Série Momentos, 2017

As obras que Nazareth Pachecho reúne em sua nova exposição na Galeria Kogan Amaro, em São Paulo, talvez sejam os objetos mais afetivos que a artista produziu em sua carreira. É que durante esse processo, e especialmente nos últimos cinco anos, muito aconteceu em sua vida privada que a fez se voltar intimamente para a criação.

Em entrevista à ARTE!Brasileiros, a artista conta que no período em questão seus pais adoeceram. A mãe enfrentou um câncer no pulmão e veio a falecer algum tempo depois. Nos meses seguintes, foi a vez da família voltar a atenção aos cuidados do pai, que foi diagnosticado com o mesmo câncer. “Durante todo esse período teve todo um momento de, além do luto, de dedicação aos dois durante o tratamento. Eu fiquei mais voltada ao meu trabalho e a me dedicar a eles. Com o falecimento de ambos, me voltei mais pra mim, num processo mais íntimo e respeitando o meu momento de luto”, ela diz.

Enquanto desmontava a casa onde os pais moravam, Nazareth encontrou pertences dos dois que a interessaram como materiais para o seu trabalho, como instrumentos de trabalho do pai médico e camisolas da mãe. Esses objetos foram transformados por ela em obras que compõem a exposição. Os já citados foram convertidos na série Dele e na obra Vida.

Nascida em 1961, a artista encarou ao longo de seu crescimento uma doença congênita que afetou a formação de seu corpo. Sua vida foi marcada por uma série de cirurgias ditas “corretivas”. Uns três meses após o pai falecer, ela conta, Nazareth começou a ter um problema em um pé, no qual tinha feito uma cirurgia aos 16 anos de idade: “Toda uma história do corpo foi voltando, que eu tinha tratado desde que eu nasci. Mas antigamente quem se responsabilizava por isso eram os meus pais. Dessa vez eles não estavam mais aqui e eu que estive que estar à frente disso”.

Nazareth teve que se submeter a cirurgias ortopédicas, reparadoras, semelhantes às quais passou quando era criança, mas decidiu também que gostaria de fazer cirurgias estéticas, as quais registrou na série de retratos Momentos. Ter um cuidado com o corpo, ela diz, foi uma forma também de superar o luto: “Isso eu acho que estava ligado a uma luta dos meus pais sempre pela possibilidade de melhora quando se tratava das questões do meu corpo”. Nesse ponto, ela também se debruça sobre as questões do feminino: “Eu estava em uma fase da minha vida, hoje estou com 57 anos, passando por um momento da mulher, da menopausa, que começa a ter a queda de hormônios”.

Em Registros/Records, ela retoma muito daquilo que já havia tratado nos anos 90, vinculado aos tempos em que teve que lidar com o corpo. Se em 1993 ela apresentou a instalação Objetos Aprisionados, com caixas que traziam medicamentos, bulas, radiografias, dentre outras coisas, hoje ela exibe a obra Embala, na qual monta um quadro de colagens de caixas de remédios, e a instalação Registros, onde Nazareth esculpe uma espécie de cachoeira com recortes de radiografias de seus pais.

Apesar de toda a carga pessoal das obras, a artista aponta o cuidado para que cada uma das peças pudessem ter um significado próprio, uma história própria. “Independente dessa minha história os trabalhos precisam se sustentar formalmente”. Neles, portanto, ela buscou enfatizar questões do indivíduo em si, passando por questões de gênero e de inclusão.

É desta forma autobiográfica que ela revisita não só a sua história familiar, mas também toda a sua trajetória como artista. Isso se torna ainda mais concreto com o lançamento do livro contendo seus trabalhos, lançado na abertura do evento. A edição organizada por Regina Teixeira da Costa e construída junto a várias pessoas que rodearam a artista ao longo dos anos possui textos críticos de vários nomes da arte brasileira publicados em outras ocasiões, como Marcus Lontra, Moacir dos Anjos e Tadeu Chiarelli, além de alguns inéditos, como de Cauê Alves.

Além disso, a publicação traz páginas que apresentam uma vasta cronologia da vida de Nazareth, ilustradas com fotos da família, de obras, de residências, dentre outras passagens. Na apresentação, Regina enfatiza que Nazareth ao longo de seus trinta anos de carreira criou obras nas “ao contrário de seus pares, não se preocupou em inserir nesses objetos a expressividade individual de seu gesto, criando trabalhos isentos de romantismo personalista”.


Nazareth PachecoRegistros/Records
Galeria Kogan Amaro
Até 15 de junho

Nazareth Pacheco – Nazareth Pacheco
Allucci & Associados  Apoio Fundação Marcos Amaro -FMA                                                  Org. Regina Teixeira de Barros
R$100
216 Páginas

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