Início Site Página 168

33ª Bienal de São Paulo reúne Péres-Barreiro e sete artistas-curadores

Rodtchenko
Rodtchenko

A cada edição, a Bienal de São Paulo tenta introduzir novas formas de pensar o evento. Se, em décadas passadas, parte do quebra-cabeça consistia em atrair artistas estrelados do mercado internacional, hoje o desafio, é criar conceitos inovadores.

Nesta edição, tudo será feito a partir de um “sistema operacional” alternativo, segundo o curador geral, o espanhol Gabriel Pérez-Barreiro. A mostra se organiza com doze projetos individuais, além das mostras coletivas idealizadas por sete artistas – curadores.

A ideia não é nova, já foi experimentada, em uma outra versão pelo crítico, historiador e curador, Walter Zanini, na mesma Bienal de São Paulo, em 1981. A diferença é que desta vez a participação de artistas-curadores é mais explícita e metódica.

Ao escolher artistas interessados nos seus próprios contextos criativos, Pérez – Barreiro evita armar a exposição por seções, vetores ou qualquer outra denominação e se lança numa experiência curatorial múltipla. Uma variante desse formato também funcionou na Bienal dos Jovens de Paris, em 1969, sob a regência de Jacques Lassaigne, concebida sob o signo de comunas com trabalhos em equipe e obras coletivas, surgidas na esteira de Maio de 1968, que se mimetizavam com o trabalho do curador geral. Além da colaboração dos artistas na curadoria, a participação no evento francês contou com Frank Popper e sua Oficina do Espectador, onde todos os visitantes também se tornavam curadores, dando à Bienal Jovens de Paris forte sentido experimental. Infelizmente a mostra francesa fechou suas portas em 1985.

O tema da 33ª Bienal de São Paulo, Afinidades afetivas é retirado do livro de Goethe, Afinidades Eletivas, de 1809 e refere-se também à tese Da Natureza Afetiva da Forma na Obra de Arte, de 1949, do crítico Mario Pedrosa.

Os artistas escolhidos, com projetos comissionados pela exposição, vão de Tamar Guimarães a Vânia Mignone, passando por Alejandro Corujeira, Bruno Moreschi, Denise Milan, Luiza Crosman, Maria Laet, Nelson Felix. Bienais gostam de resgatar obras relacionadas a um fato político social polêmico. O trabalho da vez é de Siron Franco, um dos nomes recorrentes da Bienal, que retorna pela sétima vez ao Ibirapuera, agora com o polêmico Césio/Rua 57, sobre o acidente ambiental, que aconteceu em Goiás com centenas de vítimas, todas contaminadas pelas radiações emitidas por uma cápsula com césio-137.

Entre as exposições/homenagens estão as do guatemalteco Aníbal López, do paraguaio Feliciano Centurión e da brasileira Lúcia Nogueira, residente no Reino Unido.

Com percepção colaborativa, esta edição convida artistas-curadores que trabalham juntos pela primeira vez. Além dos doze projetos individuais, eles são responsáveis pelas exposições coletivas. Alejandro Cesarco  se concentra em artistas que trabalham sobre tradução e imagem; Antonio Ballester Moreno propõe diálogo de sua obra com referenciais sobre história da abstração e relação com a natureza, pedagogia e  espiritualidade; Claudia Fontes ativa questões envolvendo relações entre arte e narrativa; Mamma Andersson faz reflexão sobre figuração na tradição da pintura, desde a arte popular à arte contemporânea; Sofia Borges prepara pesquisa sobre a tragédia e a forma ambígua; Waltércio Caldas desenvolve  reflexão histórica sobre a forma e a abstração e Wura-Natasha Ogunji enlaça artistas que trabalham com proximidade e compartilham questões sobre identidade e a diáspora africana.  Ainda compõem a equipe da 33ª Bienal, Alvaro Razuk (arquitetura), Lilian L’Abbate Kelian e Helena Freire Weffort (educativo), Fabiana Werneck (editorial) e Raul Loureiro (identidade visual).

A 33ª Bienal de São Paulo poderá ser conferida de 7 de setembro a 9 de dezembro de 2018, no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera.

A culpabilização das vítimas como rota de fuga

Rovena Rosa/Agência Brasil_02/05/2018
Rovena Rosa/Agência Brasil_02/05/2018

Por Cilene Victor*

Como pesquisadora, tenho evitado comentar ou escrever sobre tragédias ou desastres, sobretudo por duas razões.

A primeira é porque essas ocorrências, em sua maioria, raramente são inevitáveis e tampouco desconhecidas, como o desabamento do prédio no Largo do Paissandu, que servia de moradia precária para mais de 140 famílias. Falar sobre um desastre, sobre uma tragédia, significa dizer que a esperamos chegar.  

Essas tragédias têm sido construídas ao longo da história, resultado da iniquidade social que define todo o resto da história. A especulação imobiliária, com seus projetos de gentrificação, e a omissão do Estado empurram as famílias mais pobres para as áreas com maior risco de ocorrência de desastres relacionados a enchentes, inundações e escorregamentos de terra.

Para se ter uma ideia, de acordo com os números da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, SEDEC, órgão do Ministério da Integração Nacional, nos últimos cinco anos, o país reconheceu uma média anual de 2.400 desastres. E aqui estão somente aqueles que demandaram decretação de situação de anormalidade, como situação de emergência ou estado de calamidade pública. O número de ocorrências, portanto, é muito maior.

Os desastres e as tragédias, como a do Largo do Paissandu, acontecem todos os dias, mas seguem invisíveis midiática e politicamente.

A segunda razão que tem me levado a evitar o tema das tragédias e dos desastres é a atmosfera típica de um cenário de grande apelo midiático e, consequentemente, político, ainda mais em ano eleitoral.

Enquanto as vítimas são atendidas em tendas ou barracas improvisadas por voluntários e instituições humanitárias, e o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil trabalham em busca de sobreviventes, muitos veículos de comunicação querem uma resposta que poderia ser dada depois. Os primeiros momentos de uma tragédia demandam esforços para reduzir as perdas, os danos e o sofrimento das vítimas. Isso porque os culpados estão nas linhas anteriores. São todos aqueles que contribuem para a construção social dos riscos e pelas estatísticas dos desastres e das tragédias.

Com medo das perguntas da imprensa e da crítica da opinião pública, os políticos recorrem ao recurso mais perverso para a blindagem de sua imagem: o dedo em riste na cara de quem já perdeu tudo e ainda assim é apontado como culpado pela tragédia social que culminou com o desabamento do prédio.

