Still de 1978 - Cidade Submersa, de Caetano Dias. Cortesia Videobrasil.
Still de 1978 - Cidade Submersa, de Caetano Dias. Still de 1978 - Cidade Submersa, de Caetano Dias. Cortesia Videobrasil.

O vídeo 1978 – Cidade Submersa, de Caetano Dias, mostra a relação de um pescador com as lembranças da sua antiga cidade. Trata-se de um documentário que, por vezes, embaralha a ficção e realidade para contar uma história sobre saudades soterradas utilizando um personagem que navega e pesca sobre as próprias memórias. É sobre essa obra que a professora Alejandra Hernández Muñoz[1] reflete no novo episódio do Acervo Comentado Videobrasil. Confira abaixo:

Entre 1971 e 1982 foi construída a Usina Hidrelétrica de Sobradinho, no Rio São Francisco, na Bahia. Para isso, as antigas cidades de Pilão Arcado, Sento Sé, Casa Nova e a própria Sobradinho tiveram que ser alagadas. Muñoz nota que “nessas águas, um reservatório de outrora assinala uma resistência ao esquecimento”. É uma caixa d’água situada, agora, dentro da represa, com sua função nulificada, um puro recipiente de uma lembrança que daqui a pouco também não existirá mais.

No contexto do levantamento da barragem, mais de 70 mil pessoas foram alocadas para assentamentos construídos em locais próximos e receberam os mesmos nomes das cidades alagadas, cujas ruínas costumam aparecer nos períodos de seca, “resquícios da violência de um passado que subjaz à aparente serenidade da paisagem”, como observa Muñoz. Essas ruínas, no silêncio do vídeo e nas faltas de diálogo, trazem o enigma de “quem são esses inundados que caminham às margens do lago?”

A mesma água que fornece luz e energia para a comunidade é o modo de apagamento da sua existência anterior, e esse tanque, como uma presença incômoda da impossibilidade de cobrir tudo, vira uma espécie de resistência a esse rolo compressor das políticas progressistas e do discurso do desenvolvimento.

A professora reforça no Vídeo Comentado que “a barragem é resultado dessa operação hercúlea do homem sobre a natureza”, e deixa a pergunta: “Quais são os resultados dessa interferência colossal no ambiente?”

Na edição #52 de arte!brasileiros, através da obra do fotógrafo Gideon Mendel, mergulhamos brevemente nessa questão. Confira o trabalho de Mendel neste link.

Ainda não conhece o Acervo Comentado?

Acervo Comentado Videobrasil é uma parceria entre arte!brasileiros e a Associação Cultural Videobrasil. A cada 15 dias publicamos, em nossa plataforma e em nossas redes sociais, uma parte de seu importante acervo de obras, reunido em mais de 30 anos de trajetória. Confira os outros episódios neste link.

Sobre Videobrasil

A instituição foi criada em 1991, por Solange Farkas, fruto do desejo de acolher um acervo crescente de obras e publicações, que vem sendo reunido a partir da primeira edição do Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil (ainda Festival Videobrasil, em 1983). Desde sua criação, a associação trabalha sistematicamente no sentido de ativar essa coleção, que reúne obras do chamado Sul geopolítico do mundo – América Latina, África, Leste Europeu, Ásia e Oriente Médio –, especialmente clássicos da videoarte, produções próprias e uma vasta coleção de publicações sobre arte.

Este projeto contribui para “redescobrir e relacionar obras do acervo Videobrasil, e vertentes temáticas, na voz de críticos, curadores e pensadores iluminando questões contemporâneas urgentes”, afirma Farkas.


[1] Alejandra Hernández Muñoz, uruguaia, reside em Salvador desde 1992, é arquiteta, Mestre em Desenho Urbano e Doutora em Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (FAU/UFBA). É professora permanente de História da Arte da Escola de Belas Artes (EBA/UFBA). Integrou as equipes curatoriais do Programa Rumos Artes Visuais 2011-2013 do Instituto Itaú Cultural (São Paulo), da 3ª Bienal da Bahia 2014 e da 21ª Bienal Sesc_Videobrasil 2019 (São Paulo).

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