Sempre me incomodei com as mostras retrospectivas sobre os anos 1980 porque elas basicamente se atinham a duas mostras do período: Como vai você, geração 80, no Parque Lage, em 1984, e a 18ª Bienal de São Paulo, em 1985, apelidada de A Bienal da Grande Tela, porque em três longos corredores expôs pinturas de grandes dimensões muito semelhantes.
Basicamente, ambas as exposições falavam mais sobre a linguagem artística, no caso a pintura, sem se atentarem à intensa politização do período, marcado pelos massivos comícios por eleições diretas, em 1983, o processo constituinte, que culminou com a chamada Constituição Cidadã de 1988 e mesmo a Aliança dos Povos da Floresta, que unia Chico Mendes (1944 – 1988), Davi Kopenawa Yanomami e Ailton Krenak, entre outros.
Essa intensa politização social, que emergia após duas décadas da ditadura civil-militar, sempre me pareceu contrastante com “os alegres, limpos, bem-vestidos” da geração 80, como ficou caracterizado o grupo de artistas que surgia naquele período, conforme o texto clássico de Frederico Morais, Gute Nacht Herr Baselitz ou Hélio Oiticica onde está você?

Pois Fullgás – artes visuais e anos 1980 no Brasil, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo até 4 de agosto, finalmente revê o período, agora com lentes mais atuais, já que as mostras anteriores costumavam ser feitas por curadores que viveram aquele momento e, por isso mesmo, costumavam seguir os mesmos padrões daquela época.
A chave agora é outra na curadoria de Raphael Fonseca, Amanda Tavares e Tálisson Melo.
A mostra abarca um período de 15 anos, que corresponde ao declínio da ditadura, com o fim do Ato Institucional nº 5, em 1978, até 1993, quando Itamar Franco se torna presidente do Brasil, após o impeachment de Fernando Collor. O próprio recorte, marcado por fatos políticos relevantes, já indica que a mostra não se debruça apenas sobre pintura. Finalmente.
Dois são os méritos essenciais da mostra: contextualizar o período de maneira abrangente e tirar do protagonismo a turma “alegre, limpa e bem-vestida” que circulava pelo Parque Lage, no Rio, e a Faap, em São Paulo, o epicentro de onde teria saído a maioria dos protagonistas da tal Geração 80.
Com mais de 260 artistas e coletivos no CCBB, esse ranço sudestino perde relevância, a pintura deixa de ser a linguagem dominante e experimentações em diversas áreas se somam a um ativismo que os manuais de história da arte do período não costumavam dar conta. Essa releitura se revela, aliás, essencial, quando o momento atual aponta para a importância da inclusão e da diversidade.
Fullgás representa um significativo passo neste esforço ao revelar que a produção negra e indígena de diversos estados do país se fazia presente nos anos 1980. Uma das produções mais relevantes na mostra, o Vídeo nas Aldeias, criado em 1987, é um paradigma para se pensar a autorrepresentação e nesses quase 40 anos formou diversas gerações de artistas indígenas.
Xuxa e Senna
A contextualização ocorre ao longo dos cinco módulos da mostra, todos com títulos que partem de músicas do período, o que já ajuda a recriar o ambiente sonoro da época: Que país é este (Legião Urbana), Beat acelerado (Metrô), Diversões eletrônicas (Arrigo Barnabé), Pássaros na garganta (Tetê Espindola), O tempo não para (Cazuza).
Outro destaque é uma banca de jornais, com revistas da época, com uma narrativa multifacetada sobre os principais fatos do país nos 15 anos da exposição. Lá também estão algumas capas de discos de vinil, reforçando a influência da música no período.
Mas há também muitos objetos de época, seja a réplica de um capacete de Ayrton Senna (1960 – 1994), o figurino de uma paquita do Xou da Xuxa ou um exemplar da Constituição de 1988, entre eles. Com isso, a produção artística do período não se distancia d

Foto: Sergio Guerini
o contexto cultural e, melhor, pode ser pensada a partir dele. Esse é um excelente partido curatorial empenhado em apontar como toda produção artística é fruto de um contexto e com ele dialoga.
Entre as capas de revista, está uma edição da Manchete com o título Aids e o amor, uma chave importante para a obra de diversos artistas da mostra, muitos mortos por conta da infecção do HIV, caso do cearense Leonilson (1957 – 1993), do gaúcho Rafael França (1957 – 1991) do goiano Samuel Costa (1954 – 1987), do norte-americano radicado no Rio Jorge Guinle (1947 – 1987) e do etíope radicado em São Paulo Alex Vallauri. Obras de todos eles estão presentes na exposição, o que aponta o impacto da Aids nessa geração. Não por acaso, o termo contaminação acaba sendo apropriado pelo circuito da arte.
Mesclar a cultura de massa dos programas de televisão, das revistas e da música com a produção de artes visuais do período é ainda uma opção necessária, frente ao hermetismo das mostras de instituições de arte que ignoram o contexto. Fullgás, nesse sentido, é uma pesquisa de fundo, que aponta como os museus ainda precisam se atualizar muito para uma comunicação mais eficaz com o público e com o compromisso de rever a própria história da arte.
Madame Satã
Nos anos 1980, o templo de cultura underground na capital paulista era o Madame Satã, no Bixiga, que além de uma discoteca era um espaço para ações performáticas. Em Fullgás, ele é lembrado por uma imagem de Vania Toledo (1945 – 2020). A fotografia, aliás, é uma linguagem muito presente na mostra, trazendo alguns artistas e coletivos que só nos anos recentes ganharam visibilidade, caso do Zumví Arquivo Afro Fotográfico, criado em 1990 em Salvador, e dos Retratistas do Morro, que registra a vida no Aglomerado da Serra, sul de Belo Horizonte, de 1960 a 1990. É de Afonso Pimenta, um dos integrantes do grupo, uma das imagens que ajuda a contextualizar o espírito da época: um dançarino de soul, que é sósia de Michael Jackson, foto realizada em 1987.

