Claudia Afonso, Diretora do Museu Vale
Claudia Afonso, Diretora do Museu Vale

Por Giuliano de Miranda

Com a nova sede em construção no Porto de Vitória, o Museu Vale mantém sua programação por meio de uma atuação extramuros que alcança parques, escolas, praças e instituições parceiras em diferentes regiões do Espírito Santo. Esse período ampliou a circulação das atividades, fortaleceu parcerias e aproximou a instituição de comunidades que nem sempre frequentam espaços museológicos.

As últimas exposições promovidas pelo museu receberam mais de 258 mil visitantes. O resultado reúne projetos dedicados à arte contemporânea, às culturas afrodiaspóricas e indígenas, à literatura, à ciência, à memória e ao patrimônio. Além dos números, a instituição considera a diversidade dos públicos, o alcance territorial, a participação de escolas e a adesão às ações educativas como critérios para avaliar cada iniciativa.

A principal atividade em cartaz é IMAGINALIVRE!, dedicada à trajetória do coletivo carioca OPAVIVARÁ!. Instalações, vídeos e dispositivos relacionais ocupam a Galeria Gabinete, no Parque Cultural Casa do Governador, em Vila Velha, o Parque Botânico Vale e o Parque Costeiro, em Vitória. A mostra reúne trabalhos de diferentes períodos e uma nova obra, Colagem dos tempos, uma linha do tempo produzida no local para apresentar a história do coletivo  por meio de exposições realizadas no Brasil e no exterior. O conjunto propõe experiências compartilhadas, nas quais corpo, convivência e participação se tornam elementos constitutivos da criação artística.

Paralelamente à programação, o Museu Vale implanta sua futura sede no Armazém 4 e no edifício anexo, no Porto de Vitória. O projeto reunirá exposições temporárias, acervo ferroviário, atividades educativas, residências artísticas, auditório, biblioteca e o Centro de Memória da Estrada de Ferro Vitória a Minas.

Em entrevista à ARTE!Brasileiros, a diretora Claudia Afonso aborda a circulação do museu pelo território capixaba, a concepção de IMAGINALIVRE!, as políticas de acessibilidade e os planos para o novo espaço.

Cultura em circulação

ARTE!Brasileiros: Durante o período extramuros, o Museu Vale passou a ocupar parques, escolas, praças e instituições parceiras. O que essa circulação modificou na relação com os diferentes territórios e públicos do Espírito Santo?

Claudia Afonso: Esse período tem sido um grande desafio e, simultaneamente, uma oportunidade de ampliar nossa presença no território, fortalecendo o diálogo com públicos, comunidades, escolas e instituições parceiras em diferentes regiões do Espírito Santo.

Ao ocupar parques, praças, escolas e outros espaços culturais, desenvolvemos novas formas de atuação e construímos relações próximas com pessoas que talvez não tivessem o costume de frequentar museus regularmente. A circulação ampliou também nossa escuta e trouxe aprendizados importantes sobre acessibilidade, formação de públicos e trabalho em rede.

Fortalecemos parcerias fundamentais e criamos conexões que continuam gerando desdobramentos. Trata-se de um legado construído nos últimos anos e que seguirá conosco. Vejo esse percurso como um processo de aprendizagem e expansão, responsável por reafirmar a importância de manter o museu conectado às pessoas e às diferentes realidades do estado.

A!B: As últimas exposições promovidas pelo Museu Vale reuniram mais de 258 mil visitantes. Além do número de público, quais critérios permitem avaliar o alcance cultural, educativo e social dessas iniciativas?

CA: Receber muitos visitantes sempre constitui motivo de satisfação, mas observamos outros aspectos capazes de demonstrar o impacto das ações realizadas. Consideramos a diversidade dos públicos alcançados, a participação de escolas e grupos organizados, a adesão às atividades educativas, o alcance territorial das iniciativas e a qualidade das parcerias construídas em cada projeto.

