O artista, colecionador e presidente da FAMA, Marcos Amaro
O artista, colecionador e presidente da FAMA, Marcos Amaro. Foto: Divulgação.

Com apenas 36 anos de idade, o artista, colecionador, galerista e gestor cultural Marcos Amaro se tornou nos últimos anos um nome destacado e recorrente nos círculos da arte contemporânea no país. Para além de sua produção artística e de seu vínculo com o mercado através da galeria Kogan Amaro, o que mais chama a atenção é a consolidação, em curto espaço de tempo, da FAMA Museu e Campo – um vasto museu de arte contemporânea e um espaço dedicado a land art – e de uma série de projetos educativos e de fomento à arte contemporânea no país.

Com um acervo de cerca de 2 mil obras de artistas de variados períodos e estilos – comodatadas da coleção pessoal de Amaro -, a Fábrica de Arte Marcos Amaro (FAMA), situada em um edifício histórico no centro de Itu, abriu suas portas ao público em 2018. Enquanto organização cultural privada sem fins lucrativos – intitulada Associação para Futura Fundação -, a FMA constituiu um corpo diretor, um conselho consultivo e um time de funcionários de cerca de 40 pessoas. No final de 2019 inaugurou também a FAMA Campo, dedicada à arte contemporânea em grande escala e em espaço aberto (em Mairinque) e, no inicio de 2020, se preparava para a inauguração de uma grande mostra de desenhos de Tarsila do Amaral – recentemente incorporados ao acervo da Fábrica (leia aqui).

Uma semana antes da abertura a instituição teve que fechar as portas por conta da pandemia de coronavírus e, agora, cerca de 8 meses depois, a FAMA reabre as portas com essa e mais duas exposições. Tarsila do Amaral – Estudos e Anotações; a coletiva Ontologias, de Cabral, André Albuquerque (Kandro) e Marcos Amaro; e a individual Rejeito, de Marcelo Moscheta, ocupam os espaços da Fábrica a partir deste sábado, dia 14 de novembro. A FAMA Campo, por sua vez, se prepara para expor, talvez ainda este ano, uma nova obra de Carlito Carvalhosa, comissionada após o artista vencer o Prêmio de Arte Marcos Amaro este ano.

Em conversa com a arte!brasileiros, Amaro falou sobre sua atuação nas diferentes áreas e do desafio de separar os trabalhos, de modo que não haja conflitos de interesses entre eles. “Quando a gente clareia as visões de cada projeto, de cada iniciativa, de partida você já deixa nítido o que pode e o que não pode”, afirma. Enquanto gestor, comemorou também a consolidação do projeto da FAMA – que recebeu 10 mil estudantes em 2019 – e o potencial da instituição: “Em uma região de densidade demográfica muito alta, o museu é um dos poucos, talvez o único, com essa vocação de arte contemporânea. Então isso pode contribuir muito, de forma definitiva, para o percurso das artes visuais nessa região.”

A Fábrica de Arte Marcos Amaro, em Itu. Foto: Divulgação

Amaro falou ainda sobre a situação privilegiada da Fundação no cenário nacional, já que ela é financiada com recursos do próprio artista, mas lamentou a contexto para as artes no Brasil: “É triste, como cidadão, pensar que temos um país com tantas oportunidades, diversidade cultural e artística como o Brasil, tantas potências, e isso não ser otimizado e canalizado, inclusive de forma estatal”. Leia abaixo a íntegra da entrevista com Marcos Amaro.

ARTE! – Antes de falar da reabertura da FAMA, seria interessante você contar um pouco do trajeto da instituição. Pode-se dizer que é um espaço que em um período de tempo muito curto se consolidou como uma instituição cultural importante no cenário artístico brasileiro. A que você acha que isso se deve?

Apesar de a FAMA ser relativamente jovem, se você considerar a data de abertura, o projeto da Fundação é mais antigo, de 2012. Então eu diria que essa construção ao longo dos anos, essa edificação conceitual, inclusive, ajudou muito a chegarmos até aqui. E ajudou muito também na impressão causada quando abrimos, o que possibilitou que a gente gradativamente venha se tornando uma instituição cultural importante no Brasil. Então tudo é um processo que vem sendo construído desde 2012. Esse processo passa por uma vocação de artes visuais, por uma vocação de criação – eu como artista – e uma vocação de colecionador. Isso tudo contribui para o fortalecimento do projeto e mais tarde culmina na aquisição da propriedade, da própria Fábrica, como espaço cultural que vem sendo estabelecido.

ARTE! – Ainda no fim do ano passado vcs inauguraram a FAMA Campo, outro passo importante nesta trajetória. Obras em larga escala já eram foco da instituição, mas isso ganha uma outra proporção com o novo espaço…

Sim. O primeiro livro que lançamos, A Força do Tridimensional, que faz um recorte das nossas primeiras exposições na FAMA, ali já na antiga Fábrica São Pedro, apresenta peças de fato em grande escala, com essa peculiaridade do tridimensional. E como é um espaço de 25 mil metros quadrados, muito amplo, a fábrica nos possibilita mostrar trabalhos com uma dimensão maior, que não necessariamente caberiam em um museu tradicional. Existe também esse diálogo entre o contemporâneo e o moderno, no sentido da arquitetura do prédio, que é outro fator de destaque do projeto.

