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Joseph Beuys e o abandono à arte

Joseph Beuys, La Rivoluzioni Siamo Noi (1972). Foto: Cortesia Bergamin & Gomide.
Joseph Beuys, La Rivoluzioni Siamo Noi (1972). Foto: Cortesia Bergamin & Gomide.

O artista Joseph Beuys nasceu no dia 12 de maio de 1921 em Krefeld, na Alemanha, próximo à Holanda. Neste ano pandêmico se celebram, portanto, seus 100 anos de nascimento. Precursor de questões que estamos debatendo de forma sistemática nesses meses de confinamento, como a defesa da natureza, sua figura se destaca também por repensar o sistema da arte. Esse tema foi abordado por mim em uma palestra no Instituto Goethe, em 2011, no Terceiro Ciclo do Pensamento Alemão, que se transformou em um capítulo de um livro com o mesmo nome do evento no ano seguinte. A atualidade do debate se mantém e consideramos pertinente republicar agora o texto, sem grandes modificações.

***

Uma das obras mais significativas de Beuys é O fim do século 20 (Das Ende des 20. Jahrhunderts) (1982-83), exibida no museu Hamburger Bahnhof, em Berlim, uma instalação composta por 21 rochas de basalto que podem representar entorpecimento, solidificação ou mesmo um cemitério coletivo. O basalto, é bom lembrar, contém cristais que não são vistos a olho nu. Em cada rocha, o artista fez um buraco circular e dali retirou um cone, reintroduzindo-o novamente, desta vez colado com feltro e barro, como a sinalizar que mesmo o mais sólido e imutável pode sofrer transformações através da ação humana. 

Segundo Peter-Klaus Schuster, curador da mostra Um século de arte alemã, que ocorreu em três grandes museus de Berlim, em 1999, e que colocou Beuys como o artista central de sua seleção sobre a arte alemã no século 20, O fim do século 20 trata da “ambivalência das enormes catástrofes do século e, ao mesmo tempo, como uma imagem positiva do valor da vida humana”.

É essa visão essencialmente humanista, que elege todo homem não só como um revolucionário, mas também como um artista, responsável por contribuir na construção de uma nova sociedade, definida por Beuys como “escultura social”, que o coloca como um dos principais pensadores do século 20 e cujas ideias pretendo abordar neste texto O abandono à arte – inspirado em um cartão postal de 1985, intitulado Com isso abandono a arte – para refletir sobre o caráter absolutamente radical de suas proposições.

O título original desse trabalho, aliás, é Hiermit trete ich aus der Kunst aus e a tradução que adotei é a que consta do livro Joseph Beuys, de Alain Borer. Literalmente, ela pode não ser a tradução mais adequada, mas, conceitualmente, como veremos a seguir, ela é totalmente pertinente.

1 – Beuys: o mito

Para compreender o pensamento de Beuys é fundamental conhecer sua própria biografia. Não se trata aqui de justificar sua obra como uma ilustração de sua vida, mas da própria inter-relação que ele buscou entre arte e vida, uma vinculação que se tornou essencial na forma de se conceber a arte nos anos 1960 e 1970, período que tem em Beuys uma de suas principais figuras. 

Esse momento particular do século 20 fez com que artistas como Andy Warhol, Hélio Oiticica ou o próprio Beuys criassem em torno de si uma série de lendas, como uma amostra simbólica de suas concepções a respeito da arte. Cada um, à sua maneira, criou sobre si uma série de lendas que, sejam verdadeiras ou falsas, pouco importa, são a maneira como encarnaram sua própria concepção de arte. 

No caso de Beuys, seu uniforme foi sempre o de um tipo simples: o chapéu de feltro, a jaqueta de pescador, os jeans e os sapatos pesados, como alguém pronto ao trabalho braçal em uma das mais antigas profissões. A construção de sua figura pública, uma espécie de pescador de almas, relaciona-se ainda diretamente com a lenda que o artista construiu em torno de sua biografia. Como diz Borer, na publicação citada:

Uma lenda não é nem verdadeira nem falsa, ela é, em latim, aquilo que deve ser lido e dito, aquilo que é narrado sobre a obra e seu autor, “o ponto em que a biografia deixa de ser extrínseca”: tudo aquilo com o que a figura legendária contribui e colabora na medida em que o próprio artista vigia zelosamente, e isso em toda obra, o que será dito sobre ela (BORER, 2001, p. 12).

É assim, portanto, que devemos ler a mitológica história de Beuys e sua queda de avião na Criméia: como um preâmbulo à sua obra. Ela é narrada, em sua biografia publicada por Heiner Stachelhaus, da seguinte forma:

Ainda jovem, começou o estudo de medicina, pretendendo devotar-se aos mais humildes. Esse desejo, no entanto, foi destruído quando pilotava o seu Stuka, depois de ingressar na Luftwaffe [a força aérea nazista] em 1941. No ano de 1944, aos 22 anos, ele miraculosamente escapou da morte na Ásia. O seu avião, um JU 87, caiu numa região coberta de neve chamada Crime ou Criméia. Joseph ficou inconsciente por vários dias, semicongelado, foi levado por genuínos tártaros, que cuidaram de suas chagas. O povo, natural do lugar, logo o tomou por um dos seus: “Você não alemão, você tártaro”, e trouxe-o de volta à vida, enrolando-o em seus tradicionais cobertores de feltro e aquecendo-o com gordura animal. Depois de seu retorno, tendo encontrado abrigo em uma fazenda, Joseph enfrentou uma crise profunda, familiar a todos os grandes artistas, que lhe permitiu elaborar os princípios básicos de sua arte (BORER, 2001, p. 13).

Não podemos esquecer que Beuys assume aí que participou da esquadra nazista e seu martírio se torna, assim, uma espécie de redenção, como se ele fosse transformado de maneira tão vital com esse episódio que tivesse uma gênese a partir da ajuda dos tártaros, com seus meios fraternais e primordiais de salvamento.

É a partir dessa história que Beuys justifica não só o caráter de suas proposições artísticas como um campo que deve salvar o ser humano de suas crises, dando a elas um caráter terapêutico; mas também explica os materiais envolvidos em suas obras, especialmente o feltro e a gordura animal, elementos que representam uma forma de proteção, através do calor, como materiais orgânicos que possibilitam uma relação vital à natureza, lembrando como o ser humano é parte integrante dela.

Arte não deve se resumir à retina – por isso estou engajado com a substância, como “um processo do espírito (soul)” (HARLAN, 2004, p. 14).

É como Beuys justifica o uso dos elementos naturais em sua obra. Na versão de Cadeira com gordura, de 1981, (a primeira foi realizada em 1964) ou em Terno de Feltro, de 1970,  vemos como o artista não está preocupado em criar uma escultura de maneira tradicional, mas em provocar uma reflexão sobre o papel da artista, construindo uma narrativa a partir desses materiais. Assim, Beuys preocupa-se em reorientar o sentido e a função da arte. 

Durante o nazismo, a arte moderna foi combatida oficialmente através da mostra Arte Degenerada, uma espécie de manifesto contra os movimentos modernistas como a Bauhaus, o cubismo e o expressionismo alemão, que pregavam na arte uma nova forma de observar o mundo. O que os nazistas defendiam, então, era o retorno das belas artes, das formas clássicas como as mais adequadas à sociedade ariana que se pretendia erigir como soberana. 

Arte Degenerada, a exposição que teve início na Haus der Kunst de Munique, em 1937, e depois seguiu para mais 11 cidades na Alemanha e na Áustria, reuniu 650 obras de 112 artistas, entre eles Paul Klee, Kurt Schwitters, Marc Chagall, Mondrian e Lasar Segall. Em quatro meses, em Munique, a mostra reuniu mais de dois milhões de visitantes.

Quase vinte anos depois, em 1955, Arnold Bode criou em Kassel uma exposição, a Documenta, cujo objetivo central foi reapresentar ao público alemão os modernistas censurados no regime nazista. Essa mostra, que se tornaria de periodicidade quinquenal, e hoje funciona como o grande farol da arte contemporânea, foi uma das grandes plataformas usadas por Beuys para suas ideias. Ele participou de quatro de suas edições – em 1964, 1972, 1977 e 1982 -, contribuindo para a reconstrução do pensamento artístico alemão de forma decisiva. E qual foi essa forma? Em Beuys existe uma pergunta essencial: “Qual a necessidade que justifica a criação de algo como arte?”. E sua própria resposta é bastante clara:

Se essa questão não se torna o foco central da pesquisa e isso não é resolvido numa forma verdadeiramente radical, que de fato veja a arte como o ponto de início para produzir alguma coisa, em qualquer campo de trabalho, então qualquer pensamento de desenvolvimentos posteriores é apenas perda de tempo (HARLAN, 2004, p. 10).

Quando Beuys defende que a arte é o ponto de partida para produzir algo em qualquer campo, ele está afinado com aqueles que, nos anos 1960 e 1970, viam na arte o único espaço possível para novas práticas que descondicionassem o ser humano de, ao menos, duas visões então hegemônicas, faces do mesmo processo civilizatório, tal qual descrito por Norbert Elias: o pensamento racionalista e o condicionamento do corpo através de formas de comportamento então vistas como civilizadas, mas que o contrapõe às forças da natureza, como se o homem estivesse delas excluído.

Um dos pontos centrais do pensamento de Beuys é, justamente, a “defesa da natureza”, como prega numa obra, uma fotografia de 1984, numa concepção holística, que se relaciona em grande medida com antroposofia de Rudolf Steiner (1861-1925), ou seja, da necessidade de integração entre homem e natureza. É a partir daí que, explica o artista, sua obra deve ser compreendida. 

Meus objetos são para ser vistos como estímulos para a transformação da ideia de escultura, ou da arte em geral. Eles devem provocar pensamentos sobre o que escultura pode ser e como o conceito de escultura pode ser estendido para materiais invisíveis usados por todo mundo:

Formas de pensar – como moldamos nossos pensamentos ou

Formas de falar – como damos forma aos nossos pensamentos ou

ESCULTURA SOCIAL: como moldamos e damos forma 

ao mundo em que vivemos: 

Escultura como um processo evolutivo;

Todo mundo artista (HARLAN, 2004, p. 9)

Dessa forma, chegamos aqui no cerne da concepção de arte de Beuys: usar a arte como uma plataforma de transformação da sociedade, como um estímulo para a reconstrução do mundo. Como afirma Harlan, em outra publicação:

A principal preocupação de seu trabalho artístico é a reformulação do campo social. Ele chama o organismo social de escultura social (FARKAS, 2010, p. 27).

No entanto, não se trata aqui de uma plataforma meramente política, Beuys não é apenas um militante da transformação no campo social, mas também um revolucionário das formas plásticas, por isso seu discurso e sua prática artística não podem ser separados: “Arte é um tipo de ciência da liberdade” (HARLAN, 2004, p. 10), afirma Beuys, numa concepção muito próxima a defendida pelo crítico de arte brasileiro Mário Pedrosa, para quem “a arte é o exercício experimental da liberdade, sua ideia mais conhecida e propalada”.

Beuys utilizou diversos meios como instrumentos para a divulgação de suas ideias. Ele foi autor de uma produção monumental, dezenas de obras, mas especialmente múltiplos, que por seu caráter democrático, outra das bandeiras dos anos 1960 e 1970, estavam mais adequados às suas propostas. Entre 1965 e 1986, ele produziu nada menos que 557 múltiplos, alguns com tiragem de 12 mil cópias, como a caixinha de madeira escrita “Intuição!”. Ele também produziu cerca de 300 cartazes, apropriando-se ainda da propaganda como um de seus meios de expressão, o mesmo que fazia o regime nazista, mas, obviamente, com objetivos totalmente distintos.

Joseph Beuys, La Rivoluzioni Siamo Noi (1972). Foto: Cortesia Bergamin & Gomide.
Joseph Beuys, La Rivoluzioni Siamo Noi (1972). Foto: Cortesia Bergamin & Gomide.

Quando Beuys criou o pôster A revolução somos nós, em Nápoles, no ano de 1971, ele explicou, em entrevista a Giancarlo Politi, da revista Flash Art (n. 168), o sentido do uso desse meio:

Para se comunicar, o homem se serve da linguagem, usa gestos, a escrita, picha um muro, pega a máquina de escrever e extrai letras dela. Em resumo, usa meios. Quais meios usar para uma ação política? Eu escolhi a arte. Fazer arte é, portanto, um meio de trabalhar para o homem, no campo do pensamento. Este é o lado mais importante do meu trabalho. O resto, objetos, desenhos, performances, vêm em segundo lugar. No fundo, não tenho muito a ver com a arte. A arte me interessa apenas enquanto me dá a possibilidade de dialogar com o homem.

Aqui, então, vemos um pouco do sentido de seu postal, que dá título a essa fala, Com isso abandono a arte. A arte, para ele, não estava reduzida aos espaços convencionais, da galeria e do museu, mesmo que ele também ocupasse com regularidade esses locais. 

2 – Os lugares de Beuys
2.1 A academia

Para defender suas propostas, Beuys utilizou e problematizou vários campos: a academia, as instituições de arte como museus e galerias, as instituições políticas, chegando a ser um dos fundadores do Partido Verde alemão, em 1980. Sua presença na Academia de Arte de Düsseldorf, por exemplo, foi marcante. Lá ele estudou, tornou-se professor de escultura, em 1961, e permaneceu por dez anos, até 1972. Para ele: 

Ser professor é a minha obra de arte mais importante […] o resto é produto descartável. Se você quer se expressar, você precisa apresentar algo tangível. Mas depois de um tempo, isso tem apenas a função de um documento histórico. Objetos não são mais importantes. Eu quero chegar à origem das coisas, ao pensamento por trás delas (Artforum, 1969).

Nesse sentido, Borer afirma que em Beuys, “a fala é escultura”, como se seu pensamento se materializasse na relação dialógica com os alunos. 

Suas aulas eram muito disputadas e essa faceta é mote para a mostra Beuys e bem além – Ensinar como arte, organizada pelo Deutsche Bank a partir de sua própria coleção, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake [em 2011], que apresenta também obras de alunos como Blink Palermo, Katharina Sieverding e Lothar Baumgarten, numa aproximação um tanto formalista, o que pretendo abordar mais para frente.

Em Düsseldorf, “as formas tradicionais e fortemente hierárquicas de aula eram substituídas por debates coletivos, nos quais se discutia tanto arte como questões sociais”. Em 1971, Beuys chegou a ocupar a secretaria da Academia de Arte, para protestar contra as restrições na admissão de alunos, fundando, então, a Organização pela Democracia Direta por Referendo Nacional.