Enquanto boa parte do mundo tenta humanizar o atendimento às vítimas, aqui os políticos preferem andar na contramão, rasgando protocolos, agendas e marcos globais adotados ou ratificados pelo país.

O velho recurso da culpabilização das vítimas não apenas foi usado pelo governador Márcio França, como pelo seu adversário, João Doria. A pior rota de fuga.

Poderia associar a fala dos dois à pressão que uma tragédia gera nas instituições que deveriam evitá-la, mas essa pressão não pode ser responsável pelos tropeços ético, moral e humano.  

França e Doria avançaram um sinal e entraram pela porta dos fundos, não da tragédia, mas de um mundo que não pode mais tolerar, sobretudo num cenário de dor, a perpetuação da violação de direitos por parte de quem não os garantiu.

França e Doria tentaram desenhar o perfil dos moradores de ocupações irregulares, mas ambos apenas conseguiram desenhar o perfil dos gestores que são e prometem ser. Nenhuma pressão seria suficiente para afastar um gestor da função que ele deve assumir em cenários de desastres e tragédias. A eles não faltaram apenas preparo e lucidez, faltou humanidade.

Esqueci de escrever lá no começo, mas a atitude ultrajante de alguns gestores públicos é a terceira razão que me faz evitar escrever sobre desastres e tragédias. Recordar a fala deles me dá a certeza de que a tragédia ainda não começou para a maioria das vítimas do Largo do Paissandu.   

 

Jornalista das áreas de ciência e meio ambiente. É professora titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo – UMESP, pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Planejamento e Gestão Territorial da Universidade Federal do ABC-UFABC, onde atua como pesquisadora dos laboratórios de Gestão de Riscos – LabGRIS e de Justiça Territorial – LabJuta. É doutora em Saúde Pública pela USP, mestre em Comunicação Científica e Tecnológica e especialista em Comunicação Aplicada à Saúde, ambos pela UMESP.

Agenda: confira os destaques da semana 28 de abril a 4 de maio

Aproveite o feriado para visitar algumas das mais importantes exposições e outras atividades do mundo da arte em São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Belo Horizonte… E (por que não?) Nova Iorque. Na capital paulista, o Sesc inaugura nova unidade, que já apresenta exposição de Bill Viola. Chega à unidade paulistana do Centro Cultural Banco do Brasil a exposição Ex-África. Em Belo Horizonte, a primeira edição da feira ArteBH promete ser um farol do mercado. Confira a agenda completa abaixo:

Próximo à Casa das Rosas e a Japan House, o prédio do Sesc Avenida Paulista tem 17 andares.

Sesc Avenida Paulista, inauguração da unidade, no dia 29/4

Com expectativa de receber cerca de 18 mil pessoas por semana, o Sesc Avenida Paulista nasce com vocação para atividades de corpo, arte e tecnologia. O prédio conta com salas de espetáculos e oficinas culturais, espaço de exposição e para práticas físicoesportivas, clínica odontológica, espaço de brincar, biblioteca, comedoria e outros equipamentos presentes nas unidades do Sesc, exceto ginásio e piscina. Já na estreia, a unidade apresenta a exposição Visões do Tempo, do pioneiro da videoarte Bill Viola.

Bill Viola, Chapel of Frustrated Actions and Futile Gestures (Capela de Ações Frustradas e Gestos Fúteis), 2013

Arjan Martins, ‘O triângulo do Atlântico’.

Ex-África, coletiva no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, abertura em 28/5.

Exposição, já apresentada em Belo Horizonte e Rio de Janeiro, que traz ao CCBB pela primeira vez um grande e essencial panorama da arte contemporânea do continente e da identidade da África moderna, marcada por uma diversidade de encontros culturais e interações, por processos de intercâmbio e aculturações, através da recente produção de 18 artistas, vindos de 8 países africanos. A eles se juntam também dois artistas afro-brasileiros, Arjan Martins e Dalton Paula.


QUANDO QUEBRA QUEIMA, coletivA ocupação. Foto por Marília Scharlach

QUANDO QUEBRA QUEIMA, peça-performance na Casa do Povo, de 4 a 13/5.

Frutos da primavera secundarista, 14 corpos insurgentes deslocam para a cena a experiência dentro das escolas ocupadas, criando uma narrativa coletiva e comum a partir da perspectiva de quem viveu intensamente o cotidiano dentro do movimento.


Emmanuel Nassar 81-18, individual na Pinacoteca, até 2/7

Com sua produção, Nassar provoca reflexões sobre o “erudito” e o “popular”. Suas pinturas e objetos estão marcados por interações aparentemente banais: das logomarcas pintadas em fachadas de rua à geometria rigorosa que remete ao concretismo brasileiro; da pintura popular do circo e do parque de diversões que circula o país à ironia da arte-pop americana. Além disso, o uso de símbolos como a bandeira nacional, a logomarca da Coca-Cola e a referência à Hollywood estão também presentes sem hierarquias, mas apresentadas com um senso de humor irônico.


Aleijadinho, ‘Nossa Senhora das Dores’, século XVIII

Imagens do Aleijadinho, individual no MASP, até 3/6

A exposição reúne 37 esculturas devocionais cuja autoria foi atribuída ao Aleijadinho ou a sua oficina por diferentes especialistas ou pela tradição em diferentes momentos. Essas obras pertencem a acervos de museus, igrejas e coleções particulares. Chama-se “escultura devocional” à imagem destinada à veneração direta do fiel, em contexto público ou privado, diferenciando-a, na totalidade das obras do Aleijadinho, da escultura monumental e das imagens inseridas nos conjuntos de talha ornamental. A mostra tem curadoria de Rodrigo Moura.


Johann Moritz Rugendas, ‘Fête de Ste. Rosalie, patrone des négres’, 1835.

O Rio do Samba: resistência e reinvenção, coletiva no Museu de Arte do Rio, abertura em 28/4.

A mostra é dividida em três momentos: “Da herança africana ao Rio negro”, “Da Praça XI às zonas de contato” e “O Samba Carioca, um patrimônio”. A mostra terá como espaço principal o terceiro andar da instituição, área dedicada a investigar a história do Rio de Janeiro, mas também ocupará os pilotis e a Sala de Encontro. Mais de 800 itens, entre pinturas, fotografias, documentos, objetos, vídeos e instalações compõem “O RIO DO SAMBA“. A curadoria é de Nei Lopes, Evandro Salles, Clarissa Diniz e Marcelo Campos.