Buscamos ainda ouvir quem participa, interessa-nos muito compreender como as pessoas vivenciam a visita, quais reflexões surgem desse contato e de que maneira a atividade contribui para aproximá-las da arte e da cultura. Tal escuta orienta novas propostas para a programação do museu e é importante para criar vínculos, gerar aprendizado, estimular a participação cultural e fortalecer a presença da arte na vida das pessoas, especialmente dos capixabas.

IMAGINALIVRE! e a participação do público

IMAGINALIVRE! 2026. Foto: Felipe Amarelo

A!B: IMAGINALIVRE! reúne obras de diferentes momentos dos mais de 20 anos do OPAVIVARÁ!. Quais critérios orientaram a seleção e a concepção da exposição para o Espírito Santo?

CA: O convite para realizar IMAGINALIVRE! partiu da celebração dos mais de 20 anos de atuação do OPAVIVARÁ!, um marco raro na trajetória de um coletivo artístico e uma oportunidade especial de comemorar, no Espírito Santo, a permanência e a atualidade de uma produção construída ao longo de mais de duas décadas. A meu ver, a produção do coletivo é uma das mais interessantes e importantes da cena artística. Desde o princípio, a curadoria foi feita coletivamente, em diálogo com os artistas e em consonância com o modo de produção do OPAVIVARÁ!, constituído por encontros, trocas, escutas e construção compartilhada. A seleção apresenta trabalhos de diferentes períodos, revelando continuidades e deslocamentos.

IMAGINALIVRE! 2026. Foto: Felipe Amarelo.

O projeto inclui uma nova obra, Colagem dos tempos, linha do tempo feita in loco que narra a história do grupo principalmente por meio de suas exposições no Brasil e no exterior. Ao trazer a mostra para o Espírito Santo, procuramos estabelecer uma conversa sensível com o território e com o momento atual do Museu Vale. Os trabalhos escolhidos aproximam-se de aspectos presentes na vida capixaba, entre eles a paisagem, o litoral, os espaços públicos, a convivência e a vida ao ar livre, mas também de uma questão que nos parece especialmente importante hoje: como recuperar a proximidade entre os corpos, as pessoas e os lugares que vivenciamos.

A!B: As obras dependem do toque, da presença e da participação dos visitantes. Como o trabalho educativo prepara o público para compreender seu papel na construção da experiência artística?

CA: A elaboração do trabalho educativo começou pelo diálogo com o OPAVIVARÁ!. Procuramos compreender a natureza das obras, suas intenções e os modos de interação para definir como acolher e convidar os públicos. Pensamos a mediação quase como uma não mediação. Os próprios trabalhos fazem um convite muito direto à presença, ao toque e ao encontro, despertam curiosidade e vontade de experimentar antes de qualquer explicação. Em vez de conduzir, o educativo procura estar disponível e próximo, acompanhando, escutando e abrindo espaço para que cada visitante descubra a exposição à sua maneira.

Essa prática ocorre pela presença, pela escuta e pela multiplicidade de trajetórias. Cada pessoa chega com repertórios e memórias, enquanto as obras permitem o encontro dessas experiências.

A!B:O que motivou a distribuição da exposição entre a Galeria Gabinete, o Parque Botânico Vale e o Parque Costeiro Vale?

CA: A implantação em diferentes espaços está alinhada à atuação extramuros do Museu Vale. Temos buscado ampliar o acesso à cultura e criar oportunidades para que a arte encontre as pessoas em vários territórios e contextos. Cada local oferece possibilidades próprias de relação com as obras. Na Galeria Gabinete, no Parque Cultural Casa do Governador, o visitante conhece um conjunto amplo da produção do OPAVIVARÁ!, incluindo instalações, vídeos e dispositivos relacionais que ajudam a compreender a trajetória do coletivo.