Foto: Filipe Berndt
Mas a década de 1980 marca também o surgimento e fortalecimento do audiovisual, que vai impactar em muito a arte contemporânea a partir de então. Eduardo de Jesus tem no catálogo da mostra o texto Com e contra a televisão, onde aponta todo o experimentalismo do período, influenciado pelo programa Abertura, de Glauber Rocha, e pelo surgimento do festival Videobrasil, em 1983, essencial para o fomento e a inserção da produção audiovisual no circuito da arte.
Para além da diversidade de linguagem, Fullgás também está atenta à diversidade da produção territorial, como a produção de Hélio Mello (1926 – 2001), no Acre, ou do capixaba Elpídio Malaquias (1919 – 1999), para citar artistas distantes dos centros hegemônicos.
Finalmente, claro, há muita pintura também, especialmente de nomes que se consolidaram nas últimas décadas, como Leda Catunda, Adriana Varejão, Luiz Zerbini e Beatriz Milhazes, de um lado mais institucional, ou de Monica Nador que com o Jardim Miriam Arte Clube (Jamac) levou a pintura para muito além dos museus. Fullgás, ao final, é uma imensa amostra do que foram os anos 1980: uma mescla de otimismo pelo fim da censura, esperança com a democracia, mas com uma concentração de renda explosiva e violência nas cidades e nas florestas, que ainda seguem sem solução. ✱


Vania Leal foi curadora da primeira Bienal das Amazônias e, atualmente, é diretora de projetos especiais do Centro Cultural Bienal das Amazônias, em Belém (PA). Nesta edição, Vânia relatou a experiência da itinerância da Bienal, que passou por diversas cidades da região amazônica por cerca de um ano.
Caroline Vieira é mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA, Doutora em Artes Visuais, linha de pesquisa em História e Teoria da Arte, pela Escola de Belas Artes da UFBA. Trabalha na área do audiovisual como editora e atua como pesquisadora da arte e da comunicação. Para esta edição, Caroline aborda as escavações que apontam vestígios do primeiro cemitério público da América Latina.
Leonor Amarante jornalista, curadora e editora. Trabalhou no Jornal O Estado de S.Paulo, na revista Veja, na TV Cultura e no Memorial da América Latina. Nesta edição escreve sobre os 120 anos da Pinacoteca de São Paulo.
Fabio Cypriano Jornalista, é crítico de arte, professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Artes da PUC-SP. Nesta edição, Cypriano visita o Instituto Inhotim, que recebe 22 obras de artistas indígenas no Pavilhão Claudia Andujar, e o CCBB-SP, que revê a chamada Geração 80 na mostra Fullgás – artes visuais
Coil Lopes é desenvolvedor multimídia, designer, videomaker e programador. Atuando na ARTE!Brasileiros desde sua fundação, integra criação e tecnologia, produzindo fotografias, vídeos, newsletters e gerenciamento do portal.




Os primeiros vestígios foram identificados a partir do quinto dia, numa área equivalente a aproximadamente três vagas, pois o cemitério também foi “enterrado”, como uma forma de ocultar esse episódio da história do Brasil na Bahia e dos escravizados. Com os achados da pesquisa, o cemitério pode ser identificado como um dos maiores cemitérios públicos da América Latina. A estimativa é que lá tenham sido enterrados mais de 100 mil corpos ao longo do período em que o espaço funcionou com essa finalidade. Segundo fontes históricas, o cemitério foi primeiro administrado pela Câmara Municipal e, logo depois, foi assumida a responsabilidade pela Santa Casa da Misericórdia. 



Luiza Lorenzetti é jornalista, especialista em Mídia, Informação e Cultura pelo CELACC-USP. Foi coordenadora de comunicação do FETESP – Festival Estudantil de Teatro do Estado de São Paulo. Atualmente, é Gerente Web da arte!brasileiros
Eduardo Simões Jornalista, trabalhou em O Globo, na Folha de S.Paulo, e atualmente colabora com a edição da revista arte!brasileiros digital e impressa.
Clara Sampaio Artista, curadora e pesquisadora de arte. Integra o coletivo ATMO como curadora e gestora de projetos, além de participar de exposições, residências, cursos e publicações. Escreve sobre a instalação Wi-Fi Grátis, montada na biblioteca do Museu de Arte do
Nicolas Soares é artista, pesquisador, curador e gestor cultural formado pela Escola de Belas Artes da UFBA, em Salvador, e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Artes da UFES, em Vitória. Diretor do Museu de Arte do Espírito Santo, assina um artigo sobre Nice Nascimento.