Por Giuliano de Miranda
Às margens da Baía de Vitória, o Cais das Artes começa a incorporar sua área externa à programação de artes visuais. O complexo cultural projetado por Paulo Mendes da Rocha, na capital do Espírito Santo, recebe o Ala Mar, iniciativa voltada à ocupação de sua praça e de outros espaços abertos com trabalhos de artistas contemporâneos e ações educativas. A abertura reúne duas esculturas de Raul Mourão, Hourglass e The Flag, de 2020, e mundo-casa-mundo, instalação comissionada do capixaba Rick Rodrigues, com curadoria de Clara Sampaio.
A presença de Mourão estabelece uma relação particular com um edifício cuja arquitetura se impõe pela escala e pela materialidade. Nascido no Rio de Janeiro em 1967, o artista desenvolve desde o final dos anos 1980 uma produção que atravessa desenho, fotografia, vídeo, escultura e instalação . Cidade e espaço urbano ocupam posição recorrente nesse percurso, embora sua pesquisa não se restrinja a uma única linguagem ou série.
Conhecido também por Grades, trabalho iniciado a partir da observação das estruturas de proteção que passaram a modificar a paisagem das cidades brasileiras, Mourão incorporou posteriormente movimento e participação a parte de sua produção escultórica. No Cais das Artes, essa investigação chega a um espaço aberto, atravessado não apenas pelo público interessado em exposições, mas pela circulação cotidiana da cidade. Em entrevista à ARTE! Brasileiros, Raul Mourão fala sobre as duas obras, a passagem das Grades para a produção cinética, sua relação com arquitetura e urbanismo e o interesse crescente por projetos de grande escala no espaço público.

Giuliano de Miranda: As duas esculturas apresentadas no Cais das Artes foram criadas em 2020. Em que contexto elas surgiram?
Raul Mourão: São duas esculturas que desenhei durante a pandemia. Elas foram criadas naquele momento de isolamento social, absolutamente terrível, de convivência com a morte, que afetou todos nós. Eu estava isolado e desenhei muito, fiz muitos trabalhos. Essas duas esculturas nasceram naquele momento.

GM: Em que momento o público passa a fazer parte da obra?
RM: Toda essa série de esculturas cinéticas e interativas contempla a participação do público, que toca a obra e aciona o movimento. A proposta é ter o público como parceiro, uma espécie de cocriador. A escultura tem uma vida estática, mas, quando o espectador a aciona, entra em movimento. É como se existissem dois modos distintos: o parado e o movimento. Essa participação também coloca o espectador em uma posição privilegiada de observação. Ele aciona a obra como se fosse uma máquina e começa uma dança de formas. Esse movimento geométrico pede outro tipo de engajamento. O espectador se torna corresponsável pela operação completa da obra.
GM: Como você pensou essas esculturas para o espaço do Cais das Artes?
RM: Elas foram criadas em 2020, mas eu as escolhi depois para apresentar no Cais das Artes. Havia várias outras opções e achei que essa dupla era a mais adequada para ocupar essa grande praça onde o museu está pousado. É um grande espaço público que Paulo Mendes da Rocha generosamente entrega para a cidade, para a população de Vitória. O museu poderia ser simplesmente um prédio fechado, mas ele suspende o edifício e deixa a paisagem livre.
A arquitetura do Cais das Artes é muito material. O concreto é protagonista. É uma arquitetura bruta, de grandes volumes geométricos. Na minha escultura também existe esse elemento da geometria, da forma geométrica pura. Acho que há um diálogo muito direto: esculturas que celebram as linhas da geometria diante de uma arquitetura que também possui essa característica

GM: Como sua pesquisa artística evoluiu desde a série Grades?
RM: A série Grades é um trabalho que comenta a crise das políticas de segurança pública nas grandes cidades brasileiras, o aumento da violência, a sensação de insegurança e como isso afeta a vida das pessoas e modifica a paisagem. Na minha infância, os prédios que eu frequentava no Rio de Janeiro não eram cercados por grades. Na juventude, comecei a ver a chegada dessas estruturas e também de outros itens de segurança, como câmeras e vários dispositivos que foram modificando e encobrindo a paisagem da cidade. Foi essa transformação que originou a série. Produzi muitos trabalhos em suportes diferentes: fotografias, serigrafias, instalações e esculturas. Paralelamente, desenvolvia outras pesquisas. Em determinado momento, as Grades acabaram se transformando em esculturas cinéticas e interativas. Houve uma experiência em que uma peça era apoiada sobre outra e esse movimento passou a fazer parte de uma coreografia. A partir daí fui desenvolvendo vários trabalhos que seguem até hoje.
GM: A dimensão cinética tornou-se o elemento principal da sua produção?