Willy Ronis, ‘La Chanson du Chat’, 1994

ArteBH, feira de Arte em Belo Horizonte, a partir de 3 de maio.

Em sua primeira edição, a ArteBH já reúne 20 das mais interessantes galerias de arte do país. Dez são de Belo Horizonte e integram o 10Contemporâneo, grupo das mais respeitadas galerias da cidade. As demais vém de todo o Brasil. Em conjunto, apresentarão obras de artistas consagrados e jovens talentos, trabalhos inéditos e outros raros, peças únicas e edições limitadas. São mais de 200 obras expostas.

 


Torbjørn Rødland, ‘Dry Faucet no. 3’, 2016 – 2018.

Frieze Art Fair, feira de arte em Nova Iorque, a partir de 3 de maio.

Uma das feiras de arte mais visadas do mundo, a Frieze Art Fair apresenta nova curadoria este ano e promete ser, de acordo com a diretora Victoria Siddall, “uma experiência fresca e excitante”. Este ano, a feira faz uma homenagem ao excêntrico marchand Hudson, que terá uma fundação para a arte lançada em seu nome.


 

Seleta crômica e objetos: 20 anos de Tony Camargo

Tony-Camargo-VP15-2012-Vídeo-digital-30’’.jpg

A exposição de Tony Camargo no Museu Oscar Niemeyer (MON) de Curitiba é uma espécie de cartografia das rotas que sua pintura trilhou em duas décadas, em que a cor se impõe na temporalidade de sua obra. O tempo é o desafio do artista curitibano, cujo trabalho transcende o simples estágio da pintura que já percorreu caminhos variados tangenciando a estética da publicidade.

Uma das tentativas do artista é integrar a pintura a um universo em que a multidisciplinaridade de recursos técnicos possa colocar ao seu alcance todos os meios e efeitos que consiga captar. Desde seu início na pintura, Tony Camargo já explorava as possibilidades combinatórias de cores em obras construtivas e cromáticas, no humor popular, sem intenção de chegar ao comics, mas centrado na preocupação espacial e na linguagem.

A realidade como jogo de armar e a irrupção de linguagens nas dobras do cotidiano são parte da ficção inventada por ele. Pinturas, desenhos, fotografias, vídeos e objetos formam uma antologia, combustível que move Seleta Crômica e Objetos, exposição ampla que abarca 20 anos de arte. “As frentes de operação de Tony Camargo sempre surpreenderam pelo inesperado de suas estratégias de revigoramento da percepção visual num mundo saturado de imagens fotográficas, televisivas e digitais de toda espécie”, escreve Paulo Herkenhoff em um texto para o catálogo da mostra que ainda inclui autores como Arthur do Carmo e Artur Freitas”.   O alcance desse laço, entre o artista e as linguagens que o habilitam, é evidente por toda a mostra. Em sua trajetória, a cor abre veios precisos no rio caudaloso que se alinha e se distancia de uma produção, que ora se mistura à lógica da publicidade com o uso de cores e signos sem restrições, ora mergulha no suburbano. Os vídeos, discursos complementares nessa busca de linguagens reveladoras se aproximam do caos urbano, mexem e remexem o excedente da sociedade e trabalham com os resíduos em performances intermitentes que nascem, em sua maioria, em espaços públicos.

A exposição não compartimenta nenhuma de suas fases, ao contrário, faz com que tudo se conecte, numa analogia de linguagem, com diálogo permanente. Tony Camargo começou na arte com o interesse na transposição de objetos de um lugar para o outro, influenciado por artistas como Duchamp, Cildo Meireles, Waltércio Caldas e fortemente comprometido com o espírito da pintura. “Quando buscamos problemas internos pictóricos, de alguma coisa já elaborada, chegamos a algo novo e é isso o que mais me interessa”.

Tony-Camargo, Baralhos, 2002, dimensões variáveis.
Tony Camargo, 2016_Laca, nitrocelulose, pasta e-tinta acrilica sobre MDF.

As pinturas de Tony Camargo são de superfície limpa, densas na leitura de composições e seus vídeos/performances se aproximam do mundano. De alguma forma seus trabalhos têm ingredientes políticos o que para ele é um valor intrínseco na obra de arte. “ A forma como vejo o mundo, como trabalho os objetos, como me relaciono com o cotidiano. A publicidade também é uma ferramenta política e eu faço uso dela”.

Tony Camargo, 2010 impressão inkjet sobre tela aplicada em poliestireno

Muito de seu trabalho tem a ver com a admiração confessa pela obra de Philip Guston, expressionista abstrato norte-americano que dizia: “a pintura é impura, e é o ajustamento de `impurezas´ que força a continuidade da pintura”. Apesar de, em alguns momentos, seus desenhos tangenciarem o quadrinho, ele nega essa influência. “Também não vi muitos grafites, só muitas pinturas”. Seus vídeos trazem uma forte carga performática e é com ela que cria objetos. Na grande sala do MON os vídeos, com transbordamentos de imagens, se mimetizam em pinturas e os sons dos diversos monitores se misturam com as tintas das pinturas. Os “ruídos” estão todos identificados e a ideia é fazer uma pintura que se junte a eles, embora cada peça tenha a sua autonomia. As imagens estão ligadas ao real, assim como todos os objetos do mundo, embora haja uma relação entre eles. Tony Camargo “performa” em terrenos baldios cheios de entulhos e esses resíduos tornam-se sua matéria prima.

A expografia de Seleta Crômica e Objetos não separa os vídeos das pinturas, trabalha com a complementaridade. A exposição que abarca duas décadas também mostra algo novo para o artista. “Agora, diante de tantas obras e com possibilidade de um distanciamento crítico, me coloco como espectador. A exposição faz relações que eu não via em separado, mostra novas coisas, novas possibilidades”. Quando um artista está no processo de produção ele não se dá tempo para refletir a obra. “Em uma galeria, trabalhamos em um campo mais restrito, é mais difícil de se ter uma visão mais global da produção, diferente de um espaço de museu. Em ambientes amplos, acabo atuando também como curador, escolhendo obras para colocá-las onde e como quero”. Alguns trabalhos foram reeditados para essa mostra. “Há peças com acabamento industrial que, ao longo dos anos, sofreram avarias ao serem transportadas de um local a outro”.

