A aldeia Ipawu em foto de Gabriela Rudge.

O Xingu se transforma rapidamente. Lideranças indígenas do território estão preocupadas com o destino do saber acumulado por eles em centenas de anos. O Parque Indígena do Xingu, situado ao norte do estado de Mato Grosso, entre o Cerrado e a Amazônia, abriga cerca de 14 etnias diferentes, entre elas os Kamayurá. No ano passado eles decidiram criar uma publicação com as técnicas de edificação de ocas. Desse desejo nasceu o Manual da Arquitetura Kamayurá, uma síntese de sua construção tradicional.

A ideia partiu de Kanawayuri L. Marcello Kamayurá, liderança local, ao conhecer no Xingu a arquiteta Clarissa Morgenroth, ótima desenhista que viajava pela região por nove meses. Ele a convidou para o projeto e ela envolveu a Escola da Cidade, através da plataforma Habita-Cidade com a oficina Modos de Habitar: Arquiteturas Tradicionais. Formou-se um grupo de estudantes e professores que viajou para a Aldeia Ypawu, em território Kamayurá no Alto Xingu, para dar apoio a essa empreitada especialmente na elaboração e armazenamento dos desenhos no computador.

Outra vista da Aldeia Ipawu, em foto de Sabrina Carvalho Dias.

“Quando chegamos ao Xingu constatamos que alguns indígenas já tinham conhecimentos preliminares de desenhos técnicos. Lançamos então a questão: como é o território Kamayurá? Ajoelhados sobre um grande papel branco eles desenharam a aldeia com suas ocas, rio, pássaros, árvores… A oca era uma representação tradicional deles e serviu de base para o início de trabalho”, diz Luis Octavio de Faria e Silva, arquiteto, professor e coordenador da plataforma. “Embora haja diferenças entre algumas etnias, os sistemas construtivos do Xingu têm muito em comum. A unidade arquitetônica é a oca, cuja quantidade na aldeia pode variar de acordo com a população residente”. Com formas ovaladas elas são distribuídas em círculo e é ali que fazem algumas atividades domésticas, menos acender o fogo para cozinhar.

No interior das ocas, em suas extremidades eles penduram as redes e a parte central é reservada para o comércio e rituais. “O chefe da família se ocupa da construção de sua casa junto com os parentes, onde cada membro tem saberes diferentes e múltiplos que funcionam em conjunto”. As construções são feitas com materiais retirados da floresta e executadas com as técnicas tradicionais, com tetos de palha que se estendem até o chão. Esses elementos combinam economia de materiais e a elegância formal. “Caso fique um pouco irregular eles não se importam, o que vale é a coesão do conjunto”, garante Luis Octavio. Segundo ele, os Kamayurá mantêm uma relação de olhar curioso sobre o que está fora de sua cultura. Hoje eles também fazem casas de quatro águas cobertas com palha. As ocas medem em torno de 30 por 10 metros e podem chegar a 10 metros de altura, com aberturas baixas, por onde se dá o acesso.

Como entrar no Xingu com a ideia de colaborar com os indígenas em um projeto de compreensão e representação da habitação tradicional deles sem encontrar a resistência de etnólogos, antropólogos, sertanistas? Luis Octavio comenta que um antropólogo fez parte do projeto e com ele tiveram reuniões preliminares nas quais ele apresentou as exigências formais de convivência no Parque Indígena e as etiquetas no modo de tratar os Kamayurá. Tiveram que seguir um protocolo inicialmente rígido e que depois ficou mais relaxado, segundo o arquiteto.

 

 

Durante a oficina foram feitos levantamentos de medidas e materiais utilizados nas construções Kamayurá. A partir desses levantamentos foram realizados desenhos de representação (plantas, elevações) e tabelas. Segundo o arquiteto, esses indígenas têm orgulho de construir suas casas. “O objetivo deles, por meio do Manual, é o recenseamento do saber construir e a equalização do saber entre eles. A ideia é a de envolver os jovens na construção das moradias e as lideranças acreditam que este manual com as técnicas tradicionais vai ajudá-los.”

Os primeiros elementos a serem colocados na construção de uma casa Kamayurá são os pilares centrais, seguidos dos mourões que formam o perímetro. A oca é composta por duas estruturas leves conectadas como se fossem duas cestas sobrepostas. Estas cestas são presas por amarrações verticais e horizontais. A palha é colocada por último de baixo para cima. Construir uma casa, para os Kamayurá, é também diversão.

 

Crianças Kamayurá brincando em oca em construção. FOTO: Sabrina Carvalho Dias

As ocas constituem um espaço de meia escuridão e de privacidade, mas ao mesmo tempo são um lugar aberto. Em cada uma delas vivem cerca de 20 pessoas, de famílias aparentadas. Essas casas, em geral duram de oito a 10 anos. “Eles costumam fazer manutenção se a construção estiver muita velha, mas os Kamayurá preferem construir uma oca nova. E, quando isso ocorre, todo o material da construção antiga é reutilizado ou queimado, eles não acumulam resíduos na aldeia. De uma maneira geral, eles têm compreensão da cultura deles, percebem a interação harmônica com o bioma, mas não são deslumbrados.”

No momento, o que existe em circulação pela internet é uma versão do Manual impresso na aldeia, que já foi revisado pela Escola da Cidade e enviado ao Xingu. Os arquitetos aguardam as observações ou possíveis correções dos Kamayurá. A intenção é fazer, depois de tudo revisado, uma versão em inglês para que possa circular em vários países.

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