Milton Dacosta, 'Construção sobre fundo vermelho', 1957

 

Mais de uma década após sua última individual em São Paulo, Milton Dacosta é homenageado com retrospectiva na Galeria Almeida e Dale. A exposição
entra, ainda, no conjunto de tributos pelo centenário de nascimento do artista, ocorrido em 2015. Falecido em 1988, Dacosta não era adepto dos rótulos, tendo um percurso livre em sua passagem da figuração para a abstração, enquanto os colegas artistas disputavam a importância dos estilos.

Talvez essa disposição em se movimentar tenha sido o que fez de Milton um dos maiores pintores brasileiros do século XX. Para Paulo Pasta, artista muito apreciador da obra de Dacosta, isso tem nome: “Não tem precipitação na pintura dele, tem deslocamento. Eu acho que melhor do que abstração seria chamar o que ele faz de síntese”. Paulo não chegou a conhecer Milton, mas teve muito contato com sua obra e com amigos do pintor
fluminense: “Acho que esse caminho que ele faz para a abstração ele vai palmilhando isso passo a passo. Você percebe esse caminho dele. E como ele vai depurando as figuras. Eu acho isso muito bonito e uma resposta ética do Milton”, comenta.

A exposição na Almeida e Dale segue uma ordem cronológica, começando pelas pinturas dos anos 30, incluindo Autorretrato, de 1938. É nos anos 40 que se percebe a influência da metafísica italiana em Milton.

ACIMA, FIGURA, S.D. ABAIXO, MULHER COM ROSTO APOIADO SOBRE A MÃO, DEC. 1950

Para Pasta, que também carrega um gene metafísico em sua pintura, é uma fase na qual Dacosta “começa a evasão do figurativo para a abstração”. Mas, ao invés de De Chirico – como muitos apontam -, Paulo percebe uma influência  principalmente de Carlo Carrá e completa: “Eu acho que essa escolha dele por uma influência metafisica responderia também a sua vocação um pouco intimista e comedida. Acho que é de acordo de todos que ele faz um construtivismo sensível, muito brasileiro naquilo que ele tem de pudor e  discrição”.

Casado com a pintora Maria Leontina desde o final dos anos 40, trabalhou muito ao lado dela. Alguns boatos espalham que Milton teria se apropriado de características da obra da esposa no que produziu na década seguinte. É nessa década, inclusive, que ele participa da Bienal de Veneza e ganha o prêmio de melhor pintor nacional na II Bienal de São Paulo. Filho do relacionamento, o multiartista Alexandre Dacosta conta que algumas pessoas chegam a confundir o trabalho dos dois, mas discorda: “Eu acho que não dá pra confundir porque a pintura dela era uma coisa mais fluida, na dele era uma pintura mais assentada no chão, digamos assim”.

Nascido em 1959, Alexandre se lembra que, quando moraram em São Paulo na década de 60, o casal tinha um ateliê em meu próprio lar. Em uma espécie de edícula de dois andares, nos fundos da casa, Maria produzia no térreo enquanto Milton produzia no andar de cima. É claro, também, que o casal de artistas trocava figurinhas sobre seus estudos e ideias. Alexandre define essa proximidade de ambos como “uma proximidade de alma”.

Também dedicado à pintura, além de outras modalidades artísticas, o filho afirma que já tentou negar a influên- cia de Milton naquilo que produz. Mas não conseguiu, quando viu já estava fazendo um trabalho ligado ao construtivo, tanto com traços do pai quanto da mãe. “A fase que estou fazendo agora chama-se desconstrutiva”, conta. Paulo Pasta também acredita que foi influenciado de alguma forma por Dacosta. O equilíbrio da luz entre cores compostas, apesar de usarem paletas diferentes, é para ele um ensinamento que aprendeu observando o trabalho do pintor que, para ele, “abandonou o realismo, mas nunca abandona o real”. A exposição na Almeida e Dale pode ser visitada até 24 de novembro.

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