Um pouco antes, nesse mesmo ano, ele já havia chegado a admitir em sua classe os 142 candidatos que foram recusados pela Academia, mas esse conjunto de protestos acabou lhe custando o emprego e um processo, que ele venceu em 1978. Fundamental aqui é reforçar o caráter libertário de sua atividade como professor, o que representa possibilitar a cada aluno o desenvolvimento de sua própria obra, independente do seu trabalho, como ele afirmou numa entrevista de 1972:

Diz-se com frequência que nas minhas aulas tudo seria conceitual ou político. Mas para mim é muito importante que resulte em algo sensualmente palpável, com amplos fundamentos epistemológicos. Meu interesse principal aí é começar pela língua e deixar as materializações seguirem como uma correlação de pensamento e ação. O mais importante para mim é que o ser humano, através de seus produtos, experimente modelos de como poder co-atuar na relação com o todo; e não só produza artigos, mas que se torne artista plástico ou arquiteto no organismo social inteiro. A futura ordem social se formará de acordo com os princípios da arte (CHRISTENSEN, 2011, p. 12).

Sua crença no poder da educação institucional não termina com sua saída da Academia de Arte de Düsseldorf, em 1971. Três anos depois, ele fundou a Universidade Livre Internacional (F.I.U. – Freie Internationale Universität), que serviu para o desenvolvimento de muitos de seus projetos, como Sete mil carvalhos, na Documenta de Kassel, em 1982.

Na própria Documenta, mas em 1977, na sua 6a. Edição, a F.I.U. foi a responsável por organizar Bomba de Mel no local de trabalho, uma sala na qual Beuys e seus colaboradores passaram cem dias – o tempo usual de duração da mostra, debatendo a “escultura social”, ou seja, o novo modelo de sociedade. No entanto, a F.I.U. não foi criada como simplesmente uma alternativa ao sistema universitário alemão. Como declarou Beuys, em 1985:

A Universidade Livre Internacional é uma comunidade internacional de pesquisa. Seu círculo de colaboradores é relativamente pequeno. Não é possível frequentar a F.I.U. Trata-se, simplesmente, do projeto de uma nova sociedade, para além do capitalismo e do comunismo. Para realizar essa tarefa, cada um tem de encontrar apoio em si mesmo (FARKAS, 2010, p. 45).

Como em toda obra de Beuys, também a F.I.U. não se constituiu em uma estrutura convencional, de padrões já estabelecidos, mas propôs uma nova possibilidade para divulgar o pensamento do artista de uma forma pragmática. Pensar, em Beuys, é realizar.

2.2 O sistema político

Em 1979, a F.I.U. foi uma das cinco organizações que criaram o Partido Verde, na Alemanha, o que torna Beuys um de seus fundadores. Antes, em 1967, ele já havia criado o Partido dos Estudantes Alemães (Deutsche Studentenpartei), às vésperas das revoluções de Maio de 1968.

Depois, em 1970, ele criou a Organização dos Não Votantes – Plebiscito Livre (Organisation der Nicht Wahler, Freie Volksabstimmung), e em 1971, por conta da crise na Academia de Arte de Dusseldorf, a Organização pela Democracia Direta por Plebiscito (Organisation fur direkte Demokratie durch Volksbastimmung). Todas essas organizações demonstram o quanto Beuys acreditava na transformação pelas vias institucionais, numa época em que a Alemanha era sacudida por agremiações que também buscavam mudanças, mas por vias ilegais, como o grupo guerrilheiro de extrema-esquerda Baader Meinhoff, que existiu entre 1970 e 1988. O uso de instrumentos de democracia direta aponta ainda a importância do pensamento de cada indivíduo, contra os princípios da democracia representativa.

Mesmo assim, Beuys chegou a candidatar-se ao Parlamento Europeu, em 1979, pelo agrupamento Outra Associação Política (Sonstige politische Vereinigung), que no ano seguinte se transformaria em Os Verdes. Naquela ocasião, ele lançou o manifesto “Conclamação à Alternativa”, publicado no jornal Frankfurter Rundschau, em 23/12/1978, e reimpresso em 1979, para a primeira eleição para o Parlamento Europeu. O texto defendia a não violência, a transformação do uso do dinheiro e da organização do Estado, questionando a fuga da realidade e até o uso de drogas. Esse manifesto transformou-se no cartaz que integrou sua participação na 15ª Bienal de São Paulo, com o título Conclamação para uma alternativa global, em 1979.

De 1980 a 1986, os Verdes mantiveram, sob a direção de Johann Stüttgen, um escritório de coordenação na sala 3 da Academia de Dusseldorf, a antiga sala de Beuys.

2.3 O sistema da arte

Em 11 de dezembro de 1964, Beuys apresentou a performance O silêncio de Marcel Duchamp é superestimado (Das Schweigen von Marcel Duchamp wird uberbewertet), ação transmitida ao vivo pela TV alemã ZDF, como membro do grupo Fluxus, usando além da fala, seus materiais típicos como gordura e feltro.

Duchamp foi um indolente que criou belas e interessantes provocações para a burguesia e fez as afrontas brilhantemente na tipologia estética de seu tempo (CHRISTENSEN, 2011, p. 32).

Esse espírito antiburguês na fala de Beuys, é exatamente uma das principais características do grupo Fluxus, criado em 1961 na galeria AG, em Nova York,  pelo artista lituano George Maciunas. Com caráter internacional, o Fluxus não se caracterizou por um estilo formal entre seus componentes, mas por um princípio em comum: abolir a questão objetual da arte como primado de sua existência e valorizar o processo em sua constituição.

Beuys entrou para o grupo através do colega Nan June Paik, artista coreano que também era professor em Düsseldorf. Além deles, também participavam dos eventos organizados pelo Fluxus artistas como o músico norte-americano John Cage, cujas experimentações foram decisivas para o grupo, e a japonesa Yoko Ono. Nos festivais do Fluxus, Beuys realizava especialmente ações, antecipando a ideia de performance, que não tinha se caracterizado como uma linguagem. 

O Fluxus é vinculado, em geral, ao caráter de anti-arte do movimento Dada, que também se utilizava de elementos do cotidiano e ações efêmeras, questionando o valor comercial da arte. Maciunas, por exemplo, criou vários múltiplos, como as Fluxus Boxes, ideia que depois seria utilizada por Beuys. O uso do vídeo, especialmente por influência de Nan June Paik, também foi recorrente no Fluxus, não só por conta do surgimento do novo meio, mas pelas características que ele propiciava, ou seja, a possibilidade de sua retransmissão, o que também seria muito utilizado por Beuys. No entanto, enquanto o Dada possuía um caráter negativo, como define Giulio Carlo Argan, por “demonstrar a impossibilidade de qualquer relação entre arte e sociedade”, o Fluxus tinha uma visão mais positiva, que buscava vincular vida e arte.

Não deixa de ser notável que a performance O silêncio de Marcel Duchamp é superestimado tenha ocorrido justamente dentro de um evento do Fluxus, porque seus membros tinham grande apreço pelo artista francês idealizador do ready-made. A vinculação de Beuys ao Fluxus foi intensa, mas não durou muito tempo, e a performance mostra como o caráter crítico do artista alemão realizava-se no confronto, dentro do próprio espaço das instituições onde ela atuava.

Essa capacidade de crítica também se verifica na performance Eu gosto da América e a América gosta de mim (I like America and America likes Me), em maio de 1974, por três dias consecutivos, oito horas a cada dia, por ocasião da inauguração da galeria do alemão René Block em Nova York.

Beuys chegou aos EUA de avião e, do aeroporto JFK, partiu em uma ambulância, indo direto para uma jaula construída na galeria, onde conviveu com um coiote, animal considerado sagrado pelos povos nativos dos EUA. Segundo o mito da performance, após três dias, o artista teria sido levado de volta para o aeroporto, sem ter pisado em solo norte-americano.

Beuys trabalhava com Block há muito tempo. Foi em sua galeria que, certa vez, ele cobriu os cantos com gordura, arredondando o formato rígido de sua arquitetura, trazendo a ela um caráter orgânico, que se transformou ao longo dos dias em que a gordura ficou exposta. Aqui percebe-se como Beuys preocupa-se com a questão plástica, mas ela é um veículo para suas ideias.

Em Eu gosto da América… sua ação é mais radical. Ele convive com um animal, enrolado em feltro e, apoiando-se em uma bengala, aborda a interatividade com a natureza, tão importante para a ideia de “escultura social”. A performance, de fato, aponta como o artista vivia sua própria utopia em sua obra, mostrando que a concretização de suas propostas é viável, além de apontar um caráter da arte não objetual, não comercial, anti-representacional. Isso porque Beuys, que se dizia “um homem das cavernas reencarnado” (BORER, 2001, p. 30), estava vivendo suas propostas, não estava criando meras ilustrações para elas. A experiência é parte essencial de suas ações.

Essa ação também é um bom exemplo de como, na concepção de Borer, Beuys pode ser visto como um pastor: 

O pastor conduz os seus discípulos a um lugar que só ele conhece – promessa de um estado superior; ele é o homem à procura de um caminho, um caminho mais extenso e vasto do que ele: ele abre passagem (BORER, 2001, p. 23).

Isso ocorre de maneira grandiosa em seu projeto Sete mil carvalhos, que o artista iniciou em 1982, por ocasião da Documenta 7, criado a partir da F.I.U.. Seu objetivo era que 7 mil árvores desse tipo fossem plantadas em toda a cidade, sempre ao lado de uma coluna de basalto. Novamente, vê-se aqui a perspicaz capacidade de Beuys em trabalhar com imagens: até hoje, quem visita Kassel defronta-se com os carvalhos plantados por Beuys e seus colaboradores.

O início simbólico da rearborização vital da Terra deve acontecer em Kassel. […] Trata-se de uma ação de caráter racional; neste caso, do plantio de árvores. […] Deve-se criar primeiramente um entendimento global para – onde quer que isso seja possível – tornar sustentáveis tais processos (FARKAS, 2010, p. 41).

Em Sete mil carvalhos, Beuys concretiza sua ideia de “escultura social” , transformando o meio ambiente. E o faz com a colaboração de quem está disposto, para que cada um, cada pessoa que vive na Terra possa se tornar um criador de formas, um escultor, um desenhista do organismo social.

No entanto, toda a radicalidade que marcou o período de consolidação da obra de Beuys, nos anos 1960 e 1970, com exercício de amplo diálogo com outros artistas e grupos, como o Fluxus, a Arte Povera, na Itália, e a forte presença de artistas da performance, como Marina Abramović e Ulay, vai se transformar na década seguinte.

Joseph Beuys. "Hiermit trete ich aus der Kunst aus" (1985).
Joseph Beuys. “Hiermit trete ich aus der Kunst aus” (1985).

Os anos 1980 são marcados pela ideia do “retorno à pintura”, especialmente na Alemanha, com o surgimento dos chamados neoexpressionistas, como Georg Baselitz e Anselm Kiefer. Esse novo contexto, certamente, foi muito desestimulante para Beuys, o que, provavelmente, o levou a criar o postal-múltiplo Com isso abandono a arte, no dia 1 de novembro de 1985, praticamente três meses antes de morrer, em 23 de janeiro de 1986, em decorrência de um ataque cardíaco.

Esse postal faz parte de uma série de nove frases, todas escritas à mão, em giz, sobre fundo escuro, tal qual um quadro negro, material que ele tantas vezes usou em suas obras, relacionadas a sua faceta de professor. É de se notar que, sabendo-se doente – Beuys há muito estava fragilizado em decorrência de seu acidente aéreo -, deixa esse último conjunto de obras onde não há imagem, não há cor, apenas texto. Outro dos textos escritos nessa série de postais é: “O erro já começa quando alguém se prepara para comprar uma tela” (der Fehler fängt schon an, wenn einer sich anschickt, Keilrahmen und Leinwand zu kaufen).

Por isso, a mensagem dos postais é clara: Beuys não via mais possibilidade em veicular suas ideias no campo da arte, nem tomar parte dele. Assim como foi demitido da Academia, e nunca eleito por suas agremiações políticas, o artista constatou que tampouco na arte sua mensagem alcançava a repercussão necessária. Artista emblemático de um período experimental na história da arte, que tem início no pós-Guerra, Beuys chega pessimista na década de 1980, quando o mercado de arte ganha força e poder novamente e as experimentações passam para o segundo plano. É a década do fim da história e, segundo Arthur C. Danto, do fim da arte.

Beuys participou de todas as mostras importantes do circuito da arte: quatro vezes na Documenta; uma vez na Skulptur Münster, em 1977; representou a Alemanha em Veneza, em 1976, com a obra Tram Stop (Parada de Bonde) – Monumento ao Futuro; e em 1980, com Das Kapital Raum 1970-1977; representou ainda a Alemanha em três Bienais de São Paulo (1979, 1985, 1989) e foi consagrado com uma retrospectiva no Guggenheim de Nova York, em 1979, que lhe rendeu grande prestígio nos Estados Unidos.

Seu epitáfio, contudo, aponta que, de fato, essas grandes exposições pouco representaram para Beuys, e que ele já vislumbrava um futuro pouco promissor para a arte. Constatação triste para quem defendia que:

Somente a arte, isto é, a arte concebida ao mesmo tempo como autodeterminação criativa e como processo que gera a criação, é capaz de nos libertar e de nos conduzir rumo a uma sociedade alternativa (BORER, 2001, p. 28). 

Bibliografia

CHRISTENSEN, Liz (org.) (2011). Beuys e bem além. Ensinar como arte. Frankfurt: Deutsche Bank.
BORER, Alain. (2001). Joseph Beuys. São Paulo: Cosac Naify.
FARIAS, Agnaldo. (2001). Bienal 50 anos. São Paulo: Fundação Bienal de SP.
FARKAS, Solange (2010). A revolução somos nós. São Paulo: Associação Cultural Videobrasil/Sesc.
HARLAN, Volker (2004). What Is Art?: Conversation with Joseph Beuys. East Sussex: Clairview Books.
SCHUSTER, Peter-Klaus (1999). Das XX. Jahrhundert: ein jahr hundert kunst in Deutschland. Berlin: Nicolai.

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Cinema Online: "Que dia!" (2018), de Anissa Daoud, Aboozar Amini. Foto: Divulgação Mostra de Cinema Árabe Feminino.
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Até 27 de junho, a Mostra de Cinema Árabe Feminino traz, toda semana, filmes realizados por mulheres em países como Egito, Líbano, Palestina, Sudão, entre outros. Sob curadoria das brasileiras Analu Bambirra, Carol Almeida e da egípcia Alia Ayman uma seleção de diversos formatos e gêneros que engloba de curtas a médias e longas-metragens, abrangendo a ficção e os documentários também. O festival é completamente gratuito. Como sua programação é separada em mostras menores nomeadas por constelações, dos dias 9 a 15 de junho, com a “Ursa Maior” sete produções inéditas no Brasil serão apresentadas. Confira a programação abaixo:

Em Um Presente do Passado, Mokhtar é um professor de cinema e recebe um presente inesperado de sua filha Kawthar, uma jovem cineasta, em seu 75º aniversário. Com duas passagens aéreas para Roma, ele tem uma segunda chance de buscar seu amor não correspondido, uma italiana que ele abandonou 33 anos atrás com a promessa de voltar para ela, mas nunca cumpriu. 