RM: Não. As esculturas cinéticas são uma das séries que desenvolvo. Trabalho com vídeo, tenho esculturas estáticas, pinturas e outras pesquisas. Meu trabalho não se restringe a um único corpo. Várias séries conseguem conviver ao mesmo tempo, dialogando paralelamente. A série cinética é importante, tem uma dimensão grande dentro da produção e ainda possui muita coisa a ser desenvolvida, mas não restringe o trabalho.
GM: O que ainda desperta seu interesse na relação entre arte e cidade?
RM: O espaço público da cidade é um desejo. Quando você começa a trabalhar com escultura, naturalmente aparece essa ambição de ter uma obra na cidade, criando um marco escultórico, um marco urbanístico. Sempre foi uma meta minha e tenho trabalhado cada vez mais nessa direção, tentando implementar projetos no espaço público, fazer com que o trabalho seja um acontecimento fora das paredes das galerias, dos museus e das coleções.
Nos últimos anos tenho desenvolvido diversos projetos nessa direção, temporários e permanentes. É um grande desejo realizar trabalhos em escala maior, nessa dimensão pública.
GM: É possível equilibrar a liberdade de interação do público e a preservação das esculturas?
RM: Com certeza. O trabalho foi pensado justamente para isso. Ele é interativo, mas também foi concebido e executado tecnicamente para sobreviver ao tempo, para permanecer. É uma obra construída em aço corten e o manuseio, o movimento, oferece desgaste, mas tudo isso faz parte da maneira como ela foi pensada.
A questão também está em a obra ser incorporada pelo morador, pelo visitante, pela administração pública, criar identificação e engajamento com aquele espaço. Isso ajuda a fazer com que ela permaneça íntegra. O importante é que não seja apenas ornamento ou decoração. Ela precisa ter conteúdo poético e participar da invenção da cidade.
GM: De que maneira a arquitetura e o urbanismo alimentam seu processo criativo?
RM: Tenho admiração pelos grandes arquitetos, sou um observador de arquitetura, viajo, compro livros, vejo documentários. Mas diria que existem também questões parecidas no que diz respeito ao desenvolvimento de um projeto. Há o desenho, que vira maquete eletrônica, depois maquete e desenho técnico, até ser executado. Existe uma semelhança no fazer técnico, na rotina do ateliê. Ele se parece com um escritório de arquitetura ou de design, onde você tem conceito, desenho, projeto e execução. No urbanismo, tenho especial apreço e admiração pelo Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Acho uma obra genial. É uma experiência muito particular dentro da cidade.
GM: O que você espera que o visitante leve consigo depois de vivenciar essas esculturas?
RM: Espero que saia mais curioso. Acho que uma obra de arte é para tocar o sensível, para perturbar. Também é para encantar, despertar novos desejos, esquentar o coração, mexer com a cabeça. Esperamos despertar alguma coisa no espectador, fazer pensar, provocar um pouco de euforia, emoção, vida. É isso que pretendemos quando colocamos uma obra de arte no mundo.
GM: E qual é o papel da arte quando ela ocupa o espaço público?
RM: A arte é uma luta por território. Todo artista luta pelo seu espaço, pela sobrevivência dos seus pares, da sua prática, da sua experiência poética. Tornar a arte mais acessível, democratizar, levar para outros lugares, produzir conteúdo educativo, difundir, lutar pela circulação, pela preservação dos espaços de arte e pela criação de novos espaços: tudo isso fortalece o sistema cultural. É uma luta permanente.
GM: Em mais de três décadas de carreira, o que mais mudou na sua forma de criar?
RM: Existe uma coisa que se perpetua e que para mim é preciosa: a liberdade de transitar por diferentes meios e não ficar apegado a dogmas. Qualquer objeto, qualquer cena que vejo pode ser uma inspiração, e qualquer meio pode ser suporte para uma ideia. Posso me expressar através de vídeo, texto, performance, objeto, escultura ou pintura. Isso atravessa todo o meu percurso.
O que mudou foi uma questão material. No começo eu trabalhava sozinho em uma sala pequena. Hoje tenho um ateliê preparado para transformar uma ideia em uma obra final. Existe o espaço físico, mas também existem pessoas para transformar as ideias em coisas no mundo. Você consegue construir um ambiente que faz isso acontecer. Aquilo que poderia permanecer como um devaneio poético ou um risco numa folha de papel pode virar uma escultura porque existem condições materiais para realizá-la.
GM: Quais pesquisas e projetos você pretende desenvolver nos próximos anos?
