Carlito Carvalhosa, Já Estava Assim Quando Cheguei, 2019
Carlito Carvalhosa, Já Estava Assim Quando Cheguei, 2019 - foto Ricardo Ferreira

A abertura de novas unidades, como o recém-inaugurado espaço de Guarulhos, não apenas aumenta a rede de pessoas atendidas, oferecendo à população local uma ampla gama de serviços assistenciais, esportivos e culturais, como viabiliza algo infelizmente ainda escasso no país: a existência de um espaço generoso e amplo que dê abrigo à produção artística, para que ela se realize em contato direto com um público bem mais diversificado e muitas vezes distante do tradicional circuito de museus, galerias e feiras.

Basta entrar no novo prédio, que em seu primeiro fim de semana recebeu 24 mil visitantes, para perceber a importância da arte no contexto geral do projeto. Pontuam o espaço, de maneira sutil ou com um impacto indisfarçável, trabalhos realizados especialmente para o local ou selecionados a dedo na reserva técnica da instituição. Assinados por uma gama bastante variada de artistas, as obras são de autoria e gêneros diversos, compreendendo desde artesãos anônimos, como os autores dos ex-votos que compõem um painel instalado no hall de entrada, até nomes importantes da cena contemporânea. Ao todo mais de 15 autores, alguns com várias criações (como Leonilson e Sidney Amaral), assinam as obras.

Na fachada do Sesc, ainda no exterior, uma grande escultura de Sérvulo Esmeraldo recebe os visitantes. Trata-se de uma peça de grande simplicidade, que contrasta com suas dimensões colossais, com mais de dez metros de altura: dois quadrados, um branco e um azul, que se tocam parcialmente e ativam o espaço a sua volta, como desenhos que se esforçam para adquirir uma força tridimensional.

Adriana Varejão, obras da série Tintas De Polvo
Adriana Varejão, obras da série Tintas De Polvo

Logo na entrada, estabelecendo uma sintonia fina com a arquitetura arejada de Renato e Lilian Dal Pian, foi instalada uma monumental escultura em gesso de Carlito Carvalhosa. Com um formato semelhante ao do morro do Pão de Açúcar, no Rio, e pendurada no vazio de cabeça para baixo, com a ajuda de uma estrutura de ferro e grossos tirantes que a conectam às paredes do prédio, a peça atrai os olhares perplexos, que se perguntam sobre o caráter permanente e ao mesmo tempo instável e precário de uma montanha pesada e invertida que flutua no ar.

Mesmo sendo provavelmente a mais impactante da nova unidade, a peça de Carvalhosa, Já estava assim quando cheguei, não é a única grande obra especialmente concebida para o espaço. No mesmo hall, ocupando uma longa parede no segundo andar do prédio, está o painel criado por Adriana Varejão. Composto por sete grandes círculos com formas geométricas e orgânicas, a pintura mural se insere num projeto já desenvolvido há tempos pela artista, no qual investiga a ampla gama de cores de pele dos brasileiros, a problemática questão da autoidentificação  em uma sociedade marcada por um forte, mesmo que disfarçado, racismo.

É interessante ressaltar que as escolhas de trabalhos permanentes para o novo espaço não têm a pretensão de reinventar poéticas. Pelo contrário, a proposta potencializa o alcance das obras de arte – em grande parte pelo destaque e generosidade do espaço concedidos a elas –, sem contudo sacrificar sua conexão com a poética particular de cada um dos autores. A grandiosidade e as especificidades de um centro cultural de ampla circulação não acarretam em um abandono das pesquisas dos artistas convidados. Pelo contrário, abre-lhes uma possibilidade de viabilizar algo que, na prática, é quase impossível nos nossos centros urbanos densos e fragmentados. É o caso, por exemplo, da gigantesca pintura Paisagem Desaguando, criada por Janaina Tschäpe para o ginásio e que estabelece um interessante paralelo visual com o núcleo contíguo das piscinas. Ou da obra de Eduardo Frota, composta por duas enormes peças que pertencem a sua série já conhecida dos carretéis, situada no jardim. A diferença é que neste caso optou-se pela troca dos já tradicionais perfis de madeira pelo aço, material mais resistente para uma exposição de longa duração.

É curioso notar como o artista consegue, apesar do caráter massivo do ferro, um paradoxal aspecto de leveza. Além da precisão com que é construída, com um encaixe perfeito de centenas de rodelas de aço sobrepostas, a escultura é oca em seu interior, tornando possível ver o céu através dela e dando certa transparência à brutalidade do metal.

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