"Anna", Anna Maria Maiolino, 1967. Foto: Coleção da Artista

Psssiiiuuu… A onomatopeia – que pode ser assobio, chamado, flerte, pedido de silêncio, segredo, ou sinal – dá nome à nova mostra individual de Anna Maria Maiolino, que entra em cartaz neste sábado (7) no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Uma seleção de cerca de 300 obras compõe a antologia curada por Paulo Miyada, e nos convida a uma caminhada pela ‘vida-obra’ de Maiolino – para utilizarmos um termo cunhado pela própria artista.

Inaugurada no mês em que ela completa 80 anos, a mostra reúne pinturas, desenhos, xilogravuras, esculturas, fotografias, filmes, vídeos, peças de áudio e instalações de diferentes períodos de sua carreira. Para isso, a instituição reserva as três grandes salas do andar superior – raramente destinadas a uma mesma exposição, tendo sido antes dedicadas conjuntamente apenas às individuais de Yayoi Kusama e Louise Bourgeois.

Apesar de seu caráter antológico, Anna Maria Maiolino – psssiiiuuu… não se organiza como retrospectiva linear, de forma cronológica. É concebida como uma espiral que circula entre todas as fases e suportes da carreira da artista. “Vai-se adiante para se reencontrar o princípio, consome-se energia para devolver as coisas ao que sempre foram”, destaca Miyada. A fim de permitir ao público reconhecer diálogos, marcos, eixos e latências comuns entre trabalhos de diferentes períodos, a expografia nos propõe três núcleos: ANNA, Não Não Não e Ações Matéricas.

O primeiro nos convida a compreender como vida, biografia, desejo e multiplicidade convergem no corpo de obras da artista. Maiolino sobrepôs múltiplos papéis – como filha, artista, mãe, cidadã, mulher, amante, escritora, latino-americana, europeia e imigrante -, e assim mapeou seus deslocamentos físico e psíquico durante a vida, construindo uma compreensão de identidade como constante fluxo que vai e vem entre um e o outro, entre o eu e a multidão. Em ANNA, ficamos diante desses gestos de uma mulher que pode ser uma ou muitas, que deseja e é desejada, que cuida, que desaparece e abruptamente emerge novamente.

Obras que confrontam totalitarismo, censura, repressão e desigualdade de forma mais latente se reúnem em Não Não Não, apresentando o interesse político da artista. Assim, a seção abrange desde a violência dos regimes ditatoriais da América Latina – como na nova instalação O amor se faz revolucionário, baseada em um projeto de 1992 que homenageava as mulheres que se organizaram para perseguir a verdade e a justiça depois de terem perdido seus filhos durante a ditadura militar argentina – até a aparente normalização da pobreza e da fome numa escala global – retratada na remontagem de Arroz e Feijão (1979), que incluirá a oferta de refeições para o público em algumas ativações.

Pressionar, moldar, cortar, agarrar, escorrer e rolar. Talvez esses verbos sejam os mais latentes em Ações Matéricas. É a partir dessas ações que Maiolino lida com argila, tinta, vidro, concreto e outros materiais, resultando em uma prática visual e escultural fortemente ancorada na escala do corpo. A seção inclui obras feitas há mais de 50 anos ao lado de trabalhos recentes, compondo uma espécie de paisagem com múltiplas peças que se relacionam de modo táctil e visual.

Os três anos de contato intenso e longas conversas entre Miyada e Maiolino resultam na mostra que poderá ser visitada até 24 de julho, e em ensaio aprofundado do curador sobre a produção da artista, publicado no catálogo – juntamente a reproduções de todas as obras expostas e de uma seleção inédita de escritos da artista ao lado de documentos, projetos, fotografias e esboços. 

SERVIÇO

Anna Maria Maiolino – psssiiiuuu…
Instituto Tomie Ohtake | Av. Faria Lima, 201 – Pinheiros, São Paulo (SP)
7 de maio (inauguração das 12h às 15h) a 24 de julho de 2022
Terça a domingo, das 11h às 20h

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