Estação da Luz, sede do Museu da Língua Portuguesa. Foto: Joca Duarte / Divulgação
Estação da Luz. Foto: Joca Duarte / Divulgação

Totalmente pronto para ser reinaugurado após seis anos de reformas, o Museu da Língua Portuguesa (MLP) já começou a aquecer os motores na expectativa de finalmente poder abrir suas portas, o que deve ocorrer no final de julho ou assim que a pandemia permitir. Além da reedificação física, que remontou a estrutura destruída por um incêndio em 2015, a instituição aproveitou a oportunidade para reorganizar-se conceitualmente e atualizar conteúdos e estratégias de comunicação com o público. De forma geral, o conceito do projeto permanece o mesmo, baseado numa perspectiva antropológica, histórica e social da língua, tal como alinhavado há quase 20 anos. 

Como trata-se de um acervo basicamente virtual, os arquivos não foram destruídos pelo fogo e foi possível remontar grande parte da mostra original. A possibilidade – e necessidade – de refazer a exposição do zero trouxe, no entanto, a oportunidade de aperfeiçoar a mostra permanente e atualizar aspectos importantes, incorporando transformações pelas quais a língua passou no período e propondo uma reflexão sobre debates contemporâneos ligados a questões identitárias, que vem mobilizando intensamente o debate nos últimos anos. 

A instituição também abriu espaço para um diálogo mais intenso com variados campos da cultura, para além de sua íntima relação com a literatura, incorporando novas formas de pensar a língua também a partir de elementos do cotidiano e de outras formas de expressão, como as artes visuais. O resultado dessa nova abordagem é a primeira mostra temporária do museu, já acessível a grupos pequenos de visitantes, intitulada Língua Solta (ler aqui). “Desde lá atrás queríamos trazer objetos atravessados pela língua”, explica a curadora especial da instituição, Isa Grinspum Ferraz. Afinal, como diz o escritor moçambicano Mia Couto, em live organizada pela instituição, “a língua portuguesa não funciona em abstrato”.

No Museu da Língua Portuguesa: As instalações "Palavras Cruzadas", em primeiro plano, e "O português do Brasil", ao fundo. Foto: Joca Duarte / Divulgação.
As instalações “Palavras Cruzadas”, em primeiro plano, e “O português do Brasil”, ao fundo. Foto: Joca Duarte / Divulgação.

Dentre as novidades trazidas pelo museu nessa nova roupagem estão também a incrementação da linha do tempo, que percorre a história da língua portuguesa desde o Lácio, na antiga Roma, até os dias de hoje, com a problematização de momentos fundamentais dessa trajetória, como o ano de 1500 – no qual foram inseridos depoimentos de líderes indígenas como Davi Kopenawa e Ailton Krenak questionando a ideia de descoberta e explicitando o processo de invasão de terras já habitadas. Em sentido quase oposto, a instalação Nós da Língua Portuguesa (“nós” tanto em termos de entrelaçamento, como de pronome que indica uma coletividade) ressalta a importância do português como língua de libertação dos países africanos, permitindo uma confluência de diferentes povos e dialetos em um projeto comum, vivenciado em países como Moçambique, Angola e Cabo Verde. Por último, dentre as novidades, Isa Grinspum destaca a nova instalação Falares, curada por Marcelino Freire e Roberta Estrela D’Alva, que cria um bosque de telas nos quais é possível perfazer um passeio, assistindo uma trama de depoimentos, de falares icônicos, sotaques e tribos do português. 

Quando inaugurou, em 2006, o uso massivo da tecnologia virtual era uma das marcas fortes do MLP. Hoje, com uma maior familiaridade das pessoas com esse tipo de recurso e o aprimoramento dos equipamentos, seu protagonismo parece mais diluído. “A tecnologia veio a serviço, para contar uma história. Como a língua é impalpável, imagens e sons são muito úteis. Não buscamos a interatividade pela interatividade”, pontua a curadora. Segundo ela, o que importa é estimular ao máximo o interesse do visitante, fazendo com que saia do museu com mais perguntas do que entrou. 

Diante dos desafios impostos pela pandemia – que vem adiando sua reabertura e impõe a necessidade de encontrar novas formas de contato com os potenciais visitantes –, o museu também vem aproveitando para desenvolver novas formas de interação virtual com o público. Aproveitou o dia internacional da língua portuguesa para mostrar um pouco de sua nova cara, realizando uma série de conversas e apresentações online, que já foram vistas por mais de 15 mil espectadores, com figuras de grande relevância no pensamento do papel da língua, como Mia Couto, José Eduardo Agualusa e José Miguel Wisnik. Lançou também ciclos de palestras virtuais e pretende estabelecer ciclos de debates, formação de professores, mostras de cinema, saraus, e outras atividades capazes de espraiar essa produção para além do espaço físico. 

Ir para fora é, aliás, um dos motes do Museu da Língua Portuguesa, seja em termos de conteúdo (no que a comunicação digital pode contribuir muito) seja em termos espaciais, conectando-se de forma mais intensa com o entorno de sua sede na Estação da Luz, por onde transitam centenas de milhares de pessoas, todos os dias. 

 

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