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The impulses of Iole de Freitas

“Recipe for creativity: the month of May + a packet of cookies”, wrote in English on a notebook the artist Iole de Freitas in the middle of 1974, when she began to produce and exhibit her works. Many months of May and packs of biscuits have since passed, Iole’s production has been growing and developing. Photographs, experimental films, installations, performances and sculptures have taken place in the more than 40 years since then.

A panorama of her production and his language has just been published by the publisher Cobogó, in the book Iole de Freitas – corpo / espaço. The thick volume is organized by curator and art critic Paulo Venancio Filho, who already in the opening text of the book outlines a logical framework between on the use of the body in Iole’s work, from the first photographs and recordings (“an intersection between body art, performance and experimental film “) to the sculptures, which, at the beginning, manifested “the search for something flexible like the body “, without doubt exploring the space for it.

In addition to this essay by Paul that functions as an introduction to the book, there is another one by the curator Elisa Byington who closes it. The latter focuses on Iole’s most recent work, in which the artist explores the malleability of stainless steel when folded, forming the most varied curves. Iole also participated in the elaboration of the book herself, having been involved with her personal success today at the Institute of Contemporary Art (IAC), in São Paulo, to offer the widest material for the edition, with the help of her daughter Rara Dias. In addition to the essays, past and essential texts on the trajectory of the artist, written by Lucy Lippard, Sônia Salzstein, Paulo Sergio Duarte, Ronaldo Brito, Manuela Ammer and Rodrigo Naves are attached.

The fluidity evoked by a lightness in the forms of the sculptures or even the gestures of performance (even when with knives) is a very noticeable point in the pages of the volume, perhaps because it is necessary for the courses of the drives, about which Ronaldo Brito points out: “Something in the fleeting and disturbing constructions of Iole de Freitas as that would translate the permanent and undecidable mobility of the impulses.”.

Iole de Freitas – corpo/espaço
Paulo Venancio Filho (org.)
Cobogó
R$ 90,00

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O Tempo Mata (Time Kills) – Sesc Avenida Paulista

Até 16 de junho, o espaço Arte no 5o andar do Sesc Avenida Paulista receberá a mostra O Tempo Mata (Time Kills), que é formada por produções audiovisuais de 17 artistas de diferentes nacionalidades. Além das exibições, alguns dos títulos foram comentados por Tiago Mesquita, Fernanda Brenner, Patricia Mourão e Luiz Roque em programação interligada à exposição. O 6o andar e a fachada do edifício também recebem obras.

Com duração de três meses, a mostra tem parceria com a Julia Stoschek Collection, instituição sediada na Alemanha que têm em seu acervo 850 obras de 255 artistas. A curadoria da exposição é de Rodrigo Moura, que acaba de assumir o cargo de curador chefe do El Museo del Barrio.

Dentre os trabalhos que serão exibidos estão obras de Douglas Gordon, Arthur Jafa, Rachel Rose, Hito Steyerl, Chris Burden, Monica Bonvicini, Ulay e Jack Smith, que tem como temáticas “raça, cultura visual, identidade de gênero, o papel de artistas na sociedade e a circulação de imagens nos meios de comunicação”.

Para o curador, a autorrepresentação e a ficcionalização da vida são “dois possíveis enquadramentos temáticos que perpassam a mostra, servindo como polos conceituais úteis para navegá-la, mas que não esgotam as possibilidades de leitura das obras apresentadas e das relações entre elas”.

Juca Ferreira: Bolsonaro “resolveu declarar guerra à arte e à cultura”

O ex-ministro da Cultura Juca Ferreira. FOTO: Divulgação

Para o ex-ministro da Cultura Juca Ferreira, “quem trabalha com arte e cultura no Brasil vive hoje sobressaltado e inseguro”. “Caminhamos para uma situação que aponta para a censura, perseguição aos que pensam diferente e são críticos, e que toda a área cultural e artística será tratada como inimiga”, diz. E continua: “Podemos dizer, sem dramas, que estamos caminhando para o fim da contribuição do Estado para o desenvolvimento cultural do Brasil”.

