Foto horizontal, colorida. Vista da exposição MOTO-CONTÍNUO, de José Damasceno, na Estação Pinacoteca. Ao fundo, TRILHA SONORA, que com centenas de martelos pendurados em pregos na parede, cria a representação de montanhas. A frente, diversas colunas de estrutura do edifício. Entre elas, vê-se parcialmente duas obras de José Damasceno. À direita, SNOOKER, a esquerda obra mais baixa, no nível do chão.
Vista da exposição. Foto: Isabella Matheus/Pinacoteca de São Paulo

Dá um certo alívio em adentrar a mostra de José Damasceno, Moto-contínuo, na Estação Pinacoteca, em um contexto tão desfavorável, quando uma CPI descortina todos os atos estapafúrdios de um governo que colaborou para as quase 500 mil mortes em decorrência da Covid-19 no país.

A diversidade de procedimentos, de magnânimas instalações a delicados desenhos, a disparidade entre materiais usados, do nobre mármore ao decadente e perecível cigarro, e a ausência de uma temática explícita, podem apontar para como uma exposição que lida em seu limite com a arte como um “exercício experimental da liberdade”, na definição do crítico de arte Mário Pedrosa (1900-1981). Em tempos de pandemia, liberdade pode ser tudo.

Como aponta a curadora norte-americana Lynn Zelevansky no catálogo da mostra para descrever uma das obras do artista, mas que serve para a exposição como um todo, Damasceno cria “um mundo próprio, habitado por criaturas estranhas”.

Entre as mais de 70 peças expostas, realizadas entre 1989 e 2021, algumas das obras que ajudam nesse sentimento de desconexão com o contexto são aquelas que, por sua dimensão e serialidade, criam estranhas paisagens, como Trilha Sonora, com centenas de martelos que pendurados em pregos criam a representação de montanhas, e Snooker, uma mesa de sinuca recoberta de fios de lã que saem das luminárias dispostas acima dela. O mesmo princípio é visto em Paisagem crescendo, onde centenas de cigarros que parecem pontos da parede criam imagens de árvores.

Trata-se aí de um conjunto de trabalhos que seduzem pelos truques de suas composições e provocam aquele sorriso de Mona Lisa, pela sua engenhosidade e originalidade. Em seu texto, Zelevansky busca valorizar essa estratégia apontando que existe uma “dimensão psicológica na obra de Damasceno que beira o surreal” e cita autores favoritos do artista como William James, Edgar Allan Poe e Jorge Luis Borges como possíveis diálogos com sua obra.

De fato, as obras já citadas possuem dimensões surreais, já que seus processos construtivos inusitados, das montanhas feitas por pregos e martelos às luzes compostas por fios de lã, resultam em imagens que se assemelham a colagens de elementos contraditórios. Contudo, ao contrário dos múltiplos significados possíveis das obras surrealistas, não há nada muito além do que são os próprios elementos das obras. Os martelos seguem martelos, os fios de lã seguem fios de lã, o que leva a arte contemporânea a um mero exercício formalista.

Outro conjunto da exposição que aponta para essa superficialidade são as chamadas Esculturas Borracha, realizadas em mármore que hiperdimensionam objetos comuns do cotidiano, como o material escolar que dá título às obras.

Quando o espectador se dá conta dessa falta de profundidade, o alívio se transforma em irritação, porque o virtuosismo da mostra aponta para uma total falta de ligação a qualquer contexto, que não o da própria arte, e a única lente possível para se observar o conjunto é pensando em categorias da própria arte. Não por acaso, o texto de Zelevansky no catálogo se desenvolve em torno da técnica do desenho.

Em uma sociedade tão polarizada, conflituosa, preconceituosa, e pode-se dizer tantos outros termos que apontam para uma falência de qualquer pensamento humanista, a exposição com curadoria de José Augusto Ribeiro traz uma seleção e uma disposição dos trabalhos altamente estetizados, um conjunto que revela uma beleza fria e distante, cheia de trocadilhos como Can you hear me? (você consegue me escutar?), com dois trompetes unidos pela boca.

Curiosamente, o catálogo de Moto-contínuo vai em sentido oposto, praticamente um livro de artista, já que a maior parte dele é composta por fotos de um lambe-lambe com a imagem da efígie da República que ilustra as notas de um real coladas em muros da cidade, a maioria em locais decadentes e empobrecidos, e em alguns deles podem ser lidas manifestações políticas como “Fora Temer”, dando aí uma noção do contexto e tornando-se uma documentação de uma potente instalação pública.

É essa vitalidade que falta na exposição em si, que se revela monótona demais de tão bela e perfeita. Sair do prédio na zona da cracolândia é de um contraste chocante, mas acaba sendo mesmo um alívio voltar à feiura e as dificuldades do mundo real, com todo seu dinamismo e potencialidades.

JOSÉ DAMASCENO: MOTO-CONTÍNUO
ONDE: Estação Pinacoteca (Largo General Osório, 66 – Santa Ifigênia)
QUANDO: 24 de abril de 2021 a 30 de agosto de 2021
Ingressos gratuitos, visita mediante agendamento prévio.

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