A extensa exposição contempla jogos de luminosidade, planos colorísticos e obras de intensa experimentação. “Há séries que estão representadas por nove obras, mas no total elas chegam a somar 70 trabalhos”. O artista está ligado ao discurso social e confessa que esse momento político de censura sobre a produção artística naturalmente afeta seu trabalho. As manchas, o lixo, o caótico, como estridências sociais estão presentes em várias obras sobre as quais ele tenta uma ordenação do que está fora do controle.

 

Serviço

“Seleta Crômica e Objetos”, de Tony Camargo

Até 1° de julho de 2018 – Sala 2

Dias e horários especiais

Toda quarta gratuita com programação especial: 10h às 18h

Primeira quinta do mês: horário estendido até 20h, gratuito após as 18h.

 

Muito além da “boniteza”

Rogério Assis e Ciro Girard lançam Mato? , publicação com fotos de Rogério e direção de arte de Ciro, uma bem vinda provocação que confronta a beleza à destruição, a insensatez à consciência, a vida e a morte e o verbo ao substantivo do título. Segundo livro deles que em 2013, pela Terceiro Nome,  publicaram Zo’ é, Mato? é fruto de uma idéia surgida há dois anos e foi viabilizado por cinco patrocinadores, Caito Ortiz, Diana Vanni, Heinz Gruber, Maru Whately e Roberta Maiorana.

Para Rogério Assis, fotógrafo que nasceu em Belém, notável polo de fotografia contemporânea, a obra, mais que um livro de fotografia, é um trabalho ambiental:

“Aqui a fotografia é uma ferramenta. É um trabalho de conscientização ambiental. De tentativa, pelo menos. Eu uso a fotografia porque é o que eu sei fazer. Se  fosse músico talvez fizesse uma canção, se fosse pintor pintaria um quadro. Mas sou fotógrafo então a minha ferramenta é a fotografia”, diz o autor.

Mato? não tem preocupação autoral.” continua ele.  “Quando você olha as imagens percebe que são imagens comuns. Praticamente fotos de bancos de imagens. A diferença é que a gente faz uso delas para formular o discurso ambiental. “

Rogério vai além: “Eu não estou preocupado com a ‘boniteza’ das imagens. A foto bonitinha se esgota aí. Ela é bonita mas daí pra frente não tem mais nada. Eu não estou preocupado com isto tanto que muitas das imagens foram feitas através de janela de avião, algumas têm pedaço desfocado, em outras a cor não é perfeita porque a janela atrapalha, mas a mensagem, que é o que nos importa, esta sim, está dada. Cada página dupla do livro, com suas fotos, é uma coisa interligada e o conjunto dessas páginas duplas  se traduz na mensagem que queremos passar. “

O fotógrafo faz trabalhos para organizações como o Greenpeace e o Instituto Sócio Ambiental e viaja bastante pela Amazonia – além de ter nascido lá – portanto tem muito material fotográfico da região e o livro segue o caminho da busca do contraponto preservação/destruição com o intuito de amarrar isto plasticamente. Idéia de Ciro Girard,  o diretor de arte, com o qual Rogério concordou:

“Eu comecei a separar esta coisa legal que é a grandiosidade do meio ambiente e a coisa triste que é sua destruição. O discurso, a ideia do livro era mais ou menos fazer este contraponto entre a preservação e a destruição e aí o Ciro veio com a idéia de amarrar este contraponto plasticamente. Fazer as imagens conversarem. Não simplesmente pegar a foto de mato e a de destruição. Mas sim que estas imagens tivessem uma conversa plástica entre elas. Se não houvesse este diálogo talvez tudo passasse batido, como se fosse apenas mais um discurso contra o desmatamento da Amazonia. E nós não queríamos banalizar o discurso. A gente queria que houvesse uma força visual que provocasse o leitor.  Partimos de mais de novecentas fotos, quase mil, para chegar nestas 58 “, diz ele.

Com relação ao excesso de  preocupação autoral Rogério Assis aponta para uma inversão de finalidade: “Essa coisa de “autoralidade” na fotografia, essa preocupação em ser autor, é algo que tem me incomodado. Uma coisa que eu já busquei lá atrás quando comecei.   Hoje começa a se dar mais importancia a essa noção de autor do que ao objeto, ao assunto que se está cobrindo, fotografando. O que aconteceu no Brasil a partir do  momento que o Mauricio Lima, por exemplo, com aquele trabalho humano, lindo, maravilhoso sobre a guerra, ganhou um prêmio (ele ganhou o Pulitzer, em 2016), de repente a guerra virou objeto de desejo de muitos fotógrafos e o cara vai lá fazer foto pra premio. O sujeito não está preocupado com a questão do que move aquela guerra. Também padecem do mesmo mal o meio ambiente, a questão indígena, etc. São questões sensíveis à maioria das pessoas e que muita gente acaba se aproveitando desta sensibilidade para criar um discurso falso em cima do assunto. Acho até um pouco desonesto você estar mais preocupado com seu próprio trabalho do que com a questão importante com que você está lidando. A meu ver importa que o que você faz mobilize para uma conscientização sobre aquilo que você está cobrindo seja guerra, meio ambiente, a questão indígena ou o drama dos refugiados. Seja lá o que for. O objetivo é criar consciência sobre o assunto. Não é o cara chegar e olhar a foto e falar que lindo, que lindo! E daí? O que você faz com isto? Existe uma confusão muito grande entre fotografia ambiental e fotografia de natureza. Fotografia ambiental é o uso que você faz da fotografia.“

Rogério Assis nasceu na década de 60 e nos anos de 1980 frequentou as primeiras oficinas de fotografia de Miguel Chikaoka em Belém, onde também fez trabalhos para o Museu Emilio Goeldi e para a Funai. Em São Paulo trabalhou na Angular, na Agência Estado, na Folha. Morou em Nova York, onde trabalhou no ICP, International Center of Photograpy. Criou a Editora Mandioca onde publicou a revista Pororoca. Também participou de  publicações da Editora BEI. Até onde se sabe, foi o primeiro fotógrafo a registrar os Zo’é – povo de língua tupi que habita o noroeste do Pará, trabalho publicado em 2013, pela Editora Terceiro Nome, também com direção de arte de Ciro Girard.

