SUN&SEA
Sun&Sea (Marina), opera-performance por Rugile Barzdziukaite, Vaiva Grainyte e Lina Lapelyte no pavilhão da Lituânia na Bienal de Veneza 2019, Foto: Andrej Vasilenko

Pela primeira vez, a Bienal de Veneza, criada nos modelos das exposições universais, ou seja, onde cada país mostra o que tem de melhor, apresenta um pavilhão para artistas refugiados. Neverland, do artista turco Halil Altindere, seria esse espaço, mas ele é apenas uma fachada, que se torna uma metáfora nos tempos das fake news, um dos temas de May you live in interesting times (que você viva em tempos interessantes), título da 58ª Bienal de Veneza.

Altindere já trabalhou com esse tipo de crítica social em Wonderland (2013), um clipe de hip hop que abordava os processos de gentrificação em Istambul, premonitório por ser feito pouco antes das manifestações contra a destruição da praça Taksim, na capital turca. O trabalho se tornou uma febre nas mostras de arte contemporânea, incluindo as bienais de Istambul, em 2013, e São Paulo, em 2014.

Muro Ciudad Juárez
Teresa Margolles. Muro Ciudad Juárez, 2010

Agora em Veneza, contudo, Altindere parece reafirmar o óbvio: mentira e disparidade social são chaves do tempo presente, não há inclusão viável nas sociedades do século 21 e seu trabalho é um mero comentário estetizante dessa catástrofe.

Neverland estaria inserida em uma das temáticas desta edição da Bienal, as fake news, definidas por seu curador, o norte-americano Ralph Ruggof. O nome da bienal já aponta isso, pois “que você viva em tempos interessantes” seria uma expressão citada como um provérbio chinês por figuras como Hillary Clinton, mas, segundo ele, é dessas traduções culturais que não se confirmam. Que tédio.

Se a frase em si já é sem graça, a Bienal cai em simplificações rasteiras, como a mais famosa e comentada desta edição que é, sem dúvida, Barca Nostra, do suíço Christoph Büchel. Ele levou à Veneza um navio naufragado, em 2015, que transportava quase mil refugiados e apenas 28 sobreviveram. Segundo um texto no site egípcio Mada, escrito por Alexandra Stock, o custo total para transportar o navio para a mostra chegou a imorais 33 milhões de euros.

Com trabalhos que carregam esse tipo de contradição, onde para se tratar de um assunto premente gastam-se valores absurdos e a formalização reduz o conteúdo à mera ilustração, esta bienal já parte de um nível baixo. Mesmo uma artista com uma obra contundente, como a mexicana Teresa Margolles, acabou nessa mesma toada, ao exibir partes de um muro de concreto cheio de balas, transportado de Ciudad Juarez, metrópole que faz divisa com os Estados Unidos. A obra, de 2010, já falava dos muros muito antes do governo Trump, mas em Veneza perde força ao se tornar uma ilustração das propostas atrasadas do presidente norte-americano.

Doppelgänger

Além das fake news, outra temática dessa edição de Veneza, são os duplos, o que significa tratar de com questões como cópia e clonagem. Nesse sentido, um dos bons trabalhos da mostra é o novo vídeo de Stan Douglas, Doppelgänger, sobre a astronauta Alice que é teletransportada para uma nave espacial, mas não age como sua figura original, em uma encenação futurista.

Stan Douglas, Doppelganger, 2019

A ideia de duplo se materializa também no conceito curatorial no espelhamento dos dois grandes espaços da mostra, Arsenale e Pavilhão Central, no Giardini, ambos com os mesmos artistas. A dupla projeção Doppelgänger, por exemplo, está no Pavilhão Central, enquanto no Arsenale Douglas é visto com fotos encenadas da série Scenes from the Blackout. A cenografia exagerada do Arsenale, aliás, com imensas chapas de madeira aparente, escondendo a grandiosidade do local, é outro ponto baixo da mostra.

Representações nacionais

Em anos de mostra principal fraca, as representações nacionais costumam compensar. Não foi o caso agora em 2019, salva raras exceções, entre elas o Brasil e o pavilhão vencedor da Lituânia, uma ópera que se passa em uma praia falsa, ao longo de oito horas, mas que dura uma hora. Sun et Sea (marina), de Rugilé Barzdziukaité, Vaiva Grainyté e Lina Lapelyté, é uma performance sobre a simplicidade de estar à beira do mar, desde passar protetor solar até reclamar de não conseguir relaxar. Basicamente ela é sobre o nada, mas cantado como se tudo fosse importante.

Ao transitar de forma delicada entre o espetacular e a simplicidade, a performance ganhou merecidamente Leão de Ouro, misturando quinze cantores com outros vinte e poucos figurantes, entre eles diversas crianças, em uma ação que segue um roteiro, mas está repleta de improvisações.

Já Bárbara Wagner & Benjamin de Burca, com Swinguerra, empoderam um Brasil marginal a partir da cultura popular do nordeste do país, especificamente de um movimento chamado swingueira. O vídeo apresenta várias narrativas, criadas em parceria com os integrantes desse grupo, misturando sonho e realidade, mostrando como esses espaços da música e da dança são locais que contradizem todo o atual discurso oficial do país de exclusão e preconceito.  A arte no pavilhão do Brasil não é ilustração, mas uma experiência vital de resistência e compreensão do humano, tudo o que faltou na mostra principal. 

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