RM: Volto à escultura pública, aos projetos de grande escala, ao espaço urbano e às exposições de grande escala. Há também um momento em que os curadores começam a olhar para os percursos e reunir trabalhos de diferentes períodos de maneira mais organizada, com um olhar de pesquisa. Isso começa a acontecer na minha trajetória. Mas continuo muito interessado nessa dimensão pública, em projetos que possam ganhar escala e estabelecer uma relação com a cidade.
Curadoria
A escolha das obras de Raul Mourão integra uma proposta mais ampla para as áreas externas do Cais das Artes. O Ala Mar estabelece uma programação de instalações e ações educativas ao ar livre, ocupando espaços como a Praça do Cais e o vão livre do complexo e aproximando arte contemporânea, arquitetura e paisagem, com abertura marcada por Hourglass e The Flag, de Mourão, e mundo-casa-mundo, de Rick Rodrigues. Na instalação do artista capixaba, uma casa em escala humana recebe intervenções em bordado realizadas com a participação dos visitantes, por meio de oficinas e atividades de mediação.

Curadora do Cais das Artes, Clara Sampaio é artista e pesquisadora, doutora em Arte Contemporânea pela Universidade de Coimbra e mestre em Artes pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Para ela, o ala mar não deve ser compreendido simplesmente como um programa de arte pública. Como as intervenções permanecem vinculadas ao território da instituição, a curadora prefere falar em “arte e ações educativas ao ar livre”.
GM: Como surgiu a proposta do Ala Mar?
Clara Sampaio: O Ala Mar surge como um programa de instalações artísticas ao ar livre, concebido para ativar e dar novos usos e sentidos às áreas externas do Cais das Artes. A proposta parte do entendimento de que esses espaços, muitas vezes percebidos como de passagem, possuem grande potencial de convivência e experimentação. Assim, o programa busca aproximar arte, arquitetura e paisagem, criando situações de permanência que são também de contemplação e pensamento crítico.
GM: O que diferencia essa proposta?
CS: Eu não chamaria exatamente de programa de arte pública, por se tratar de uma proposta totalmente vinculada à instituição propositora. Temos chamado de “arte e ações educativas ao ar livre”, justamente por entendermos que estamos circunscritos ao território do Cais. O programa se diferencia por estabelecer um diálogo direto e contínuo com a arquitetura do museu e com sua inserção urbana. Mais do que obras dispersas no espaço público, acolhe propostas artísticas de forma integrada, considerando escala, fluxos, relação com a paisagem e a criação de ações de mediação educativa a partir desses elementos.
GM: Por que Raul Mourão foi escolhido para a abertura?
CS: A escolha de Raul Mourão parte de uma trajetória e de uma investigação consistente sobre o espaço urbano e as estruturas que organizam a vida em sociedade. Seu trabalho propõe um olhar atento e crítico sobre os dispositivos que supostamente construímos para nos proteger, delimitar e habitar o mundo. Iniciar o programa com um artista que reflete sobre essas escalas do viver coletivo é especialmente significativo diante da monumentalidade do Cais, criando um ponto de partida que tensiona e aproxima arquitetura, cidade e experiência cotidiana.
Além disso, o artista tem participado de diversas exposições no Espírito Santo, tendo realizado recentemente uma exposição individual na Galeria Gabinete, no Parque Cultural Casa do Governador, o que evidencia também uma relação já estabelecida com o contexto artístico local.
GM: Como as obras dialogam com a arquitetura do Cais das Artes?
CS: Os trabalhos selecionados para o ala mar existem de duas maneiras: por convite, para apresentação de trabalhos existentes, ou por propostas comissionadas e, portanto, inéditas. Em relação direta com a arquitetura e as dinâmicas sociais provocadas pelo Cais das Artes, estabelecem relações de aproximação e contraste com sua escala, materialidade e vocação simbólica. Em vez de competir com o edifício, as intervenções procuram evidenciar suas particularidades e tornar visíveis seus potenciais usos. Esse diálogo reforça o caráter público e aberto do Cais, ao mesmo tempo em que convida o público a experimentar o espaço de maneira livre e participativa.
A presença das esculturas de Raul Mourão no Cais das Artes ultrapassa, nesse sentido, a realização de uma exposição ao ar livre. Ao aproximar a produção de um artista de trajetória nacional da arquitetura de Paulo Mendes da Rocha e, simultaneamente, abrir espaço para a produção capixaba, o complexo estabelece possibilidades de interlocução que durante muito tempo foram insuficientes no Espírito Santo. Mais do que receber artistas de outros estados, importa construir um circuito capaz de promover trocas, estimular a circulação e inserir a produção realizada aqui em diálogos mais amplos. O Cais das Artes pode contribuir para esse movimento ao colocar Vitória novamente no mapa das discussões sobre arte contemporânea, arquitetura e espaço público no Brasil.