Mato? É editado pela Editora Olhavé, tem 116 paginas, capa dura, impressão offset em papel alto alvura 150g, tiragem de 500 exemplares. São 58 fotos editadas em 29 dípticos. Custa R$ 90,00 e pode (e sendo possível, deve, porque além e apesar de tudo o que Rogério Assis defende nesta entrevista, o livro é muito bonito ) ser comprado no site loja.olhave.com.br.

*Hélio Campos Mello é fotojornalista. Co-Fundador da Brasileiros Editora Ltda.

 

A pornografia surgiu em um museu

Arelação entre pornografia e museu teve início em fins do século 18, portanto muito distante do debate público instaurado a partir da exposição “Queer Museu”, no Santander de Porto Alegre, que prosseguiu com o Panorama, no MAM, o Museu de Arte Moderna, de São Paulo, e, mais recente com a mostra “Histórias das Sexualidades”, no Museu de Arte de São Paulo, o MASP. Em cada um desses locais, especialmente nos dois primeiros, o debate teve uma máscara de pós-verdade, já que as acusações em ambas as mostras eram de apologia a zoofilia e pedofilia, o que era um evidente exagero.

Já no Masp, a direção do museu preferiu sair na frente do debate, ela mesma já considerando a mostra proibida a menores de 18 anos, mesmo com a presença dos pais, uma proteção exagerada, concebida por advogados, conselheiros externos à instituição.

Estes episódios, ao longo de 2017 e começo de 2018 continuam, mesmo que subliminarmente, pairando no ar e orientando decisões de curadores e diretores de instituições.

Não é a primeira vez que sexo é escondido em museus. Quando das escavações em Pompéia, na Itália, entre 1755 e 1857, em que surgiram os afrescos e objetos com conteúdo sexual, espalhados pela cidade inteira, e não apenas confinadas em câmaras nupciais, as autoridades deram-se conta que precisavam reunir essa coleção de alguma forma. Por isso foi criado o Museu Secreto, por ordem de Carlos III de Bourbon.

Essa história é contada por Paul Preciado, no Caderno VB “Alianças de Corpos Vulneráveis”, editado pelo peruano Miguel López, já há dois anos. Esse texto, “Museu, lixo e pornografia”, faz parte agora de uma compilação publicada pelo Museu de Arte Latino-americana, o Malpa, no início desse ano, intitulada “El museo apagado” (o museu apagado). Mais atual, impossível. O pequeno livro reúne três ensaios de Preciado, entre eles o que conta a história do Museu Secreto. “De acordo com o decreto real, somente homens da aristocracia – nenhuma mulher, nenhuma criança, ninguém das classes populares – podiam ter acesso ao espaço”, relata o ensaísta, encarregado do programa publico da documenta 14, Parlamento dos Corpos.

Foi nesse contexto, segue ele, que “o historiador alemão C.O.Müller usou, pela primeira vez, a palavra ‘pornografia’ para se referir aos conteúdos do Museu Secreto”. Portanto, é confinada e dentro de um museu que surge ideia de pornografia, criando uma narrativa torpe sobre sexualidade, o que certamente tem uma relação com as manifestações histéricas contra as mostras realizadas no Brasil. Parece já ter se tornado senso comum que o posicionamento do Masp não foi digno de uma instituição dessa estatura. O genial no livro do Malba está em reunir a questão da pornografia com a nova configuração dos grandes museus, no texto que encerra o volume, intitulado “El Museo apagado”. Nesse texto, Preciado aponta as atuais tendências de grande museus como o MoMA, de Nova York, ou o próprio Masp, que é “transformar inclusive o visitante local em turista da história do capitalismo globalizado”. Não por acaso, essas instituições se validam de grandes nomes, como Picasso, Van 74 Gogh ou Toulouse-Lautrec, que foi o blockbuster do ano no museu paulistano. “Este novo museu barroco-financeiro produz um significado sem história, um único produto sensorial, continuo e liso”, define Preciado.

Quem viu “Histórias das Sexualidades” percebeu como a mostra não tem libido, não tem desejo, é um sexo reduzido a pedaços de corpos. Dentro desse cenário confuso, onde manifestantes são manipulados e instituições se protegem como fortalezas, a saída parece ser uma só, ao menos para Preciado: “Apagar as luzes para que, sem possibilidade alguma de espetáculo, o museu possa começa a funcionar como parlamento de outra sensibilidade.”


El museo apagado (Colección Posmuseo)
por Paul B. Preciado
Malba, Buenos Aires, 2017
64 páginas. 19 x 13 cm.
ARS 200
tienda.malba.org.ar

“León Ferrari foi um catalisador de uma posição política forte na arte”

Convidada da conferência León Ferrari: valor de culto e valor de exposição, realizada pela Galeria Nara Roesler, https://nararoesler.art/, no auditório do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), Victoria Noorthoorn falou para o PáginaB! sobre sua convivência com Ferrari, artista argentino que morou no Brasil por quase 15 anos e suas percepções sobre a recepção da obra do artista.

Noorthoorn é diretora do Museo de Arte Moderno de Buenos Aires (MAMBA-www.museomoderno.org , e teve importante papel na participação de Ferrari na Bienal de Veneza de 2007, na qual o artista foi consagrado com o Leão de Ouro.

A conferência aconteceu no dia 12 de abril e teve apoio da SP-Arte e da revista ARTE!Brasileiros.

Além dela, a galeria Nara Roesler realiza atualmente duas exposições do artista argentino, em São Paulo e em Nova Iorque, com curadoria de Lisette Lagnado. Saiba mais sobre as mostras na matéria León Ferrari, por um mundo sem Inferno, publicada na ARTE!Brasileiros 42.

Além de Victoria, participaram do evento Regina Silveira, Pablo León de La Barra (Guggenheim), Anna Ferrari (Fundação Augusto e León Ferrari Arte e Acervo -FALFAA) e a curadora Lisette Lagnado.

O Brasil e suas grades

Central de Flagrantes de Teresinha, PI

*Pedro Ambra

Debater o encarceramento em massa pode, à primeira vista, parecer uma discussão sociologicamente secundária. Afinal, nossas ideias sobre a prisão parecem orbitar quase sempre ao redor de questões individuais ou morais, haja vista o tipo de narrativa midiática criada ao redor das prisões da operação Lava-Jato. Mais ainda, a solução de problemas sociais — tais como a violência e a guerra às drogas — encontraria sua redenção em políticas de encarceramento mais efetivas e extensas.

