Debate com Júlia Rebouças e Durval Muniz discute o sertão e a ideia de uma “arte sertão”

Evento realizado pelo MAM e pela ARTE!Brasileiros levantou relevantes discussões sobre a construção de conceitos na sociedade e sobre a curadoria do 36o Panorama da Arte Brasileira

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Com a participação de Júlia Rebouças, curadora, pesquisadora e crítica de arte, e do historiador Durval Muniz De Albuquerque Júnior, mestre e doutor em História Social pela Unicamp e professor dos programas de pós graduação da UFRN e da UFPE, aconteceu na última sexta-feira, dia 5, o debate “Sertão: experimentação e resistência”, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). O evento, uma pareceria do MAM e da ARTE!Brasileiros, está ligado ao 36º Panorama da Arte Brasileira, que tem curadoria de Rebouças e abertura prevista para agosto deste ano. A mediação do debate foi feita por Patricia Rousseaux, publisher da ARTE!Brasileiros.

Com o tema “sertão”, que será o eixo curatorial desta edição, o 36o Panorama não procura retratar o que costumamos definir como sertão brasileiro, nem mesmo lidar com este conceito de modo fechado. Pelo contrário, como explicou a curadora em sua fala: “Eu não quero necessariamente ou exclusivamente tratar dos estados que compõem o Nordeste, nem da caatinga, nem do agreste ou do semiárido. Acho que com esse projeto eu quero pensar numa certa arte brasileira que tem como fundamentos resistência e experimentação. A partir disso eu faço uma licença poética, e também uma licença política, de chamar esta certa produção brasileira de uma ‘arte sertão’”.

Construção e desconstrução do sertão

Contextualizando e aprofundando a discussão, antes de Rebouças apresentar em detalhes seu projeto para a mostra, Durval Muniz falou sobre a construção histórica do conceito de sertão e sobre o imaginário nacional relacionado à região Nordeste. Autor dos livros A Invenção do Nordeste e outras Artes; História, a Arte de Inventar o Passado; e Preconceito Contra a Origem Geográfica e de Lugar: as Fronteiras da Discórdia, o professor destacou que a palavra sertão nos remete a um conjunto de imagens e temas que foram construídos ao longo do século 20 e que envolve diversos clichês e estereótipos.

“Há um conjunto de temáticas, acontecimentos e personagens que estão ligados à essa palavra. Quando ouvimos falar em sertão pensamos em seca, retirada, coronelismo, cangaço e movimentos religiosos”, falou o professor. Pensamos também, segundo ele, na região Nordeste, apesar de que a palavra sertão antecede em muito a própria definição do que é a região nordestina. Neste sentido, o historiador ressaltou que sertão já aparece no vocabulário português nos séculos 14, 15 e 16 e se refere “a um lugar desabitado, lugar do vazio, a um silêncio”. “E à medida que ele é esse vazio, pode-se atribuir a ele diversos significados”.

“Nordeste é um recorte regional que só surge no começo do século 20. Antes o Brasil se dividia em Norte e Sul. E o discurso regionalista nordestino foi muito eficiente em capturar o conceito de sertão”, disse Durval. Isso se deu seja através da produção sociológica, historiográfica ou artística, e foi marcante “a ponto de as outras regiões brasileiras não terem sertão, mas interior”.

Outro aspecto destacado pelo historiador foi a ideia de que o sertão se refere, em nosso imaginário, a um outro tempo, geralmente do passado, “um tempo anterior à civilização, ao progresso, à urbanização e ao desenvolvimento”. “É essa ideia de sertão como confins. O sertão é uma distância, uma lonjura física e temporal”, disse ele.

A construção desse imaginário sertanejo, associado também à pobreza, ao artesanal e à tradição, à violência e à masculinidade – a figura do “cabra macho” – está estreitamente relacionada à construção do imaginário nordestino, e tem a ver com uma série de aspectos políticos e culturais. Segundo Durval, “o Nordeste é uma invenção de uma elite que perdeu espaço a nível nacional. De elites que foram derrotadas no processo de implantação da sociedade urbana, industrial e burguesa capitalista no Brasil.” Nesse sentido, “o Nordeste é uma invenção reacionária a esse processo, que tenta conservar a sociedade estamental, patriarcal e aristocrática de quando a região foi o centro da política e economia brasileiras”.

Isso também envolve, de diferentes modos, escritores, cineastas, artistas de diferentes áreas, historiadores e cientistas sociais, não apenas as elites. Citando importantes nomes como Euclides da Cunha, Luiz Gonzaga, Cicero Dias e Glauber Rocha, entre outros, Durval prosseguiu: “O Nordeste existe porque foi inventado. E ele existe com muita força por causa da qualidade de seus inventores, da potência dos discursos”. “Por isso o Nordeste é uma construção tão difícil de desconstruir. E acho que são as artes que podem ajudar nesse sentido, mais do que a academia.”

Desconstruir, diz ele, porque “essa estereotipia em torno do sertão não permite que se veja sua complexidade e diversidade”. O sertão não deve ser visto apenas como lugar do atraso, da violência, da pobreza, da seca e assim por diante. “O sertão é uma experiência múltipla, embora tenda a ser narrada a partir de determinados clichês.” Ele hoje é diverso, moderno e pós-moderno, abriga grandes cidades, enormes contrastes dentro de si mesmo. “Ele é atravessado por todos os fluxos econômicos, culturais e simbólicos que atravessam qualquer espaço do mundo. O sertão é global, é globalizado. É complexo, múltiplo, ambíguo, conflituoso”, concluiu o historiador.

