Page 16 - ARTE!Brasileiros #54
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ENTREVISTA BENJAMIN SEROUSSI
O grupo Sabão do
Povo se reúne na
Casa e produz barras
de sabão e sabonete
a partir de óleo de
cozinha usado
que bastava ir para as redes se comunicar apenas com – Acabamos de completar um ano da pan-
as pessoas que podem acessar esses conteúdos e demia de Covid-19 e a Casa do Povo foi uma das
que tanto faz se o mundo acabou entre um ‘bunker’ e instituições culturais que teve uma atuação quase
outro”, afirma Seroussi. Após decretada a quarentena de “linha de frente” na luta contra os impactos
e a necessidade de isolamento social, em março do trágicos dessa pandemia. Não se restringiu a fazer
ano passado, a Casa do Povo fechou as portas para uma programação online, por exemplo, mas passou
o público, mas, em diálogo com a população e com a distribuir alimentos, produzir sabão, máscaras
os coletivos que usam o espaço, traçou novas linhas etc. Queria que você contasse um pouco como
de atuação, entre elas a produção e distribuição de foi esse processo.
sabão e de máscaras e a arrecadação e doação de Benjamin Seroussi - Acho que “linha de frente” é
cestas de alimentos e refeições. um vocabulário até meio complexo, porque temos
Também não ficaram parados, apesar do redire- tentado questionar também essa ideia de uma guerra.
cionamento de verbas na instituição, projetos como Acho que às vezes é usado um vocabulário muito
a restauração do TAIB (Teatro de Arte Israelita Brasi- bélico. É uma guerra contra quem, né? Contra um
leiro, conhecido por ter sido um importante centro de vírus? É como aquela campanha que afirma que
contestação à ditadura militar), localizado no subsolo “um mosquito não é mais forte que um país inteiro”.
da Casa, e a reativação da biblioteca, reaberta em Só que não é bem assim… Porque teve o mosquito,
2019 após 40 anos fechada e que reúne 8 mil livros teve o vírus, mas o problema somos nós.
(metade deles em ídiche) e um acervo documental. Porque na guerra se coloca a culpa em um inimigo
Em entrevista à arte!brasileiros, Seroussi comenta externo…
estes assuntos e fala também sobre as dificuldades Exato. E eu acho que precisamos menos da ideia
de arrecadação financeira no contexto da pandemia e de “vamos para a guerra” e mais da ideia de “vamos
de um Brasil com um governo federal avesso à cultura. tecer solidariedades”. Então temos essa atuação
“Então acho que já vivíamos uma espécie de censura que surgiu também de uma maneira quase óbvia.
embutida no entendimento neoliberal do que é cultura, Porque estamos ali em um bairro que foi um dos mais
que era uma censura econômica. Agora a gente vê uma atingidos de São Paulo, por ser denso, ter muitos
espécie de fantasma do passado, que é uma possível cortiços, ocupações, uma favela. Uma matéria do G1
censura política”, afirma. “Mas precisamos lutar contra até mostrou que, proporcionalmente, o Bom Retiro
isso, com as ferramentas que temos, porque cultura é foi mais atingido do que a Brasilândia, por exemplo. FOTO: ROBSON GONZAGA
um direito básico. Não tem arrego”, conclui. Leia abaixo Então tínhamos uma realidade à nossa frente. E
a íntegra da conversa. esse movimento dos centros culturais de fechar as
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