Independentemente das discussões e ou investimentos pragmáticos para resolver a questão carcerária no Brasil, esta tem sido uma guerra perdida. Hoje a nossa população carcerária é considerada a terceira do mundo.

Nesse contexto, apontando a insustentabilidade de um discurso ideológico falido, Juliana Borges formada em Letras na Universidade de São paulo e pesquisadora, desenvolve uma análise dos propósitos da política carcerária no Brasil em seu recém-lançado O que é encarceramento em massa? (Editoras Letramento & Justificando, 2018).

Na obra, de caráter introdutório, a autora demonstra de que forma, com a terceira maior população carcerária do mundo, o país dá a ver sua racionalidade punitivista não propriamente em relação às infrações cometidas, mas como uma forma brutal de controle social e dos corpos. Assim, indaga “Como se estabelece crime e criminoso? Como e sob quais interesses se define o que deve ser tornado ilegal e criminalizado?” (p. 21) e não se apega a respostas dadas de antemão seja pela militância, seja pela academia.

Seu primeiro capítulo apresenta os componentes ideológicos que sustentam o encarceramento, e as bases do processo histórico de construção do sistema prisional. Se o conteúdo dessa breve análise é a explicitação da naturalização com a qual o senso comum encara a lógica carcerária, sua forma começa a apresentar componentes interessantes e centrais para o propósito metodológico do livro: nele mesclam-se dados estatísticos e históricos, análises de autores clássicos, como Foucault e Althusser bem como o de intelectuais negras de peso, como Carneiro e Akotirene. Desde o início da obra, a autora se propõe a fazer uma análise interseccional, ou seja, que articule as dimensões de gênero, raça e classe de maneira dialética, sem hierarquiza-las a priori. No entanto —  diferentemente de algumas discussões atuais que tomam a interseccionalidade como objeto — a autora propõe algo notável que é eleva-la à categoria de método. Em outras palavras, Borges realiza a interseccionalidade e o faz a partir de um objeto que a princípio lhe seria alheio, o encarceramento no Brasil. Não deve causar espanto, portanto, que o livro insira-se na coleção Feminismos Plurais, coordenada por Djamila Ribeiro: acompanharemos, ao longo de seus capítulos, a construção da especificidade de sua problemática fundamental, o encarceramento da mulher negra, e todas as consequências de tal postura analítica.

O segundo capítulo pontua algumas das particularidades da escravidão no Brasil, os componentes básicos do mito da democracia racial e, principalmente, as modalidades de perpetuação do racismo, posto que “algo tão fundamental no processo de formação não some em um piscar de olhos pela simples destituição da monarquia e por pretensões modernizantes.” (p. 53) Longe de se tratar de uma discussão que alguns nomeariam como “identitária”, somos convidados a enxergar a incidência dessa análise sobre os pilares de estruturação da sociedade brasileira, seus pontos nevrálgicos e a cartografia de silenciamentos que a acompanha. Pela análise do nascimento do sistema judicial no Brasil, constatamos como as bases da lógica carcerária são inseparáveis de um projeto racista e genocida, perpetuado no coração do direito criminal e da racionalidade que o rege, mesmo após o tardio e inconcluso processo de abolição da escravidão. De escravo a vadio criminoso, o lugar social do negro muda de nome, mas não em opressão. A autora sublinha que, por meio da imigração europeia, o projeto eugenista no país teve como uma de suas chaves a incidência do branqueamento na mão de obra com impactos distintos para homens e mulheres. Ao negar-se aí a possibilidade de ascensão social pelo trabalho “mulheres negras acabaram como lavadeiras, quituteiras e empregadas domésticas, ainda sob o contexto de superexploração. Aos homens negros sobrava, portanto, o enquadramento nessas leis criminalizadoras.” (p. 79)

Mas a articulação entre gênero, raça e classe ganha seu ponto alto no terceiro capítulo, no qual é introduzida a componente contemporânea da análise: a guerra às drogas. Se, de fato, a população carcerária masculina é numericamente muito superior à feminina, a política de incremento no encarceramento incide sobremaneira nas mulheres. “Entre 2000 e 2014, houve um aumento 567,4% no contingente de mulheres encarceradas, enquanto que o aumento entre os homens foi de 220%” (p. 90), população essa composta em sua grande maioria por mulheres negras. Borges nota que esse aumento coincide com o período da aprovação da Lei de Drogas, que teve impactos diretos no encarceramento e em suas especificidades de raça e gênero. “62% das mulheres encarceradas estão respondendo a crimes relacionados às drogas, enquanto que entre os homens esse percentual cai para 26%.” (p. 98) A autora salienta que os critérios para tal enquadramento — traficante ou usuário — dão-se em função da raça e da classe e, portanto, servem aos propósitos da manutenção estrutural do extermínio da população negra.

Tal quadro desolador não impede que Borges proponha, no capítulo que fecha a obra, um verdadeiro chamado à luta e à imaginação de um futuro sem prisões. Ao retomar e alinhar-se a toda uma tradição feminista negra interseccional, a autora sublinha que só a radicalidade do pensamento e da ação que toma a mulher negra como sujeito pode promover um verdadeiro abolicionismo que liberte a todas e todos. À maneira de Mbembe e Buck-Morss, Borges proporciona uma espécie de travessia da identidade, na qual compreendemos que enquanto nossa razão, nossas emoções e as estruturas que as produzem estiverem atrás das grades do racismo e do machismo, nenhuma universalidade será possível ou verdadeira.

*Pedro Ambra é psicanalista. Doutor pela USP e pela Sorbonne Paris Cité, é autor de diversos livros e artigos sobre psicanálise, gênero e sexualidade. Colaborador da paginaB.

Bruscky, Marcelle, Milhazes, Zerbini e brasileiros da Segunda Guerra em Londres

Sonho Tropical by Beatriz Milhazes, whose work is at the White Cube Bermondsey. Photograph: © Pepe Schettino / © Beatriz Milhazes / Courtesy White Cube
Sonho Tropical de Beatriz Milhazes. Photo: © Pepe Schettino / © Beatriz Milhazes / Cortesia White Cube

Além de lutar na Itália durante a Segunda Grande Guerra, os brasileiros alheios a batalha em campo buscaram outras formas de intervir no conflito. Cerca de 70 artistas decidiram ajudar os aviadores tupiniquins e, ao mesmo tempo, melhorar os ânimos do outro lado do oceano Atlântico.

