Vista da primeira sala da Pinacoteca: Acervo, parede com retratos e autorretratos de artistas. Foto: Levi Fanan/Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo

Inclusiva e arrojada. A nova disposição do acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, aberta no final de outubro passado, é um salto de qualidade da instituição. Na versão anterior, o acervo estava disponível em 400 obras ocupando 11 salas e outras 150 obras acessíveis em arquivos, totalizando 550 no total.

Agora, o acervo ocupa 19 salas, tanto do primeiro como do segundo andar do edifício sede, com cerca de mil obras de mais de 400 artistas. As artistas mulheres passaram de 17 para 95, e os artistas afrodescendentes de 7 para 26. Não são ainda números suficientes para dar conta de uma história da arte brasileira verdadeiramente plural, mas não há dúvida de que é um avanço a se notar, algo difícil de se perceber em outras instituições.

A disposição anterior tinha um princípio de que menos é mais, buscando dar mais visibilidade ao que estava exposto. Funcionou, e por isso é possível agora uma outra organização muito mais radical, que abandona a ordem cronológica, o que outros museus importantes como o Centro Pompidou (Paris) e a Tate Modern (Londres) já fazem há tempos.

Essa quebra na ordem temporal é substituída por três eixos: Territórios da Arte; Corpo e Território; Corpo individual/Corpo coletivo. São como grandes temas que permitem exercícios curatoriais mais livres e, ao mesmo tempo, sintonizados com reflexões contemporâneas. Aí está um dos trunfos dessa nova ordenação, que de fato parte de uma constatação bastante necessária: só é possível rever o passado com os olhos do agora. Um acervo é, afinal, o arquivo de um museu, e como ensina Jacques Derrida, “o arquivo será sempre lacunar, toda leitura será diferente”. A equipe da Pinacoteca que fez a mudança levou a sério esse princípio e deixou escolas, movimentos e termos rígidos de lado para permitir um novo olhar reflexivo – que já tem um prazo definido para terminar: 2025.

Outro diferencial importante é que a curadoria assume uma atitude realmente propositiva, onde a disposição de obras alcança um modo instalativo, já que em cada sala criam-se ambientes não só surpreendentes, como bastante contundentes.

É o caso da parede sobre autorretratos, que faz parte do eixo Territórios da Arte, onde se veem artistas acadêmicos, modernos e contemporâneos mesclados, mas o destaque acaba sendo a pintura de Sidney Amaral (1973-2017), artista negro que sempre abordou questões relativas à raça e é visto na cortante obra Imolação (2009). A imagem dele com uma arma no pescoço acaba repercutindo em todas as demais, como a apontar para o drama de ser artista negro no Brasil. É um dos momentos emocionantes da mostra e que aponta para um forte diálogo com 2020, ano em que o movimento negro conquistou grande visibilidade.

"Imolação", de Sidney Amaral. Foto: Romulo Fialdini/Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Doação APAC, 2016
“Imolação”, de Sidney Amaral. Foto: Romulo Fialdini/Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Doação APAC, 2016

Sidney Amaral, aliás, está presente em vários outros momentos da exposição, característica reservada a algumas figuras chaves nessa reorganização do acervo, o que ocorre também com Claudia Andujar, que comparece com várias imagens dos Yanomamis, por exemplo. Há uma dupla de obras que criam um diálogo genial, quando se vê a pintura Proclamação da República (1893), de Benedito Calixto, ao lado do conjunto de desenhos e aquarelas Incômodo (2014), de Amaral: a primeira a versão oficial, a segunda a visão do racismo estrutural que decorre da República.

Outra sala icônica na nova disposição é a que abriga a instalação de Jonathas de Andrade Cartazes para o Museu do Homem do Nordeste próxima de obras-primas de artistas que retrataram o povo brasileiro, como as pinturas Caipira picando fumo, de Almeida Júnior (1850-1899), Bananal, de Lasar Segall (1889-1957) e Mestiço, de Candido Portinari (1903-1962). Essa transversalidade na seleção não só revê a narrativa que costuma construir a história da arte no país como também ajuda a questionar o discurso um tanto paulista da centralidade da Semana da Arte Moderna de 1922.

Essas misturas realmente provocantes trazem um grande frescor ao museu, como que atualizando boa parte do acervo da Pinacoteca que se concentra no século 19. Uma vitrine que mistura trabalhos de Jean-Baptiste Debret (1768-1848) – um dos fundadores da Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro, tendo antes trabalhado na corte de Napoleão – com obras do artista indígena Denilson Baniwa é o exemplo de um gesto de descolonizar o museu efetivamente em seu coração, isto é, seu acervo.

Véxoa

A remodelação do acervo no segundo andar do museu transformou também a disposição das salas para mostras temporárias. Antes alocadas nos quatro cantos do prédio, agora elas se concentram em três salas centrais no mesmo piso. Junto com o novo acervo, a exposição que inaugura o espaço é Véxoa: nós sabemos, com curadoria de Naine Terena, a primeira mostra dedicada à arte indígena na Pinacoteca.

É significativo que uma mostra sobre a produção indígena seja organizada por uma indígena, que selecionou 23 artistas e coletivos de diferentes regiões do país. Também é digno de menção que em seus 115 anos, somente no ano passado a Pinacoteca adquiriu obras de indígenas.

A mostra parte de um princípio questionador dos limites entre arte e artesanato, revendo assim os cânones tradicionais, assim como aborda temáticas distintas: seja da defesa dos direitos humanos dos povos indígenas, seja dos processos de cura utilizados nestas comunidades.

"Tatu", Ailton Krenak. Foto: Isabella Matheus/Pinacoteca do Estado de São Paulo
“Tatu”, Ailton Krenak. Foto: Isabella Matheus/Pinacoteca do Estado de São Paulo

Cerâmicas tradicionais estão dispostas junto a novos trabalhos, como pinturas recentes de Ailton Krenak – sim, ele mesmo, o líder na Assembleia Constituinte de 1988 e uma das vozes mais potentes durante a pandemia – que retrata macacos e tatus.

Padronagens, que são marcas dos povos indígenas, são vistas em obras de Daiara Tukano, sejam em telas de pequenas dimensões, seja em uma pintura mural que retrata uma cobra.

Com a nova disposição do acervo e uma mostra indígena potente, a Pinacoteca dá sinal de que a renovação ocorre em sintonia com novos tempos e abrindo espaço não só para quem não tinha a representatividade, mas trabalhando junto com esses grupos.

 

Serviço

Pinacoteca: Acervo 

Pinacoteca de São Paulo |Praça da Luz, 2, Luz.

De quarta-feira a segunda-feira, das 10h às 18h.
Entrada gratuita

Véxoa: nós sabemos

De 31 de outubro de 2020 a 11 de abril de 2021

Pinacoteca de São Paulo | Praça da Luz, 2, Luz.

De quarta-feira a segunda-feira, das 10h às 18h.
Entrada gratuita

 

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