Que Dia! traz um mal-entendido sob quatro pontos de vista diferentes que muda completamente a história de uma família. Já em Ibrahim: Um Destino a Ser Traçado, a diretora Lina Al Abed busca por traços de seu pai desaparecido: um homem aparentemente comum de família que, na verdade, era um membro secreto de uma facção militante.

Através das lentes de um celular, Lavando A Boca conta a história da cidade de Mosul durante o Estado Islâmico. O curta mostra o dia-a-dia de uma família iraquiana em York pelas mensagens de voz trocadas com seus parentes em Mosul. Ambas as famílias tentam trazer sentido para a incerteza dos eventos políticos entre junho e setembro de 2014. 

No curta Rosa, a personagem que dá nome ao filme, enquanto trabalha na floricultura de sua tia, assume o trabalho dela abaixo da terra quando tem início um empreendimento de enviar corpos não-documentados para serem enterrados em seus países natais.

Você Vem de Muito Longe retrata a trajetória de uma família palestina que foi dispersa por várias turbulências: da guerra civil espanhola na qual o pai Najati Sidki lutou contra Franco até a 2ª Guerra Mundial, a Nakba e a guerra civil libanesa.

CineSesc
Cinema Online: Denise Weinberg em "Greta" (2019), de Armando Praça. Foto: Divulgação.
Denise Weinberg em “Greta” (2019), de Armando Praça. Foto: Divulgação.

Na série #EmCasaComSesc é possível encontrar os filmes de temática LGBTQIA+ do especial “Legítima Diferença”: “Um Belo Verão”, de Catherine Corsini; “Tangerine”, de Sean Baker; Greta, de Armando Praça; e Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano. Na plataforma, em 10 de junho, estreia o documentário Onde a Terra Acabar, de Sérgio Machado. Nele é apresentada uma homenagem ao diretor Mário Peixoto. Em tom autobiográfico, o filme conta a história do cineasta com uma montagem de trechos de diários, entrevistas e cartas de próprio punho do mesmo. Ainda disponíveis, valem ser conferidos os Contos das 4 Estações, de Éric Rohmer, e Maya, de Mia Hansen-Løve.

In-Edit
Cinema Online: Yamandu Costa e o guitarrista argentino Lúcio Yanel em "Dois Tempos" (2021), de Pablo Francischelli. Foto: Divulgação.
Yamandu Costa e o guitarrista argentino Lúcio Yanel em “Dois Tempos” (2021), de Pablo Francischelli. Foto: Divulgação.

Já o In-Edit, festival de documentários centrados na música, ocorre dos dias 16 a 27 de junho, com mais de 50 filmes nacionais e internacionais inéditos no circuito comercial. Toda a programação estará disponível na plataforma do festival, com filmes gratuitos com limite de visualizações. Parte da programação estará disponível também na plataforma do Sesc Digital e na Spcine Play. Nas produções participantes deste ano surgem personagens como João Ricardo (Secos & Molhados), Jair Rodrigues, Chico Mário (irmão de Henfil e Betinho), Alzira Espíndola, o revolucionário maestro e compositor José Siqueira, o rapper Speedfreaks, a banda Made In Brazil, Zeca Baleiro desvendo os sons do Maranhão, entre outros. Destacamos Dois Tempos, o filme de estrada com Yamandu Costa e o guitarrista argentino Lúcio Yanel, que também participou do Festival É Tudo Verdade. No documentário, a bordo de um motor home, com seus violões e suas memórias, mestre e discípulo cruzam a fronteira do Brasil em direção a Corrientes, terra natal do argentino, refletindo sobre as transformações trazidas pelo tempo.

 

Os autorretratos de Tarsila, parte II: a imagem “Achiropita”

tarsila
Tarsila do Amaral, "Autorretrato I", 1924, óleo sobre papel-tela, 38.00 cm x 32.50 cm. Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo.
Tarsila do Amaral, "Autorretrato I", 1924, óleo sobre papel-tela, 38.00 cm x 32.50 cm. Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo.
Tarsila do Amaral, “Autorretrato I”, 1924, óleo sobre papel-tela, 38.00 cm x 32.50 cm. Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo.

Em São Paulo, no dia 6 de novembro de 1925, Tarsila do Amaral escreve para o jornalista Joaquim Inojosa, no Recife:

Meu trabalho tem sido enorme, ultimamente. De abril para cá tenho uns 10 quadros novos, quase todos terminados. Já se foi o tempo em que uma Paquita sorria na tela com 8 horas de pinceladas. Trabalho hoje com a paciência de Fra Angélico para que o meu quadro seja lindo, limpo, lustroso como uma Rolls saindo da oficina.[1]

Este parágrafo possui informações interessantes: em primeiro lugar, a referência à rapidez com que antes Tarsila produzia suas paquitas – alusão às “espanholas”, já comentadas em artigo anterior[2] –; em seguida, o tempo que agora demorava para levar a cabo suas novas produções que lhe exigia a perseverança de um artista-frade do século 15.

Essas referências sugerem que, em se tratando de suas primeiras pinturas, Tarsila as produzira com uma rapidez de ação que subjugava a integridade da sua produção a preocupações não propriamente pictóricas. A essa velocidade com que pintou suas paquitas, Tarsila opunha agora a delicadeza artesanal da pintura mais tradicional com o objetivo de, paulatinamente, atualizar sua linguagem, transformando a pintura num objeto “lindo, limpo, lustroso como uma Rolls”.

Pintar como um frade (ou uma freira) do Renascimento e, ao mesmo tempo, associar a ausência deliberada de qualquer índice de manualidade em suas pinturas ao acabamento de um automóvel – a Rolls –, é retirar delas a marca de autoria, igualando a pintura a um produto mecânico, industrial. E tal aspiração, sabe-se, Tarsila absorveu de um dos seus principais parâmetros encontrado em Paris, a produção do pintor francês Fernand Léger que apostava em uma pintura comprometida com os índices da sociedade moderna: o objeto industrial, a vitrine, o cartaz e a fotografia[3].

Tarsila Amaral, "Autorretrato (Manteau Rouge)", 1923, óleo sobre tela, 73 x 60,5 cm. Museu Nacional de Belas Artes, RJ.
Tarsila Amaral, “Autorretrato (Manteau Rouge)”, 1923, óleo sobre tela, 73 x 60,5 cm. Museu Nacional de Belas Artes, RJ.

Apesar da carta para Inojosa datar de novembro de 1925, Tarsila não deu início à “limpeza” ali aludida somente a partir daquele ano. A intenção de associar sua pintura a um objeto industrial vem antes, de 1923. E, sendo desse ano seu Autorretrato (manteau rouge)[4], essa obra pode ser entendida como um símbolo de transformação de Tarsila como artista e como mulher: é quando ela deixa de produzir pinturas “modernas”, retratando-se como uma espanhola voluntariosa e passa a projetar-se como uma grande dama a produzir um tipo de pintura especial, uma síntese elegante e contida entre a calma e sobriedade de um Fra Angelico e a assepsia anônima de um objeto industrial.

Tarsila, portanto, não mais elege como projeção de si a paquita audaciosa. Agora que de fato se profissionaliza, o parâmetro torna-se um homem, um homem quase santo, um herói católico, Fra Angelico. Nada de Angelica Kauffmann ou Sofonisba Anguissola, ou qualquer outra pintora profissional do passado (que, muito provavelmente, Tarsila nem conhecida). Nem mesmo Marie Laurencin – uma das artistas mais prestigiadas da cena internacional de então – e sua pintura “tão feminina”, poderiam servir-lhe como parâmetro. O ideal agora era unir a “limpeza” dos produtos industrializados e da pintura modernista de Léger ao ascetismo, à devoção à arte, entendida como uma espécie de religião, digna de Fra Angelico.

Interessante essa nova situação enfrentada por Tarsila: a hora em que, finalmente, entende o que poderia ser a arte do seu tempo – impessoal, lustrosa como um automóvel – seu parâmetro maior torna-se um artista homem do primeiro Renascimento. Por isso é que em Autorretrato (manteau rouge) projeta-se como uma espécie de aparição: distante, hierática, quase uma santa ultramoderna.

Uma imagem ainda assim misteriosa? Sem dúvida, mas agora com um mistério quase divino, não mais inteiramente carnal, como a maioria de seus autorretratos como espanhola. Em Autorretrato (manteau rouge), a opção pelo moderno – verificável nas angulações da imagem – se mistura à sua representação tradicional. Mais do que “cubista” – como chegaram a descrevê-lo – Autorretrato (manteau rouge) é uma típica obra de um realismo sintético, somente possível após a experiência cubista. Um realismo que conta, é verdade, com certa “liberdade” angulosa, mas cuja composição centralizada é devedora da grande tradição do retrato.

Autorretrato (manteau rouge) deve ser entendido como o passaporte para seu ingresso definitivo no ambiente da pintura moderna, por meio de uma obra concebida dentro dos parâmetros, não das vanguardas históricas, mas do Retorno à Ordem internacional: moderno, mas subserviente à dimensão da beleza neoclássica, supostamente atemporal, pautada na “nobre simplicidade e uma grandeza serena tanto na atitude como na expressão”, como queria o esteta alemão J.J. Winckelmann, ainda no século 18[5].

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Aquela mulher distante e majestosa, representada em Autorretrato (manteau rouge), contrasta e, ao mesmo tempo ecoa as descrições das extravagâncias de Tarsila que, a partir de 1923, começa a usar e abusar da engenhosidade dos estilistas Jean Patou e Paul Poiret, responsáveis pelas vestes mais originais (e caras) de Paris. Em seu livro Tarsila do Amaral, sua obra e seu tempo, Aracy Amaral transcreve alguns depoimentos que atestam o interesse que os trajes de Tarsila – sempre de autoria dos dois estilistas citados –, causavam na cena elegante da capital francesa. Sergio Milliet assim se recordará do sucesso mundano da pintora:

Lembro-me de certa noite em que, no Ballet de Champs Elysées, toda a plateia se voltou para vê-la entrar em seu camarote, com a negra cabeleira lisa descobrindo e valorizando o rosto e os brincos extravagantes quase tocando-lhe os ombros suavemente amorenados.[6]

A própria Tarsila, deslumbrada, relata para a família o seu sucesso parisiense: “Ontem fui com Betita a um baile na Ópera. Fiz sucesso como mulher linda (…)”[7]. Por outro lado, não foi sem um tom de reprovação velada que Georgina Malfatti, irmã de Anita, também depôs sobre a vaidade extravagante de Tarsila:

Lembro-me dela no teatro, no Trocadero, com uma capa escarlate, forrada de cetim branco, um chapéu de vidrilhos, grande e negro. Em Paris, onde as pessoas se vestem discretamente, era uma sensação a vaidade de Tarsila vestida por Poiret, ao seu lado Oswald, de camisa roxa.[8]

Apesar da fama alcançada por Tarsila por ter assumido uma persona extravagante, chamando a atenção para suas roupas e adereços, não devemos esquecer que, a partir de 1923 – e com a única exceção conhecida de uma foto no Cap. Pollonio, de 1925[9] –, a maioria das fotografias que se conhece da artista até o final daquela década, atesta o surgimento de uma imagem pública de extrema elegância. Uma elegância distante, tanto da excessiva simplicidade com que aparece em cenas prosaicas de seu cotidiano em anos anteriores, quanto de sua “versão espanhola”, visível em alguns de seus retratos fotográficos quanto em seus autorretratos. Por outro lado, também observando as fotografias não é possível atestar toda sua extravagância, tão comentada.

Em uma fotografia de grupo realizada a bordo do navio Frísia, em dezembro de 1923, Tarsila é vista sorridente entre brincos enormes, cabelos presos, vestindo um traje elegante e discretamente sofisticado. Durante a Revolução de 1924, na Fazenda Sertão, a pintora aparece em uma foto usando o mesmo traje com que foi fotografada a bordo do navio, meses antes. Essa prática de repetir roupas aparecerá documentada novamente em fotografias: em 1926, na foto promocional de sua individual em Paris, a pintora surge com o mesmo vestido que usaria sete anos depois, quando de sua conferência no Clube de Artistas Modernos de São Paulo, sobre a cartazística soviética.

Essa repetição de trajes borra a imagem de uma Tarsila apenas exibicionista e perdulária. Apesar das posses da família e do acesso ao que mais sofisticado havia em bens de consumo na época, a partir de 1923 as fotos passam a documentar o interesse da artista em encontrar o equilíbrio entre ostentação e discrição, sinalizando para algo que começava a se tornar cada vez mais importante para ela: sua produção como pintora e o papel que ela deveria e poderia exercer no ambiente artístico brasileiro. Essa repetição de trajes indica que passa a se afirmar na pintora uma atitude menos titubeante que, ao invés de continuar oscilando entre a simplicidade doméstica do vestir e suas encarnações de paquita fantasiosa, opta por exercer sua condição de milionária de gosto requintado e de artista segura de seu talento direcionado agora para a constituição de uma obra pictórica ao mesmo tempo, moderna, brasileira e “clássica”.

Tarsila, tanto na arte como na vida parece ter atentado para a advertência que seu amigo Mário de Andrade lhe fez numa das cartas que lhe escreveu em 1923: “Creio que não cairás no cubismo. Aproveite deste apenas os ensinamentos. Equilíbrio, Construção, Sobriedade. Cuidado com o abstrato”.[10]

Se tais diretrizes são visíveis na produção da artista a partir de 1923, o mesmo se nota em sua nova persona, com exceção, talvez, de uma ou outra ocasião em que a sobriedade é substituída pelo desejo de ostentação.

É interessante como naquele período, Tarsila constrói um eu especial, pautado em suas próprias expectativas e naquelas que nela eram projetadas pelo meio social e artístico que passara a frequentar. Uma nova persona que, embora não tenha superado a dependência, tanto econômica como afetiva dos pais, parece se estabelecer dentro de uma crescente autoestima como mulher e artista.

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Em 1924 Tarsila produzirá a primeira versão de seu Autorretrato[11].

 

Alguns autores que se debruçaram sobre essa pintura foram unânimes em associá-la a certas esculturas de Constantin Brancusi e a fotos promocionais da cantora e dançarina norte-americana Josephine Baker[12]. Mas essa imagem também pode ser associada `a cartazística da época, que exaltava a mulher moderna – a nova consumidora –, e também às fotos promocionais de atrizes de Hollywood dos anos 1920 – como Gloria Swanson, Joan Crawford e Mirna Loy, entre outras.

Se tomarmos Danaïde, 1909-1910 ou mesmo Mademoiselle Pagany II, 1920, obras produzidas por Brancusi[13], os pontos de contato entre essas esculturas e o autorretrato de Tarsila são, por um lado, a ausência de textura ou gestos ali impressos (neste sentido também lembram a Rolls) e a extrema síntese formal que, no limite, transforma, tanto a cabeça da artista quanto as peças citadas de Brancusi numa espécie de forma ovoide primordial, arquetípica.