A história é no mínimo curiosa. Foram 168 fotos enquadradas pelos próprios artistas para baratear os custos e facilitar a vida da Royal Academy. Tudo que pediam os brasileiros eram 25 libras para custear o transporte das obras para o Reino Unido. Entretanto,  a proposta esbarrou na própria Royal Academy, que não gostou das fotos e se recusou a exibi-las.

Segundo reportagem do “The Guardian”, os próprios artistas não haviam gostado dos resultados. Aparentemente gostar ou não das obras “não era o ponto”. Após um ano de negociações, em novembro de 1944 as obras viajaram o país-ilha e em pouco tempo morreram no esquecimento dos acervos em diversas cidades britânicas.

De volta à superficie

Nos anos 40, salvo raras exceções, os europeus não tinham a menor idéia do que fazer com a arte latino-americana. Hoje, a demanda pela arte brasileira contemporânea é outra. Inúmeras galerias inglesas, francesas, espanholas, portuguesas e alemãs participam das feiras latino-americanas, colecionadores e museus estudam o modernismo e varios dos nossos artistas participam de mostras e ganham prêmios na Bienal de Veneza. 

É nesse clima que, funcionários da embaixada brasileira em Londres, decidiram reunir obras de 20 dos artistas do projeto original da Segunda Guerra e, após uma extensa pesquisa, montar neste ano, a exposição A Arte da Diplomacia: Modernismo Brasileiro Pintado para a Guerra. A curadoria é de Adrian Locke, curador oficial da embaixada, responsável pelo intercâmbio e a promoção cultural. A exposição foi montada na Sala Central de Arte Brasileira, espaço integrado a própria embaixada, em Westminster, no centro da cidade.

Isto veio a calhar num momento em que renomados brasileiros contemporâneos abrem na cidade ao longo do ano.

Cinthia Marcelle, cuja obra deu o Prêmio ao Pavilhão do Brasil na 57 Bienal de Veneza está no Modern Art Oxford com a instalação “A família em desordem: verdade ou desafio”. 

Luiz Zerbini que abre em junho na South London Gallery e Paulo Bruscky na Richard Saltoun, até fins de maio, fazem sua primeira individual na UK. O coletivo OPAVIVARÁ! apresentará suas redes coloridas na Tate Liverpool. 

Rio Azul”, da artista plástica fluminense Beatriz Milhazes, está aberta para visitação desde 14 de abril na White Cube Gallery Bermondsey

“Eu quero provocar movimentos ópticos, perturbar a visão”, diz Milhazes. Cada peça foi projetada com múltiplas camadas de cores. Conseguindo um denso processo de estratificação física e conceitual as obras empregam uma abundância de forma e cor para oferecer uma experiência visual vertiginosa.  Milhazes chama essa interação entre as peças e o público de “Diálogo entre Simbolismo e Materialidade”. 

Junto da mostra com esculturas, colagens e pinturas é apresentada sua primeira e única tapeçaria, realizada especialmente para a mostra.

Enfim, não precisamos de uma guerra para estar, agora sim brilhantemente representados.

O cinema segundo Nelson Pereira dos Santos

O cineasta Nelson Pereira dos Santos. Foto: Marcos Pinto

Aos 83 anos, o cineasta paulistano Nelson Pereira dos Santos vive a rotina extenuante de cabines de imprensa, pré-estreias e um sem-número de entrevistas para a divulgação nacional do aclamado documentário A Música Segundo Tom Jobim, um comovente testemunho audiovisual da obra universal do maestro carioca, assinado por ele e Dora Jobim, neta de Tom. O filme rendeu uma continuação, A Luz do Tom, reunindo depoimentos de três mulheres importantes na vida do maestro: a irmã Helena, a primeira mulher, Thereza, e a segunda, Ana. O longa está previsto para estrear no final do primeiro semestre. Inquieto, Nelson ainda pretende iniciar neste ano as filmagens de seu novo projeto ficcional, dedicado a um dos grandes símbolos da história do País, o imperador D. Pedro II.

Com uma frenética agenda, o autor de clássicos da nossa cinematografia, como Rio 40 Graus, Vidas Secas e Memórias do Cárcere, nos concedeu a entrevista a seguir, que seria feita por e-mail – sim, Nelson também é um entusiasta dos meios eletrônicos –, acabou sendo registrada por telefone, ao longo de quarenta minutos, de forma objetiva e lúcida.

O cinema parece trazer a ele uma eterna juventude (Nelson, imortal desde 2006, ocupa a cadeira número 7 da Academia Brasileira de Letras). E é essencialmente sobre o cinema brasileiro, suas próprias experiências e impressões da indústria que ajudou a estabelecer que, a seguir, ele fala com entusiasmo.

Brasileiros – Quando você se envolveu com o Cinema Novo, já havia feito filmes importantes, como Rio 40 Graus e Boca de Ouro. Como se deu essa aproximação?
Nelson Pereira dos Santos – Quando fiz Vidas Secas, em 1963, já havia rodado outros quatro filmes. Fui cooptado por essa nova geração de cineastas, numa boa, pois defendíamos que o cinema brasileiro começasse a discutir a realidade social do País. Isso, na época, virou até moda. Todos procuravam dar alguma contribuição nesse sentido, porque havia também a situação política, que exigia uma tomada de posturas. A pressão sob os intelectuais para lutar pela liberdade de expressão e contra a ditadura era muito grande. Mas o Cinema Novo não tinha um pensamento homogêneo, muito menos uma face única. Era um grupo de amigos que fazia cinema, cada um com suas próprias afirmações culturais, estéticas e políticas.

Brasileiros – Que conquistas essa geração trouxe ao cinema do País?
Vejo como grande conquista – digamos assim, na falta de outra palavra – o fato de termos acabado com o enorme preconceito contra a nossa própria realidade. Outro importante avanço foi a discussão étnica que propusemos, porque, no Brasil, pelo cinema que se fazia, era cabível concluir que não havia negros. Os poucos papéis dados a negros eram de empregados, como na Hollywood dos anos 1940. Personagens vinculados à realidade brasileira e sua problemática foram aparecer aqui somente com o Cinema Novo. Hoje, é fluente a presença e a variedade étnica na produção brasileira. Naquele tempo, havia certa censura do próprio mercado. Diziam: “Ah, mas esse filme não vai dar dinheiro, filme com negro não dá dinheiro”. Havia uma série de preconceitos, horríveis, felizmente superados.

