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BIENAIS 35ª BIENAL DE SÃO PAULO


















            aïta (dos cabarés marroquinos), revê o feminino em um   são as características proeminentes desta paisagem”.
            contexto entre o experimental e o tradicional.     A globalidade do ódio é exumada em todas sua
               O salvadorenho radicado em Nova York Guadalupe   multiculturalidade, como na saga da escritora cigana
            Maravilla, de 47 anos, traz à Bienal instalações que   Ceija Stojka (1933-2013), da Áustria, que viveu em um
            buscam relacionar arte e cura. Recuperando-se de   campo de concentração nazista destinado a ciganos,
            um tipo raro de câncer, Guadalupe apresenta as escul- em Birkenau. O coletivo espanhol Flo6x8, de Sevilha,
            turas de uma profunda pesquisa na sua cultura maia   Espanha, parte de uma estratégia de flash mobs e da
            ancestral, objetos que perfazem narrativas indígenas   linguagem do flamenco para declarar sua insurgência
            complexas e de fundo espiritual. Maravilla chegou aos   em relação ao sistema financeiro global.
            Estados Unidos atravessando a fronteira mexicana com   Nesse sentido, o flamenco ultra heterodoxo do
           “coiotes”, fugindo de uma guerra civil. Sem documen- assombroso cantor Niño de Elche (nome artístico de
            tos, inverteu o axioma do destino imigrante: tornou-se   Francisco Molina, de 38 anos, nascido em Elche, na
            mestre em artes pelo Hunter College, professor Virginia   Costa Branca da Espanha) vem para balançar tudo que
            Commonwealth University e é presença frequente em   se conheça do gênero tradicional. Niño de Elche foi
            exposições no MoMA e no Museu do Brooklyn, dois dos   definido, pelo jornal El Mundo, como “o homem que
            mais importantes de Nova York. Abandonou o antigo   bombardeou o flamenco”. Em um dos seus trabalhos
            nome civil, Irvin Morázan, e adotou o pseudônimo do pai.  mais recentes, Niño gravou os chamados “cantes de
               Entre os nomes que sustentam a conceituação his- ida y vuelta”, subgênero do flamenco resultante do
            tórica, estão diversas figuras fundamentais. É o caso   regresso à Espanha da emigração partida à América
            de uma das mais proeminentes líderes da luta pelos   Latina (e que trouxe, na bagagem, as mudanças intro-
            direitos civis de Chicago, nos Estados Unidos (terra   duzidas pelos gêneros locais, como rumba, guajira
            de onde emergiu Barack Obama): a poeta, escritora,  ou colombiana). “Quis pegar nesse estilo que existe
            educadora e doutora Margaret Taylor Goss Burroughs   no flamenco e desmistificá-lo, ampliá-lo e ligá-lo a
            (1917-2011) criou instituições afro-americanas cru- temáticas que me interessa tratar, como a escravatu-
            ciais para a luta afirmativa, além de escrever livros de   ra, o colonialismo, a violência, as drogas, as relações
            poemas referenciais, como o celebrado What shall I   comerciais e os fluxos fronteiriços”.
            tell my children who are black? (O que devo dizer aos   A amplitude de intercâmbios culturais da mostra é
            meus filhos que são negros?)                     imensa. Vai até Roraima, de onde comparece a artista
               Filha de mexicanos, a feminista, lésbica, ativista   a indígena Macuxi Carmézia Emiliano, com represen-
            e escritora norte-americana Gloria Anzaldúa (1942- tações do cotidiano e da cosmogonia de seu povo, e
            2004) nasceu em Raymondville, no Texas, e foi uma   encontra em Paris o premiado cineasta israelense Amos
            intelectual que buscou elaborar em sua obra a con- Gitaï, que também é estrela da Bienal de Arquitetura de
            dição de mulher de fronteira, de enfrentamento da   Veneza deste ano, mostra a obra Casa, Ruínas, Memórias,
            condição subalterna imposta aos imigrantes. Sua   Futuro, na qual acompanha a história de uma casa no
            obra retratou a difícil missão de se estabelecer do   Oeste de Jerusalém durante 25 anos.
            outro lado da fronteira, criando um espaço cultural e   À parte o abstrato título, Coreografias do impossível,
            político em que os indivíduos subalternos tivessem   o exame do programa da Bienal, que será aberta em 6
            lugar e representação. “Cresci entre duas culturas, a   de setembro no Ibirapuera com 120 convidados, revela
            mexicana (com uma grande influência indígena) e a   uma rede de interrelações políticas no sentido mais
            americana (como um membro de um povo colonizado   amplo da palavra política e dos seus enfrentamentos
            em nosso próprio território). Ódio, raiva e exploração   contemporâneos.

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