O Bairro da Liberdade é uma invenção institucional. É o que mostra a exposição Liberdade: bairro plural, que está aberta a partir desta terça-feira, 7, no Museu do Ipiranga. Isso porque foi somente há 52 anos, em 1974, que a prefeitura paulistana resolveu criar ali na região, de forma deliberada, o que foi chamado inicialmente de “Bairro Oriental”. Era, como assinalou texto no jornal Folha de S.Paulo da época, “um sonho de cinco anos” sonhado por comerciantes de origem japonesa. A invenção exigia a consolidação de um padrão estético. Instalaram-se 450 lanternas inspiradas nas luminárias japonesas (os postes de iluminação) que passaram a marcar a identidade visual do quadrilátero, assim como calçamento com ladrilhos hidráulicos com motivos xintoístas, um portal vermelho. Criou-se um grande Jardim Japonês, organizaram-se festas típicas (festivais das Flores e das Estrelas), os comerciantes foram instados a montar letreiros com ideogramas. O resultado foi um êxito inegável – mais de um milhão de pessoas visitam o bairro a cada ano. No ano passado, o local foi eleito um dos 25 melhores destinos do mundo para viajar, segundo o ranking Best in Travel 2026, da Lonely Planet, uma editora de fama na edição de guias de viagem.
Face a essa realidade consolidada, é difícil reabrir qualquer debate histórico sobre a Liberdade. Mas, desde abril de 2025, quando se descobriram no subsolo de uma de suas construções mais antigas, a Capela dos Aflitos, inaugurada em 1775 (durante restauro), restos mortais de uma dezena de pessoas, as unanimidades sobre a Liberdade passaram a ser questionadas por ativistas. Os restos mortais sinalizam a descoberta do antigo Cemitério dos Aflitos, que foi ativo até meados do século 19 e era onde se enterravam pessoas de origem africana e seus descendentes, assim como indígenas. Essas pessoas eram supliciadas no Pelourinho (sim, São Paulo teve um Pelourinho em local público, hoje demolido, e ficava onde hoje é o largo Sete de Setembro, ao lado do atual Fórum João Mendes) e executadas a alguns metros dali, no Campo da Forca, onde atualmente fica a Praça da Liberdade. Por sinal, a exposição traz a reprodução da “certidão de batismo” da Liberdade, com cópia do edital da Câmara Municipal, de 29 de outubro de 1858, renomeando o Largo da Forca como Largo da Liberdade.
Para os curadores da exposição no Museu do Ipiranga, a pluralidade de grupos sociais que habita ou habitou a Liberdade desde seus primórdios não autoriza que se proceda uma única reivindicação territorial. Construída na confluência de duas trilhas que vinham do litoral paulista (uma feita pelos povos originários e outra pelos colonizadores portugueses), a Liberdade foi originalmente uma região de rejeitos. Havia ali um cemitério, uma praça de execuções, um hospital e um matadouro, o que não tornava o local uma freguesia propriamente nobre para os habitantes da cidade. Mas, por outro lado, os terrenos tradicionalmente mais baratos do entorno foram atraindo moradores de diversas etnias, notadamente imigrantes, ao longo dos séculos. Afro-brasileiros, japoneses, italianos, alemães, russos, estadunidenses, chineses, taiwaneses, libaneses, haitianos, guineenses. Embora pequena, a exposição tenta resgatar os vestígios dessas presenças na constituição do bairro, com o auxílio de instituições como o Templo Budista Busshinji.
É evidente que há um componente crucial na história da escravidão negra a ser resgatado, admitem os curadores. “A gente precisa se lembrar que tanto a Capela dos Aflitos quanto a Igreja dos Enforcados, a Igreja dos Remédios, o Centro Cultural da Guiné e a Ocupação Jean Jacques Dessalines, todas estão ligadas a memórias negras. Eu te diria que, nesse sentido, as instituições desta exposição ligadas às memórias negras são as majoritárias”, explica o curador da exposição e diretor do Museu do Ipiranga, o historiador Paulo Garcez Marins.
A Igreja da Santa Cruz dos Enforcados, erguida em 1886, era um espaço de devoção que apoiava o movimento abolicionista (e que se ligou umbilicalmente à Casa de Velas Santa Rita, de 1934, referência no comércio de produtos afro-brasileiros). A busca de documentos e objetos que comprovassem a existência e a atividade dessas instituições durou mais de um ano. “A Igreja dos Remédios, que tinha uma importância fundamental para o processo abolicionista na cidade, foi demolida quando ela já estava inclusive abordada na revista número 1 do Iphan, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Ela simplesmente some. São processos violentos que a gente aborda aqui, porque quando a gente aborda a demolição da Igreja dos Remédios, a gente não tá falando mais da escravidão, não tá falando do período colonial nem do Império, mas já da República apagando as memórias da escravidão”, diz Garcez. Objetos ornamentais resgatados do templo antes da demolição foram salvos e são exibidos na mostra, como duas impressionantes cariátides (figuras femininas que servem como suporte arquitetônico) do acervo do Museu de Arte Sacra.
