"A Casa da Mãe", de Randolpho Lamonier. Foto: Karina Bacci
“A Casa da Mãe”, de Randolpho Lamonier. Foto: Karina Bacci
*Por Alexia Tala

 

Alexia Tala – Quando observo tua obra vejo que há uma profunda procura por suportes e formatos. Você usa artes gráficas, fotografia, audiovisual, textil etc. Essa versatilidade faz com que tua obra não se limite a uma estética particular. Como é o processo em que você opta por trabalhar uma ideia, num suporte ou outro?
Randolpho Lamonier — Desde o princípio de minha pesquisa em arte venho lidando com muita experimentação e o ato de improvisar se tornou uma de minhas principais metodologias de trabalho. Foi algo que eu assimilei de forma totalmente intuitiva como resposta a uma série de barreiras e faltas, porque quando comecei a produzir não dispunha de dinheiro para materiais, conhecimentos técnicos ou referências do mundo da arte. Então comecei observando o que estava ao meu redor e improvisando com as situações que minha realidade me oferecia. Isso marcou em mim a sensação de que posso trabalhar com qualquer material, mídia ou suporte, desde que haja necessidade e desejo.

Como e qual foi a influência que deu começo a teu fazer artístico?
Cresci na periferia de Contagem/MG, num contexto onde não tínhamos acesso a praticamente nenhum aparelho cultural. Fui criado assistindo TV enquanto minha mãe trabalhava fora. Acredito que a estética dos blockbusters da Sessão da Tarde, os programas sensacionalistas da tv brasileira dos anos 90 e os videoclipes da MTV foram os primeiros estímulos que poderiam se aproximar de uma influência dita “artística”. Ainda na infância, ajudava meus tios numa pequena empresa familiar de filmagens de casamentos, festas e outros eventos. Então a captura e reprodução de imagem através do VHS também foi algo que me chamou muito a atenção.
Mais tarde, enquanto já começava a explorar o campo das artes visuais, comecei a estudar teatro e logo estava trabalhando em algumas companhias. Minha curta passagem pelo Grupo Oficina Multimedia, em Belo Horizonte, foi uma de minhas principais influências naquele momento, por sua intrínseca relação com as artes visuais e sua arrojada pesquisa com videoinstalações, objetos cênicos, figurinos e cenografias. Depois comecei a fotografar meus amigos, quase todos do teatro, e as propostas narrativas e estéticas que criávamos para fotografar me levaram a me interessar pela foto-performance e a produção em vídeo.

Muito interessante teu processo. O que surge primeiro, o assunto ou o encontro com a matéria?
Não há uma regra, mas, de modo geral, primeiro surge uma questão, depois eu encontro a matéria, a forma e a linguagem através das quais irei explorá-la. Acabei chegando a uma ideia de “oposição” que quase sempre norteia minhas escolhas, como as crônicas sangrentas de minhas memórias de Contagem narradas em pequenos bordados feitos à mão; ou as bandeiras de Profecias, feitas com trapos de cama, mesa e banho, para tratar de assuntos públicos e questões sociais referentes ao Brasil. Em última instância, me autorizo a experimentar com qualquer tipo de material ou processo, como se errando muito eu aprendesse mais.

Falando de Profecias, quando vi pela primeira vez tua obra, me remeteu imediatamente à historia recente da América Latina e ao peso histórico e simbólico que tem o uso têxtil e os bordados nas obras de resistência. Que aspectos do têxtil te interessam na tua obra?
Meu contato com o têxtil começou em casa vendo minha avó costurar. Minha mãe já trabalhava na indústria costurando bancos de carros para a Fiat e, bem antes disso, meu avô paterno foi alfaiate. Mas foi depois de conhecer os bordados da Violeta Parra que eu comecei a me interessar pelo têxtil como possibilidade expressiva. A partir do trabalho dela conheci a tradição das Arpilleras chilenas e elas me impactaram fortemente. Me senti desde então muito influenciado, sobretudo pelo aspecto de denúncia social e política que esses trabalhos evidenciam. Aos poucos fui conhecendo o trabalho de outros artistas como o Bispo do Rosário, Louise Bourgeois, Tracey Emin, Leonilson, Sônia Gomes e Feliciano Centurión, cuja influência me levou a explorar um outro aspecto da produção têxtil, mais emocional e afetiva, quando a intimidade se torna política.

Na tua obra parece misturar-se o íntimo e privado, o que acontece nos espaços cotidianos pessoais e o que acontece na rua. Para você há uma indiferenciação entre o público e o privado que você busca que se manifeste nas imagens/obras?
Tento explorar no território dos assuntos íntimos tudo que possa haver de relevante para a esfera pública, e da mesma forma o contrário, me envolvo com os assuntos de ordem pública com um engajamento muitas vezes sentimental e catártico. De modo que estou sempre borrando as barreiras entre esses dois universos na tentativa de criar um terceiro espaço onde eu circule com o máximo de liberdade possível.

Teu trabalho fala sobre violência, opressão e algumas lutas sociais relativas ao subdesenvolvimento e a marginalidade. Como o teu trabalho está assimilando a atual situação brasileira?
Como um artista interessado em contar histórias e dialogar com as questões do meu tempo, seria impossível não me sentir totalmente atravessado pela crise geral que o Brasil está vivendo. Eu já fazia ideia de como o mundo interfere em meu trabalho e agora estou aprendendo de quais formas ele responde ao que produzo. É uma concepção de responsabilidade que tem ampliado minha consciência em relação à potência de tudo quanto pode a subjetividade. Estou buscando todo o desejo, irreverência e coragem que se pode extrair desses dias de puro horror.

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