Sem título (série Nunca Mais), 1995. Videla, Masseray Agosti com Monsenhor Tortolo, Vigário das Forças Armadas (Foto: A. Kacero) e Julgamento Final de Giotto, Capella degli Scrovegni, Pádua 1306. Ilustração da edição dos fascículos do livro Nunca Mais da CONADEP. Foto: Cortesia Fundación Augusto y León Ferrari

“Inquieto, navegou em todas as águas e experimentou técnicas e suportes diversos como a xerox, o videotexto, a arte postal, microfichas, livros de artista, heliografia, uso da letra-set e instalações sonoras”, escreveu a crítica e curadora Leonor Amarante sobre o emblemático artista León Ferrari (1920-2013), cujo centenário foi celebrado no dia 3 de setembro.

Sem título (série Nunca Mais), 1995. Videla, Masseray Agosti com Monsenhor Tortolo, Vigário das Forças Armadas (Foto: A. Kacero) e Julgamento Final de Giotto, Capella degli Scrovegni, Pádua 1306. Ilustração da edição dos fascículos do livro Nunca Mais da CONADEP. Foto: Cortesia Fundación Augusto y León Ferrari

A propósito da data, a exposição retrospectiva La Bondadosa Crueldad percorrerá dois anos pela Europa. Sua inauguração acontece neste 15 de dezembro de 2020 no Museu Reina Sofía, em Madrid (Espanha) – onde sete salas serão dedicadas à obra de Ferrari -, com sequência no Museu Van Abbe, em Eindhoven (Holanda), onde permanece de 8 de maio a 26 de setembro do próximo ano. O percurso da mostra, na Europa, termina em agosto de 2022, no Centro Georges Pompidou, em Paris (França).

Nesta itinerância, circulam trabalhos que “desmontam as sequências naturalizadas de violência propagadas pela guerra, religião e outros sistemas de poder” e que “convidam quem os olha a parar, refletir e se posicionar”, segundo a Fundación Augusto y León Ferrari-Arte y Acervo. Entre eles, um dos que geram maior inquietação e anseio é La Civilización Occidental y Cristiana, que crucifica uma imagem de Jesus Cristo, comprada no varejo, no topo da recriação de um jato estadunidense de combate.

Hongo nuclear, 2007, León Ferrari
Hongo nuclear, 2007, León Ferrari. Foto: Cortesia Fundación Augusto y León Ferrari

A peça foi criada sob comissão pela premiação argentina do Instituto Di Tella, em meados da década de 1960. Na ocasião, Ferrari produziu uma série de obras que denunciavam a Guerra do Vietnã. Entre elas, vários objetos que ofereciam representações de bombardeios a aldeias vietnamitas, figurando La Civilización Occidental y Cristiana como seu alferes mais visível. A peça central, ou sua reputação, efervesceu o debate público, provocando as já esperadas reações enfáticas que a fizeram ser recolhida antes mesmo da sua exibição oficial.

Em resposta a um artigo assinado pelo crítico Ernesto Ramallo sobre o episódio, o artista escreveu: “Ignoro o valor formal das peças. A única coisa que peço à arte é que me ajude a dizer o que penso da forma mais clara possível, a inventar signos plásticos e críticos que me permitam condenar com a maior eficiência a barbárie do Ocidente; é possível que alguém me mostre que isso não é arte (…) Eu não mudaria meu caminho, me limitaria a mudar seu nome ”.

No final, Ferrari concordou com a retirada para que seus outros trabalhos pudessem permanecer à vista. O momento de seu feitio se encaixa cronologicamente em um período de radicalização do pop art na Argentina; o que é notado pelo amigo de Ferrari, o poeta Rafael Alberti, em uma correspondência ácida e espirituosa enviada de Roma: “Meu caro Leon: eu realmente gosto de seus projetos de pop art anti [Lyndon] Johnson. Avise-me quando o levarem a Martín García para iniciar uma grande campanha internacional por sua libertação”.