O mesmo pode ser dito se compararmos o Autorretrato da pintora com as fotografias de Josephine Baker e das atrizes de Hollywood. Em todas igualmente são privilegiadas, tanto a superfície “linda, limpa e lustrosa” da fotografia quanto a forma ovoide do rosto, em closes que ecoam e podem fazer reviver a Femme fatale do final do século 19. Porém, se a maioria dessas imagens exibe o rosto e o colo da retratada, ambos envoltos por outros elementos, como joias, mãos etc., o que chama a atenção em Autorretrato é que apenas o rosto ovoide de Tarsila se encontra na tela, centralizado entre brincos, rodeado pelo branco do tecido.

Uma composição que, antes de ser associada às esculturas de Brancusi e/ou às beldades de Hollywood e da Broadway estabelece vínculos diretos com um dos padrões iconográficos utilizados pela tradição para fixar a “verdadeira imagem” de Jesus Cristo: o Véu de Verônica, o Vera Icona.

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Existem algumas lendas que tratam da origem dessa “verdadeira imagem” – surgida por milagre sobre o lenço – e sobre muitos dos tecidos que reivindicam ser portadores da imagem milagrosa original – imagem produzida por contato da face do filho de Deus sobre o pano. Uma delas afirma que esse retrato tão especial teria surgido em Edessa, no norte da Síria, durante o reinado do rei Abgar. Existem duas versões para essa lenda, apontadas pelo estudioso alemão Hans Belting:

Por um lado se afirma que o rei Abgar ordenou que seu pintor realizasse um retrato exato segundo o modelo vivo, retrato que recebeu junto com uma carta manuscrita de Cristo. Por outro, é dito que o trabalho do pintor foi concluído de maneira milagrosa pelo próprio Cristo, que deixou seu rosto impresso no tecido[14].

A versão que acabou prosperando foi a segunda e este fato estaria ligado à importância que se dava à constituição da imagem de Cristo não produzida por mãos humanas – non manufactum em latim e acheiropoietos, em grego[15] – como uma estratégia para, também, segundo Belting, diferenciar as imagens de Cristo dos deuses pagãos, produzidos por mão humanas[16].

Outra lenda também importante é aquela que credita a uma mulher piedosa ter dado a Jesus, durante sua Via Crucis, um véu para que ele enxugasse seu rosto. Milagrosamente, quando a senhora – Santa Verônica – recebe de volta o véu, está estampado nele o semblante de Cristo.

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Por mais interessantes que sejam as várias lendas envolvendo as imagens “achiropitas” de Cristo, aqui nos interessa atentar para aquela que, surgida na Síria, foi depois enviada para Constantinopla, onde sumiu durante o saque da cidade em 1204. Após esse desaparecimento no século 13, várias pretensas reaparições da mesma imagem ocorrerão na Europa e mesmo em Constantinopla. Hoje acredita-se que ela é a versão que se encontra no Vaticano ou então na Igreja de S. Bartolomeo, em Gênova[17].

“O véu de Verônica”, Vaticano s.d. Foto: Reprodução

De fato, o que nos interessa sublinhar é a descrição que Belting faz dessa imagem de Cristo. Segundo o estudioso:

A tela […] do rei Abgar se difundiu em inumeráveis cópias e paráfrases. Todas elas coincidiam na ideia, mas na prática apenas compartilham um esquema básico que oferece ampla margem às variações. Ela poderia se caracterizar do seguinte modo: […] as imagens de Abgar são reduzidas à impressão do rosto e do cabelo sobre um espaço vazio que o tecido simboliza[18]

Como afirma o autor, esse padrão iconográfico irá reverberar por séculos, no âmbito da pintura ocidental, com variações significativas sem perder, no entanto, as características fundamentais: um rosto de homem com barba (longa ou não), quase sempre com cabelos compridos escorridos ao lado da forma ovoide. Um dado importante: na imagem “original” o rosto de Cristo está sem a coroa de espinhos. Isto não impediu, no entanto, que vários artistas produzissem o semblante de Cristo com aquele instrumento de tortura.

A partir da Idade Média esse padrão iconográfico se espalha produzindo variantes distintas e, muitas vezes, entrelaçando lendas sobre a origem do Véu. Duas obras com o título Véu de Verônica – do italiano Bernardino Zanganelli, produzida em 1500, hoje no Philadelphia Museum of Art, e aquele atribuído a Philippe de Champagne (1640c.), do Musée de Beaux-Art de Caen – apresentam o mesmo padrão iconográfico, sendo que o primeiro acrescenta uma coroa de espinhos e uma cruz atrás da cabeça retratada.

Muitos artistas, por outro lado, associaram a “verdadeira imagem” de Cristo também à representação de Santa Verônica segurando o tecido com que teria enxugado o rosto santo. Uma pintura anônima alemã, da primeira metade do século 15 – hoje na Alte Pinakotheke de Berlim, representa a Santa mostrando a imagem de Cristo aos anjos. Nesta obra chama a atenção como o artista tem como modelo a cabeça da obra conservada no Vaticano. El Greco, por sua vez, na segunda metade do século 16 também pintou uma obra do mesmo tema, hoje no Museu de Santa Cruz, em Toledo, Espanha.

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Desde o final da Idade Média e início do Renascimento, artistas, ao representarem o rosto de Cristo, produziram autorretratos de interesse. Albrecht Dürer, em 1500, realizou Autorretrato como Cristo, também pertencente ao acervo da Alte Pinakothek. Se Dürer não foi o primeiro a associar sua própria imagem ao Filho de Deus, com certeza, até hoje, sua obra é a mais reconhecida. Além dessa obra emblemática da pintura ocidental, atento para o fato de que alguns artistas, via fotografia, também se utilizaram da iconografia do Filho de Deus para desenvolverem autorretratos que devem ser entendidos como foto-performances. Dentre eles, talvez o mais antigo seja o fotógrafo norte-americano Fred Holland Day que, em 1898, produziu a sequência As sete últimas palavras de Cristo, hoje no Metropolitan Museum of Art, de Nova York. Mais recentemente, em 1972, o artista plástico e performer italiano Luigi Ontani produziu a foto-performance Ecce Homo d’aprés Guido Reni, pertencente a uma coleção particular em Modena. No Brasil, ao que se conhece, o artista Rogério Ghomes teria sido o único a associar, em 1996, sua própria imagem ao Santo Sudário, em uma instalação intitulada Profano Sudário, hoje pertencente à Fundação Cultural de Curitiba[19].

“Autorretrato como Cristo”, 1500. Albrecht Dürer. Foto: Reprodução

Fora do âmbito da pintura e da foto-performance, nos últimos anos, no teatro ou em outras manifestações, atores negros e atrizes trans têm representado a figura de Cristo – um fenômeno artístico e cultural que deve ser aprofundado[20].

Do levantamento realizado no âmbito da pintura, a única artista a se retratar como Jesus Cristo foi a norte-americana Erwin Gaela que, em 2003, produziu Autorretrato como Jesus Cristo, um díptico em óleo sobre tela, pertencente à coleção da artista.

Se Gaela foi a única artista mulher a se retratar como Jesus, não foi possível encontrar neste rastreamento iconográfico qualquer artista – de qualquer gênero – a se autorretratar como o Véu de Verônica, o que faz com que o Autorretrato de Tarsila do Amaral se torne ainda mais especial, não apenas no campo da arte brasileira, mas da arte internacional como um todo.

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O fato do Véu de Verônica guardar uma imagem produzida por contato nos remete à fotografia e sobre como ela era vista a partir do século 19, como que constituída a partir apenas do toque mecânico da luz sobre o objeto, sem mãos humanas – uma espécie de milagre. O estudioso francês Philippe Dubois, ao explicar a crença sobre a dimensão mimética da fotografia, durante o século 19, estabelece uma relação interessante entre ela e o Véu de Verônica:

A fotografia nelas [nas concepções da fotografia durante o século 19] é considerada como a imitação mais perfeita da realidade. E, de acordo com os discursos da época, essa capacidade mimética procede de sua própria natureza técnica, de seu procedimento mecânico, que permite fazer aparecer uma imagem de maneira “automática”, “objetiva”, quase “natural” (segundo tão-somente as leis da ótica e da química), sem que a mão do artista intervenha diretamente. Nisso, essa imagem “aquiropita” (sine manu facta, como o véu de Verônica) se opõe à obra de arte, produto do trabalho, do gênio e do talento manual do artista.[21].

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Aracy Amaral, no livro citado, antes de se posicionar diretamente sobre o hábito de Tarsila copiar suas pinturas para eventualmente refazê-las (caso do Autorretrato de 1924), atenta para o gosto e prática da artista em copiar suas pinturas, guardando-lhes o “risco”. A autora reflete sobre a prática de muitos artistas desenvolverem “autocópias”, trabalhos em série ou mesmo obras com diferenciação progressiva. Para ela, Tarsila não se encontrava em nenhum desses grupos: “Tarsila, entretanto, […], não se enquadra, nem dentro do que se poderia definir como “série de trabalhos” nem como trabalhos em processo […]. O que nela notamos mais é um apego a determinadas formas […] ou determinadas estruturas […][22].

Esse interesse de Tarsila por formas que houvesse criado em um ou outro trabalho, ou por estruturas de ocupação do campo plástico que conseguira na concepção/produção de uma ou outra obra, fará com que ela não copie apenas aqueles trabalhos que mais a interessara, mas a maioria deles. Assim Aracy Amaral se pronuncia sobre o caso:

Além das autocópias em Tarsila, o fenômeno “decalque”, hábito que lhe vem do tempo do desconhecimento do desenho (anterior ao estudo com Pedro Alexandrino) não deixa de aparecer como um recurso de que a artista lança mão para preservar desenhos e quadros que se vendem e que guarda consigo, como uma menina guardava antigamente um “risco” de bordado a repetir eventualmente.[23]

Sem aprofundar as aparentemente óbvias relações entre a prática do “decalque” com as prendas de uma moça casadoura, levantadas por Aracy, chamo a atenção para a relação possível entre a fotografia e o decalque para se tirar o “risco” de uma imagem. Afinal, ambos os procedimentos se configuram por meio de contato. E o interessante é que Autorretrato parece ter sido produzido a partir da cópia do retrato fotográfico da artista, sobre a qual ela se debruçou para copiá-la em um papel de seda, para depois ampliar a imagem em uma folha de papel e, depois, sobre a tela definitiva.

Suponho que já nesse processo de passagem da fotografia para a pintura, a artista praticou um saber que deve ter adquirido por leituras ou conversas com artistas mais experientes: o fato de que, na tradução da fotografia para a pintura, o “correto” é deixar de lado o aspecto descritivo da imagem fotográfica para investir apenas em sua síntese – questão que, na década de 1930, Tarsila explicitará em uma crônica[24].

Mas não devemos esquecer: se o retrato de Tarsila possuía índices descritivos, sendo uma fotografia, ele mantinha as mesmas qualidades de uma Rolls: era linda, limpa e lustrosa. Guardava essas características de um objeto industrializado. Tarsila secou a dimensão descritiva do retrato fotográfico, mas passou para a tela a limpeza da superfície fotográfica: em Autorretrato o que vemos é uma imagem sintética e centralizada, sem nenhum índice mais evidente da “mão” da artista. Ou seja, de mão humana, o que significa que, em termos visuais, Autorretrato funciona como uma imagem que não é produto de mãos humanas, uma imagem achiropita.

Como mencionado, essas evidentes relações entre o Autorretrato de Tarsila e o “Verdadeiro Ícone” não foram detectadas pelos estudiosos da obra da artista. Mesmo Aracy Amaral, quando reflete sobre essa pintura, parece descrever uma fotografia, embora afirme que Tarsila “fuja” da fotografia quando produz sua obra. Uma fotografia ou o Véu de Verônica:

Mas, nessa repetição do autorretrato está também implícito um certo narcisismo, um “se querer bem” que também é característico de Tarsila. Autorretrato – sempre capa de seus catálogos – foge entretanto à doçura da expressão natural da foto e transpõe uma imagem transfigurada, figée na forma elíptica do rosto de colorido frio e irreal, quase uma máscara de beleza intocada e preservada.[25]

Tarsila do Amaral deve ter percebido a semelhança entre o resultado de sua pintura e o Santo Sudário que ela, como católica, conhecia. Ver a si mesma como Cristo pode tê-la enchido de um orgulho narcísico porque, de alguma maneira aquele autorretrato significava uma “evolução” de sua autoimagem: de uma Paquita inconsistente a uma monja, uma santa ultramoderna dedicada à causa da arte. E da santa suntuosa para o próprio Cristo, encarnação de Deus pictor.

