Paulo Mendes da Rocha em seu escritório, em 2016, em retrato feito por Luisa Sigulem e publicado agora pela primeira vez. Foto: Luisa Sigulem

Numa tarde de junho de 2016, poucas semanas após ganhar o Leão de Ouro da Bienal de Veneza, Paulo Mendes da Rocha (1928-2021) recebeu este repórter em seu escritório, no centro de São Paulo, para conceder uma entrevista à revista Brasileiros. Era mais uma das muitas honrarias internacionais recebidas pelo arquiteto brasileiro nas últimas décadas – como o Pritzker, o Mies Van der Rohe, a medalha de ouro do Real Instituto de Arquitetos Britânicos (Riba) e o Prêmio Imperial do Japão – que coroavam seus cerca de 60 anos de trajetória profissional. O prêmio concedido pelo evento italiano, na verdade, foi apenas o pretexto para uma longa conversa sobre os mais variados temas, desde as percepções do arquiteto sobre as cidades, a arte e a natureza até críticas à construção de Brasília, ao conceito de “habitação popular” ou de “arquitetura verde” e ao sistema educacional no Brasil. Paulo não fazia concessões, era contundente em suas afirmações.

Ao longo de uma hora e meia de entrevista, o arquiteto deixou claro, uma vez mais, que não se pode pensar arquitetura como algo separado da vida cotidiana, da resolução dos problemas das pessoas e da busca pela satisfação das necessidades e desejos humanos. O título da matéria, publicada na edição da Brasileiros daquele mês – “O amplo sentido da arquitetura” – e a chamada na capa – “Paulo Mendes da Rocha: um pensador” – tentavam, minimamente, dar conta desta amplitude do pensamento do arquiteto que, naquele momento, era o último grande nome vivo da arquitetura moderna brasileira. 

Agora, cinco anos depois, pouco após a morte de Paulo Mendes da Rocha, aos 92 anos, em decorrência de um câncer de pulmão, a arte!brasileiros relembra alguns dos trechos mais marcantes daquela conversa. O arquiteto, nascido em Vitória e radicado em São Paulo, foi um dos principais nomes da chamada Escola Paulista de Arquitetura – ao lado de seu mestre João Vilanova Artigas. Projetou, entre muitos outros, o Ginásio do clube Paulistano, o MuBE (Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia), a reforma da Pinacoteca do Estado, a Marquise na Praça do Patriarca, o Museu dos Coches (Lisboa) e o Sesc 24 de Maio. Foi professor da FAU-USP, perseguido pela ditadura civil-militar no fim dos anos 1960, e influenciou de modo marcante o pensamento arquitetônico das gerações que o seguiram. Com ênfase na técnica construtiva, na adoção do concreto armado aparente e na valorização das estruturas das casas e edifícios, suas obras são referência incontornável na arquitetura brasileira. 

Mas, para além de suas obras, foram suas ideias e posicionamentos que o tornaram um dos maiores nomes da arquitetura nacional – assim como ocorreu com Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Artigas e Lina Bo Bardi, entre outros. Leia a seguir trechos da entrevista de 2016.  

Sobre arquitetura e arte

“Nós estamos aqui, em qualquer das nossas atividades, para resolver problemas. O que há são sempre problemas, pois é muito difícil ser qualquer ente vivo na natureza. Você vê o que as espécies tiveram que inventar, desde uma libélula até uma girafa, o negócio é muito complicado. Visto por esse lado, as coisas ficam até certo ponto estimulantes, porque temos que resolver problemas. Ou, para que isso se configure, precisamos saber formular os nossos problemas”.

“Você não pode resolver problemas, no âmbito da arquitetura, do ponto de vista puramente funcional. Aí você no máximo cria máquinas. Justamente a graça da arquitetura é manter o discurso vivo de que, diante da urgência para fazer algo, já se faz também com altos ideais da visão que temos de nós mesmos. É o que os linguistas chamam de concomitância do surgimento de necessidades e desejos. Você transforma a estrita necessidade, ao mesmo tempo, em desejo. Ou seja, você resolve um problema do ponto de vista prático, quase mecânico, dando uma expressão de que aquilo ainda poderá ser mais bem resolvido no futuro”.