A crítica de Juca, que assumiu a pasta nas gestões de Lula e Dilma Roussef e foi secretário de Cultura da cidade de São Paulo na gestão de Fernando Haddad, se refere às novas regras da Lei Rouanet, à paralização dos repasses da Ancine (Agência Nacional de Cinema), a partir de uma decisão do TCU (Tribunal de Contas da União), e à retirada de patrocínios para projetos culturais por parte de empresas públicas, notadamente a Petrobras.

Após uma semana conturbada para o meio cultural, que envolveu grande reação de artistas e intelectuais às recentes decisões do governo Jair Bolsonaro, Ferreira afirma que “o presidente eleito resolveu declarar guerra à arte e à cultura”. “Como se já não fossem suficientes os problemas que o país está enfrentando e as crises do governo… Uma crise econômica profunda, desemprego, perda de direitos sociais etc.”

Quanto aos ideólogos da nova direita que pautam o novo governo e consideram que a cultura e o mundo acadêmico estão dominados pelo “marxismo cultural” e pelo esquerdismo, Ferreira é ainda mais contundente: “Às vezes eu me pergunto de que filme de terror saíram esses personagens. Paranóicos e belicosos, não se adaptam ao ambiente democrático”.

Leia abaixo a íntegra da entrevista concedida pelo ex-ministro à ARTE!Brasileiros:

ARTE!Brasileiros – Assistimos ao mesmo tempo, nos últimos dias, à reformulação da lei Rouanet, ao pedido da TCU para suspender os novos contratos da Ancine e paralisar os repasses da agência e à retirada de patrocínios de empresas públicas para o setor cultural. Como você enxerga esses fatos? Vê eles separadamente ou em conjunto, como parte de uma mesma diretriz?

Juca Ferreira – Sem compreender a importância da cultura e da arte para o desenvolvimento do país, sem políticas culturais que contribuam para o desenvolvimento cultural do país e orientem o governo e a sociedade, sem patrocínio, sem financiamento, fomento e incentivo, via apoio direto pelo fundo nacional de cultura ou sob a forma de incentivo fiscal, podemos dizer, sem dramas, que estamos caminhando para o fim da contribuição do estado para o desenvolvimento cultural do Brasil.

Mais especificamente quanto à decisão do TCU, você afirmou em artigo na Folha de S.Paulo que o risco é que, com a legítima preocupação de impedir mau uso do recurso público, seja paralisada uma política pública para o audiovisual que deu ótimos resultados durante os últimos governos. Queria que falasse um pouco sobre isso, do risco que corre o cinema nacional.

Quem trabalha com arte e cultura no Brasil vive hoje sobressaltado e inseguro. Caminhamos para uma situação que aponta para a censura, perseguição aos que pensam diferente e são críticos, e que toda a área cultural e artística será tratada como inimiga. Para não parar, [artistas e produtores] buscam equilibrar-se em meio a esse caos, obrigados a tirar leite de tijolo para manter as atividades e artísticas funcionando.

Todo o sistema de patrocínio e fomento público está ameaçado. Sem o apoio das políticas públicas e com o fim do Ministério da Cultura, todo o processo cultural e artístico passa a ser mais lento, mais precário, mais cheio de contratempos e de reviravoltas, na base apenas da vontade dos artistas, produtores e fazedores de cultura e do enorme impulso criativo do povo brasileiro. Desde o impeachment da presidenta Dilma Roussef estamos vivendo um retrocesso e parece que o pior ainda está por vir.

Sobre a Rouanet, mais especificamente, como você vê as mudanças?

Medidas inócuas, demagógicas e refletem um total desconhecimento da lei e dos seus mecanismos. Só vai piorar a situação e tornar mais difícil para a arte e a cultura em geral. As medidas dessa IN são inócuas e demagógicas. Fingem democratizar e cercear abusos. Essa IN é um conjunto tosco de quem ouviu o galo cantar e não sabe onde. Só vai complicar ainda mais e inviabilizar o patrocínio e o fomento.