Referências bibliográficas
Livros
– AMARAL, Aracy. Tarsila sua obra e seu tempo. São Paulo: Editora Perspectiva/Edusp, 1975. Vol.1.
– AMARAL, Aracy. Tarsila do Amaral. Buenos Aires: Fundação Finambrás, 1998.
– AMARAL, Tarsila do Crônicas e outros escritos de Tarsila do Amaral (org.: Laura Taddei Brandini. Campinas: Editora Unicamp, 2008.
-BELTING, Hans. Imagen y culto. Una historia de la imagen anterior a la edad del arte. Madrid: Akel S.A., 2009
– DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico. Campinas: Papirus, 1994.
– GOTLIB, Nadia Battella. Tarsila do Amaral a modernista, 2ª. São Paulo: Editora Senac,2000.
– MICELI, Sergio. Nacional estrangeiro: história social e cultural do modernismo artístico de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
– POLLOCK, Griselda. Visión y diferencia. Feminismo, feminidad e historias del arte. Buenos Aires: Fiordo, 2015.
– SARTUNI, Maria Eugênia (Coord.Ed.). Tarsila. Catálogo Raisonné. São Paulo: Base 7 Projetos Culturais/Pinacoteca de São Paulo, 2008. 3 Vol.
– WINCKELMANN, JJ. Reflexões sobre a arte antiga. Porto Alegre: Movimento; Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1975, p. 53.
Artigos
– , CHIARELLI, Tadeu. “A caipirinha e o francês: Tarsila do Amaral e a devoração da modernidade via Fernand Léger. IN https://artebrasileiros.com.br/opiniao/conversa-de-barr/a-caipirinha-e-o-frances-tarsila-do-amaral-e-a-devoracao-da-modernidade-via-fernand-leger/
– CHIARELLI, Tadeu. “Os autorretratos de Tarsila Parte 1: a espanhola” IN https://artebrasileiros.com.br/opiniao/conversa-de-barr/autorretratos-tarsila/
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[1] – Carta de Tarsila do Amaral para Joaquim Inojosa, 6.11.1925. Apud AMARAL, Aracy op.cit. pág. 176.
[2] – “Os autorretratos de Tarsila, parte 1: a espanhola”, in https://artebrasileiros.com.br/opiniao/conversa-de-barr/autorretratos-tarsila/
[3] – Sobre a presença da obra de Fernand Léger na produção de Tarsila do Amaral, consultar, entre outros, “A caipirinha e o francês: Tarsila do Amaral e a devoração da modernidade via Fernand Léger. IN https://artebrasileiros.com.br/opiniao/conversa-de-barr/a-caipirinha-e-o-frances-tarsila-do-amaral-e-a-devoracao-da-modernidade-via-fernand-leger/
[4] – Coleção Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.
[5] – WINCKELMANN, JJ. Reflexões sobre a Arte Antiga. Porto Alegre: Movimento; Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1975, p. 53.
[6] – Sergio Milliet, “Artista de nossa Terra – III – Tarsila”, O Estado de S. Paulo, 17. 06, 1943. Apud AMARAL, Aracy, op. cit. p. 84
[7] – Carta datada de 4.2.1925 de Tarsila do Amaral para a família. In AMARAL, Aracy. Op. cit. p.161
[8] – Depoimento de Georgina Malfatti a Aracy Amaral. In AMARAL, Aracy. Op.cit. p.161.
[9] – Foto reproduzida em – “Os autorretratos de Tarsila, parte 1: a espanhola”, in https://artebrasileiros.com.br/opiniao/conversa-de-barr/autorretratos-tarsila/
[10] – Mário de Andrade. Carta a Tarsila do Amaral, em 16 de junho de 1923. IN AMARAL, Aracy. Op. cit.368. Se atentarmos para toda a fase pau-brasil de Tarsila, será visto que ela obedeceu ao amigo, na medida em que Tarsila constitui as pinturas daquela fase buscando sempre o equilíbrio, a construção e a sobriedade. Por outro lado, e dentro desse universo “clássico-moderno” tão caro ao modernismo paulistano. Segundo ainda Aracy Amaral (op. cit. p.121) em 1929, assim a artista iria se referir à sua viagem a Minas: “… Senti um deslumbramento diante das decorações populares das casas de moradia de S. João del Rei […] e outras pequenas cidades de Minas, cheias de poesia popular. Retorno à tradição, à simplicidade”.
[11] – Existem três versões desse autorretrato. O Autorretrato I, pintura, Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo; Autorretrato II,1926, pintura, Coleção particular, São Paulo e Autorretrato III, 1924, grafite e tinta ferro gálica sobre papel, Coleção particular, São Paulo.
[12] – Chamo a atenção para o texto já citado de Aracy Amaral e para Nacional Estrangeiro: história social e cultural do modernismo artístico e São Paulo, Sergio Miceli (São Paulo: Cia das Letras, 2003).
[13]Danaïd pertence à coleção da Tate Liverpool e Mademoiselle Pagany II ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
[14] – BELTING, Hans. Imagen y culto. Una historia de la imagen anterior a la edad del arte. Madrid: Akel S.A., 2009Op.cit. p.278.
[15] – Em português seria Aquiropita ou Achiropita. Como se sabe, na cidade de São Paulo existe uma igreja de nome Nossa Senhora Achiropita. Ela faz referência à imagem milagrosa da Virgem Maria, também não produzida por mãos humanas, que teria aparecido em Rossano no sul da Itália. Sobre o assunto ler: https://www.achiropita.org.br/a-paroquia/historia-da-paroquia/porque-achiropita
[16] – BELTING, Hans. Op. cit.278.
[17] – Para mais detalhes, consultar, BELTING, H. op. cit.
[18] – BELTING, Hans. Op. cit.279.
[19] – Em 1997, por ocasião da participação de Rogério Ghomes na sétima edição da Bienal de Arte de Havana, escrevi para o catálogo do artista o seguinte texto, “O Profano Sudário: a produção de Rogério Ghomes no contexto da fotografia contemporânea brasileira”, posteriormente republicado em: GHOMES, Rogério. Preciso acreditar que ao fechar os olhos o mundo continua aqui. Londrina: Universidade Estadual de Londrina, 2017
[20] – Nos terrenos da performance e do teatro, nos últimos anos o Brasil assistiu a uma escalada de preconceito (e agressões, inclusive física) a atrizes trans que interpretaram Jesus Cristo, como foi o caso de Viviany Beleboni que na Parada Gay de São Paulo, em 2015, performou a figura de Jesus. Renata Carvalho, atriz principal da peça “Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu, da autora britânica Jo Clifford, no final da última década foi impedida de levar seu espetáculo em algumas cidades brasileiras. Sobre o assunto ler: ego,globo.com/famosos/noticia/2015/09/Viviany-beleboni-e-esfaqueada-e-assustada-fala-em-suicidio e entretenimento.uol.com.br/noticias/redação/2018/04/05/quem-e-renata-carvalho-a-atriz-trans-que-ousou-encarnar-jesus-cristo.htm. A representação de Jesus como mulher e também como um jovem negro causou protestos no Carnaval carioca de 2020, quando a rainha de bateria da Mangueira,…., desfilou como Jesus mulher no mesmo desfile em que a Escola apresentava um carro alegórico com a imagem de um Jesus como um jovem negro. hypeness.com.br/2020/02/mangueira-e-grande-rio-se-destacam-com-jesus-negro-e-defesa-do-candomle/
[21] – DUBOIS, Phillippe. O ato fotográfico. Campinas: Papirus, 1994, p. 27. (Os itálicos são do autor do livro). Em tempo: Dubois, em nota, aprofunda um pouco mais a relação entre a imagem “aquiropita” e a fotografia: “Lembremos que o Véu de Verônica (ou, caso se prefira ser mais histórico, o Santo Sudário de Turim) pode ser considerado, com sua “impressão em negativo”, com seu “efeito impressionante de realismo”, com seu valor de relíquia e de fetiche, como uma espécie de protótipo da fotografia: uma imagem obtida por impregnação direta do modelo no suporte, sem qualquer intervenção da mão no surgimento da representação (…)” – p. 54, nota 5. Em tempo: não por nada, em países católicos, Santa Verônica disputa com Santa Luzia o posto de padroeira dos fotógrafos.
[22] – AMARAL, Aracy. Op.cit. p. 229.
[23] – IDEM, p. 231.
[24] – Em 1936 Tarsila reflete sobre as diferenças entre a pintura e a fotografia e sobre como o pintor deveria discernir os detalhes da imagem fotográfica que deveriam ser transferidos para a pintura e aqueles que precisavam ser suprimidos. “Pedro Alexandrino”. Diário de S. Paulo, 17, novembro, 1936. In AMARAL, Tarsila. Crônicas e outros escritos de Tarsila do Amaral. Organização Laura Taddei Brandini. Campinas: Editora da Unicamp, 2008. pág. 163 e segs.
[25] – IDEM, p. 227. Os itálicos são meus.

“Países espelhados”, no Sesc Consolação, mostra encontros culturais entre Brasil e nações africanas de língua portuguesa

Foto horizontal, colorida. Vista da exposição PAÍSES ESPELHADOS. Em primeiro plano, esculturas de animais, algumas coloridas, em madeira, outras em palha. Ao fundo, mural com capulanas e tecidos de diversas regiões de Angola, Moçambique, Guiné Bissau, São Tomé e Principe, Cabo Verde e Brasil. Foto de Kazuo Kajihara.
Vista da exposição "Países espelhados", em cartaz no Sesc Consolação. Foto: Kazuo Kajihara

As tramas em palha de palmeira piaçava no litoral Norte da Bahia criam um diálogo claro com a cestaria feita no litoral Norte de Cabo Delgado, em Moçambique, bem como os grafismos da cestaria tradicional dos povos Baniwa, da Amazônia, se encontram com os desenhos produzidos pela artesã Makeba em São Tomé e Príncipe. As esculturas Makonde remetem aos trabalhos do escultor popular GTO, de Minas Gerais, e os tecidos feitos nos teares de Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe parecem contar uma história conjunta com aqueles produzidos e bordados em diversos Estados brasileiros. Esses são alguns dos vários encontros culturais que formam Países Espelhados: objetos, imagens, sabores, memórias, em cartaz no Sesc Consolação. 

Com curadoria de Renato Imbroisi, a exposição reflete sobre as semelhanças entre o Brasil e os cinco países africanos que também foram colonizados por portugueses: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Reunindo artesanatos de cada uma dessas nações, a mostra busca celebrar os traços comuns e revelar as possibilidades de se reconhecer no outro.

“Na primeira vez que eu pisei no continente africano, em Moçambique, parecia que eu estava em casa”, conta o curador. Suas visitas à África foram sistemáticas. Imbroisi já tinha uma vasta experiência com projetos de design e artesanato no Brasil e, entre 2003 e 2019, desenvolveu com outros profissionais uma série de oficinas em diferentes países africanos, visando fomentar e revitalizar o artesanato local, gerando também renda para pessoas dessas comunidades. Ali, deparou-se com as semelhanças e pôde conhecer artistas e artesãos que hoje formam Países Espelhados

A arte!brasileiros visitou a exposição e conversou com o curador sobre a história e os conceitos que a permeiam. Assista ao vídeo: 

Países Espelhados fica aberta até 26 de junho e pode ser visitada gratuitamente de terça a sexta, das 15h às 21h, e aos sábados, das 10h às 14h, mediante agendamento prévio pelo site do Sesc Consolação. A permanência máxima na unidade é de 60 minutos e o uso de máscara facial é obrigatório para todas as pessoas durante toda a visita.

SP-Arte Viewing Room realiza sua segunda edição no ambiente virtual

"Green Wolf", 2011, de Osvaldo Carvalho, na galeria Janaina Torres, que participa da SP-Arte. Foto: Divulgação

Com evento presencial marcado para o mês de agosto, entre os dias 18 e 22, a SP-Arte realiza esta semana a segunda edição de seu evento virtual, o SP-Arte Viewing Room. Com cerca de 120 participantes nacionais e internacionais – entre galerias de arte e de design, editoras e projetos independentes – a feira acontece entre quarta-feira, dia 9, e domingo, dia 13 de junho.

Para a diretora e fundadora da feira, Fernanda Feitosa, em texto de divulgação: “O avanço do digital é inegável e irreversível. As plataformas digitais irão, cada vez mais, potencializar o alcance do mercado como um todo, abrindo ainda mais as portas para o cenário internacional ou mesmo aproximando novos colecionadores, que se sintam mais à vontade no ambiente online. O digital, é claro, não substitui o contato físico, a sensação de ver uma obra presencialmente, mas traz uma experiência que pode ser um complemento à experiência presencial”.

Na página de cada galeria, o visitante do SP-Arte Viewing Room pode percorrer um projeto expositivo com até 20 obras de um ou mais artistas. O público pode conferir as obras por meio de vídeos e áudios que criam uma narrativa em torno da exposição digital, enriquecendo a experiência do usuário. Caso haja o interesse por algum trabalho disponível no site, apenas um clique em “Contactar galeria” já permite que o expositor e o potencial comprador iniciem uma conversa por meio de um chat da plataforma, Whatsapp ou e-mail.

Paralelamente à feira e integrada a sua realização, acontece a partir de quarta-feira, dia 8, o Gallery Week, com atividades presenciais realizadas dentro e no entorno das galerias de arte de São Paulo. A ação é realizada pela SP-Arte em parceria com a ABACT e com o Iguatemi.

Neste período (de 8 a 12 de junho), as casas participantes estarão abertas das 11h às 19h, realizando visitas guiadas, conversas com artistas/curadores, talks virtuais e/ou intervenções urbanas, sempre respeitando os protocolos vigentes de segurança por conta da pandemia de Covid-19. Todas as visitas serão realizadas mediante agendamento prévio. Confira aqui as galerias que participam.

Mostra Ecofalante de Cinema 2021: saiba o que está na programação deste ano

Chico Mendes na sua casa em Xapuri, Acre, em 1988. Foto: Miranda Smith/Creative Commons.
Chico Mendes na sua casa em Xapuri, Acre, em 1988. Foto: Miranda Smith/Creative Commons.

A Mostra Ecofalante de 2021 ocorre no âmbito da Semana Nacional do Meio Ambiente, instituída em 1981 com o objetivo de promover a participação da comunidade na preservação do patrimônio natural do Brasil. Assim, de 2 a 9 de junho, o evento disponibiliza gratuitamente 16 filmes e duas séries ao redor dessa temática. Os filmes poderão ser acessados no site da mostra e na plataforma parceira Belas Artes à La Carte.

Chico Mendes na sua casa em Xapuri, Acre, em 1988. Foto: Miranda Smith/Creative Commons.
Chico Mendes na sua casa em Xapuri, Acre, em 1988. Foto: Miranda Smith/Creative Commons.

Um dos destaques do festival é o longa-metragem BR Acima de Tudo, que fará sua pré-estreia mundial. Realizada com o apoio do Rainforest Journalism Fund do Pulitzer Center, o filme dirigido por Fred Rahal Mauro trata dos impactos da possível expansão da rodovia BR-163, cujo traçado corta a floresta amazônica em direção à fronteira com o Suriname, projeto gestado durante a ditadura civil-militar (1964-1985). Já a série A Década da Destruição, de Adrian Cowell e Vicente Rios e considerada um marco no documentário ambiental tem seis episódios na programação. Dirigida entre 1980 e 1990, a produção apresenta a realidade amazônica, em especial a luta pela terra e a violência de fazendeiros contra trabalhadores rurais, bem como o conflito entre a antiga mineradora CVRD (atual Vale S/A) e garimpeiros. O episódio “Chico Mendes – Eu Quero Viver” foca na trajetória do sindicalista, ativista político e ambientalista e destaca sua luta a favor dos seringueiros da Amazônia.

Confira a programação

Na grade de filmes estão presentes obras assinadas por Wolney Oliveira (Soldados de Borracha), Eryk Rocha (Edna), Luiz Bolognesi (A Última Floresta), Estevão Ciavatta (Amazônia Sociedade Anônima), Belisario Franca (Amazônia Eterna), Victor Lopes (Serra Pelada: A Lenda da Montanha de Ouro), Christiane Torloni e Miguel Przewodowski (Amazônia, o Despertar da Florestania), Fernando Segtowick (O Reflexo do Lago), Julia Mariano (Ameaçados), Márcio Isensee e Sá (Sob a Pata do Boi), Daniel Junge (Mataram Irmã Dorothy), Heidi Brandenburg Sierralta e Mathew Orzel (Quando Dois Mundos Colidem).

A Última Floresta, do diretor Luiz Bolognesi, foi o filme de encerramento do Festival É Tudo Verdade em 2021 e teve sua estreia mundial na Mostra Panorama do consagrado Festival de Berlim (arte!brasileiros conferiu o filme e você pode ler nossas impressões aqui). Outro filme que, anteriormente, também havia sido exibido na Berlinale é O Reflexo no Lago, de Fernando Segtowick, obra que trata de comunidades ribeirinhas localizadas próximas da hidrelétrica de Tucuruí, no Pará. Já Quando Dois Mundos Colidem, de Heidi Brandenburg Sierralta e Mathew Orzel, conquistou o prêmio especial do júri no Festival de Sundance. A obra investiga o violento conflito desencadeado na Amazônia peruana por um projeto de extração de petróleo, minério e gás, que vitimou os povos indígenas ali residentes.

Cena de "A Última Floresta". Foto: Pedro Márquez / Divulgação.
Cena de “A Última Floresta”. Foto: Pedro Márquez / Divulgação.

