Granato no MAM do Rio com Lenira.

Ivald Granato morreu há três anos, mesmo sem a sua presença carismática a obra de cinco décadas continua a intrigar. Deitada no meio da retrospectiva My Name is Ivald Granato Eu Sou, no Sesc Belenzinho, a jovem vestida com cores berrantes, como as obras do artista, tentava entender tudo aquilo de outro ângulo. De início, encarei como recriação de uma performance, depois descobri que ela foi atraída pela obra de Granato, artista o qual ela não conhecia antes da retrospectiva. Performance com cara e assinatura de Granato. Ele aplaudiria.

Na busca incessante do imprevisível, do jogo efêmero, do risco, da alegria, sem se importar com as consequências, Granato traçou uma trajetória que o levava naturalmente aos palcos, com performances marcantes. Segui seu percurso em São Paulo e fui espectadora constante de suas performances, algumas delas feitas em festas na casa de amigos. A retrospectiva, com curadoria de Daniel Rangel, embora montada em um espaço pequeno para o volume de obras, que chega a 500, dá conta da abrangência da produção de Granato. Arte postal, pinturas, desenhos, vídeos, cadernos de artista, objetos, esculturas, mostram um artista que produzia febrilmente, com humor e prazer. Na sala principal, em um imenso painel, exemplares de suas linguagens convivem lado a lado, formando uma espécie de video wall que exibe, simultaneamente, todas suas fases.
A pintura, sua paixão primeira, é o eixo central de sua obra onde tudo começa e termina. Nas mãos de Granato, o pincel se transforma em projétil que desenha órbitas e espaços multicoloridos. Pintura e desenho correm juntos sobre as telas, derivados de pinceladas rápidas que se entremeiam e chegam ao desenho. Granato concordava que sua pintura estava ligada, indiretamente, ao automatismo surrealista deixando o inconsciente vir à tona.

Envolvido com tintas e pinceis desde os seis anos, o artista na adolescência pintava sob a influência do americano Robert Newman. Suas imagens, movidas dentro da cultura experimental, revelam Granato protagonista de um diálogo muito próximo ao público. Suas narrativas são construídas com proximidade e distância, influenciadas, especialmente, pelas inquietações dos anos 80.

Uma de suas performances marcantes ocorreu em 1978 em um evento idealizado por ele, Mitos Vadios, que ocorreu em um estacionamento da rua Augusta. O happening foi uma paródia crítica, debochada e irreverente da 1ª Bienal Latino Americana que acontecia no Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, com o título Mitos e Magia. Foi a primeira e única edição dessa bienal, eliminada do mapa depois de calorosas discussões entre críticos latino-americanos convidados pela Bienal para avaliar a importância de sua permanência. Granato chegou à festa travestido de Ciccillo Matarazzo Sobrinho e Lygia Pape de Yolanda Penteado, mulher do Ciccillo, para juntar-se a Hélio Oiticica, José Roberto Aguilar, Marta Minujin, Gabriel Borba, Regina Vater, Ubirajara Ribeiro e muitos outros. Um ano depois receberia o prêmio da ABCA de melhor pintor de 1979.

 

As performances como emergências estéticas são transgressoras dentro de uma cultura em que o corpo é voltado para ele mesmo, a partir das convenções vigentes. Para Granato, performances também são lugares de reencontro e atuações coletivas. Salomé e Luciano Castelli, dois pintores ligados ao neoexpressionismo, integrantes do movimento “os selvagens de Berlim”, atuaram com ele em São Paulo. Granato e Salomé executaram a quatro mãos um painel de 6×1,5m e dois anos depois, com Castelli, fez gravura a quatro mãos, além de performance na Galeria Subdistrito. Ambos permaneceram dentro de um cubo transparente de plástico pintando como Pollock. Isso aconteceu durante a 19ª Bienal de São Paulo, em 1978, da qual Castelli e Salomé participaram, sob a curadoria de Sheila Leirner.

Na pintura, seu interesse percorre formas inesperadas libertando-as da tela, transformando-as em objetos desenvolvidos sob influência expressionista em direção a um experimentalismo de técnicas e materiais. Com Granato, o processo criativo adquire um caráter de prazer, com capacidade de usar infinitas maneiras para atingir uma arte nada dramática, nada previsível ou nada burocrática.

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