
A exposição parte de um dado central para a leitura da trajetória de Ivald Granato. Durante décadas, sua presença pública, suas ações performáticas e sua energia irreverente ocuparam lugar decisivo na recepção de sua obra. Esse aspecto é incontornável, mas não a resume.
Granato foi também um pintor de grande domínio técnico, um desenhista excepcional e um conhecedor profundo da história da arte. Transitava entre linguagens e repertórios com intimidade rara, não para repetir estilos, mas para tensioná-los a partir de uma inteligência visual muito própria. Maria Alice Milliet lembra que, ao chegar à maturidade, depois de mais de três décadas de exposições, premiações e reconhecimento, Granato já ocupava um lugar de destaque na cena artística brasileira. Talentoso desenhista e pintor, havia atravessado os “ismos” e a Pop Art em estreita sintonia com seu tempo.
Essa mostra ajuda a recolocar esse ponto em evidência, situando-o como parte de uma investigação consistente, em que pintura, memória, teatralidade e identidade se entrelaçam. No fim dos anos 1990, Granato se afasta, por um momento, do embate mais imediato com a contemporaneidade e volta o olhar para dimensões profundas de sua própria formação. É desse movimento que nasce a série ligada às máscaras. Segundo a curadora, essa passagem corresponde a uma inflexão em sua carreira, quando o artista procura valores ligados ao passado, à ancestralidade e à memória cultural brasileira. Em 1998, Granato realiza uma série de pinturas sobre papel chamada The Mask. Na sequência, desenvolve obras de maior fôlego reunidas sob o título Quem é você – The Mask. Para o artista, essas máscaras eram anotações visuais de rostos que povoavam seu imaginário.
Ao tratar dessa produção, Maria Alice Milliet desloca a leitura habitual que costuma aproximar esse tipo de repertório apenas da tradição europeia do moderno. No caso de Granato, ela está ligada à busca de raízes culturais e ao desejo de afirmação identitária. A curadora recupera sua origem miscigenada, com ascendência negra e indígena, e inscreve essa série num campo de pertencimento, reconhecimento simbólico e reverência, marcado por uma aproximação que nasce de dentro. Esse aspecto é decisivo para a compreensão da mostra. A ancestralidade africana aparece como força estrutural na cultura brasileira e como chave para reler uma parte importante de sua obra.
Milliet observa que, depois de uma primeira incursão em figuras mais próximas de um universo popular e carnavalesco, Granato volta-se para as máscaras tribais. Na série cuja pergunta organiza o título da exposição, vemos uma sucessão de caras estranhas emergirem de fundos escuros, em composições que condensam intensidade gráfica, energia cromática e forte carga simbólica. A representação tem, nesse conjunto, um peso particular. Ela é figura de passagem, condensação de gesto, invenção de persona e presença ritual. Dez anos após sua morte, Máscaras, Ivald Granato – Quem é você? nos faz compreender com mais nitidez a complexidade do artista.
Serviço
Exposição | Máscaras, Ivald Granato – Quem é você?
De 28 de março a 25 de junho
Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira das 10:00h às 19:00h, sábados das 10h às 13h
Período
Local
DAN Galeria
Rua Estados Unidos, 1638 01427-002 São Paulo - SP
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A Casa de Cultura do Parque apresenta a exposição “Badauê”, de Andrea Brazil (Gabinete), como parte de seu I Ciclo Expositivo. Com curadoria de Claudio Cretti, diretor artístico da Casa,
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A Casa de Cultura do Parque apresenta a exposição “Badauê”, de Andrea Brazil (Gabinete), como parte de seu I Ciclo Expositivo. Com curadoria de Claudio Cretti, diretor artístico da Casa, e texto de Ana Avelar, a mostra reúne trabalhos marcados pela geometrização e a reconfiguração visual da arquitetura vernacular.
A trajetória de Andrea Brazil (São Paulo, 1972) entre Salvador e a Ilha de Itaparica, no Recôncavo Baiano, fundamenta sua visualidade funcional. A artista cresceu em contato com uma arquitetura litorânea marcada por intervenções anônimas – feitas com cacos de telha e sobras de material – que configuram o que ela chama de “desenho no espaço”.
Nesse processo, fachadas de casas e estabelecimentos, grades e outros elementos urbanos, se reorganizam como linhas, cores e vazios. “Trata-se de uma produção coletiva e vernacular que condensa história, clima, técnica e desejo estético em um mesmo gesto construtivo”, afirma Avelar.
O olhar de Brazil para a arquitetura vernacular de sua infância se aprofundou durante uma viagem à região do Algarve, em Portugal. Lá, a influência moura, reconhecível nos cantos arredondados e padrões geométricos, ressoou com o que a artista conhecia da Bahia.
Para Avelar, a conexão não é casual: Brazil observa que os negros malês, protagonistas da revolta de 1835 em Salvador, eram em sua maioria de origem muçulmana e portadores de uma tradição visual que se infiltrou na cultura material da cidade. O ornamento, nesse sentido, guarda estratos históricos que a superfície das fachadas não revela explicitamente.
Uma das séries apresentadas é construída sobre chapas de madeira com camadas de massa corrida sobrepostas em duas etapas. O desenho das grades — fruto de uma memória visual internalizada — é entalhado na superfície até revelar a cor subjacente. Quando o trabalho aposta na cor, destaca-se pela vibração óptica, transitando entre a estridência da Pop Art e o silêncio das superfícies opacas.