A escolha desse importante espaço cultural do Espírito Santo ganha sentido também pela presença de Magic Square #3, de Hélio Oiticica, referência para o OPAVIVARÁ! e para um movimento da arte brasileira que deslocou a experiência artística do campo da contemplação para o da participação, do corpo e da relação.

Nos parques Botânico Vale e Costeiro, os trabalhos estabelecem um diálogo mais direto com a paisagem, a natureza e a experiência ao ar livre.

Essa circulação reforça algo comum ao OPAVIVARÁ! e ao Museu Vale: a arte acontece nos deslocamentos, nas ruas, de maneira ambulante e compartilhada, nos espaços mais múltiplos que as cidades podem nos oferecer.

A!B: Trabalhos como Karaokente, Fonte de Refrescos e Saia Como aproximam arte, cozinha, música, corpo, cores e sabores. Como referências cotidianas favorecem o contato de diferentes públicos com a produção contemporânea?

CA: O deslocamento de usos e sentidos desperta primeiro a curiosidade e, para aqueles que se permitem, o desejo de experimentar. Um fogão vira karaokê, uma saia surge de talheres e uma instalação envolve cores e sabores. Nesse ponto, o OPAVIVARÁ! dissolve parte da seriedade e do distanciamento que muitas vezes cercam a arte, principalmente em ambientes institucionais.

As obras funcionam como dispositivos para a invenção, criando diferentes coreografias e possibilidades de participação. Cada pessoa entra por um caminho, a partir do seu próprio repertório, e pode descobrir novos sentidos para aquilo que, até então, parecia absolutamente familiar e cotidiano.

A!B: De que maneira Sistemar e Rede Social articulam participação, ludicidade e reflexão ambiental?

CA: As duas obras abordam questões que surgem durante sua ativação. Em Rede Social, o convite à pausa, à permanência e à convivência direciona o olhar para a qualidade das relações estabelecidas entre nós e nosso entorno. Sistemar, por sua vez, transforma referências aos resíduos plásticos e aos oceanos em uma experiência coletiva, sonora e festiva.

Criada em referência ao Great Pacific Garbage Patch, grande área de plástico flutuante acumulado no norte do Oceano Pacífico, Sistemar torna evidente a preocupação com o presente e o futuro do meio ambiente. O trabalho alude ainda a Divisor, uma das obras mais emblemáticas de Lygia Pape. O plástico, a paisagem sonora evocativa do mar e a participação fazem com que questões ambientais e mudanças climáticas atravessem a vivência de modo sensível, sem se sobrepor a outras leituras possíveis.

IMAGINALIVRE! 2026. Foto: Felipe Amarelo.

Acredito que um dos aspectos mais brilhantes do OPAVIVARÁ! esteja justamente nessa capacidade de abordar questões complexas, suas tensões e até mesmo formas de protesto, por meio de experiências acessíveis, irreverentes e festivas. A participação não é apenas um recurso para aproximar o público, mas uma forma de produzir pensamento e abrir outras possibilidades de relação com aquilo que nos cerca.

A!B: Como crianças, estudantes, famílias, idosos e pessoas com deficiência poderão participar das experiências propostas pela exposição?

CA: Em IMAGINALIVRE!, o trabalho educativo acontece sobretudo pela presença e pela escuta. A própria produção do OPAVIVARÁ! oferece tal possibilidade. As obras convidam ao movimento, à interação e ao uso dos sentidos, criando formas de participação para pessoas de idades e repertórios variados. Assim como ocorre nas demais programações, pensamos uma exposição capaz de acolher crianças, estudantes, famílias, idosos e pessoas com deficiência, respeitando especificidades e interesses de cada grupo.