Brasileiros – Havia também uma grande convergência de influências entre vocês…
Leon Hirszman, Cacá Diegues, Ruy Guerra, Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade foram expoentes de uma geração cinematográfica. Minha turma era a do Neorrealismo italiano e do Buñuel. A geração deles surgiu sob a influência do Godard e de toda a Nouvelle Vague francesa. Hoje, temos um cinema pluralista, bem diferente dessa época, que reunia uns 15, 20 diretores em atividade. Só na escola de cinema da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que ajudei a fundar no século passado, saem 30 jovens formados por ano. Outras escolas de cinema do Rio, São Paulo, Porto Alegre e de quase todo o País também têm formado cineastas bastante capacitados.

Brasileiros – O que pensa sobre os embates estéticos entre o Cinema Novo e o Cinema Marginal na transição da década de 1960 para os anos 70?
Apesar da aparente anarquia, o Cinema Marginal promoveu avanços no plano estético e na expressão da linguagem cinematográfica por aqui, como fez a Nouvelle Vague na França. Influências essas que ainda estão impregnadas em nossa produção. É possível identificar tendências do Cinema Novo e do Cinema Marginal em muitas obras recentes produzidas em todas as regiões do Brasil – nos filmes de Cláudio Assis e de Lírio Ferreira, por exemplo, dois jovens diretores de que gosto muito. Aliás, o cinema pernambucano tem uma personalidade fortíssima e essa é outra característica atual da nossa produção. Ou seja, ela deixou de ser feita apenas no eixo Rio-São Paulo. O cinema brasileiro, hoje, é tematicamente plural e expressa identidades regionais diversas.

Brasileiros – Durante as décadas de 1970 e 80, o Estado subsidiou uma nova indústria, via Embrafilme, mas, paradoxalmente, esse foi um período em que o cinema brasileiro produziu muito e distanciou-se do grande público…
N.P.S. – Os anos 1970 foram um período de crescimento acentuado da indústria. Foram criados organismos de apoio oficial ao cinema, projetos ambiciosos, como o Conselho Nacional de Cinema, que incentivou o surgimento de empresas de produção, coprodução e distribuição. Na década de 1980, essa mesma indústria passou a ter complicações, decorrentes da enorme inflação e de nossa frágil economia e chegamos ao ponto em que o Collor assumiu a presidência e mandou fechar a Embrafilme. Apesar de todos os impasses, esse foi um período importante para a consolidação da nossa indústria, mas houve exageros na legislação, como a cota mínima de 180 dias de filmes brasileiros exibidos por ano no cinema e a obrigatoriedade de exibição de curtas-metragens. Os exibidores, para não pagarem pelo não cumprimento da lei, começaram a coproduzir qualquer porcaria. Uma aberração. Um erro político crasso e paternalista, que só ajudou a formar uma opinião pública contrária ao cinema brasileiro.

Brasileiros – Nos últimos dias, o sucesso mundial da música Ai, Se eu Te Pego, do cantor Michel Teló, tem gerado constrangimento para muitos, por revelar uma faceta supostamente inculta do País. Você produziu filmes enaltecidos pela crítica, mas nunca teve problemas em lidar com a cultura de maior acento popular, como no filme Estrada da Vida, sobre a dupla Milionário e José Rico. O que pensa disso?
Existe, sim, grande preconceito contra essa suposta “baixa cultura”. Eu “fui” paulista (Nelson nasceu em São Paulo, em outubro de 1928, mas vive no Rio de Janeiro desde os anos 1960), meu pai era caipira, do oeste de São Paulo, e gostava muito de música sertaneja. Meus irmãos mais velhos se achavam sofisticados, pois gostavam de música americana e não deixavam meu pai ouvir os programas de música caipira no rádio. Simplesmente, o censuravam. Quando me ofereceram o projeto do filme do Milionário e José Rico, fui ver a dupla cantar no Parque São Jorge (o extinto estádio do Corinthians, na zona leste de São Paulo), que estava lotado, com milhares de pessoas. Eu me lembrei do meu pai e vi que este era um dado cultural importantíssimo pela quantidade de pessoas que movia, a tradição e a história que carregava. Quando exibi o filme, fui criticadíssimo, malhado mesmo, mas ele rodou o País e fez grande sucesso.

Brasileiros – A Música Segundo Tom Jobim é essencialmente cinematográfico. Não traz depoimentos, legendas ou informação alguma que não venha de imagens e sons. Ao final, a célebre frase de Tom: “A linguagem musical basta”. Em que proporção o cinema, arte autônoma como a música, ainda basta para você, Nelson?
Sim, o cinema também é uma arte livre, como a música. A minha formação, em todos os sentidos, seguiu uma linha clássica de ter um mínimo enquanto máximo. Fundamentalmente, para mim, conteúdo e forma caminham juntos no fazer cinematográfico. Posso expressar um conteúdo adaptando obras literárias ou partindo de roteiros originais, adotando diferentes linguagens, mas esse mesmo conteúdo pode ser feito de diversas formas. O conteúdo, por si só, já impõe uma determinada forma. Tudo isso, é claro, está dentro da minha cabeça, são conceitos que não existem fora do que eu estou pensando ou sentindo, e sempre me preocupo com a forma ligada ao conteúdo para que ela não se exima, não fique separada. São, para mim, fundamentos indissociáveis.

Brasileiros – Que avaliação você faz da chamada Retomada do Cinema Brasileiro. Ela tem sido eficaz em retratar esse novo Brasil e resgatar nosso passado?
Essa retomada comprova a vitalidade do cinema brasileiro, que havia sido arrancado da nossa história à força. Eu me lembro de uma crônica da Maria Lucia Dahl, naqueles tempos do Collor, em que ela dizia ter topado com uma nova vassoura, em casa, e percebeu que as cerdas tinham uma imagem dela. Eram feitas de filmes reciclados, que os fabricantes compravam como matéria-prima. Um testemunho claro de que acabaram mesmo com o cinema por aqui, mas, dali a pouco, houve um: “Peraí! Não é bem assim…” E surgiu a Lei Rouanet. Em pouco tempo o cinema brotou novamente no País. As margens do Rio São Francisco são caatinga pura, mas se você levar a água do rio até o solo, planta até uva! O cinema brasileiro também precisava desse pouquinho de água, de incentivo de capital e brotou de novo com mais fôlego e mais rico. A coisa mais bonita é ver, hoje, a pluralidade do nosso cinema.

MAIS

Veja, no Youtube, o documentário A Música Segundo Tom Jobim