E o FAMA Campo também tem esse fator da grande escala, porém ele valoriza mais o aspecto natural, da paisagem. Então ali a gente sempre vai estar falando de arte na paisagem. A gente não vai levar uma escultura pronta para o espaço. O desafio ali é o artista elaborar projetos específicos para o espaço e que sofram as intempéries do tempo – não projetos que necessariamente tenham essa preocupação museológica, no sentido da conservação. Claro que cada artista tem um tratamento para o projeto que ele realiza, isso é caso a caso.   

Obra de Marcia Pastore na FAMA Campo. Foto: Divulgação

ARTE! – Falando sobre o acervo e a coleção, como se separa o que é sua coleção privada do que é o acervo da FAMA?

As peças do acervo da FAMA são comodatadas. Todas as obras que estão no museu estão em comodato para a FAMA, então não existe uma promiscuidade, no sentido de usar o acervo da instituição para um interesse pessoal. A sinalização de um contrato e um acordo neste aspecto foi justamente para proteger a instituição.

ARTE! – Neste sentido, você é ao mesmo tempo artista, colecionador, galerista e presidente de uma instituição cultural. Como trabalhar sem que haja conflitos de interessa e sem que essas coisas todas se misturem?

Acho que é importante sempre a gente clarear as visões. Quando a gente clareia as visões de cada projeto, de cada iniciativa, de partida você já deixa nítido o que pode e o que não pode. Então, por exemplo, em relação à fábrica, como o projeto nasceu inclusive de um desejo relacionado ao meu ateliê, essa condição minha como artista está muito presente no dia a dia da fábrica. No sentido inclusive da pesquisa, do desenvolvimento e mesmo da difusão do meu trabalho, isso cabe ali. Então isso é uma coisa que já faz parte do cerne inicial do projeto. Acho que uma boa referência nesse aspecto seria a Fundação da Vera Chaves Barcellos. Então é uma Fundação de artista para artista.

Já na galeria (Kogan Amaro), em nenhum momento desde o começo eu tive essa intenção de ser artista da galeria. Para poder trabalhar de forma absolutamente profissional com os outros artistas. Ali não há essa sobreposição. Da mesma maneira que há uma relação de separação entre a galeria e a Fundação, são programas distintos. Eventualmente pode acontecer de a Fundação ter trabalhos de artistas da galeria, porque nós representamos artistas muito bons, que merecem ter um destaque institucional, mas isso não é um projeto. Pode acontecer, mas é algo que é uma consequência do trabalho do artista, que pode estar exposto em qualquer outra instituição.     

ARTE! – Chegando então nesta reabertura, estamos falando de um ano em que vivemos uma pandemia sem precedentes na história. A Fábrica de Arte Marcos Amaro, após quase oito meses fechada, reabre agora suas portas. Pode contar um pouco como foi tomada essa decisão e como será o novo tipo de visitação?

Foi uma decisão muito cautelosa. Do mesmo modo, quando a gente decidiu fechar estávamos a uma semana de abrir a exposição da Tarsila. Então você imagine o quão frustrante foi para todos nós. A exposição estava pronta, com curadoria da Aracy Amaral, que já é nonagenária, e da Regina Teixeira de Barros. Então nós queríamos muito que a mostra acontecesse. Mas o Conselho foi muito sábio. Fomos inclusive a primeira instituição a anunciar o fechamento. Uma decisão difícil, porém necessária. Agora, após conversas com o Conselho, com agentes culturais e com as autoridades da saúde, achamos que seria prudente reabrir, mas com algumas restrições – por exemplo, quanto ao número de visitantes, ao distanciamento social e à todos os protocolos de segurança. Nesse sentido, estamos abrindo de uma forma segura, de modo a garantir a integridade dos visitantes.

E dentro destes oito meses nós também aproveitamos para fazer uma série de reformulações internas no museu, na instituição, no sentido do nosso programa, dos nossos desafios, de onde nós queremos chegar. Então foi um momento de muito fortalecimento interno e de mudanças para a instituição, para podermos sair da pandemia mais fortalecidos, inclusive com um acesso maior no universo virtual.

Vista da exposição "Estudos e Anotações", de Tarsila do Amaral, na Fábrica de Arte Marcos Amaro
A exposição “Estudos e Anotações”, de Tarsila do Amaral. Foto: Filipe Berndt

ARTE! – Sim, vocês tiveram um trabalho que não parou nas redes sociais…

Não paramos. O educativo todo, por exemplo. Felizmente nós não precisamos demitir ninguém, conseguimos manter nossa equipe, e o educativo ficou focado no digital, no desenvolvimento das propostas. 