As populações negras seguem sendo uma presença fortíssima na Liberdade. “Atualmente, elas prosseguem chegando. Provêm do Haiti e, sobretudo, dos países da África Ocidental. Como é o caso do Centro Cultural da Guiné, que mostra a presença contemporânea dessas populações negras que estão chegando ao bairro. Acho que é um arco de tempo de memórias negras diverso”, diz Paulo Garcez Marins. Dessa presença contemporânea, o caso da Ocupação Jean Jacques Dessalines é o mais veloz fenômeno: organizada em junho de 2021 por 80 famílias de refugiados haitianos em um prédio abandonado da Praça Carlos Gomes, na Liberdade, foi despejada pelo prefeito Ricardo Nunes em 2026. Esse processo de expropriação foi documentado pela exposição, que acompanhou a luta dos
refugiados.
Segundo Garcez, a curadoria optou por abordar a história do bairro a partir das instituições que o ocuparam ao longo do tempo, “inclusive aquelas que não estão mais no bairro e que foram forçadas a sair de lá por movimentos políticos, basicamente”. Isso aconteceu em relação aos alemães e aos japoneses, durante a Segunda Guerra Mundial, mas também aconteceu com a Frente Negra Brasileira, talvez a mais surpreendente revelação da exposição. A pesquisa conduzida por Garcez, Mônica Raisa Schpun, Aline Montenegro Magalhães, Francisco Andrade e David Ribeiro concluiu que a Frente Negra Brasileira funcionou onde hoje fica o prédio da Casa de Portugal e não deixou acervos, assim como a Liga Itálica, fechada em 2010 e cuja presença também foi praticamente apagada da História. “São instituições que de alguma maneira, exerceram o seu papel, mas que tiveram também a sua vida abreviada”, explica o curador.

E o que foi a Frente Negra Brasileira, da qual tão pouco se sabe? Foi um partido político criado em 1931 para eleger representantes que defendessem os direitos civis das pessoas negras, àquela altura quase nada acessados desde o final da escravidão. No início, a FNB ocupou duas salas de um prédio na Praça da Sé. Depois, mudou-se para um imóvel na Avenida da Liberdade. A sede teve escritórios, salão de beleza, barbearia, salão de jogos, consultório dentário e bar. Tinha salão de festas, grupo de teatro de música e um posto de alistamento eleitoral. “O alistamento da FNB vai de vento em popa, tudo em perfeita ordem. Como perguntássemos qual o número de eleitores já qualificados, foi-nos fornecido um mapa demonstrativo dos mesmos, que atingem uma soma de 4.001 eleitores até o dia 15 deste mês”, declarou o secretário geral do partido, Isaltino Veiga dos Santos, em uma entrevista na época.
A FNB mantinha um jornal próprio, o Jornal da Raça (1933-1937). Preconizava a educação como caminho de emancipação das populações negras e chegou a ser reconhecida como partido político. Em 1937, porém, com o banimento de todos os partidos políticos pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, foi declarada ilegal e fechada e nunca mais a experiência foi retomada. Parte das cópias de fotografias e documentos da FNB exibidos na exposição foi resgatada de arquivos virtuais. “Ou seja: é muito doloroso pra nós reconhecermos isso, mas os processos de apagamento das negritudes no Bairro da Liberdade não acontecem só por movimentos demográficos ou por migrações. Ocorrem por decisões do Estado de apagar”, diz Garcez.
De onde vem o nome “Liberdade”?
Há algumas teses popularmente aceitas para a adoção do nome Liberdade. Mas duas se sobressaem.
A primeira remete a D. Pedro I. Parte expressiva da população, na época do seu reinado, o considerava um déspota. Os populares festejaram ruidosamente quando saiu um decreto, em 7 de abril de 1831, que celebrava o fim de seu reinado e a data de sua abdicação. Diziam que havia gritos pelas ruas: “Liberdade, Liberdade!”. Teria sido nesse clima que se decidiu que o Largo da Forca fosse rebatizado como Largo da Liberdade, o que expressava o desejo popular por uma nova expectativa política no Brasil.
A outra tese é mais mística e gerou até uma devoção popular. Em 1821, um soldado do Império, Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, encabeçou uma revolta por melhores pagamentos e igualdade de soldos entre brasileiros e portugueses, e foi condenado à morte. A execução foi marcada para o Largo da Forca. Acontece que Chaguinhas, quando foi submetido à primeira tentativa de enforcamento, viu acontecer algo sui generis: a corda se rompeu. Seus algozes resolveram tentar uma segunda corda. Essa também se rompeu, o que deixou assombrados os carrascos. A população, que assistia à execução, resolveu exigir o que parecia ser uma tradição – o rompimento da corda podia significar uma intercessão direta do divino. Mas os executores não deram ouvidos e Chaguinhas foi levado à terceira corda, que não cedeu, porém o soldado demonstrava sinais vitais ao ser resgatado e acabou morto a pauladas. Chaguinhas era preto. Foi dessa execução que surgiu o culto na Igreja dos Remédios e que, mais tarde, faria surgir a Casa de Velas Santa Rita, para dar vazão à demanda dos fiéis.
SERVIÇO
Exposição “Liberdade: bairro plural”
7 de julho de 2026 a 31 de janeiro de 2027
Museu do Ipiranga
Endereço: Rua dos Patriotas, 100
De terça a domingo, das 10h às 17h. Última entrada: 16h
Sala de exposições temporárias – Museu do Ipiranga
Entrada gratuita (somente para esta exposição)
Funcionamento: Terça a domingo (incluindo feriados), das 10h às 17h (última entrada às 16h). Confira mais informações: museudoipiranga.org.br/visite/