O Panorama da Arte Brasileira

Após a fala de Durval Muniz, Júlia Rebouças falou mais detidamente sobre o projeto curatorial do 36o Panorama e dos conceitos que o guiam. Ainda assim, segundo ela, por mais “amarrado” que esteja o projeto e a lista de artistas participantes, é apenas quando a mostra começa a tomar forma, ser montada e vivenciada que consegue-se perceber se o “projeto deu certo ou não, se um conceito é potente ou não e se ele dá conta da produção de um momento”. Mesmo que de algum modo precários, no entanto, os exercícios reflexivos anteriores são fundamentais para a construção de um corpo, disse a curadora.

“O projeto parte desse conceito sertão, que aqui eu tomo como um termo evocativo, que trás consigo afetos, formas, ideias e ficções. As imagens de sertão estão presentes por toda a cultura brasileira, ainda que nenhuma delas dê conta de tudo que pode significar sertão. Os elementos de uma certa geografia não são sertão, o semiárido não é suficientemente sertão, a caatinga, as ocupações humanas não são sertão. Também não são sertão apenas as forças telúricas. Não há um empreendimento, um monumento ou uma manifestação que consiga simbolizar inteiramente sertão, nem mesmo essas manifestações do sagrado e do festivo.”

Para a curadora, se de um lado o imaginário do senso comum trata o sertão como vazio, aridez, aspereza e infertilidade, de outro também surgem as acepções de vitalidade, força, resistência, experimentação e criação, “gestadas a partir de uma ordem de saberes e práticas que desafia o projeto colonial em suas reiteradas tentativas de submissão”.

Rebouças afirmou, nesse sentido, que existe aí uma condição muito rica para “contemplar uma produção de arte contemporânea que também possa existir fora dos cânones dos circuitos institucionais e mercadológicos estabelecidos, ainda que possa e deva infiltrá-los”. Para tratar sertão como modo de pensar e de agir, Rebouças também estabelece um diálogo com os debates sobre “epistemologias do Sul” e “orientalismos”, que fogem de uma visão de mundo ocidental hegemônica.

Sobre o processo que a levou ao conceito do Panorama, Rebouças disse também ter se inspirado no contato que teve com o ASA (Articulação no Semiárido Brasileiro) – uma rede formada por associações, cooperativas, movimentos sociais, sindicatos rurais etc. O ASA propõe uma “convivência” com o semiárido, “em oposição à uma política econômica e social de origem colonial que explora e controla o povo do semiárido com projetos de combate: combate à seca, ao clima, à natureza. E com uma promessa de fartura que nunca retorna ao povo”, disse ela.

“E para mim tem sido muito instigante pensar a arte a partir deste vocabulário da agricultura e dos agricultores. Vem do campo e das experiências do campo grande parte dos debates mais interessantes da nossa relação com a natureza, sobre questões climáticas e ambientais, sobre alimentação, sobre os movimentos sociais que são das forças de resistência mais contundentes do debate político hoje”, defendeu a curadora. “Então acho que tem sido muito instigante pensar em sertão e em uma ‘arte sertão’ a partir de um léxico que encontra e parte desse debate sobre plantio, sobre agricultura, sobre essa relação do homem com a natureza nessa condição mais fundadora e fundamental da existência do homo sapiens.”

Para o 36o Panorama, portanto, o sertão é entendido “por meio da arte como um afeto, como um modelo, como uma qualidade de onde brotam criações poéticas, imagens detonadoras, rearticulação da linguagem, novos arranjos sociais, encontros de saberes oriundos de diferentes matrizes, manejo dos bens naturais, engajamento com o entorno, múltiplas manifestações do sagrado, capacidade de festejar”. Tratam-se, segundo a curadora, de especulações do que seria essa “epistemologia sertão”, vista a partir da produção de arte contemporânea, e de como essas características vão constituindo na prática de uma arte contra-colonial ou “decolonial”.

Por fim, numa linha semelhante à da fala de Durval Muniz, Rebouças citou a força do imaginário sobre o sertão nas artes, desde a música de Luiz Gonzaga, a escrita de Guimarães Rosa e o cinema de Glauber Rocha, entre tantos outros. “Há muitos exemplos das abordagens sobre sertão na cultura brasileira, mas o que eu estou pretendendo com esse projeto é, reconhecendo esse legado, acrescentar uma outra visada, de modo que essa abordagem aqui do 36o Panorama se distancie desse imaginário simbólico e se afaste dessa atração do folclórico e das representações de clichês regionalistas. Então o sertão aqui não deve ser entendido como um tema, mas como uma forma de enunciar. Não é sobre sertão, mas uma forma sertão de existir como arte”.

Para terminar, a curadora falou rapidamente sobre os 29 artistas escolhidos para compor a mostra: Ana Lira, Ana Pi, Ana Vaz, Antonio Obá, Coletivo Fulni-ô de Cinema, Cristiano Lenhardt, Dalton Paula, Daniel Albuquerque, Desali, Gabi Bresola e Mariana Berta, Gê Viana, Gervane de Paula, Lise Lobato, Luciana Magno, Mabe Bethônico, Maré de Matos, Maxim Malhado, Maxwell Alexandre, Michel Zózimo, Paul Setúbal, Radio Yandê, Randolpho Lamounier, Raphael Escobar, Raquel Versieux, Regina Parra, Rosa Luz, Santídio Pereira, Vânia Medeiros e Vulcanica PokaRopa. “Acho que são artistas que estão trabalhando a partir de um conjunto de conceitos, valores e afetos transformadores. Fazem essa ‘arte sertão’”.

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