ARTE! – O foco no trabalho educativo, que tem a ver com uma ideia de participação, não apenas de contemplação, parece ganhar cada vez mais destaque no trabalho de diversas instituições culturais. Ou seja, pensar também não só no número de visitantes, mas na qualidade dessa visitação. Como essa questão é tratada na FAMA?

De partida, acho importante falar da própria diversidade que temos dentro do educativo. Toda essa questão, tão presente no dia a dia dos brasileiros, da inclusão das minorias, isso já se dá de forma clara na constituição do nosso educativo. Questões de gênero e de raça são temas muito caros ao nosso educativo. E daí já nasce essa reflexão sobre diversidade, sobre como lidar com isso, como trabalhar. E um outro ponto que vem se desenvolvendo de maneira importante é a parte de pesquisa e essa questão da qualidade da visitação, de sempre poder oferecer uma interlocução, uma investigação e uma crítica maior para o espectador. De modo que não seja apenas um espaço de contemplação, mas de investigação e de crítica. E isso depende muito da interlocução, então é importante que o educativo cada vez mais se fortaleça, para que possa apresentar debates para o espectador, de modo que as pessoas ampliem suas visões de mundo. Então existe essa missão. E nós estamos, ainda, formando uma biblioteca, que será algo importante nos próximos anos. Uma biblioteca que vai dialogar com o acervo do museu.

ARTE! – Me parece que o fomento, ou seja, o prêmio e as residências também fazem parte dessa ideia de participação…

Com certeza. Temos sempre os artistas residentes, que estabelecem ateliês no espaço, e a gente sempre procura ter essa reciclagem e essa oportunidade. Lançamos recentemente um edital de ocupação, por exemplo, de modo que os artistas venham a ocupar os prédios antigos. Neste momento, uma das mostras que estamos abrindo é do próprio Marcelo Moscheta, que fez parte do prêmio no ano passado. Então o fomento é sim um dos vetores da FAMA, no sentido de poder contribuir neste aspecto não só para as artes visuais, mas também para a região do interior.

ARTE! – Sobre essa relação com o entorno, existe um foco no diálogo com a cidade e com a comunidade. Como se dá esse trabalho?

Materialmente falando, já existe até o projeto do Parque Linear, que fica na Avenida Galileu Bicudo, que é onde nós estamos localizados, e para o qual nós concedemos via empréstimo cinco esculturas. Dali, elas fazem uma ponte com o museu, e isso já é uma situação importante de diálogo, um convite para o museu. E além disso, o próprio programa que temos com as comunidades e as escolas públicas é fundamental. No ano passado foram mais de 10 mil estudantes que visitaram a FAMA, todos do entorno e da região. É interessante pensar que se você pegar Itu, Salto, Sorocaba e a região, são 2,5 milhões de habitantes. É muita gente, uma densidade demográfica muito alta. E o museu é um dos poucos, talvez o único, com essa vocação de arte contemporânea. Então isso pode contribuir muito, de forma definitiva inclusive, para o percurso das artes visuais nessa região. Então nossa ambição cultural passa muito por aí.

ARTE! – Para terminar, é impossível não falar do contexto político em que estamos vivendo. O Brasil vive um período bastante conturbado, em que a área cultural parece ser uma das mais atacadas pelo próprio governo federal. Queria que falasse um pouco como vê a situação e como se dá o trabalho da Fundação neste contexto.

Nós temos uma relativa sorte, porque hoje felizmente eu tenho condições pessoais para fomentar o projeto. Hoje, 100% dos recursos são próprios. É claro que tenho interesse em fazer com que isso mude, gostaria de contar mais com apoios e parcerias tanto da iniciativa privada quanto da iniciativa pública. Então, do ponto de vista de um gestor, há essa preocupação, porque a gente vive nesse ambiente em que a cultura de fato está muito deprimida, digamos assim. E deprimida por uma falta de projeto de país. Se houvesse um projeto de país, certamente a cultura seria um dos tópicos determinantes. Então é triste, como cidadão, pensar que temos um país com tantas oportunidades, diversidade cultural e artística como o Brasil, tantas potências, e isso não ser otimizado e canalizado, inclusive de forma estatal. Ou seja, o Estado não considerar isso um projeto. E entendo que a FAMA se torna também proeminente neste momento por ser uma das poucas instituições que têm essa condição. É um privilégio poder atuar e, de alguma forma, fomentar a cultura, assim como acontece, em diferentes escalas, com Itaú Cultural e Sesc, entre outras.

ARTE! – Instituições que conseguem se proteger, ao menos em parte, desse desmonte na área cultural…

Exato. Mas é claro que eu tenho essa preocupação de longo prazo. Ainda sou jovem e tenho essas condições, mas gostaria que o projeto da Fábrica fosse duradouro, que viesse a se desenvolver de outras maneiras. Então venho pensando em como fazer isso acontecer, com um fundo patrimonial, um endowment, que possa fazer parte da estrutura da organização, para tornar as coisas mais perenes.    

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