Performance de Paulo Nazareth, durante a abertura de sua individual
Performance de Paulo Nazareth, durante a abertura de sua individual "Esconjuro", no Instituto Inhotim. Foto: Daniela Paoliello

Em cartaz no Inhotim, a individual Esconjuro, de Paulo Nazareth, não poderia ser mais consonante com a proposta de programação do instituto para 2024. Com trabalhos inéditos e releituras de obras anteriores, a exposição ocupa a Galeria Praça e se espraia por outros espaços do Inhotim, respondendo ao desejo da instituição de trabalhar os conceitos de arte e natureza de forma ampliada. Ou ainda, como indagou Júlia Rebouças, diretora artística do instituto, em entrevista à arte!brasileiros: “O que podemos fazer aqui, que não se pode fazer em outro contexto?”.

Com o argumento de que Inhotim se encontra em uma “encruzilhada de muitos tempos”, num território que já foi atravessado pela Estrada de Ferro Central do Brasil, Nazareth explica que “a exposição trata do passado e de uma possibilidade de futuro que ainda não alcançamos”. A individual, lembra o artista, integra-se a um processo de trabalho iniciado com Cadernos de África, projeto concebido em 2012, composto de imagens em preto e branco, registradas durante viagens que ele fez na África e também no Brasil, envolvendo questões como trânsitos e comida.

O ponto de partida de Esconjuro foi a obra Casa de Exu (2015-2024), instalada perto da Galeria Praça. Nela, Nazareth incorpora sua proposta de uma nova relação entre tempo e espaço por meio do cheiro de aguardente que atinge o olfato das pessoas antes dos demais sentidos. Em uma das fronteiras do instituto, o artista deu início a uma plantação de bananas, frutas sempre presentes ao longo das estações do ano. Com a obra-plantação Bananal (2024), que inclui uma bananeira de bronze ancorada no chão, Nazareth novamente joga com noções de tempo e território: antes mesmo do Inhotim, a fruta já estava presente ali, alimentando trabalhadores e suas famílias.

Com Sambaki II (2024), trabalho comissionado pelo instituto, as bananas voltam como simulacros feitos de concreto, amontoadas e ladeadas por dois alto-falantes que reproduzem uma conversa no idioma crioulo. O áudio traz um diálogo, captado em São Paulo, com trabalhadores imigrantes da Guiné-Bissau, que ajudaram Nazareth na confecção de bananas de concreto. Já em Sambaki I, o artista mescla bananas de madeira e simulacros de bananas de dinamite. Novamente numa chave histórica, refere-se à primeira riqueza extraída do território brasileiro e à prática da mineração com os explosivos.

Fazem ainda parte da individual séries de pinturas, obras externas, como Pato [Pago ou Pato feio], de 2024; peças e instalações Gameleira (2024); Alguidar (2024); Marco Temporal e Iemanjá (2023-2033); além de um conjunto de imagens de sua mãe, Ana Gonçalves da Silva.

Segundo Paulo Nazareth, o título Esconjuro é também um dos trabalhos, uma “obra imaterial” acionada, como numa performance, ao ser pronunciada por qualquer pessoa. Do mesmo jeito que seu sobrenome, que, ao ser proferido, evoca o nome da mãe de sua mãe, Nazareth Cassiano de Jesus, uma índigena da etnia borum enviada ao Manicômio de Barbacena, também em Minas Gerais, em meados dos anos 1940. Aqui, o artista se debruça sobre como a ancestralidade acompanha toda a sua produção.

A exposição solo de Nazareth tem curadoria de Beatriz Lemos, que destaca a retomada da visão curatorial original de Inhotim em 2024. Ela ressalta que esconjuro é uma palavra muito poderosa de nosso vocabulário, muito conhecida nos terreiros de religiões de matriz africana e ligada “ao dia a dia das benzedeiras, dos mateiros, pessoas que conversam com o sagrado das plantas”. E Nazareth, ela afirma, chega a Inhotim com esse vocábulo que se refere tanto à proteção quanto ao livramento de más energias, de coisas ruins.

“A exposição também traz outra possibilidade de se contar o tempo, um tempo alargado ao longo das estações. E essa nova contagem do tempo é feita por meio de reformas como aquelas que vemos nas periferias de cidades latino-americanas, em que a todo momento se faz um puxadinho aqui, constrói mais uma laje ali, em busca de qualidade vida e de aconchego”, explica a curadora. “Com essas duas ideias, das estações e das reformas, Paulo traz dois desafios institucionais, mexe com todo o instituto, numa exposição que depende e conversa com todas as equipes do museu”.

 

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