Além disso, a Mostra Ecofalante relembra documentários premiados em suas edições passadas. É o caso de Sob a Pata do Boi, de Márcio Isensee e Sá, e do curta-metragem Ameaçados, de Julia Mariano. O primeiro foca na relação da pecuária com a Amazônia, enquanto o segundo mostra a luta de pequenos agricultores do sul e sudeste do Pará.

O festival apresenta ainda três dos mais importantes filmes assinados por Jorge Bodanzky: Iracema, Uma Transa Amazônica (1974), codirigido por Orlando Senna, Jari (1979) e Terceiro Milênio (1981), ambos codirigidos por Wolf Gauer.

Agenda de debates

3 de junho, quinta-feira, às 19h
Acontece o debate “Para Onde Leva a Transamazônica?”, no qual participam os diretores da série Transamazônica: Uma Estrada Para o Passado Jorge Bodanzky e Fabiano Maciel, o documentarista João Moreira Salles, Alessandra Munduruku (a confirmar) e Danicley de Aguiar, do Greenpeace Brasil. A jornalista Flavia Guerra faz a mediação.

4 de junho, sexta-feira, às 19h
“Amazônia: Uma Questão de Terra(s)” é o tema do debate agendado para 4 de junho. São várias as atividades econômicas que fazem pressão sobre a maior floresta tropical do mundo e os povos tradicionais que lá vivem. Atualmente, uma série de leis em tramitação procura regular tais atividades. Quais são os principais beneficiários dessas leis? Participam do encontro Brenda Brito, pesquisadora do Imazon (Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia), Marcello Brito, presidente da ABAG (Associação Brasileira do Agronegócio) e Sônia Guajajara, líder indígena nacional (APIB). O jornalista acreano Fábio Pontes faz a mediação.

7 de junho, segunda-feira, às 19h
Acontece o debate  “Amazônia: Infraestrutura Para Quem?”. A Amazônia é palco de atividades econômicas desde o Brasil Colônia, mas foi só na ditadura militar que os projetos de desenvolvimento em grande escala surgiram, trazendo consigo uma ocupação desordenada e um forte desmatamento. Hoje, fala-se muito na necessidade de infraestrutura na região para alavancar a economia e apoiar um projeto de desenvolvimento sustentável. Como resolver o gargalo sem ampliar a destruição? Será necessário uma nova compreensão do território para alcançar esse objetivo? Integram a mesa Ana Cristina Barros, pesquisadora do CPI – Climate Policy Initiative, Suely Araújo, especialista-sênior em Políticas Públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do IBAMA, e Simão Jatene, ex-governador do Pará. Sérgio Leitão, diretor do Instituto Escolhas, faz a mediação.

8 de junho, terça-feira, às 19h
“Raízes da Amazônia: Projetando o Futuro” é o debate do dia 8 de junho. Quando o tema é o futuro da Amazônia, fala-se em bioeconomia, mercado de carbono, valorização da floresta em pé, inúmeros projetos que contemplam a biodiversidade da maior floresta do mundo e os ‘serviços ambientais’ não contabilizados que ela presta. Por outro lado, há também uma efervescência cultural – nas artes, na gastronomia, no pensamento e conhecimento milenar das múltiplas culturas da Amazônia que necessitam de reconhecimento. O debate propõe um novo olhar sobre a Amazônia, seu enorme potencial e a contribuição de seus povos. Participam Ricardo Abramovay, professor sênior do Programa de Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente (IEE/USP) e autor de Amazônia: Por uma Economia do Conhecimento da Natureza, a Secretária de Ciências e Tecnologia do Amazonas Tatiana Schor e Eliakin Rufino, compositor e produtor musical de Roraima. Mariano Cenamo, diretor do Idesam/AMAZ faz a mediação.

9 de junho, quarta-feira, às 19h
O evento “Amazônia e os Futuros Possíveis” encerra o ciclo de debates. Trata-se de uma conversa sobre o documentário BR Acima de Tudo, que retrata a diversidade socioambiental em uma das partes mais preservadas da floresta brasileira, e as perspectivas da chegada de uma rodovia na região. Participam da mesa Fred Rahal Mauro, diretor do filme, Angela Kaxuyana (a confirmar), da COIAB – Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, e Carlos Printes, da ARQMO – Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Município de Oriximiná.

Para saber mais sobre as atividades paralelas do festival, como o webinário e a masterclass com Jorge Bodanzky, acesse este link.

Bienal de Arte Paiz, na Guatemala, coloca em foco diversidade cultural e crises na América Latina

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"Rastros que dejamos sobre la cara de la tierra", 2021, de Edgar Calel. Foto: Hugo Quinto/ Cortesía de Alexia Tala

Perdidos. No meio. Juntos foi o título da 22ª Bienal de Arte Paiz, realizada na Cidade da Guatemala, capital do país centro-americano, e na pequena cidade de Antigua Guatemala. Inspirado em uma publicação do artista holandês Jonas Staal sobre um grupo de refugiados em Amsterdam, o título ganhou novos sentidos ao ser deslocado para a realidade latino-americana, especialmente em um país com quase metade de sua população de origem indígena.

“O que geralmente se vê na América Latina não é a negação da cidadania às minorias, mas a negação de uma vida digna”, afirma a curadora-chefe da edição, a chilena Alexia Tala, em referência aos povos originários que “têm negados seus direitos de viver respeitando suas cosmovisões, suas formas de medicina e de organização comunitária”. O título se refere também aos muitos imigrantes que partem da América Latina para os países do Norte, em consequência de desemprego e pobreza, e que vivem como espécies de refugiados nestes países.

Levantando estas e muitas outras questões, a 22ª Bienal de Arte Paiz, encerrada dia 6 de junho, reuniu trabalhos de 40 artistas – entre eles os brasileiros Ayrson Heráclito, Detánico & Lain, Jonathas de Andrade e Vanderlei Lopes – e se espalhou por seis instituições das duas cidades guatemaltecas. Além das mostras coletivas, com grande presença de artistas locais, duas exposições individuais completaram a mostra: uma do artista guatemalteco Aníbal Lopez e outra da fotógrafa chilena Paz Errázuriz (que segue em cartaz após o fim da bienal).

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A curadora Alexia Tala. Foto: Divulgação

Em entrevista à arte!brasileiros, Alexia falou sobre a curadoria da Bienal – feita por ela em parceria com o curador adjunto Gabriel Rodríguez Pellecer -, sobre o contexto político latino-americano, sobre o momento pandêmico e uma série de outros assuntos. Leia a seguir.

ARTE! – Em primeiro lugar, gostaria que você contasse um pouco como foi pensado o projeto curatorial da 22ª Bienal de Arte Paiz e quais os principais eixos temáticos que percorrem a mostra. Dentro disso, poderia falar um pouco também sobre o título perdidos. en medio. juntos.

Vou começar a responder pela segunda parte. O título vem de uma publicação do artista holandês Jonas Staal e do projeto BAK que foca em um grupo de 200 refugiados a quem foi negada a cidadania. Este fato nos pareceu um espelho da situação das comunidades indígenas da América Central e de muitas pessoas que se veem forçadas a migrar, que por um lado são reconhecidos como cidadãos, mas por outro lhes são negados seus direitos de viver respeitando suas cosmovisões, suas formas de medicina e de organização comunitária. Além disso, também associamos o título a todos os imigrantes que podemos pensar também como refugiados, no sentido de que o principal motivo da migração para o norte é o desemprego, que é em si mesma uma forma de violência econômica.

O que geralmente se vê na América Latina não é a negação da cidadania às minorias, mas a negação de uma vida digna e de se poder viver em paz. Então veio a pandemia e o título ganhou força própria.

O trabalho de Jonas Staal, a forma como aborda as suas pesquisas e projetos, foi uma inspiração, uma espécie de base a partir da qual começamos a considerar a bienal como um projeto. Suas propostas de formação política, suas oficinas de discussão, as diversas formas de trabalhar no nível coletivo e suas formas particulares de problematizar nos serviram de ponto de partida para discutir sobre o local, o regional e o hemisfério sul em relação ao norte. E, dentro disso, sua base na desigualdade.

O projeto curatorial está dividido em três eixos temáticos: Universos da matéria; Passados. eternos. futuros; e Geografia perversa/ Geografias malditas. Todos os três abordam questões que estão interligadas e que tocam bem ali, naquele ponto onde tudo se desequilibra tanto social quanto politicamente, onde a história ancestral é confrontada com a história contemporânea e onde a matéria e as formas de abordagem dos objetos e da natureza se opõem.

Vista geral da exposição “Universos de la materia”, parte da bienal. Foto: Hugo Quinto/ Cortesía de Alexia Tala

ARTE! – Em seu texto curatorial você fala no conceito de “presentismo” para se referir a uma espécie de desorientação que vivemos no momento atual do mundo, relacionada também à uma dificuldade de olhar tanto para o passado quanto para o futuro. Poderia falar um pouco sobre essa ideia, sobre como ela é abordada pela curadoria e como se relaciona com a produção artística contemporânea?

Exatamente, esse presentismo de que fala Koselleck nos levou a pensar em uma questão de temporalidade, de análise da capacidade e incapacidade de vislumbrar futuros em um momento em que – ainda mais com a pandemia – se acentuou essa falsa ideia de interconectividade, que ao mesmo tempo nos bombardeia e nos cega. Dentro desta temporalidade está o passado ancestral Maia, que em um país multiétnico e multilíngue onde 60% da população é indígena, assume uma importância crucial.

A curadoria procurou aproximar-se disso, desde o nosso lugar de brancos mestiços falando a partir da conjuntura histórica de uma overdose de presente e nos permitindo entrar em territórios ancestrais que pertencem a estes artistas do altiplano e de outros convidados. O importante era fazer isso por meio de suas próprias vozes, dos artistas Kakchiquel, Tz´utujil, Garífunas e afrodescendentes de outros lugares da América Latina, assim como artistas da África.

Os trabalhos apresentados na bienal dialogam entre si e entre os eixos temáticos. Há uma multiplicidade de vozes que se revelaram, passadas duas semanas da inauguração, mais potentes do que eu mesma como curadora poderia ter imaginado. A decisão de abrir um espaço para as vozes indígenas e populares, sem pretender ser tradutora de nada, resultou em uma percepção coletiva do público guatemalteco de que tudo o que está ali exposto faz sentido em suas vidas. E essa é a maior recompensa ao trabalho da equipe.

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Trabalho do panamenho Antonio José Guzmán na Bienal de Arte Paiz. Foto: Juan Carlos Mencos/ Cortesía Silvia de Tres

ARTE! – Sobre a seleção dos artistas, há uma predominância de latino-americanos (35 dos 40 participantes). Este olhar que parte do que chamamos de Sul Global, e mais especificamente da América Latina, é o foco principal da exposição? Gostaria que falasse um pouco sobre essa escolha.

Sim, o foco foi a América Latina, tanto por questões curatoriais quanto de logística. Embora muitas das obras respondam ao contexto guatemalteco, a ideia sempre foi tomar a Guatemala como o espelho a partir do qual podemos ver todas essas desigualdades que historicamente afligem o Sul Global. E por isso, junto ao Gabriel Rodriguez, meu co-curador, convidamos também artistas como Nelson Makengo, do Congo, Emo de Medeiros, de Benin, e Heba Y. Amin, do Egito. As obras destes três artistas têm funcionado como uma espécie de conector de realidades muitas vezes desconhecidas do público centro-americano.

ARTE! – Mas mesmo que haja este recorte regional, existe uma produção feita dentro desta vasta região que é também bastante diversa. Como surge essa diversidade na mostra? 

Sim, é uma produção muito diversa e também muito desconhecida, por se tratar de uma região bastante marginalizada e invisível para o circuito global da arte contemporânea. Este circuito perde a oportunidade de encontrar uma infinidade de artistas incrivelmente interessantes e talentosos e, além disso, perde a chance de se aproximar de um fenômeno que está ocorrendo com os artistas do altiplano e suas formas de abordar a arte contemporânea a partir de sua própria indigeneidade que, apesar de fazer críticas terrivelmente profundas, são resolvidos de maneiras altamente estéticas e poéticas.

A diversidade também surge na mostra a partir do momento em que decidimos que 70% das obras seriam comissionadas, ou seja, novos projetos. Fizemos pesquisas prévias para poder entregar aos artistas material que culminou em uma publicação intitulada Paraíso (re)partido, que contém uma série de temas relevantes ao contexto, desde questões históricas até assuntos contemporâneos.

Os artistas estrangeiros viajaram para a Guatemala, o que resultou em uma série de colaborações que surgiram organicamente não apenas com artistas locais, mas também com pessoas de outras áreas, desde guias espirituais e curandeiros botânicos, tecelãs de tear de cintura, poetas, cineastas, arqueólogos forenses e advogados. Ayrson Heráclito, por exemplo, trabalhou com Wingston González na obra Onagulei: Mensageiro dos ancestrais. Enfim, uma série de outros saberes entraram na bienal e, junto com a arte, chegaram a soluções estéticas.

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Série “Ladino Hardware, na exposição de Aníbal López na Bienal de Arte Paiz. Foto: Hugo Quinto.

ARTE! – Pensando no âmbito mais local da mostra, quase metade dos artistas são da Guatemala. Queria saber um pouco sobre como foi feita essa pesquisa no país e quais as preocupações que você percebe mais latentes na produção destes artistas. 

Exatamente, esta edição tem uma proporção bastante equilibrada de artistas nacionais e internacionais. Propusemo-nos a incluir vários artistas Tzutujil, Kakchiquel e Garífuna que, como eu disse, estão a tornar a arte contemporânea mais surpreendente e que – não interessados ​ou influenciados pela crítica institucional – estão profundamente enraizados na sua visão de mundo ancestral. E integramos artistas populares que utilizam técnicas tradicionais ou ancestrais, mas que conseguiram desenvolver seu próprio imaginário dentro do que fazem.

Esta pesquisa, na verdade, venho fazendo há 6 anos, quando me envolvi com diversos projetos na Guatemala. Quando fui convidada para fazer a curadoria da bienal, já conhecia de perto a cena local e o contexto e isso me levou muito organicamente a desenvolver um projeto altamente contextual.

As inquietações presentes na produção dos artistas centro-americanos eu diria que são bastante marcadas. Sem homogeneização, poderia pensar em duas questões que as atravessam: a desigualdade em todos os seus sentidos e as questões territoriais. Essas fronteiras invisíveis que existem dentro de um mesmo território denominado estado-nação, fronteiras que são habitadas, que são um território mais do que um limite – e o que elas têm em comum é que nos falam de segregação política, pois têm o componente de racialização e da desigualdade.

ARTE! – Falando em racialização, há um grande número de artistas de origem indígena. Poderia comentar um pouco este aspecto da mostra?

