Arelação entre pornografia e museu teve início em fins do século 18, portanto muito distante do debate público instaurado a partir da exposição “Queer Museu”, no Santander de Porto Alegre, que prosseguiu com o Panorama, no MAM, o Museu de Arte Moderna, de São Paulo, e, mais recente com a mostra “Histórias das Sexualidades”, no Museu de Arte de São Paulo, o MASP. Em cada um desses locais, especialmente nos dois primeiros, o debate teve uma máscara de pós-verdade, já que as acusações em ambas as mostras eram de apologia a zoofilia e pedofilia, o que era um evidente exagero.

Já no Masp, a direção do museu preferiu sair na frente do debate, ela mesma já considerando a mostra proibida a menores de 18 anos, mesmo com a presença dos pais, uma proteção exagerada, concebida por advogados, conselheiros externos à instituição.

Estes episódios, ao longo de 2017 e começo de 2018 continuam, mesmo que subliminarmente, pairando no ar e orientando decisões de curadores e diretores de instituições.

Não é a primeira vez que sexo é escondido em museus. Quando das escavações em Pompéia, na Itália, entre 1755 e 1857, em que surgiram os afrescos e objetos com conteúdo sexual, espalhados pela cidade inteira, e não apenas confinadas em câmaras nupciais, as autoridades deram-se conta que precisavam reunir essa coleção de alguma forma. Por isso foi criado o Museu Secreto, por ordem de Carlos III de Bourbon.

Essa história é contada por Paul Preciado, no Caderno VB “Alianças de Corpos Vulneráveis”, editado pelo peruano Miguel López, já há dois anos. Esse texto, “Museu, lixo e pornografia”, faz parte agora de uma compilação publicada pelo Museu de Arte Latino-americana, o Malpa, no início desse ano, intitulada “El museo apagado” (o museu apagado). Mais atual, impossível. O pequeno livro reúne três ensaios de Preciado, entre eles o que conta a história do Museu Secreto. “De acordo com o decreto real, somente homens da aristocracia – nenhuma mulher, nenhuma criança, ninguém das classes populares – podiam ter acesso ao espaço”, relata o ensaísta, encarregado do programa publico da documenta 14, Parlamento dos Corpos.

Foi nesse contexto, segue ele, que “o historiador alemão C.O.Müller usou, pela primeira vez, a palavra ‘pornografia’ para se referir aos conteúdos do Museu Secreto”. Portanto, é confinada e dentro de um museu que surge ideia de pornografia, criando uma narrativa torpe sobre sexualidade, o que certamente tem uma relação com as manifestações histéricas contra as mostras realizadas no Brasil. Parece já ter se tornado senso comum que o posicionamento do Masp não foi digno de uma instituição dessa estatura. O genial no livro do Malba está em reunir a questão da pornografia com a nova configuração dos grandes museus, no texto que encerra o volume, intitulado “El Museo apagado”. Nesse texto, Preciado aponta as atuais tendências de grande museus como o MoMA, de Nova York, ou o próprio Masp, que é “transformar inclusive o visitante local em turista da história do capitalismo globalizado”. Não por acaso, essas instituições se validam de grandes nomes, como Picasso, Van 74 Gogh ou Toulouse-Lautrec, que foi o blockbuster do ano no museu paulistano. “Este novo museu barroco-financeiro produz um significado sem história, um único produto sensorial, continuo e liso”, define Preciado.

Quem viu “Histórias das Sexualidades” percebeu como a mostra não tem libido, não tem desejo, é um sexo reduzido a pedaços de corpos. Dentro desse cenário confuso, onde manifestantes são manipulados e instituições se protegem como fortalezas, a saída parece ser uma só, ao menos para Preciado: “Apagar as luzes para que, sem possibilidade alguma de espetáculo, o museu possa começa a funcionar como parlamento de outra sensibilidade.”


El museo apagado (Colección Posmuseo)
por Paul B. Preciado
Malba, Buenos Aires, 2017
64 páginas. 19 x 13 cm.
ARS 200
tienda.malba.org.ar

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