Vista da exposição no CCBB de São Paulo. FOTO: Edson Kumasaka

“Não cabe mais ver as redes como espaço de descanso e decoração. Necessita-se admirar sua representação e compreender que materialidade é a prova da resistência ameríndia. Que por trás da beleza e da forma existem focos de resistência. Que tecer ou criar a partir delas é arte, ativismo. É atividade. É sobrevivência. É ser.”, afirma Naine Terena no catálogo da mostra Vaivém, vista até julho no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo e, agora em setembro, sendo  aberta em sua sede de Brasília, seguindo depois para o Rio e Belo Horizonte.

Vaivém é dessas mostras que vão além do campo da arte para tratar da cultura de forma mais ampla, e aí está seu maior valor.

Mais do que simplesmente apresentar de forma sequencial várias representações de um dos mais típicos objetos da cultura brasileira, a exposição com curadoria de Raphael Fonseca apresenta diversos aspectos dos significados da rede, como aponta Naine na citação acima, indo muito além do clichê da preguiça que o colonialismo a demarcou.

Isso fica claro logo na primeira sala da mostra, quando se contextualiza a importância da produção do artefato de origem indígena no nordeste, mais especificamente em São Bento, na Paraíba, onde são produzidas por ano nada menos que 12 milhões de redes. Os números aí já deixam claro que o impacto do comércio vai também além do estereótipo que se pode ter. O portal da cidade possui um imensa rede para marcar posição.

Assim, a mostra segue em uma sucessão de narrativas um tanto surpreendentes ao longo de seis módulos, que abordam desde as distintas formas de representação da rede, seja no modernismo brasileiro, seja nos quadrinhos de Walt Disney com o Zé Carioca, até sua função de geradora de identidade, como bem aponta Naine Terena em relação aos povos indígenas.

Vem deles, aliás, algumas das imagens mais potentes da mostra, grande parte delas comissionadas pelo curador, entre elas produzidas por Yermollay Caripoune, Alzelina Luiza, Carmézia Emiliano e Jaider Esbell, entre outros. No catálogo, Clarissa Diniz cita uma fala de Esbell, aliás, que aponta de maneira exata porque a mostra alcança alta voltagem política: “Não há como discutir descolonização sem adentrar as portas das cosmovisões dos povos originários”.

Há aí um acerto curatorial imenso, afinal, mesmo que artistas contemporâneos tenham se apropriada da rede em suas obras, de Hélio Oiticica a Tunga, de Paulo Nazareth a OPAVIVARÁ – todos presentes na mostra, é no contexto indígena que ela ganha caráter de resistência e manifesto anti-hegemônico.

A exposição ainda é generosa ao apresentar as diversas representações da rede ao longo dos séculos, seja nos artistas viajantes da época da monarquia do Brasil, seja por sua revisão crítica, tão bem realizada por Denilson Baniwa.

A exposição é sem dúvida audaciosa, ao apresentar mais de 300 obras de 140 artistas, em um período de cinco séculos, do 16 ao presente. Contudo, seu foco é preciso, e passar por ela uma experiência efetiva.

É essencial lembrar que a mostra é fruto de um doutorado realizado pelo curador ao longo de cinco anos, portanto uma pesquisa de fôlego, que se materializa no espaço expositivo de forma adequada e realmente como uma vivência, isso é, não se trata de uma transposição ilustrativa de uma tese. Em tempos de questionamento da ciência e da academia, Vaivém serve ainda para apontar como o ambiente universitário segue essencial para a reflexão da cultura brasileira, assim como capaz de transpor o ambiente acadêmico para um diálogo potente com a sociedade.

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