Esta edição traz uma apurada crítica à 35ª Bienal de São Paulo, que resultou numa agradável surpresa, tanto na sua impecável proposta expositiva, como na escolha dos diferentes representantes da cultura contemporânea, muitos deles completamente desconhecidos para o grande público.

Podemos comemorar! Estamos presenciando um movimento efetivo, e não apenas teórico, por parte das instituições culturais e educacionais, sobre a importância de reconhecer a cultura nacional e internacional como resultado das suas histórias, das suas memórias, da sua cor.

Antes da Pandemia, já se vislumbrava uma busca de verdadeira independência dos cânones, em mostras como AI-5 50 Anos – Ainda não terminou de acabar, no Intituto Tomie Ohtake; Mulheres Radicais, na Pinacoteca; Histórias Afro-Atlânticas, no MASP e no TO, a 32a Bienal de São Paulo de 2016, Incerteza Viva. Pouco tempo depois, todo e qualquer avanço sofreu um retrocesso que nos submergiu,  perplexos no retrocesso, durante os últimos cinco anos.

Muita coisa se perdeu, mas podemos comemorar que o poder das manifestações de coletivos e lideranças sociais junto à arte e sua força transformadora foram capazes de se impor a manobras de apagamento.

Repito aqui as palavras com que abri o I Seminário Latino-americano: Relatos, Memória e Reparação, realizado no começo de agosto deste ano, na cidade de Buenos Aires, em colaboração com a BIENALSUR. Parafraseando Markus Gabriel, um jovem filósofo alemão, em El Poder del arte, “a arte é aquilo que está na origem da nossa humanidade, da nossa concepção como animais diferenciados. A arte tem uma essência e esta essência está em permanente conflito com outras forças”.

Com as de instituições estagnadas, do elitismo ignorante. As do poder do fascismo, que os homens (nem todos, nem todes) teimam em exercer. Das tendências globais de controle econômico e das forças do mercado especulativo da arte, por exemplo.

Assim, sua essência irrompe, não importa a época, reinventa-se e, com sua liberdade e autonomia por natureza, de forma oblíqua, controla o poder.

Usando diferentes suportes: madeira, tijolo, argila, terra, água, sementes, panos, o corpo e até tinta, artistas desenvolveram um forte movimento contra teorias hegemônicas, que durante séculos tentam apagar corpos negros, o lugar e a força da mulher, a liberdade na identidade de gênero. A destruição da natureza.

Nesta 35ª Bienal, a escolha por diferentes sujeitos do seu tempo  construiu um jogo atemporal, um trabalho de reflexão sobre o já dito e o que se diz. A presença da obra de  Sidney Amaral, O estrangeiro, de 2011, nesta Bienal e na nossa capa, não é aleatória. Ela mostra um alerta anterior, que hoje se completa com a apresentação da imperdível instalação de Ayrson Heráclito e Tiganá Santana, Floresta de Infinitos, com a mostra do coletivo Zumví – Arquivo Aro Fotográfico, criado nos anos 1990 por jovens negros das periferias de Salvador, e que tem hoje seu trabalho reconhecido com eloquência, na mostra.  Ou os panos do Bispo do Rosário em diálogo com Rosana Paulino.

Na edição ainda, várias das exposições importantíssimas que conversam com o espírito da Bienal durante este período, assim como a entrevista com a historiadora francesa, Anne Lafont, dedicada a estudar o lugar do negro na história da arte francesa.

Enquanto sejamos capazes de falar, de escrever e produzir obras de arte e nos encontrar com elas, seremos livres. Tal sua autonomia radical. ✱

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