Franco "Bifo" Berardi. Foto: Divulgação

O diagnóstico do filósofo Franco Berardi sobre a atualidade é ácido e certeiro: vivemos a morte do sistema capitalista, habitamos um cadáver putrefato, mas que ainda se mantém de pé e dita as regras do jogo. Mesmo definindo de maneira tão cética a sociedade na fase terminal do capitalismo, o pensador propõe uma alentadora imagem de luta e transformação desse cenário sombrio, convocando a juventude, os poetas e os artistas como agentes estratégicos de transformação, vendo sobressair no caos as forças de luta necessárias para a superação dos graves problemas que assolam a humanidade e a colocam em sério risco de extinção. Contra o sentimento de que vivemos momentos inexoráveis, o desespero em relação à ascensão dos movimentos fascistas em todo o mundo e os graves desequilíbrios ambientais que o planeta enfrenta, Bifo – como é conhecido desde a infância – se posiciona claramente ao lado daqueles que não se conformam com os limites de um cotidiano opressor e ousam combater em defesa de uma sociedade mais justa, solidária e igualitária.

Responde assim com ousadia à referência à “arte do possível”, termo adotado como subtítulo do seminário “Em Defesa da Natureza e da Cultura”, do qual participou no último dia 8 de outubro. E enfatiza que não devemos considerar o “possível” como um limite que nos é imposto por uma naturalização das barbáries cometidas pelo capitalismo, mas sim a busca de um caminho novo, o fortalecimento de nossa capacidade para desafiar a marcha que, se não for contida, nos conduz à extinção. “Contra a miséria social, o caos geopolítico, a debacle econômica, temos uma saída: solidariedade e frugalidade também. Precisamos desenvolver a habilidade em focar naquilo que é útil para a nossa vida, para o nosso prazer, e esquecer o dinheiro, a competição, a abstração monetária”, defende o filósofo.

Bifo introduz um elemento fundamental de sua reflexão ao iniciar sua fala citando os protestos que sacudiram o Chile no ano passado e saudando a realização (em 25 de outubro) do referendo para derrubar a constituição que continua vigente desde o regime militar de Pinochet, o que segundo ele perpetua a ditadura – militar e neoliberal – imposta pelo regime autoritário inaugurado com o golpe de 1973. Assim, reforça a importância dos movimentos espontâneos, solidários, combativos, como aquele em defesa do meio-ambiente capitaneado pela resistência de Gretta Thunberg, as diversas manifestações que eclodiram em 2019 ao longo de todo o planeta e a explosão do movimento antirracismo nos Estados Unidos.

O tema adotado pelos protestos norte-americanos, “não consigo respirar” (em referência aos assassinatos de Eric Garder e George Floyd pela polícia), tornou-se peça estratégica na reflexão de Berardi, servindo inclusive de título para Asfixia: Capitalismo Financeiro e Insurreição da Linguagem, uma das três obras de sua autoria publicadas no Brasil pela editora UBU. Se o trabalho já apontava e refletia sobre o sufocamento, literal e metafórico, da sociedade contemporânea, a questão acabou adquirindo novos desdobramentos com a eclosão da pandemia do novo coronavirus, doença que debilita profundamente o sistema respiratório. Vivemos, segundo Bifo, “a convulsão de um corpo sufocado”.

O tema adotado pelos protestos norte-americanos, “não consigo respirar”, tornou-se peça estratégica na reflexão de Berardi. Foto: Fusebox Radio Photography

Os efeitos da pandemia, comparada por ele a uma tempestade avassaladora, que vem matando milhares e torna mais próxima a ideia de que a sobrevivência humana está em risco, de certa forma contiveram a potência transformadora dos movimentos sociais, dificultando ou tornando quase impossível a solidariedade. “É preciso reativar o corpo erótico da sociedade”, afirma o filósofo, que se revela extremamente preocupado com os efeitos devastadores dessa doença, não apenas no plano físico mas no plano psíquico. “A proximidade da pele se tornou uma espécie de perigo metafísico”, diagnostica ele, dizendo temer os efeitos dessa sensibilização fóbica em relação ao corpo, ao beijo. Mas alerta que é preciso ter consciência de que, apesar do perigo representado pelo vírus, ele não é a causa de nossos males. O filósofo, que desde a juventude se alinha com movimentos libertários como Maio de 1968 e o movimento autonomista italiano, ousa dizer que vivemos um momento apocalíptico. Afinal, em seu sentido etimológico, “apocalipse quer dizer revelação, uma repentina compreensão de que algo deu horrivelmente errado”.

“A real origem do desastre atual é a agressão capitalista contra a liberdade das pessoas, do meio ambiente, a aceleração do ritmo de exploração, o extrativismo. Tudo isso deixou a democracia esvaziada. Estamos sem poder”. E não adianta mais pensarmos em termos nacionais, já que os efeitos desse esvaziamento da política se espalham, como o vírus, pelo mundo todo. A epidemia de certa forma evidencia  o impasse diante do qual estamos. Torna mais intenso e palpável o colapso.

“A Covid-19 não é a catástrofe em si”, afirma Berardi, que no calor da hora, durante o confinamento da quarentena, escreveu uma espécie de diário. Extremo – Crônicas da Psicodeflação mergulha no significado dessa pandemia, procura analisar os efeitos dela no inconsciente coletivo e reaviva as esperanças de uma mudança profunda, norteada pelo prazer e não pela política destrutiva de “gente que odeia o mundo, porque odeia a própria vida”. “A razão política não consegue lidar com esse tipo de contração, de sofrimento. A psicanálise, a música, a poesia é que são as línguas políticas do futuro.”

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