Outra critica é o fato de a classe artística não ter sido consultada. O próprio deputado Alexandre Frota, do partido do presidente, falou isso. Quer dizer, não há nenhuma tentativa de diálogo por parte do governo?

Como se já não fossem suficientes os problemas que o país está enfrentando e as crises do governo – uma crise econômica profunda, desemprego, perda de direitos sociais etc. – o presidente eleito Bolsonaro resolveu declarar guerra à arte e à cultura e chamar os artistas para a briga. Estão tentando destruir os avanços do cinema e do audiovisual brasileiro dos últimos anos, cercear e talvez extinguir a Ancine, interrompendo as linhas de financiamento público ao cinema brasileiro e agora resolveram inviabilizar a Lei Rouanet. Não são capazes nem querem aprimorar a Lei. Trata-se de uma política de terra arrasada.

Existe, por trás dessas mudanças, um claro viés ideológico, de desfazer políticas dos governos anteriores e de combater uma arte que seria de “viés ideológico de esquerda”. Ideólogos do governo e da nova direita falam, por exemplo, do marxismo cultural, que teria dominado a área cultural e acadêmica… 

Às vezes eu me pergunto de que filme de terror saíram esses personagens. Paranoicos e belicosos, não se adaptam ao ambiente democrático.

E como você pensa que pode haver nesse momento uma resistência ao que está acontecendo, à essas mudanças todas e às políticas para a cultura do novo governo?

Precisamos defender o que conquistamos nos últimos 20 anos. Precisamos recuperar o MinC. Precisamos defender as políticas públicas que materializam a responsabilidade do Estado democrático para com o desenvolvimento cultural do país. Em vez de extinguir, aprimorar os mecanismos e os direitos conquistados. Para começar, é preciso retomar o clima de respeito pelos que pensam diferente e investir na inteligência e no diálogo como condição básica para a vida em sociedade. Precisamos olhar para o futuro e entender que não há saída fora da democracia.

IMS inaugura exposições de Letizia Battaglia e de Sergio Larrain em São Paulo

Foto de Letizia Battaglia. FOTO: Divulgação

O Instituto Moreira Salles de São Paulo inaugura neste sábado, dia 27 de abril, duas exposições dedicadas a importantes fotógrafos estrangeiros: a italiana Letizia Battaglia (1935) e o chileno Sergio Larrain (1931-2012).

A mostra Letizia Battaglia: Palermo reúne cerca de 90 imagens, publicações e filmes, com foco especial na atuação da fotógrafa no jornal L´Ora. Durante quatro décadas, Battaglia documentou a guerra da máfia em Palermo, especialmente nos anos 1970 e 1980, além de registrar o cotidiano, a vida cultural e as transformações da cidade.

Nas palavras da própria fotógrafa, em texto publicado em 2010, “com a máquina fotográfica a tiracolo, me tornei testemunha de todo o mal que estava ocorrendo. Foram anos de guerra civil: sicilianos contra sicilianos. Foram assassinados os melhores juízes, os jornalistas mais corajosos, os políticos avessos à corrupção”. Com curadoria de Paolo Falcone, a exposição já passou por Palermo, Roma e pelo IMS do Rio antes de chegar a São Paulo.

A mostra Sergio Larrain: um retângulo na mão, por sua vez, traça um panorama da obra do chileno, que atuou como correspondente da agência Magnum durante a década de 1960. A exposição apresenta mais de 140 fotografias, um vídeo e publicações, contemplando os períodos de produção de Larrain em Santiago, o trabalho como correspondente na Europa e América do Sul e a sua volta à terra natal. Com curadoria de Agnès Sire, a mostra já passou por Arles, na França, por diversas cidades chilenas, por Buenos Aires e pelo IMS do Rio.

