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EXPOSIÇÃO SÃO PAULO
CONEXÕES NO ACERVO DO MAM
MOSTRA QUE FOI APRESENTADA NO PHOENIX ART MUSEUM É TRAZIDA AO MUSEU EM SP
POR MARIA HIRSZMAN
PASSADO/FUTURO/PRESENTE, exposição em cartaz em mármore de Laura Vinci, que faz uma suave transição
no Museu de Arte Moderna de São Paulo, é mais do que entre o bloco dedicado à paisagem e aquele que apresenta
uma mostra comemorativa. Concebida no bojo das cele- uma série de investigações sobre a monocromia.
brações de 70 anos de criação do museu e originalmente Esse segmento dedicado a trabalhos que exploram a
criada há dois anos para apresentar o acervo da instituição potência da cor não em sua diversidade, mas em sua
para o público de Atlanta (vale a pena destacar que foi a essência formal mais pura, é um dos mais interessantes
primeira mostra do MAM em território norte-americano), da exposição. E não só porque reúne obras importantes
a seleção oferece uma interessante oportunidade de de autores bastante diferentes, como Rosangela Rennó
fruição e reflexão sobre aspectos importantes da arte e Antonio Manuel. Mas também porque ele parece sutil-
contemporânea brasileira. mente indicar que a tentativa de associar a arte brasileira
O critério adotado pelos curadores Cauê Alves e Vanessa ao uso generoso e abundante das cores seria reiterar
Davidson não é nem cronológico nem temático. As 72 obras estereótipos e que é preciso olhar para os mais diferen-
selecionadas para a versão brasileira, que ocupa a sala tes aspectos de uma pesquisa de arte, sem reduzir as
principal do museu até 21 de abril, não foram escolhidas pesquisas a um único motivo central como a pesquisa
com o objetivo de narrar ou ilustrar uma história oficial conceitual ou o engajamento político. Curiosamente, este
da arte nacional nem tampouco apresentar uma trajetó- núcleo reúne o maior número de trabalhos abstratos da
ria particular do acervo. A potência plástica, conceitual mostra, indicando que a separação entre figuração e
ou poética do trabalho, bem como sua capacidade de se abstração – que tanto marcou a história do museu em
conectar com outras peças da seleção, parecem ter sido seus primórdios – perdeu sua relevância na atualidade.
os critérios mais importantes de escolha. Isso já fica evi- A noção de identidade, quando pensada em sentido amplo,
dente na primeira obra, “Notas sobre uma Cena acesa”, parece ser a que mais se sobressai na seleção e constitui
de José Damasceno. Este sedutor painel, que recria com um elemento central para se pensar a produção contem-
centenas de lápis amarelos a imagem em perspectiva de porânea. Seja no uso do corpo como elemento de criação,
uma silhueta observando uma tela, desperta imediata- seja numa reinvenção/investigação da paisagem como
mente a simpatia do público, como testemunham o sorriso lugar de síntese de uma ideia de nacionalidade que sempre
frequente na fisionomia dos visitantes. Apuro e criatividade escapa por entre os dedos. É interessante notar como ela
formal, capacidade de síntese e apropriação de materiais está presente em investigações as mais distintas. Há uma
e procedimentos incomuns estão entre os aspectos pre- forte presença de obras que partem da representação
ponderantes desta obra e que ecoam por toda a exposição. ou investigação do corpo humano como elemento de
Como estrutura organizadora, a mostra está subdividida em criação, como por exemplo a série de vídeos de Lenora
cinco blocos: O corpo/O corpo social; Identidades mutáveis; de Barros acerca da imagem da artista, os comoventes
Paisagem reimaginada; Objetos impossíveis; e a Reinvenção pés com chagas recriados por Efraim Almeida ou ainda
do monocromo. Mas tal segmentação é bastante porosa, no já clássico trabalho 50 Horas, Autorretrato Roubado,
como dizem os curadores já na apresentação. Assim, um de Rochelle Costi feito no início dos anos 1990. Mas a
mesmo trabalho muitas vezes se vincula a mais de um reflexão identitária se faz presente também em outro
núcleo e muitas vezes serve de elemento condutor entre tipo de investigação plástica, como na irônica instala-
um e outro. É o caso, por exemplo, da escultura/instalação ção Cortina de Vento – que brinca com o estereótipo da
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