"Aladas", max wíllà morais. Foto: Guilherme Sorbello/Cortesia Sé Galeria

*Por Claudinei Roberto da Silva

Entre nós, um extenso aparato cultural, ideológico, legislativo, religioso e midiático foi criado para justificar, atender e garantir a permanência de privilégios daquela parcela da população que deles direta ou indiretamente sempre se beneficiaram. E isso, é claro, à custa da desumanização, da coisificação dos que não participam desse grupo, sejam eles negres, indígenas ou os que demonstram identidade de gênero diferente da dominante. Na raiz do reacionarismo brasileiro estão acomodados a heteronormatividade, o machismo tóxico, o ódio de classe, o racismo e a aversão patológica ao diferente, ao corpo divergente que não reflita o ideal que consagra no poder o homem adulto, branco, burguês.
Essa realidade fica explicita em tempos de pandemia e necropolítica, em tempo de contar os mortos que estão na base da pirâmide social brasileira, contabilizar o resultado de séculos de desprezo à vida daqueles que não pertencem ao que entre nós se convencionou chamar “elite”. Mas como escreveu Castro Alves no épico Navio Negreiro: “E existe um povo que a bandeira empresta para cobrir tanta infâmia e covardia”. O poema é de 1868 e o auriverde pendão da nossa terra continua servindo ao povo de mortalha. Contudo, a depender de onde venha, a resposta do excluído tem a força do falo fertilizador de Exu, a vida invoca Eros, recusando o pensamento utilitarista que vê no indígena um preguiçoso e no negro uma besta de carga.

Certo pensamento periférico (periferia aqui é entendida como potência, não carência e estrutura deficitária) sempre enalteceu a festa como lugar privilegiado para elaboração de subjetividades vibrantes. Daí a satanização das festas pelos arautos da necropolitica. A carioca, nascida em 1993, Tadaskia Wíllà Oliveira Morais, mais conhecida como max wíllà morais, é artista visual, escritora, performer, educadora, pesquisadora, mulher trans e negra. Fui apresentado à sua obra pela clarividente curadora pernambucana Clarissa Diniz.

A artista é representada em São Paulo pela Sé Galeria e a conheci pessoalmente no Pivô, onde esteve em residência e participou, a convite da curadora colombiana Catalina Lozano, da mostra coletiva Uma história natural das ruínas – em exibição até 17 de abril. Recentemente alguns de seus trabalhos também estiveram presentes no Auroras, onde através da sensível articulação da curadora Gisela Domschke estiveram em diálogo com obras do cearense José Leonilson. O MAR (Museu de Arte do Rio) também já acolheu sua produção recente.

Vista da exposição “Uma história natural das ruínas”, no Pivô. Foto: Everton Ballardin/Cortesia Sé Galeria e artista

O crescente interesse em torno do trabalho da artista é resultado do avanço das lutas contra a invisibilização e decorrente epistemicídio dos corpos divergentes e é também plenamente justificado pela espessura poética expressa nessa produção. São desenhos, bidimensionais, costuras, pinturas, instalações, fotografias e ações que a artista denomina de “aparições”, que elaboram um universo lastreado no invisível e no visível, isto é, no resgate ritualizado da sua ancestralidade negra, afro-diaspórica, da sua religiosidade sincrética e na organização de um mundo material que dá significado novo e sensual as matérias sobre as quais a artista atua. São particularmente possantes os desenhos a que tive acesso e que podem ser conferidos no Pivô. São, suponho, a expressão de um corpo que não se deixou domesticar, distinguem uma atitude, são fluidos, atmosféricos, às vezes dão a impressão de volatilidade sem, no entanto, serem incorpóreos. Estão perfeitamente contidos nas margens tortas do papel que a artista recorta com as mãos. Existe algo de Tropicalista na artista e no seu projeto, as operações que ela realiza são graves, contundentes e incisivas, contudo não trazem traço qualquer de sisudez. Pelo contrário, há um senso lírico de humor, algo ácido talvez, atravessando essas narrativas que não raro no caso dos seus desenhos e costuras se apresentam em composições de enorme delicadeza e frescor. Delicadeza que, aliás, é conferida aos desenhos pelo emprego sensível que a artista faz dos materiais de que lança mão, o lápis de cor, a aquarela, canetas, o esmalte para unhas. O núcleo familiar da artista é às vezes engajado em algumas de suas ações que implicam na construção e uso de objetos híbridos, relacionais, que investigam e propõem relações entre aqueles corpos e a arquitetura proletária que eles habitam.

Brutalidade jardim – A Tropicália e o surgimento da contracultura brasileira (São Paulo, Editora UNESP, 2009, tradução Cristina Yamagami) é o resultado da pesquisa do professor estadunidense Christopher Dunn, pesquisador da prestigiada Tulane University de Nova Orleans. Conheci o professor quando este visitou o Museu Afro Brasil instituição em que na ocasião trabalhava como coordenador do Núcleo de Educação. Como escreve o professor: “O projeto Tropicalista manifestou-se num período de intensos conflitos políticos e culturais no Brasil, criticando simultaneamente o regime militar e o projeto nacional-popular da esquerda”. Tenho a impressão que o trabalho de max wíllà morais inscreve-se nessa “tradição” de insubmissão quando a artista refuta o engajamento político explícito tão marcado em certa parcela da produção artística afro-brasileira em favor de uma retórica de liberdade e lirismo sensualista. Esse hedonismo antes de qualquer inconsequência trabalha a favor de uma política do corpo bem ao sabor da contracultura mencionada por Dunn no título de sua obra. E pensando bem, o corpo e a obra coincidem em max wíllà morais e são, num certo sentido, um pronunciamento a favor da vida e uma ofensa e um antídoto a necropolitica e suas práticas.


*Claudinei Roberto da Silva é artista visual, curador e professor de Educação Artística na USP. Foi coordenador do Núcleo de Educação no Museu Afro, cocurador da 13ª edição da Bienal Naïfs do Brasil e curador de diversas mostras, entre elas PretAtitude.

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