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que eu fujo das categorizações. O que vemos nesta bienal são muitos artistas indígenas que estão produzindo arte contemporânea. Não é pelo fato de sua origem que poderia ser criada uma nova categoria. Mas pensando em que aspecto eles podem se diferenciar de outros artistas contemporâneos, vejo que a diferença é que eles desenvolveram seus trabalhos, muitos deles altamente conceituais, a partir de seu próprio lugar, falando desde sua própria indigeneidade, de sua própria visão de mundo. E eles têm evitado a crítica de arte institucional, ou seja, em hipótese alguma você vê esses artistas tentando se encaixar no que o circuito está procurando. Até mesmo sua forma de abordar as questões políticas é muito própria. Suas obras falam de sua história, da desigualdade, da destituição, de sua cosmovisão e da personhood (status de pessoa) que a natureza e os objetos têm em sua vida diária. Eu não diria que desenvolvemos um enfoque na arte indígena, pelo contrário, criamos os cenários onde as suas obras, em conjunto com as de outros artistas, ganham maior força através do diálogo.

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“Lacandón”, 2006, de Aníbal López. Foto: Cortesia Coleção Quinto – Lojo

ARTE! – Seria interessante falar também sobre as duas exposições individuais, uma do artista guatemalteco Aníbal Lopez e outra da fotógrafa chilena Paz Errázuriz. Como se deu a escolha destes artistas e como suas obras dialogam com a Bienal como um todo? 

Essas duas exposições funcionam dentro de dois eixos da Bienal, tanto em Geografia Perversa/ Geografias Malditas quanto no eixo dos Pasados. eternos. futuros. Ambas as propostas buscam tornar visíveis as fissuras do tecido social, fissuras que provêm de problemas históricos do passado e outras que provêm de problemas locais. No caso do Aníbal, provém da realidade guatemalteca e no caso de Paz da realidade do contexto chileno, um país altamente classista onde as margens da sociedade nunca conseguem se integrar.

Sempre soubemos que queríamos fazer duas mostras individuais, uma em homenagem a um artista da América Latina e outra a um artista da Guatemala. Aníbal é sem dúvida o artista mais influente da América Central, suas ideias surgem com fortes raízes intelectuais e com uma força que frequentemente superam a si mesmas. O confronto que López faz entre arte e realidade é muito bruta e evidencia questões ligadas à ética e à moral. Foi muito importante resgatar seu legado por meio dessa retrospectiva – A1-53167: Lugares sitiados – e investigar e produzir material para disponibilizar aos pesquisadores. Por isso desenvolvemos parte do Arquivo Oral Aníbal López, um arquivo que contém entrevistas com pessoas próximas a ele em termos de pensamento e produção.

Os debates sobre identidade e principalmente sobre racismo estão latentes nas exposições, principalmente no eixo Passados. eternos. futuros. Hierarquias raciais existem desde o passado e continuam até hoje, e é neste hoje que estamos construindo o passado para o futuro.

Paz Errázuriz luta há anos para dar visibilidade e reconhecimento aos direitos sociais das minorias em geral. Hoje, em um mundo unido pela internet, essas lutas são tão locais quanto globais, e por isso a força que adquirem dialoga com tantas outras diferenças histórico-culturais em outras geografias.

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Paz Errázuriz, série “La Manzana de Adán”, 1982- 1990. Foto: Cortesia da artista

A mostra A grandeza da margem, para a Bienal de Arte Paiz, corresponde à primeira vez que Errázuriz fotografa fora do contexto chileno. Ela retrata uma comunidade transgênero em sua série Tran Guatemala (2020), seguindo a linha de La Manzana de Adán. O segundo trabalho comissionado que Errázuriz desenvolve é a série Sepur Zarco (2020), onde ela retrata um grupo de mulheres Quechí que levaram a julgamento militares que, durante a guerra, as submeteram à escravidão doméstica e sexual. Este julgamento teve sucesso, dando aos militares sentenças de 120 e 240 anos de prisão. Por isso foi muito midiático, mas elas esconderam seus rostos ao longo do processo. Hoje, Paz as retrata na tentativa de dignificar seus frágeis corpos que carregam com muito sofrimento mas, ao mesmo tempo, com muita força.

ARTE! – A Bienal de Arte Paiz, assim como tantas exposições e eventos culturais no mundo, teve que ser adiada por conta da pandemia de Covid-19. Esse adiamento e esse novo contexto resultaram em mudanças na forma e nos conteúdos da mostra?

Sim, foi adiada. Eu diria que consideramos primeiro fazer uma bienal presencial, depois uma solução online, que rapidamente descartamos, e depois uma bienal híbrida, para ao final voltar à ideia de uma bienal presencial, mas com um forte foco no local e com projeto educacional reforçado. Ao mesmo tempo desenvolvemos vários eventos online, palestras, workshops e um simpósio que têm procurado não nos desvincular do diálogo internacional. Embora os aviões não cheguem e muitas fronteiras estejam fechadas, esse diálogo tem sido importante. Quanto ao conteúdo das mostras, isso não foi afetado, apenas algumas estratégias de produção tiveram que ser modificadas devido à impossibilidade de deslocamento.

ARTE! – Além disso, de que modo você acha que essa Bienal dialoga com a nova realidade global?

Esta bienal foi concebida como uma plataforma catalisadora das relações entre a história e o contemporâneo. Nesse sentido, o diálogo com a realidade global é constante, pois a realidade global não se compõe apenas do hoje, é algo que vem se arrastando e agregando acontecimentos. A bienal aborda esses debates que prevalecem hoje a nível mundial.

Por exemplo, as obras de Paz Errázuriz de que falei; ou as de Uriel Orlow, que trabalhava com curandeiros botânicos no tempo em que Dom Domingo Choc foi assassinado acusado de feitiçaria; Oswaldo Maciá, que fez uma instalação sonora e olfativa para falar sobre a migração em nível planetário; Edgar Calel, que aborda as questões ecológicas metaforizando com as marcas que deixamos na terra; e Andrea Monroy, que trabalha o sincretismo da sabedoria ancestral e da religião.

“Cómo se llamaban las plantas antes de que tuvieran nombre”, 2020-2021, do suíço Uriel Orlow, na Bienal de Arte Paiz. Foto: Hugo Quinto/ Cortesía de Alexia Tala

ARTE! – Voltando à questão do foco da Bienal no território, do qual você falou, no contexto atual muito tem se falado de que exposições, feiras de arte e bienais talvez passem a receber principalmente um público mais local, em consequência de uma diminuição nos deslocamentos pelo mundo. Queria saber como você percebe isso…

Como sabemos, as feiras e bienais têm adquirido uma posição internacional cada vez mais forte ao longo do tempo, tendo um público massivo e, no melhor dos casos, um projeto pedagógico com trabalho relevante sobretudo junto às escolas locais, que se dá através da arte, das obras expostas e suas várias formas de abordagem. Isso pensando a partir do local, mas todos esses eventos que se repetem ao longo do tempo não são relevantes apenas para o público da região, mas para todo o ecossistema da arte: curadores, críticos, artistas e até galeristas e colecionadores. Por isso é importante pensar em novas formas de alocar os orçamentos, pois embora as exposições e o contato direto com a obra de arte não tenham comparação com o contato online, parte desses recursos deve servir para fortalecer projetos educacionais tanto presenciais quanto online, isso é algo indispensável. Ao mesmo tempo, você deve trabalhar duro para ter um alcance internacional por muitas razões que todos nós conhecemos, mas principalmente para poder tornar visível o pensamento dos artistas, seus processos criativos, suas obras e os diálogos que eles geram entre si.

ARTE! – E como tem sido a recepção do público nesta edição da Bienal de Arte Paiz?

Não posso esconder a grande satisfação que sinto. A bienal superou todas as expectativas que eu mesma tinha em relação ao público local, ela tem sido um sucesso de visitas e de crítica. Mas o mais importante é que esse esforço de fazer uma bienal profundamente contextual foi percebido pelo público não especializado, que se identificou plenamente. Tenho recebido mensagens muito emocionantes no Instagram de pessoas desconhecidas que têm ido visitar as exposições. Além disso, os diretores dos museus estão pedindo o adiamento das datas de encerramento das exposições. Acabamos de receber a confirmação de que a mostra da Paz Errázuriz ficará aberta um mês a mais do que o previsto. Isso para mim dá ainda mais sentido ao projeto e me faz sentir que três anos de trabalho árduo e um ano de incertezas pandêmicas valeram a pena.

Com “A extinção é para sempre”, Nuno Ramos busca resposta multilinguagem à conjuntura brasileira

"Chão-Pão", segundo episódio de "A extinção é para sempre", projeto idealizado por Nuno Ramos. Foto: Matheus Brant

Em memória a todos que perderam a vida na pandemia, uma chama se acendeu esta semana no Sesc Avenida Paulista. Um pequeno isqueiro zippo, que geralmente manteria a flama por cerca de quinze segundos, foi aceso e assim ficará de forma ininterrupta por um ano. A escultura é o primeiro episódio de A extinção é para sempre, projeto multilinguagem idealizado por Nuno Ramos e realizado pelo Sesc São Paulo com apoio do Goethe-Institut. Fechada para visitação, a obra pode ser apreciada no site da iniciativa, onde sua transmissão acontecerá ao vivo até que o fogo se extinga. 

Envolvendo artes visuais, literatura, música, teatro, dança e cinema, o projeto é composto de sete episódios, desenvolvidos através de diálogos com artistas de diversas origens e linguagens, como a escritora Noemi Jaffe, o cineasta Jorge Bodanzky, a atriz Edna de Cássia, o coreógrafo Eduardo Fukushima e o encenador Antônio Araujo. “É quase que a configuração de um corpo que anda junto, uma orquestra de câmara, na qual esses trabalhos tem que jogar um com o outro, mas têm muita voz independente”, explica Nuno Ramos.

Apesar da potência individual de cada ato e de seus conceitos próprios, os episódios giram em torno de uma mesma questão: a busca por uma resposta poética à conjuntura brasileira e à pandemia, situação que para Nuno se configura através de uma série de extinções. “O que sinto é que não vamos voltar ao que era antes através de uma eleição. Vamos precisar de muito mais”, diz. E completa: “Existe a entronização da própria violência na Presidência da República, como um projeto que teve o aval da elite e do próprio ressentimento popular. O Brasil está passando por uma tragédia inacreditável, não só pela Covid-19 – que é uma espécie de visualização explícita disso -, mas também na destruição minuciosa de toda uma trama institucional.”

O artista Nuno Ramos durante os ensaios de Chão-Pão. Foto: Matheus Brant

Para o artista, essa situação foi agravada ao que o mundo político oficial se paralisou, sem conseguir superar as divergências e apontar um caminho de reação à barbárie. “Tenho a impressão de que a gente precisa realmente criar esse lugar de respiração, de trocas, de sublimação, de simbolização da vida. Então acho que tem um pouco desse desespero: como é que eu faço frente a uma situação como essa que a gente está passando?”. Junto a outros artistas, Nuno agiu pela cultura, expressando-se através de múltiplas linguagens de forma simultânea. “É uma forma de fazer arte ‘a quente’, uma produção em movimento, que vá contra o atual estado de apatia e responda aos assuntos que percorrem o espaço público hoje – como o luto, a violência, a ameaça às instituições e a relativização da nossa história”, declara.

A arte!brasileiros conversou com o artista sobre os conceitos que envolvem cada um dos sete episódios de A extinção é para sempre. Atualmente configurado como um laboratório artístico. O projeto segue em desenvolvimento e está previsto para durar um ano, o tempo da chama acesa no zippo.

A caminho da extinção

Se em 2020, em Marcha à Ré – performance feita pelo artista em parceria com o Teatro da Vertigem e comissionada pela Bienal de Berlim – buscava-se reverter a energia de descaso do governo frente à pandemia de coronavírus, homenageando suas vítimas, CHAMA aprofunda essa ideia, ao se configurar como um gesto artístico de luto. Nas próximas semanas, o público poderá participar ativamente da obra, entrando na transmissão ao vivo. “Se uma pessoa no Canadá quiser fazer uma fogueira e nos mandar, colocamos o fogo na transmissão. Outro vai pegar uma lata de combustível embaixo de um viaduto em Jacarepaguá? Coloco o fogo dele. Assim, vamos mantendo uma chama acesa ao vivo, numa espécie de monumento da chama eterna”, explica Nuno.

Imagem horizontal colorida. Isqueiro zippo aceso. Monumento virtual CHAMA, de Nuno Ramos, parte do projeto A EXTINÇÃO É PARA SEMPRE.
“CHAMA”, monumento virtual que compõe o projeto “A extinção é para sempre”, de Nuno Ramos. Foto: Eduardo Ortega

Entre os dias 28 e 30 de maio, Chão-Pão vai ao ar, sempre às 20h30. Nesse episódio, um grupo de performers monta um chão feito com lajotas e pães impróprios para consumo. Sobre esse terreno, caminham e dançam, quebrando e modificando esse chão-pão. No meio da cena, dois monitores trazem em loop trechos dos filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe, de Glauber Rocha, nos quais a fala “a culpa não é do povo” está presente. “Os atores jogam um pouco com a ambiguidade dessa frase e dessa estrutura. Com esse pão sustentando e sendo despedaçado por esse chão do qual ele é a base original, que ele é quem segura”, explica. “Então tem algo da perda de horizonte popular, da perda de vocalização do que era ainda vocalizado há alguns anos e que foi sumindo.”

Essa dificuldade de expressar as situações está presente também no terceiro episódio de A extinção é para sempre, construído a partir de Os Desastres da Guerra, de Goya. Nele, teremos um tableau vivant (pintura viva), no qual atores vestidos de soldados napoleônicos vocalizam os duros depoimentos de pessoas que perderam seus parentes na guerra, colocando em foco as vítimas da violência do Estado. A brutalidade dos relatos os torna difíceis de ouvir e Nuno buscou trazer essa ideia à apresentação. Para isso, os textos foram traduzidos para o braile e então transformados em partitura percussiva. “No braile, temos dois pontos por casa: um tempo forte e um tempo fraco”, explica. É a partir disso que os músicos tocam os relatos, sobrepondo a fala dos atores. “Estamos lidando com a impossibilidade de representação de uma violência dessas, através de uso amalucado de todas as linguagens”, conta.

Registro de “Os Desastres da Guerra”, terceiro episódio de “A Extinção é Para Sempre” Foto: Matheus Jose Maria

Os ataques ao meio ambiente e às identidades indígenas são outro ponto de barbárie que vem sendo denunciado nos últimos anos. É visando se aprofundar nas discussões ecológicas e antropológicas que o filme Iracema – uma transa amazônica, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, é retomado em Iracema Fala. O episódio, que está previsto para ser lançado em agosto, funciona como “uma espécie de reparação e também uma atualização dessas questões”, explica Nuno. Para isso, Edna de Cássia, atriz principal do filme, que saiu da carreira artística logo após o prêmio recebido por sua atuação, revisita o texto que interpretou nos anos 70, dirigindo e interferindo em uma reencenação.

