James Capper, AERO CAB Test Run. Foto: Frederik Jacobovits

Pode uma cidade altamente elitista, frequentada basicamente por bilionários do circuito internacional, onde nem mesmo o cidadão médio suíço tem acesso, ser sede de um encontro de arte contemporânea?

O desafio é encarado pelo Verbier Art Summit (VAS), que teve sua terceira edição realizada nos dias 2 e 3 de fevereiro passado. O evento foi criado por um grupo de moradores e proprietários de chalés da pequena cidade de três mil habitantes. O que não falta lá são milionários famosos, como a cantora Barbra Streisand, o empresário Richard Branson, o colecionador Dakis Joannou e o príncipe Andrew, da Inglaterra, que há três anos pagou nada menos que R$ 65 milhões por uma cabana de sete quartos. Exagero dá o tom do local, onde um drink pode chegar a custar R$ 25 mil nas festas VIP da cidade.

Desde 2017, o VAS, liderado pela advogada holandesa Anneliek Sijbrandij-Schachtschabel, consiste em um encontro de dois dias organizado por um curador convidado. A primeira foi Beatrix Ruf, então diretora do Museu Stedelijk, no ano passado Daniel Birnbaum, do Museu de Arte Moderna de Estocolmo, e agora Jochen Volz, diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

O artista brasileiro Ernesto Neto falou com o público sobre humanismo e interconexões. Foto: Alpimages Fleur Gerritsen

Durante dois dias, às tardes, o time por ele escolhido se apresentou em um auditório com entrada franca para inscritos, enquanto pela manhã, nos sofisticados chalés de madeira dos organizadores, grupos selecionados debateram com os convidados, encontros onde jornalistas não eram permitidos. Também fez parte da programação a exibição do filme O Vermelho do Meio-Dia, realizado pelo artista suíço Tobias Madison em São Paulo, em colaboração com o Grupo Mexa, que chocou a plateia por retratar uma cidade bastante decadente, e o teste da escultura móvel do artista inglês James Capper em meio à estação de esqui.

Com o tema Somos muitos. Arte, o politico e múltiplas verdades e um time bastante radical, entre eles a artista cubana Tania Bruguera, o sociólogo português Boaventura de Souza Santos, a líder indígena brasileira Nadine Terena e a curadora sul-africana Gabi Ngcobo, Volz reposicionou o evento elitista de forma elegante. “Tive total liberdade para organizar as mesas, convidei pessoas que admiro muito”, contou Volz, em Verbier. Alguns dos artistas selecionados, como Bruguera, Grada Kilomba e Rirkrit Tiravanija farão parte da programação da Pinacoteca, agora em 2019. Em 22 de junho, o livro com todas as palestras do evento será lançado na Pinacoteca.

“Nós precisamos descer das montanhas para chegar na lama”, chegou a afirmar o curador alemão radicado no Brasil na abertura do evento, ainda sob o impacto do estouro da barragem em Brumadinho, ocorrido poucos dias antes da abertura do Summit. Foi uma fala poética e direta de como o debate sobre arte não deve ficar restrito a um mero encontro, mas merece provocar ações concretas.

Seguindo a deixa de Volz, muitos dos convidados buscaram reconfigurar o auditório onde o encontro ocorria, como a alterar estruturas de poder. Foi o que fez logo na primeira sessão Kilomba, que abandonou o pedestal selecionado para os palestrantes, preferindo falar sentada, de maneira mais informal. “Desaprender é também alterar espaços”, definiu a artista portuguesa, que participou da 32ª. Bienal de São Paulo, em 2016. Ela apresentou na Suíça cenas de seu mais recente trabalho, Illusions 2, uma desconstrução do mito de Édipo, criado para a 10ª Bienal de Berlim, no ano passado.

O tom geral seguiu em reflexões políticas, como fez Terena, que abordou as ameaças aos 800 mil índios que vivem no Brasil e começou sua fala parafraseando o presidente da escola de samba Sossego: “Arte não é para covardes”. Para ela, “a maior arte dos povos indígenas é se manter vivo, é resistência”.

Jochen Volz com Naine Terena, à esquerda, e Anneliek Sijbrandij, à direita. Foto: Frederik Jacobovits

Resistência também foi tema da fala de Ngcobo, sobre experiências de movimentos anti-apartheid na África do Sul, nos anos 1970, e como jovens artistas atualizam, atualmente, as questões daquele período.

Já Santos, no segundo dia, em uma fala que abordou questões vinculados à defesa dos direitos humanos, declarou estar participando de movimentos contra o uso indiscriminado de agrotóxicos no Brasil. “Há muito mais pessoas com câncer no interior de São Paulo por conta dos venenos espalhados pelo agronegócio”, provocou.

Figura frequente em Verbier, por conta de um festival de música que ocorre na cidade, a cantora lírica Barbara Hendricks, embaixadora da Acnur (Alto Comissário da ONU para Refugiados) fez uma defesa da arte como elemento empoderador.

Finalmente, o artista tailandês Tiravanija repensou o espaço do encontro de forma radical: desceu para a plateia e sugeriu que cada um alterasse a organização das cadeiras, deixando de estarem todas voltadas para o palco. Sob penumbra, ele pediu ao público que observasse sua própria respiração por dez minutos. Ao final, pediu que cada um falasse algo a partir das experiências dos dois dias em Verbier, gerando certa tensão, afinal foi um palestrante que preferiu não falar. Houve quem, após participações tão políticas, propusesse que o grupo deveria ter alguma ação concreta, enquanto outros, como Gabi Ngcobo, ao invés de falar, tocou a canção “We don’t need another hero”, famosa na voz de Tina Turner, que foi o título da Bienal de Berlim, por ela organizada no ano passado.

Nesse ambiente um tanto irônico, o silêncio de um artista como Tiravanija é uma atitude bem coerente com um evento para discutir arte em uma cidade como Verbier. Arte, de fato, não é para covardes.


*Fabio Cypriano, viajou a convite do Verbier Art Summit

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