Letizia Battaglia: Palermo

Até 22 de setembro

Sergio Larrain: um retângulo na mão

Até 25 de agosto

Instituto Moreira Salles – Avenida Paulista, 2424

Entrada gratuita

Cartas de Cuba #2

Roberto Diabo, Resistiendo en el Tiempo, 2019. Placas de latas e dimensões variadas

Toda bienal é intersocial e em movimento constante, cada edição tenta transcender as realidades já vividas. A 13ª Bienal de Havana tem a seu favor o projeto Detrás del Muro, que se estende por oito quilômetros do Malécon, atraindo centenas de pessoas para o calçadão que serpenteia a orla havaneira. Cuba é uma janela de 360 graus de frente para o mar e o Malecón, um mirante que permite ao público uma percepção diferente do cotidiano. Com curadoria de Juan Delgado, a coletiva abarca obras que se sucedem em exposição contínua. Fim e princípio da cidade, esse espaço tenta ir mais além do estereótipo: lugar onde começam e terminam amores, ponto de encontro de amigos, local de bebedeiras ou de simples brincadeiras de crianças.

A cada Bienal de Havana nasce uma nova edição do projeto Detrás del Muro que mistura, arte, arquitetura, performances e, neste ano, completa três edições envolvendo 70 artistas de 10 países.

Vindo do Chile, Benjamin Ossa, que vê o Malecón, como território pleno de curiosidades sedutoras ou obscuras, cria Un Invisible Faro (Um Farol Invisível), torre vazada onde a brisa do mar voa livre. Com quase 70 metros de altura por três de diâmetro, esse “facho” de luz brilha e se movimenta por meio dos 1344 discos de cobre e alumínio, suspensos em cabos de aço inoxidável, que se completam com triângulos num jogo enigmático de luminescência.

Benjamin Ossa, Un Invisible Faro, 2019. Discos de cobre e alumínio. Aço inoxidável.

Inserindo-se no rizoma urbano, Detrás del Muro acolhe performances como Construindo o Feminino e Olhar sem Ver. Ambas parecem se referir ao mundo atual: ver com olhos vendados. A primeira tenta se identificar sensorialmente com os traços femininos a partir de esculturas de vestidos, de Susy Gómez. A segunda faz o espectador caminhar por uma superfície irregular. A ideia de ambas é que o tato transpasse a visão.

Nas ocupações urbanas, os movimentos ativistas ou obras ideológicas formulam outros imaginários em novos territórios. A escravidão reflete no trabalho de Roberto Diago, que a estuda em um paralelo entre os atos de resistência cultural e as rebeliões dos escravos dos séculos 18 e 19 nas Américas. O artista cubano se interessa pelo tema de forma densa e atuante.

Em meio a artistas quase emergentes, há os consagrados como Eduardo Pojuán, cujo trabalho tem efeito revelador. Sur é uma bússola que pode ser vista como o mapa invertido, de Torres Garcia. Segundo Freud, “a antítese de brincar não é o que é sério, mas o que é real”. Del Rio trabalha o jogo entre a lucidez e a ludicidade com mangueiras de água que as pessoas podem direcionar uma contra as outras. Sob o título Transfusão, trabalha sobre a organização direta de sensações.

Uma exposição coletiva é também um arranjo de objetos ressignificados. Detrás del Muro traz peças aparentemente descontextualizadas, como a obra minimalista do mexicano José Dávila, uma instalação com rochas presas entre placas vulcânicas. Ou a de Felipe Dulzaides, um trabalho poético/político, Limited Perspective em que cria um espaço estruturado com paredes de aço, onde se abrem frestas e espreitas sobre o ato de ir e vir.

Nesse sobrevoo sobre Detrás del Muro, a fantasia feérica das transparências e cores do trabalho de David Magán chama a atenção na tentativa de captar a luz. Esse terreno luminoso atrai e devolve ao público, através das chapas de acrílico coloridas, contorções e explosões de seus próprios corpos. Em contraponto a essa luminosidade, Os Guardiões, de Xavier Mascaro, revisita um viés mítico da obra de arte e abarca um gênero de escultura historicista que ganha relevo com pigmentos criados por ele, mas que funciona como se fosse a ação do tempo.

