Page 17 - ARTE!Brasileiros #54
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portas e ir para o online me pareceu uma espécie de   tudo bem, sabemos que eles estavam no meio da
               abandono total do que nós fazemos. Era como se a   loucura. E nos diálogos com os grupos que habi-
               gente pudesse se fechar no nosso privilégio, achar   tam a Casa surgiram coisas. A Adriana Sumi, do
               que bastava ir para as redes se comunicar com o   Coletivo de diálogo e diversidade de táticas, falou
               público e que estaria tudo bem. Como se bastasse   que poderia ensinar a fazer sabão; uma ONG do
               se comunicar apenas com essas pessoas que podem   bairro precisava de espaço para deixar as cestas
               acessar esses conteúdos e que tanto faz se o mundo   que recebia; uma agente social da região precisava
               acabou entre um bunker e outro. E eu acho essa   de um espaço para guardar cobertores para doar
               visão questionável, tanto de um ponto de vista ético,   para pessoas em situação de rua. Nós também
               quanto porque a nossa atuação já entende a cultura   abrimos uma chamada para voluntários e do dia
               como algo que vai muito além da apresentação de   para a noite conseguimos 120 pessoas cadastradas.
               práticas artísticas. Pensamos a cultura e arte como   E, como sempre, as coisas que fazemos e as que
               ferramentas de transformação social. A cultura tem   acolhemos foram se juntando, ficando mais borradas,
               a ver com cuidado, com cuidar do outro, com ensaiar   assim como a separação entre quem ajuda e quem
               outros mundos possíveis. Esse discurso que virou   é ajudado. E isso é muito interessante, às vezes a
               até chavão, que todos os espaços culturais falam,   pessoa que vai pegar a comida depois também
               de repente foi colocado em cheque. E nós não qui-  fica do outro lado do balcão distribuindo comida;
               semos ficar nessa sinuca, mesmo correndo o risco   quem vai pegar sabão depois ajuda a encontrar
               de não fazer o que era esperado de nós, ou de se   costureiros na região e assim por diante. Então,
               perder em algo que não sabíamos fazer.          respondendo sua pergunta em uma frase: foi uma
                 Fizemos também um exercício de olhar para a nos-  reação muito orgânica, que partiu de uma neces-
               sa história, para não fazer alguma coisa totalmente   sidade ética, que foi se articulando com a nossa
               desconectada dela. Mas, como sempre, é menos a   própria história e se desenvolvendo a partir das
               história nos autorizando e mais o passado visto como   ferramentas que a gente costuma usar, escutando
               alavanca, com um olhar a partir do presente, um olhar   o território e propondo ações.
               não de historiadores, mas de curadores, gestores…
               E nesse caso, quando vimos fotos daquelas pessoas   Isso me lembra uma frase sua da entrevista que
               que fundaram a Casa do Povo em 1946, e que poucos   fizemos há dois anos: “A cultura não se limita às
               anos antes estavam juntando mantimentos, costu- artes. Moradia é cultura, culinária é cultura, esporte
               rando e mandando roupas para o front - aí sim para   é cultura. Então aqui tem criação, ativismo, gente
               a Segunda Guerra - entendemos de fato que o que   em situação de vulnerabilidade social, mas a gente
               nós fazemos não é algo estranho à nossa história.  nunca deixa de entender isso também como um
               Enfim, então agora na pandemia começamos a fazer  lugar de arte”. Isso ganhou ainda mais sentido
               essas coisas que não sabíamos fazer tão bem, mas   na pandemia?
               usando as ferramentas que são nossas. Ou seja,   Porque de repente a gente se torna mais útil. A Casa
               vendo o que podíamos nós mesmos fazer e o que   do Povo é um lugar que se coloca em risco. Marília
               podíamos acolher (a Casa sempre funciona assim).   Loureiro [curadora da Casa] sempre fala isso, que
               Achamos importante trabalhar com as costureiras   as palavras vem depois dos gestos. Então a gente
               da região, começamos a levantar recursos para o   vai fazendo, a partir de premissas claras, mas sem
               bairro e ao mesmo tempo, inspirados no projeto   saber aonde vamos. Existe um provérbio rabínico
               lanchonete <> lanchonete, do Rio, passamos a fazer   nesse sentido, mas a versão secular é da Clarice
               essas cestas abertas, onde as pessoas escolhem   Lispector, que disse: “Perder-se também é caminho”.
               os alimentos que querem, ao invés de receber uma   O que eu quero dizer é que a gente não se pergunta:
               caixa fechada. E começamos também a escutar as   “Será que isso é arte?”. Vamos encontrando o que a
               pessoas do território, ouvir sugestões, e até oferecer   gente quer no caminho. E surgem coisas muito fortes.
               o espaço da Casa para a prefeitura usar.        Por exemplo, a produção de sabão com óleo doado
                                                               de restaurantes do bairro. E tem um restaurante
            E isso funcionou?                                  que entrega suas comidas e envia junto um sabão,
               A Prefeitura respondeu mandando um formulário,   dizendo que aquele sabão foi feito com o óleo que
               nós preenchemos e não tivemos mais resposta. Mas   fritou aquela comida. Isso fecha um circuito, e acho

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