“Hoje em dia, vejo a expressão arte como um tanto reducionista. Não pode ser só arte, e eis aí a graça da arquitetura, que você não sabe bem se é arte, ciência ou técnica. Ou seja, tem que ser tudo isso ao mesmo tempo. É um discurso sobre o conhecimento. A impressão que tenho é que tudo que o homem faz tem uma dimensão artística. A nossa existência exige uma posição daquilo que chamamos de arte, ou de atitude artística. Na fala, no gesto, na expressão, na preocupação com o outro… No fundo, no fundo, arte significa preocupação com o outro”. 

“Há um mercado de uma pretensa arquitetura, espalhafatosa, espaventosa, que, como qualquer embalagem, o mercado produz, com um valor fictício, capaz de ser promulgado como valor. A arquitetura como mercadoria é um erro. A arquitetura não é mercadoria, ela é sempre fruto de necessidades”.

“Acho muito bonito usar essa expressão popular “arquitetar”. As pessoas dizem: o que você está arquitetando? E isso é: estar dando forma a uma ideia, a uma vontade, a um desejo. Nós estamos condenados a transformar ideia em coisa, porque senão ninguém conhece a sua ideia. Se você escreve letras em um papel, eis o poema transformado em coisa. Quando estava só na cabeça do poeta, não era nada”.

Paulo Mendes da Rocha. Foto: Luisa Sigulem
Sobre as cidades e o espaço público 

“Na verdade, a ideia de cidade não é de amparo físico, no sentido de proteger do vento e da chuva. É a de um lugar onde você possa conversar. A cidade é o laboratório do homem. Ele precisa estar junto. E para viver junto é preciso transporte público, é preciso a escola das crianças etc. Isso não quer dizer que a cidade de São Paulo, com 20 milhões de habitantes, fruto da decadência advinda de uma política colonialista, seja a cidade ideal”.

“Nesses momentos de crise, quando fica explícita a agudeza dos problemas, a cidade se transforma para dizer justamente o que ela pretende ser. Quando se ocupam espaços, quando a rua assume um caráter de assembleia, é também uma visão arquitetônica da transformação. Porque nem sempre arquitetura exige que se construa algo. Ela pode ser realizada com as atitudes humanas simplesmente”.

Sobre o homem e a natureza

“Porque existe essa tendência de pensar que falar em natureza é falar no verde. Não, natureza é, inclusive, a condição masculina e feminina do ser humano, e nunca se enfrentou isso com tanta evidência quanto diante da questão da impossibilidade de uma superpopulação no planeta. Nós não somos nada. Sempre temos que imaginar o que seremos. E quando você indaga isso, eis a dimensão política da nossa existência. O que seremos se pudermos tomar decisões sobre os nossos rumos? É evitar o desastre. No fundo é isso”.

“É preciso encarar o fato de o planeta ser um pequeno calhau desamparado girando no universo, e pela primeira vez o homem não pode negar isso.”

Sobre educação e formação

“O sistema educacional está todo errado. Nós devíamos ensinar física, mecânica elementar junto com a alfabetização. Uma criança brinca com peão na palma da mão, empina papagaio, solta foguete, joga bolinha de gude. Ou seja, ele sabe o que é uma esfera que toca um plano só em um ponto. Não se joga gude com paralelepípedo, mas com esferas perfeitas. E você amarra uma pedra num barbante e qualquer criança vai entender o que é força da gravidade, conservação da energia etc. É mais fácil ensinar física elementar e mecânica a uma criança do que ensinar o que é o Dia das Mães. O difícil, para uma criança, é entender as besteiras que falam. E aí estou falando do mundo inteiro, não só do Brasil. A educação hoje é feita para submeter o camarada aos desfrutes do mercado e da ideologia que está posta aí, de um capitalismo estúpido”.

“É mais fácil a criança entender o que é um coração se você colocá-la para sentir a pulsação com a mão, no próprio corpo, do que colocá-la para desenhar um negócio vermelho no papel, tão abstrato. O filho do pescador sabe tudo sobre vento, tempo etc. O confronto com a natureza no seu conjunto de fenômenos educa, ainda hoje, de uma maneira que serve um pouco de contraponto a essa educação oficial que temos”.

“Não tenho muita experiência, para mim o mundo é sempre novo. Eu não sei o que foi e o que será. Só sei que não tenho medo das coisas, muito menos do presente, porque ele é tudo o que temos”.

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