Parte dos recentes conteúdos sociais da arte voltados à população, se aproxima mais das questões organizacionais e econômicas do que do legado estético. Embora não seja o caso de Detrás do Muro, o público que caminha por entre as obras no Malecón de Havana pode amar, odiar, questionar, enfim opinar sobre o projeto. Afinal, é ele, ao contrário dos críticos, o árbitro essencial do gosto em um evento dessa natureza. Aquele que pode garantir a continuidade de um projeto público, em países socialistas ou não.

MAM expõe obras de seu acervo produzidas nos primeiros anos da ditadura militar

Eu quero você
"Eu quero você", 1966, Marcello Nitsche. FOTO: Divulgação

A segunda metade dos anos 1960 certamente foi um dos períodos mais conturbados e violentos da história política brasileira no século 20. Após o golpe militar de 1964, os anos seguintes foram marcados por uma intensificação da repressão, culminando no Ato Institucional Número Cinco (AI-5) em 1968. Movimentos de contestação no Brasil e no mundo, com focos variados – críticos aos sistemas educacionais, aos costumes, à repressão política ou às guerras –, ganharam força e tiveram grande ressonância também nas artes.

Com o intuito de revisitar esse contexto, traçando paralelos com o atual momento político do país, o Museu de Arte Moderna de São Paulo apresenta, a partir de 30 de abril, a exposição Os Anos em que Vivemos em Perigo, um recorte do acervo do museu com obras produzidas durante cinco anos críticos da história brasileira. “A proposta desta mostra será refletir sobre esses complexos momentos vividos, tendo como marcos os anos de 1965 e 1970 rebatendo e rebatidos em 2019, suas atmosferas marcadas pela vida e a presença do perigo e da ameaça”, escreve o curador Marcos Moraes.

Com cerca de 50 trabalhos de nomes como Antônio Henrique Amaral, Anna Maria Maiolino, Antônio Manuel, Cláudio Tozzi, Maureen Bisilliat e Wesley Duke Lee, entre outros, a mostra passa por tendências que vão do pop ao surrealismo, incluindo pinturas, xilogravuras, fotografias ou esculturas. Segundo o curador, “para a seleção de obras, considerei o contexto, o ambiente efervescente e os acontecimentos que envolveram esses artistas no período dos anos 60 com atitudes radicais frente ao sistema da arte vigente no país, entre eles as exposições: Nova Objetividade Brasileira (MAM RJ), 1ª JAC – Jovem Arte Contemporânea (MAC USP), Exposição-não-exposição (Rex Gallery & Sons) e a 9ª Bienal de São Paulo”.

No texto de apresentação da mostra, o museu destaca ainda que este cenário, “que transformou o antropofágico caldeirão cultural do país”, se dava no mesmo momento em que acontecia a reestruturação do MAM, que em 1969 teve sua nova sede inaugurada no Parque Ibirapuera – “resistindo aos tempos e chegando até o momento atual em que celebra seus 70 anos de história”. A mostra fica em cartaz até o final de julho.

 

Os Anos em que Vivemos em Perigo

Museu de Arte Moderna de São Paulo (Parque Ibirapuera, av. Pedro Álvares Cabral, s/nº)

De 30/04 a 28/07

Ingresso: R$ 7 ou gratuito aos sábados

Cartas de Cuba #1

Obra Un Hombre que Camina 2
Obra Un Hombre que Camina 2, de Oscar Leone

O Desafio do (Im)possível é mais que um tema, é a marca da 13ª Bienal de Havana, exposição que volta ao circuito de arte depois de um hiato de mais de três anos. O momento é especial, coincide com os 500 anos da fundação de Havana e os 30 da Bienal. Por uma semana ando cerca de 35 quilômetros por entre vários bairros que acolhem o evento, em busca dos desafios propostos. Afinal, quando chegamos a uma bienal, em qualquer país, queremos ver como o evento captou, reproduziu e elegeu o que se faz no momento em arte. Há muitas mediações superpostas na Bienal de Havana desde a sua fundação em 1984: a arquitetura do lugar, sua carga histórica, a crise financeira local e a dos países participantes.