Um exemplo dessa prática integra a programação da 20ª Primavera dos Museus, entre 22 e 25 de setembro. A partir de IMAGINALIVRE!, serão desenvolvidas atividades para diferentes públicos, incluindo visitas mediadas com intérprete de Libras, ações destinadas a pessoas cegas ou com baixa visão, experiências sensoriais para bebês acompanhados dos responsáveis e uma visita adaptada a pessoas neuroatípicas. Essas iniciativas refletem a preocupação permanente em ampliar o acesso, criando condições para uma participação cultural acolhedora e significativa.

Quem tem medo de bicho pau, 2026, Museu Vale. Foto: Felipe Amarelo

A nova sede no Porto de Vitória

A!B: Em que etapa se encontram as obras da nova sede do Museu Vale e qual é a previsão atualizada para a abertura ao público?

CA: As obras estão em andamento, e a data de inauguração permanece em definição. Enquanto isso, a atuação extramuros permitiu ampliar nossa presença no território capixaba por intermédio de instituições parceiras, reafirmando o compromisso com a democratização do acesso à arte e à cultura.

As últimas mostras desenvolvidas receberam mais de 258 mil visitantes. Entre elas estão Línguas Africanas que fazem o Brasil, Quebra-mapa, Quem Tem Medo de Bicho-Pau?, Vidas em Cordel, Transitar o Tempo, Folhear, O Extraordinário Universo de Leonardo da Vinci, Memórias do Futuro: Um olhar sobre a coleção do IHGB e De onde surgem os sonhos: Coleção Andrea e José Olympio Pereira.

Línguas Africanas que fazem o Brasil, 2026, Museu Vale em parceria com o Museu da Lingua Portuguesa. Foto: Felipe Amarelo.

O Museu Vale será instalado no Armazém 4 e no prédio anexo, ocupando uma área total de 3,9 mil metros quadrados no Porto de Vitória. Cerca de 850 metros quadrados do armazém serão destinados a exposições temporárias. Dois dos cinco andares do edifício receberão a mostra de longa duração formada pelo acervo histórico da Estrada de Ferro Vitória a Minas. O projeto prevê uma sala para o programa educativo, áreas de ateliê e residências artísticas, auditório e biblioteca, além de abrigar o Centro de Memória da Estrada de Ferro Vitória a Minas. Na cobertura, haverá um restaurante/café com vista panorâmica para a Baía de Vitória e o centro histórico da capital.

Transitar o Tempo, 2026, Museu Vale. Foto: Felipe Amarelo.

A!B: De que forma a futura sede integrará arte contemporânea, educação, memória ferroviária, história portuária e produção cultural capixaba?

CA: A nova sede está sendo pensada como lugar de encontro entre memória, criação, educação e cultura. Sua localização no Porto de Vitória possui um valor simbólico importante, pois reúne histórias ligadas à ferrovia, à atividade portuária e ao desenvolvimento do Espírito Santo. 

Levaremos o aprendizado extramuros para o novo endereço e queremos construir não apenas um espaço de preservação da memória ferroviária e portuária, mas um ambiente para a produção contemporânea, a cena cultural capixaba e as vozes que constituem o território.

Perspectiva

O período extramuros alterou a relação do Museu Vale com o Espírito Santo. A ausência temporária de uma sede fixa não interrompeu as atividades. Ao contrário, levou projetos a novos endereços, aproximou comunidades, favoreceu parcerias e incorporou experiências que poderão orientar a próxima etapa institucional.

IMAGINALIVRE! sintetiza esse movimento. Distribuída por três espaços, a mostra combina arte contemporânea, participação, educação, acessibilidade e contato com a paisagem. A presença de Magic Square #3, de Hélio Oiticica, na Galeria Gabinete amplia o diálogo entre gerações da arte brasileira ligadas à participação e à experiência corporal.

A futura instalação da nova sede no Centro de Vitória significa um importante capítulo na história do museu. Ao reunir memória ferroviária, história portuária, criação artística e produção local, o novo Museu Vale poderá consolidar um espaço conectado à capital capixaba e, simultaneamente, capaz de projetar o Espírito Santo no circuito cultural brasileiro.


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