Mariana Palma

Um dos destaques da jovem pintura brasileira, movimento que surgiu com força nos primeiros anos do século 21, Mariana Palma mostrou, no Instituto Tomie Ohtake, um conjunto amplo e impressionantemente coeso de trabalhos, construídos ao longo de uma carreira que já dura duas décadas. Explorando múltiplas linguagens, mas atenta a um universo muito familiar de questões, motivos e referências, a artista consegue ao mesmo tempo seduzir e confundir o público.

Mariana Palma, Sem título, 2017. Foto: Edouard Fraipont | Coleção Particular

Como uma espécie de ilusionista, Mariana parte sempre de elementos aparentemente saídos de uma intimidade associada ao feminino: flores, folhas, brotos, tecidos, peles, azulejos, abstrações que remetem aos papéis marmorizados, valorizados nas capas dos livros antigos. E os combina de maneira inusual, criando harmonias precisas, porém instáveis, ora preenchendo todos os espaços numa composição claustrofóbica, ora submergindo-os num vazio intrigante.

Mariana Palma
Mariana Palma, Sem Título, 2012. Foto: Edouard Fraipont | Coleção Particular

Em suas pinturas, os campos são trabalhados com requinte e se sobrepõem, se interpenetram, criando múltiplos planos de sedução. Como escreve Paulo Reis, sua obra é uma “pintura de ourivesaria”. Nos desenhos, vídeos e fotografias, o processo parece inverter-se e o vegetal representado reina sozinho no centro de um grande vazio branco (leite) ou negro (azeite), de forma a amplificar os detalhes como nos desenhos ricamente trabalhados dos cientistas viajantes. Com a diferença que Mariana apenas aparenta buscar a fidelidade, quando na verdade reconstrói a natureza por meio de um olhar bem pessoal e livre dos preceitos da ciência.

Ela apresenta ao público composições inusitadas, como uma mescla improvável entre uma pena de pavão e uma concha, em associações de um erotismo sugestivo e que parecem pautadas por uma premência em captar o momento preciso entre a vida e a morte, o desabrochar e o fenecer.  Não por acaso a curadora Priscyla Gomes associa em seu texto o conjunto de obras de Mariana com o mito de Orfeu e Eurídice, sublinhando a fugacidade e intensidade do encontro, o equilíbrio que em vários trabalhos Mariana tenta encontrar entre a vitalidade do novo e a certeza da finitude.

Além das claras remissões aos grandes mestres do desenho de botânica como Albrecht Dürer e Margareth Mee, são múltiplas as referências que ela faz à história da arte, combinando alusões que vão dos primorosos planejamentos renascentistas, à pintura setecentista holandesa – com seu amor pelos detalhes – e um evidente inebriamento, que a aproxima tanto dos barrocos como dos românticos.

Mariana Palma
Mariana Palma, Sem Título, 2017. Foto: Edouard Fraipont | Coleção Particular

na exposição alguns interessantes encontros entre as obras, como aquele que se dá entre a única peça escultórica, na qual galhos de palmeira (em uma inquestionável referência ao sobrenome da artista) jorram sobre duas bacias repletas de um azeite escuro e apenas iniciam um mergulho que promete ser profundo, e uma enorme tela na qual brotações da mesma natureza são representadas em tons extremamente sutis que vão do cinza claro ao quase negro, algo surpreendente para alguém que costuma de entregar com vontade à uma profusão de cores.

Curiosamente Mariana evita o uso de títulos. Como se qualquer sugestão narrativa fosse desviar suas composições do caráter sintético e um tanto enigmático de suas composições. Também evita propositalmente a inclusão da figura humana em seus trabalhos. Suas narrativas prescindem dela, parece que a tornariam menos densa. Os objetos, muitas vezes vistos numa proximidade asfixiante, falam por si só de nossos desejos. Táteis, visuais, afetivos. E parecem comprovar que, na ausência, o humano talvez se faça mais presente.

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