O quinto episódio traz foco à polêmica em torno de monumentos espalhados por todo o Brasil. Elaborado em colaboração com a escritora Noemi Jaffe, o trabalho busca reinaugurar uma estátua em uma das praças da cidade de São Paulo. Porém, ao invés das autoridades comumente chamadas para discursar nesses eventos, uma sequência de reinaugurações convida pessoas de várias configurações sociais, que travam discursos a partir de suas vivências dissidentes – “como que tentando reencontrar um espaço de significação para aquela escultura que já não quer dizer nada, ou que quer dizer algo muito ruim, que carrega uma memória muito violenta”.

Então, o luto volta à cena. Helióptero, sexto episódio, retoma Antígona, que enfrenta o Estado para poder velar o corpo de seu irmão morto. Em A extinção é para sempre, a tragédia grega é atualizada; Creonte, o Estado, passa a ser representado por uma máquina de guerra: um helicóptero. Com sua linguagem militar e a memória de violência e assassínio que carrega ao passar sobre as favelas brasileiras, a aeronave enfrenta Antígona, que no chão se expressa através do funk, projetado por caixas de som voltadas ao céu.

Do luto à extinção de fato, o projeto se encerra com o episódio que o dá nome. Uma pequena peça, escrita por Nuno Ramos e dirigida por Antônio Araújo, conta a história da última tartaruga gigante, que não conseguiu reproduzir e levou consigo seu código genético. Ao lado de um personagem sobrevivente de A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, a tartaruga palestra sobre sua vida e as extinções que permanecem em sua memória.

O projeto será disponibilizado de forma virtual ao longo desse um ano na plataforma de A extinção é para sempre, bem como nas redes sociais do Sesc Av. Paulista, e está sujeito a alterações de cronograma devido à pandemia de coronavírus. Porém, como coloca Nuno Ramos no texto base da iniciativa: “Vivemos algo da ordem do irreversível, numa proporção cujo desenho é difícil definir. Podemos perder tudo e, por isso, o que quer que façamos agora é dramático e decisivo. A hora é nossa”.

Imagem horizontal em tons de vermelho, com escritos em preto. Reprodução da tela principal da plataforma online de A EXTINÇÃO É PARA SEMPRE. Um isqueiro zippo aceso é encoberto por uma série de finas linhas vermelhas, que criam um filtro da cor na imagem. Sobre o zippo lê-se em caixa alta, com letras pretas, A EXTINÇÃO É PARA SEMPRE, e espalhados os nomes de cada um dos episódios do projeto, sendo HELIÓPTERO, CHÃO-PÃO, MONUMENTO, CHAMA, IRACEMA FALA, OS DESASTRES DA GUERRA e A EXTINÇÃO É PARA SEMPRE.
Tela principal da plataforma online “A extinção é para sempre”. Foto: Reprodução

A extinção é para sempre 
ONDE: Clique aqui para acessar a plataforma virtual do projeto
QUANDO: 25/05/2021 a 25/05/2022

Bienal de São Paulo anuncia lista completa de participantes da 34ª edição

34ª Bienal de São Paulo. "La Cena" (The Supper), 1991, da artista cubana Belkis Ayón, uma das participantes da Bienal
"La Cena" (The Supper), 1991, da artista cubana Belkis Ayón. Foto: José A. Figueroa/ Cortesia de Belkis Ayón Estate

A Fundação Bienal de São Paulo acaba de anunciar a lista completa de artistas participantes de sua 34ª edição, intitulada Faz Escuro mas eu canto. A mostra será composta por 91 nomes – sendo dois duos e um coletivo – de 39 países (veja os nomes abaixo). Iniciada em fevereiro de 2020, a edição vem se desdobrando no espaço e no tempo com programação física e online – leia aqui matéria sobre a exposição coletiva Vento, realizada no último ano, e aqui entrevista com o curador Jacopo Crivelli Visconti e o curador adjunto Paulo Miyada. Entre os 35 novos nomes anunciados estão três brasileiros – Arjan Martins, Mauro Restiffe e Sueli Maxakali -, além do francês radicado no Brasil Pierre Verger.

Todas as ações culminarão na mostra coletiva que vai ocupar o Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Ibirapuera, a partir de setembro de 2021, simultaneamente à realização de dezenas de exposições individuais em instituições parceiras na cidade de São Paulo. Segundo Crivelli, em texto de divulgação: “Desde sua concepção, e com um sentido de urgência ainda maior após os acontecimentos dos últimos meses, a 34ª Bienal de São Paulo busca estabelecer pontes entre obras e artistas que refletem múltiplas cosmovisões, culturas e momentos históricos. O processo de colocar em relação e ressonância todas essas vozes foi intenso e estimulante, vivificando um dos conceitos de Édouard Glissant que mais nos inspirou nesse caminho, o de que falamos e escrevemos sempre na presença de todas as línguas do mundo”. 

A Fundação também lança pela primeira vez um catálogo inteiramente digital para uma de suas edições (veja aqui). A publicação, intitulada tenteio – inspirado na obra do poeta amazonense Thiago de Mello, assim como o título da 34ª Bienal -, compõe uma narrativa visual e textual formada por contribuições dos 91 artistas participantes elaboradas exclusivamente para a ocasião. Diante dos desenhos, fotografias, poemas e textos compartilhados pelos artistas, Elvira Dyangani Ose (editora convidada) e Vitor Cesar (designer e autor da linguagem visual da edição) se debruçaram sobre a realização de um catálogo que refletisse as poéticas de ensaio aberto e de “relação”, preceitos norteadores para a curadoria. Seu conteúdo será incorporado ao catálogo impresso da mostra, a ser lançado em setembro.

Veja a lista completa dos artistas participantes da 34ª Bienal de São Paulo:

Abel Rodríguez, 1944, Cahuinarí, Colômbia
Adrián Balseca, 1989, Quito, Equador
Alfredo Jaar, 1956, Santiago, Chile
Alice Shintani, 1971, São Paulo, Brasil
Amie Siegel, 1974, Chicago, EUA
Ana Adamović, 1974, Belgrado, Sérvia
Andrea Fraser, 1965, Montana, EUA
Anna-Bella Papp, 1988, Chișineu-Criș, Romênia
Antonio Dias, 1944, Campina Grande, PB, Brasil – 2018, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Antonio Vega Macotela, 1979, Cidade do México, México
Arjan Martins, 1960, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Beatriz Santiago Muñoz, 1972, San Juan, Porto Rico
Belkis Ayón, 1967 – 1999, Havana, Cuba
Carmela Gross, 1946, São Paulo, SP, Brasil
Christoforos Savva, 1924, Marathovounos, Chipre – 1968, Sheffield, Reino Unido
Clara Ianni, 1987, São Paulo, SP, Brasil
Claude Cahun, 1894, Nantes, França – 1954, Saint Helier, Jersey
Daiara Tukano, 1982, São Paulo, SP, Brasil
Daniel de Paula, 1987, brasileiro, nascido em Boston, EUA
Darcy Lange, 1946, Urenui, Nova Zelândia – 2005, Auckland, Nova Zelândia
Deana Lawson, 1979, Nova York, EUA
Dirk Braeckman, 1958, Eeklo, Bélgica
E.B. Itso, 1977, Copenhague, Dinamarca
Edurne Rubio, 1974, Burgos, Espanha
Eleonora Fabião, 1968, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Eleonore Koch, 1926 – 2018, Berlim, Alemanha
Eric Baudelaire, 1973, Salt Lake City, Utah, EUA
Frida Orupabo, 1986, Sarpsborg, Noruega
Gala Porras-Kim, 1984, Bogotá, Colômbia
Giorgio Griffa, 1936, Turim, Itália
Giorgio Morandi, 1890 – 1964, Bolonha, Itália
Grace Passô, 1980, Belo Horizonte, MG, Brasil
Guan Xiao, 1983, Chongqing, China
Gustavo Caboco, 1989, Curitiba, PR, Brasil
Hanni Kamaly, 1988, Hedmark, Noruega
Haris Epaminonda 1980, Nicosia, Chipre
Hsu Che-Yu 1985, Taipei, Taiwan
Jacqueline Nova, 1935 – 1975, Gante, Bélgica
Jaider Esbell, 1979, Normandia, RR, Brasil
Jaune Quick-to-See Smith, 1940, Reserva Flathead, Montana, EUA
Joan Jonas, 1936, Nova York, Nova York, EUA
Jota Mombaça, 1991, Natal, RN, Brasil
Jungjin Lee, 1961, Daegu, Coreia do Sul
Juraci Dórea, 1944, Feira de Santana, BA, Brasil
Kelly Sinnapah Mary 1981, Guadeloupe, França
Koki Tanaka 1975, Kyoto, Japão
Lasar Segall, 1889, Vilnius, Lituânia – 1957, São Paulo, Brasil
Lawrence Abu Hamdan, 1985, Amã, Jordânia
Lee ‘Scratch’ Perry, 1936, Kendal, Jamaica
León Ferrari, 1920 – 2013, Buenos Aires, Argentina
Lothar Baumgarten, 1944, Rheinsberg, Alemanha – 2018, Berlim, Alemanha
Luisa Cunha, 1949, Lisboa, Portugal
Lydia Ourahmane, 1992, Saïda, Argélia
Lygia Pape, 1927, Nova Friburgo, RJ, Brasil – 2004, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Manthia Diawara, 1953, Bamako, Mali
Mariana Caló e Francisco Queimadela, 1984, Viana do Castelo, e 1985, Coimbra, Portugal
Marissa Lee Benedict e David Rueter, 1985, Palm Springs, EUA e 1978, Ann Arbor, EUA
Marinella Senatore, 1977, Cava de’ Tirreni, Itália
Mauro Restiffe, 1970, São José do Rio Pardo, SP, Brasil
Melvin Moti, 1977, Roterdã, Holanda
Mette Edvardsen 1970, Lørenskog, Noruega
Nalini Malani, 1946, Karachi, Paquistão
Naomi Rincón Gallardo, 1979, Cidade do México, México
Neo Muyanga, 1974, Soweto, África do Sul
Nina Beier, 1975, Aarhus, Dinamarca
Noa Eshkol, 1924, Kibbutz Degania Bet, Palestina – 2007, Holon, Israel
Musa Michelle Mattiuzzi, 1983, São Paulo, SP, Brasil
Olivia Plender, 1977, Londres, Reino Unido
Oscar Tuazón, 1975, Seattle, Washington, EUA
Paulo Kapela, 1947, Uige, Angola –- 2020, Luanda, Angola
Paulo Nazareth, 1977, Governador Valadares, MG, Brasil
Philipp Fleischmann, 1985, Hollabrunn, Austria
Pia Arke, 1958, Uunarteq, Groenlândia – 2007, Copenhague, Dinamarca
Pierre Verger, 1902, Paris, França – 1996, Salvador, BA, Brasil
Regina Silveira, 1939, Porto Alegre, RS, Brasil
Roger Bernat, 1968, Barcelona, Espanha
Sebastián Calfuqueo Aliste, 1991, Santiago, Chile
Silke Otto-Knapp, 1970, Osnabrück, Alemanha
Sueli Maxakali, 1976, Santa Helena de Minas, MG, Brasil
Sung Tieu, 1987, Hai Duong, Vietnã
Tamara Henderson, 1982, Sackville, Canadá
Tony Cokes, 1956, Richmond, Virginia, EUA
Trajal Harrell, 1973, Douglas, Georgia, EUA
Uýra, 1991, Manaus, AM, Brasil
Victor Anicet, 1938, Marigot, Saint Martin
Vincent Meessen, 1971, belga, nascido em Baltimore, Maryland, EUA
Ximena Garrido-Lecca, 1980, Lima, Peru
Yuko Mohri 1980, Kanagawa, Japão
Yuyachkani, Grupo teatral fundado em 1971 no Peru
Zina Saro-Wiwa, 1976, Port Harcourt, Nigéria
Zózimo Bulbul, 1937 – 2013, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

SERVIÇO: 34ª Bienal de São Paulo – Faz escuro mas eu canto
De 4 de setembro a 5 de dezembro de 2021
Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Parque Ibirapuera
Entrada gratuita

 

Arjan Martins tem trajetória retratada em livro

"Américas" (2016), Arjan Martins. Foto: A Gentil Carioca.
"Américas" (2016), Arjan Martins. Foto: A Gentil Carioca.

AEditora Cobogó acaba de lançar Arjan Martins, publicação que apresenta mais de 100 obras do repertório do artista carioca, além de um ensaio do organizador do livro, Paulo Miyada, hoje curador do Instituto Tomie Ohtake e curador adjunto da Bienal de São Paulo, outro do crítico Michael Asbury, professor-associado da Chelsea College of Art e da University of the Arts London, e ainda uma entrevista feita com Arjan Martins pela historiadora Raquel Barreto. O volume chega às livrarias em edição bilingue.

"Atlântico" (2016), Arjan Martins. Foto: A Gentil Carioca.
“Atlântico” (2016), Arjan Martins. Foto: A Gentil Carioca.

“Tem muito material que me torna um artista, mas que não necessariamente são temas artísticos”, afirma Arjan no livro. “Às vezes está dentro da ciência política, dentro da economia, dentro da história. Enfim, acho que existe uma convergência de temas e de suportes também. O que pode me tornar um artista é um pouco o meu modo de receber essas informações e como eu as devolvo ao mundo. Entendendo que a pintura ainda é um meio, um dispositivo com o qual você pode chegar até as pessoas. A pintura remonta à história da arte, mas o seu recado é mais horizontal. Acho que é isso que me torna um artista: esse atrito, essa zona de inconformismo obsessivo construtivo.”

O trabalho de Arjan Martins já foi apresentado em diversas das instituições mais importantes do Brasil, como MAM-SP, MAM Rio, Instituto Tomie Ohtake e MAR (Museu de Arte do Rio). Nascido em 1960, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha, o artista começou a frequentar os cursos livres da Escola de Artes Visuais do Parque Lage na década de 1990. Após um período de intensa produção que dava destaque a figuras anatômicas, sua obra foi aos poucos se conduzindo para a criação de desenhos nos quais desenvolveu uma técnica pictórica que mistura espaços vazios a texturas, colorações e composições intensas. Os rostos de suas figuras negras são muitas vezes borrados, traduzindo uma negação da identidade.

No que Miyada define como “cartografias mnemônicas das histórias e do presente do povo negro”, as imagens de imigrantes e descendentes africanos são parte fundamental do repertório do artista, evocando questões como herança colonial, segregação e invisibilidade. Sua imagética trabalha os símbolos do período das expansões marítimas e da escravidão dos corpos negros, como a caravela, o globo terrestre e as ferramentas de navegação como marcas desse tempo. “A poética de Arjan Martins convida a permanecer em um estado de travessia, percorrendo o negro oceano que liga a África, a Europa e as Américas em jornadas que se cruzam com as de diversos pensadores da diáspora negra, como Frantz Fanon, Édouard Glissant, Derek Walcott, Achille Mbembe e Paul Gilroy – que, no Brasil, costumam ser lidos em diálogo com pensadores como Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Abdias Nascimento e Zózimo Bulbul”, completa o organizador.