Além da individual de Brazil, o I Ciclo Expositivo inclui a mostra coletiva “O horror, o humor e o absurdo” (Galeria do Parque) e “Calendário”, de Felipe Rezende (Projeto 280X1020). O ciclo transita no limiar entre o real e o imaginário e articula a fabulação como instrumento indispensável para subverter as atuais configurações de mundo. Claudio Cretti afirma que este ciclo busca, através de diferentes linguagens, “tensionar os limites entre o concebível e o inconcebível, ressaltando o potencial da ficção para se pensar criticamente a realidade”.
Por fim, o programa de Performances será aberto no dia 28 de março de 2026, às 17h, pela performer e dançarina Maria Noujaim, com “Lago”. Através da transposição da mitologia em movimento, a artista explora os hibridismos entre animal e humano, tomando como ponto de partida o mito grego de Leda e o Cisne.
O I Ciclo Expositivo tem curadoria de Claudio Cretti e é uma idealização do Instituto de Cultura Contemporânea (ICCo) e foi realizado com recursos da Lei Rouanet, Ministério da Cultura, com patrocínio do banco BV, Laranjinha e Banco Itaú.
Serviço
Exposição | Badauê
De 28 de março a 28 de junho
Quarta a domingo, das 11h às 18h
Período
Local
Casa de Cultura do Parque
Av. Prof. Fonseca Rodrigues, 1300 - Alto de Pinheiros, São Paulo - SP, 05461-010
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Com curadoria de Ayrson Heráclito e Rodrigo Moura, a exposição Mestre Didi – invenção e ancestralidade na arte afro-brasileira, no Itaú Cultural, engloba todo o percurso do sacerdote-artista, evidenciando sua importância tanto
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Com curadoria de Ayrson Heráclito e Rodrigo Moura, a exposição Mestre Didi – invenção e ancestralidade na arte afro-brasileira, no Itaú Cultural, engloba todo o percurso do sacerdote-artista, evidenciando sua importância tanto para o alargamento dos horizontes do mundo das artes quanto para a evolução da luta contra o racismo.
Em sua trajetória, o baiano Mestre Didi (1917-2013) percorreu e distendeu os domínios das artes e da religiosidade. As muitas habilidades artísticas e artesanais de Didi lhe conferiram o lugar de mestre, assim como sua vocação e sua atuação religiosa o colocaram em cargos de destaque nos cultos. E é esse itinerário que ganha o Itaú Cultural (IC) no período de 8 de abril a 5 de julho de 2026.
Além das criações de Didi no campo das artes visuais, a individual aborda sua produção textual/literária e sua participação no desenvolvimento de relevantes organizações e eventos, no Brasil e em outros países, voltados para a pesquisa e a promoção das culturas africanas e afrodiaspóricas. O espaço expositivo também explora as conexões entre Didi e outros criadores, como o seu contemporâneo Abdias Nascimento – tema de mostra do projeto Ocupação Itaú Cultural em 2016.
No dia 7 de abril, às 19h, acontece a abertura de Mestre Didi – invenção e ancestralidade na arte afro-brasileira. Para celebrar esse momento, o terreiro Ilê Asipá apresenta Oro Ojés, cerimônia tradicional realizada em todas as festividades do espaço fundado pelo próprio Didi, em Salvador.
Serviço
Exposição | Mestre Didi – invenção e ancestralidade na arte afro-brasileira
De 8 de abril a 5 de julho
Terça a sábado, das 11h às 20h, domingos e feriados, das 11h às 19h
Pisos 1, -1 e -2
Período
Local
Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149, Sâo Paulo - SP
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Delírio Tropical – Recanto apresenta um amplo panorama da produção visual brasileira contemporânea, no Sesc Pinheiros, reunindo cerca de 280 obras de aproximadamente 130 artistas de todas as regiões do
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Delírio Tropical – Recanto apresenta um amplo panorama da produção visual brasileira contemporânea, no Sesc Pinheiros, reunindo cerca de 280 obras de aproximadamente 130 artistas de todas as regiões do país. Com curadoria de Orlando Maneschy e curadoria adjunta de Keyla Sobral, a mostra propõe um percurso imersivo por diferentes modos de imaginar o Brasil, articulando imagens históricas e produções contemporâneas em torno de temas como identidade, memória, território, gênero e meio ambiente.
A exposição reúne distintas linguagens como fotografia, vídeo, pintura, escultura, cartazes, publicações, objetos e instalações, em uma narrativa que investiga o papel das imagens na construção do imaginário brasileiro. O conjunto inclui obras de artistas como Anna Maria Maiolino, Ayrson Heráclito, Cildo Meireles, Claudia Andujar, Dalton Paula, Denilson Baniwa, Rosângela Rennó e Karim Aïnouz, entre outros.
Ao reunir artistas comprometidos com seus territórios e modos de existência, a mostra coloca em diálogo perspectivas indígenas, negras, LGBTQIAPN+ e outras vozes fundamentais da arte contemporânea brasileira, propondo reflexões sobre as disputas simbólicas, os afetos, as violências e as formas de resistência que atravessam o país.
Originalmente apresentada na Pinacoteca do Ceará, como parte do Fotofestival Solar, a exposição chega ao Sesc Pinheiros em versão adaptada ao espaço expositivo da unidade, com nova expografia e obra inédita de Keyla Sobral.
A programação inclui ainda visitas mediadas, ações educativas e atividades formativas, ampliando as possibilidades de aproximação do público com a mostra
Serviço
Exposição | Delírio Tropical – Recanto
De 6 de maio a 13 de outubro
Terça a sábado, das 10h30 às 21h, domingos e feriados, das 10h30 às 18h
Período
Local
Sesc Pinheiros
Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, São Paulo - SP