A troca entre o poeta e o artista se deu nos meses que antecederam o primeiro de dois regimes militares opressores que assumiram o país – o último resultando, no final dos anos 1970, no refúgio de Ferrari no Brasil e no desaparecimento de seu filho, Ariel. Antes disso, Ferrari sistematizou sua colaboração com Alberti na publicação Escrito en el aire, de 1964, em que cada desenho abstrato de León dialoga com um poema de Rafael, todos dispostos de várias formas no espaço da página, que gera uma continuidade visual entre texto e imagem. “Essa continuidade não é apenas formal, mas temática: os poemas aludem à musicalidade e ao silêncio, sinais, riscados, emaranhados; qualidades que ressoam na abstração de Ferrari”, nota sua fundação sobre a parceria dos dois.

Sem título (série Nunca Mais)
Sem título (série Nunca Mais), 1995. Dilúvio de Doré, 1860 e Junta Militar (Foto: Secretaria de Informação Pública). Ilustração da edição de fascículos do livro Nunca Mais da CONADEP. Foto: Cortesia Fundación Augusto y León Ferrari

Hoje, La Civilización Occidental y Cristiana é resguardada pelo Museo Nacional de Bellas Artes, na Argentina, tendo partido de lá apenas para a primeira parada na itinerância de La Bondadosa Crueldad. A obra, no entanto, retorna para o museu ao fim da exposição, representando de forma prática e simbólica o último segmento da retrospectiva, na terra natal do artista. No site do Bellas Artes também pode ser conferido, na íntegra, o filme Civilización, premiado no Festival de Cinema Independente de Buenos Aires em 2012, um ano antes do falecimento de Ferrari. Dirigido por Rubén Guzmán, o documentário registra entrevistas exclusivas e mostra o feitio de uma obra original especialmente para o filme.

Além de obras já emblemáticas, como a citada acima, La Bondadosa Crueldad agrega ainda um número significativo de documentos inéditos disponibilizados pela Fundación Augusto y León Ferrari para apresentar outros pontos de vista sobre sua produção e as várias ações que desenvolveu ao longo da vida. Tal proposta feita pela fundação, de fornecer uma visão alargada acerca da vida de León, foi transportada para suas redes sociais durante o mês de setembro, contando com ciclos de publicações, registros e histórias enviados por amigos e familiares que compartilharam suas experiências com León e seu trabalho.

La Civilización Occidental y Cristiana, 1965, León Ferrari. Foto: Cortesia Fundación Augusto y León Ferrari

Embora a mostra comemorativa não venha para o Brasil, o centenário do artista foi celebrado pela 34ª Bienal de São Paulo, com uma montagem da obra Palabras Ajenas, a primeira colagem literária de Ferrari, que compartilha da temática anti-guerra e foi elaborada no apogeu da invasão estadunidense ao Vietnã, entre 1965 e 1967. Sua criação parte da seleção e remontagem de citações textuais de fontes diversas, incluindo agências de notícias, livros de história, a Bíblia – e Deus, como retratado nela – e discursos de figuras políticas e religiosas como o presidente Lyndon B. Johnson, Robert McNamara, o Papa Paulo VI e Adolph Hitler. A partir desse coro unissonante reunido por Ferrari, ele pretende expor a relação discursiva belicosa das atrocidades da invasão ao Vietnã e do nazismo com as narrativas de redenção e punição contidas nos textos sagrados, refletindo, em uma camada mais profunda, sobre a violência exercida pelo Ocidente camuflada pela cumplicidade entre o poder político e religioso.

Palabras Ajenas chegou a ser performada parcialmente em público duas vezes (em 1968, no Arts Lab, Londres, e, em 1972, no Teatro Larrañaga, Buenos Aires), e apenas recentemente passou a ser apresentada em sua versão integral (desde sua leitura em inglês em 2017, no REDCAT, Los Angeles, somente uma performance completa foi realizada no Museo Jumex, na Cidade do México, em 2018), tendo em vista que seu texto original se espalha por 250 páginas e requer, em média, um elenco de 30 leitores. Na Bienal de São Paulo, seria realizada a primeira leitura integral de Palabras Ajenas no Brasil; com as restrições sanitárias impostas pela pandemia, no entanto, a organização teve que adaptar o formato de exposição da obra, optando pela exibição de um trecho, apenas, gravado na ocasião da leitura da colagem literária no REDCAT. Dois documentos, dispostos ao lado do monitor que exibe o vídeo, dão um vislumbre do intrincado processo de transposição da colagem para a leitura, são instruções para os performistas e uma impressão do roteiro técnico, “Ato I: Quem ganha ganha”.

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