Vista pelo retrovisor, por quem esteve em todas as edições anteriores, esta é a mais enxuta, embora tenha 170 artistas, e a menos cenográfica. A curadoria é assinada pelo pool de curadores da Bienal capitaneada pelo crítico Nelson Herrera Ysla. O momento é de reflexão, não há purpurina para os olhos. Bienais fazem história desfazendo as realizações e significações anteriores. As últimas edições das bienais de São Paulo, Veneza e a Documenta de Kassel, comprovam essa tese, todas revelam uma crise de identidade na arte contemporânea. O fio que conduz boa parte das obras desta 13ª edição parece desencapado, assim como os que ligam os diálogos deste momento mundial.

Do Centro Wifredo Lam, sede da Bienal, saio com três trabalhos na cabeça. O primeiro deles, Verso-Recto-Recto-Verso, da indiana multimídia Rena Saini Kallat, uma imensa instalação que aborda a questão dos países divididos ou em conflito, como Índia/Paquistão, Estados Unidos/Cuba, Coreia do Norte/ Coreia do Sul, entre outros. Tiras largas de seda azul vão do teto ao chão-, são confeccionadas por tecelões de Bhuj, cidade indiana-, e exibem vocábulos em escrita convencional e em braile. O jogo de palavras transforma-se em um texto ininteligível tanto para os cegos como para os videntes. O desejo de surpreender é claro e consegue. Cada significado de uma palavra é conectado por vários outros. O resultado é confuso, crítico e proposital. A artista usa a cegueira como metáfora da amnésia coletiva que, em sua opinião, contamina os valores sobre os quais essas nações foram erguidas.

Ao entrar na sala de Oscar Leone, um jovem colombiano vide oartista, penso logo em Pierre Restany, o icônico crítico francês, já morto, que dizia não ter paciência para videoarte.

Logo de início percebo que as imagens podem se transformar num caldo ácido e crítico. A obra é longa, mais de uma hora, e vejo boa parte dela. Além do mais, lá fora o sol queima como no Senegal. Sequência de um homem que caminha (a terra) é uma vídeo performance que aparentemente fala da relação entre o homem e a paisagem, mas vai além. O personagem carrega nos ombros um pernil de vaca por extenso percurso entre colinas, vales, montanhas até chegar a Bogotá, centro político e financeiro da Colômbia.

O discurso visual parece logo ultrapassar o estágio do processo local e exprime a tensão em que vivem milhões de pessoas. Sua caminhada toca em territorialidade, fome, mutações subjetivas e sobrevivência. Leone já expôs Imagens da Natureza no Espaço das Artes ECA/USP, em 2017, e agora deixa em aberto uma reflexão sobre em que consiste a mutação que ainda nos espera no futuro.

Por último, adentro a instalação Blanco da cubana Tamara Campo que procura levar o espectador a vários deslocamentos pela sala ladeada de centenas de finos pedaços de plástico branco, que formam dois triângulos cujos eixos criam um ponto de tensão e de encontro. A intenção, embora não confessa, é cenográfica, mas fica atenuada pela museografia que a “instalou” em uma sala que deveria ter no mínimo o dobro de espaço. O que permanece é uma atitude antagônica, a intimidade. A ideia era fazer o visitante multiplicar deslocamentos testando sua percepção numa trama de entrega e reflexão.
Andando pelos pontos expositivos espalhados por Havana me lembro de ter visto nas edições anteriores colecionadores, diretores de museus, críticos, jornalistas e artistas estrangeiros tentando descobrir a produção cubana. Eles atuavam como exploradores da selva quando encontram uma cidade perdida.

Hoje isso está um pouco diferente, muitos museus  latino – americanos, europeus e americanos já conhecem a arte da Ilha, fato que coloca Cuba, eventualmente, na lista de algumas exposições relevantes.

Juliana Gontijo apresenta trabalhos no MAMAM-PE

Juliana Gontijo, Foz e Fronteira, 2018

Aos 33 anos, a artista Juliana Gontijo, natural de Belo Horizonte, ainda carrega o mesmo carinho pela geografia que tinha quando teve que escolher entre ela ou Artes Plásticas ao pleitear uma vaga na faculdade. Acabou por seguir pelos caminhos da arte, mas levou consigo nas pesquisas no cerne de seu trabalho várias das ciências que compõem a geografia.

