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ENTREVISTA BENJAMIN SEROUSSI
























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                                                                                   Povo se reúne na
                                                                                   Casa e produz barras
                                                                                   de sabão e sabonete
                                                                                   a partir de óleo de
                                                                                   cozinha usado



            que bastava ir para as redes se comunicar apenas com     – Acabamos de completar um ano da pan-
            as pessoas que podem acessar esses conteúdos e   demia de Covid-19 e a Casa do Povo foi uma das
            que tanto faz se o mundo acabou entre um ‘bunker’ e   instituições culturais que teve uma atuação quase
            outro”, afirma Seroussi. Após decretada a quarentena   de “linha de frente” na luta contra os impactos
            e a necessidade de isolamento social, em março do   trágicos dessa pandemia. Não se restringiu a fazer
            ano passado, a Casa do Povo fechou as portas para   uma programação online, por exemplo, mas passou
            o público, mas, em diálogo com a população e com   a distribuir alimentos, produzir sabão, máscaras
            os coletivos que usam o espaço, traçou novas linhas   etc. Queria que você contasse um pouco como
            de atuação, entre elas a produção e distribuição de   foi esse processo.
            sabão e de máscaras e a arrecadação e doação de    Benjamin Seroussi - Acho que “linha de frente” é
            cestas de alimentos e refeições.                   um vocabulário até meio complexo, porque temos
              Também não ficaram parados, apesar do redire-    tentado questionar também essa ideia de uma guerra.
            cionamento de verbas na instituição, projetos como   Acho que às vezes é usado um vocabulário muito
            a restauração do TAIB (Teatro de Arte Israelita Brasi-  bélico. É uma guerra contra quem, né? Contra um
            leiro, conhecido por ter sido um importante centro de   vírus? É como aquela campanha que afirma que
            contestação à ditadura militar), localizado no subsolo   “um mosquito não é mais forte que um país inteiro”.
            da Casa, e a reativação da biblioteca, reaberta em   Só que não é bem assim… Porque teve o mosquito,
            2019 após 40 anos fechada e que reúne 8 mil livros   teve o vírus, mas o problema somos nós.
            (metade deles em ídiche) e um acervo documental.    Porque na guerra se coloca a culpa em um inimigo
               Em entrevista à arte!brasileiros, Seroussi comenta   externo…
            estes assuntos e fala também sobre as dificuldades   Exato. E eu acho que precisamos menos da ideia
            de arrecadação financeira no contexto da pandemia e   de “vamos para a guerra” e mais da ideia de “vamos
            de um Brasil com um governo federal avesso à cultura.   tecer solidariedades”. Então temos essa atuação
           “Então acho que já vivíamos uma espécie de censura   que surgiu também de uma maneira quase óbvia.
            embutida no entendimento neoliberal do que é cultura,   Porque estamos ali em um bairro que foi um dos mais
            que era uma censura econômica. Agora a gente vê uma   atingidos de São Paulo, por ser denso, ter muitos
            espécie de fantasma do passado, que é uma possível   cortiços, ocupações, uma favela. Uma matéria do G1
            censura política”, afirma. “Mas precisamos lutar contra   até mostrou que, proporcionalmente, o Bom Retiro
            isso, com as ferramentas que temos, porque cultura é   foi mais atingido do que a Brasilândia, por exemplo.   FOTO: ROBSON GONZAGA
            um direito básico. Não tem arrego”, conclui. Leia abaixo   Então tínhamos uma realidade à nossa frente. E
            a íntegra da conversa.                             esse movimento dos centros culturais de fechar as

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