Na primeira exposição individual que apresenta na Galeria Murilo Castro, em Belo Horizonte, desde que começou passou a ser representada por ela, Juliana reúne obras criadas a partir de uma viagem que fez para o Acre, onde visitou espaços de vivência indígena. Ela já havia tido esse contato anteriormente, seja sob um ponto de vista artístico ou sociológico: “O que encontrei nessas viagens foi uma intersecção do que eu já fazia com uma perspectiva desse aspecto, sempre foi sobre paisagem, território e corpo”, ela explica. 

Nas pinturas que apresenta nessa exposição, Risco, Juliana trabalha com um traçado que define uma fronteira territorial, fronteiras essas que, segundo ela, não podem ser consideradas definitivas quando falamos de formação do Brasil: “A ideia é estar o tempo todo tensionando uma linha que é cartográfica, mas também dos limites do pensamento”. Isso porque, além de simular mapas com território e fronteiras, Juliana também trabalha a palavra na tela.

Ela conta que um de seus processos para formular os pensamentos escritos à lapiseira consistem em referências de suas leituras, as quais deixa perderem-se com o tempo. Juliana escreve os trechos que gosta em tiras de papel e guarda em uma caixa, retirando-as de lá tempos depois. As reflexões em cima desses trechos formam os pensamentos escritos nos quadros.

Juliana também apresenta a exposição O Tempo é Implacável, com curadoria de Wagner Nardy, no MAMAM (Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães), no Recife, com abertura em 25 de abril, às 19h. A exposição na galeria Murilo Castro, em Belo Horizonte, terminou em 27 de abril.

SP-Arte/2019

Obras de Adriana Varejão dialogam com a violência do passado colonial em Salvador

Pele Tatuada à Moda de Azulejaria (1995)

Com 19 obras bastante representativas de sua trajetória de mais de 30 anos, a artista carioca Adriana Varejão apresenta no MAM-BA, em Salvador, a mostra Por uma Retórica Canibal. Com curadoria de Luisa Duarte, a exposição reúne trabalhos produzidos entre 1992 e 2016, e deve circular por outras cidades do país até o fim do ano.

A produção de Varejão, centrada em grande parte em uma revisão histórica do colonialismo, escancarando suas violências e atrocidades, ganha força especial ao ser exposta no Solar do Unhão, um conjunto arquitetônico antigo restaurado por Lina Bo Bardi nos anos 1960. “Salvador e Cachoeira são cidades fundamentais na construção da minha obra. Nessas cidades, eu encontrei referências importantíssimas do período barroco que usei em muitos de meus trabalhos, especialmente nos que se referem à azulejaria”, afirma Varejão.

Ruína de Charque, Porto (2002)

Com azulejos rasgados que expõem em suas entranhas vísceras, carne, órgãos e sangue, a artista traz à luz histórias ocultas, pouco visitadas pela história oficial. Segundo o texto curatorial: “A seleção de trabalhos revela ainda a rede de influências que atravessa a obra da artista: do barroco à China, da azulejaria à iconografia da colonização, da história da arte à religiosa, do corpo à cerâmica, dos mapas à tatuagem, vasto é o mundo que alimenta a poética de Adriana Varejão”.

É a primeira vez que Salvador recebe um conjunto significativo de obras da artista, que já expôs em diversas cidades do mundo e tem obras em instituições como o Metropolitan Museum of Art e o Guggenheim Museum em Nova Iorque, a Tate Modern em Londres, a Fondation Cartier em Paris, o centro Inhotim em Brumadinho, o MAM de São Paulo, o MAR no Rio de Janeiro e o Stedelijk Museum em Amsterdã, entre outros. A mostra fica em cartaz até 15 de junho e seguirá para outras cidades fora do eixo Rio-São Paulo.

 

Adriana Varejão – Por uma Retórica Canibal

De 17 de abril a 15 de junho de 2019

Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA) – Av. Contorno, s/n, Solar do Unhão, Salvador

Gratuito