"Desenho Infinito", de Jean Paul Ganem. Foto: Divulgação

Com a obra Desenho Infinito, inspirada em um grafismo da tribo Kaingang, o artista franco-tunisiano Jean Paul Ganem faz um cruzamento instigante entre a arte comestível e a cultura indígena brasileira. A certeza cultural é a chave dessa land art, inserida no movimento artístico inspirado no diálogo entre arte e natureza, surgido no final da década de 60.

Ganem mora entre Paris e Montreal, onde tem ateliê, e agora faz intervenção na Fazenda Serrinha, em Bragança Paulista. Para realizar o trabalho ele se aliou à chef e pesquisadora Bel Coelho, especialista em comida brasileira. “A sugestão dela foi a culinária indígena com plantas capazes de compor o desenho da cestaria Kaingang”. O novo se articula nessa invenção, que propõe um passeio pelos “corredores” assentados em um solo permeado de hortaliças, legumes, flores, plantas medicinais e comestíveis. Adentrar nessa vegetação, com topografia irregular e cartografia simétrica, faz você sorrir para si mesmo, acreditando que a vida no campo é algo extraordinário. O contato com essas plantas, algumas estranhas à mesa do habitante da cidade, constrói uma experiência emancipadora, a fusão da natureza com o urbano.

O Desenho Infinito está ligado à regeneração da terra, conecta o olhar contemporâneo do meio ambiente a uma cultura ancestral e tangencia o objetivo que move a Serrinha, dirigida por Fábio Delduque, artista plástico e dono da fazenda. “As plantas usadas nessa obra são desenvolvidas num sistema agro florestal consorciado com várias espécies, ao contrário da monocultura. Há 20 anos tudo aqui era pasto e, antes do gado, meu bisavô plantava café”. Com isso a terra ficou degradada e sua missão ao lado do irmão foi recuperá-la. “Hoje o bioma funciona, atrai pássaros e animais, na contramão do que muitos estão fazendo com a natureza”, comenta. A intervenção na natureza realizada por Ganem é matizada pelas mesmas preocupações. Ele também se envolve com territórios devastados pelas indústrias, pelo homem e por lixões urbanos. Desenho Infinito foi realizado por uma equipe que conta com arquiteto, agrônomo, estudioso de plantas comestíveis e medicinais e com algumas pessoas da fazenda.

Jean Paul Ganem na Serrinha. Foto: Divulgação

A paisagem tem importância fundamental nas utopias rurais. Ganem chegou à Serrinha há quatro anos acompanhado do chef canadense Michael Stadlander, com que já havia feito um trabalho de land art comestível em Montreal. Ele executava a obra e Michael preparava o banquete no próprio local de trabalho, numa performance em movimento concordante. Michael é pioneiro na gastronomia Farm to Table, que negocia diretamente com os pequenos produtores. Cada planta pode se transformar em um prato de forma e sabor especiais pouco conhecidos. Para Ganem, não há cisão entre o homem e a natureza. Trabalhar na terra e deixá-la pronta para o plantio é o mesmo que estar diante de uma folha em branco à espera de uma inspiração.

Razões analógicas sustentam a ideia desse artista querer intervir na paisagem brasileira. Mas como administrar a produção de um site specific desse porte? Ganem comenta que uma intervenção como essa pode demorar meses para ser concluída porque cada vegetal é colhido em períodos diferentes. Delduque lembra que Desenho Infinito começou a ser plantada em março deste ano e foi influenciada pela pandemia e por um calor intenso. “As verduras já foram colhidas por algumas vezes para o consumo da fazenda, outras encaminhadas para a cooperativa de produtos orgânicos e muitas doadas. A obra de Ganem está envolta na ideia de agro floresta, de horta orgânica e obra de arte, tudo ao mesmo tempo.”

Visto em retrospectiva, o artista há três anos realizou a intervenção Espelho d´Água, com um quilometro e meio de desenho sinuoso feito com a planta napier roxo, envolvendo reflorestação. Ele trabalhou um eco sistema coerente, associando uma floresta tropical às terras sinuosas da Serrinha, na parte mais baixa da fazenda. A vista aérea do Espelho d´Água e algumas intervenções de Ganem em outros países estão no livro Un art amoureux de nature, ao lado das obras de Robert Smithson e de outros ícones da land art.

Fazenda da Serrinha vista de cima. Foto: Divulgação

Ganem se inicia na arte pela pintura, atuando na zona rural, nos arredores de Paris. “Nessa região a paisagem se transforma rapidamente, o trigo passa do verde ao marrom escuro em um mês, sendo quase impossível captar essa transformação”. Com o tempo ele migrou para a land art, negociou com fazendeiros, mostrou esboços do que pretendia fazer e garantiu a eles que a colheita não seria prejudicada. “Convenci um deles a trabalhar com três tipos de trigo ao mesmo tempo, transformando suas terras em um imenso campo xadrez. Os agricultores não só produzem alimentos, eles criam imagens incríveis”. A intervenção na paisagem constrói sua audiência no próprio local onde é feita. Ganem acredita que a arte desenvolvida no campo, além do engajamento social é também pedagógica. “Os agricultores percebem a importância da natureza não só para sua plantação, mas também para as urgências ecológicas do presente e do futuro do planeta”. A ligação desses trabalhos com as preocupações sobre as mudanças climáticas, a destruição do solo é evidente e Ganem entende que os artistas têm a obrigação de se envolverem com essas emergências.

Entre suas land arts destacam-se um campo listrado em forma de código de barras, uma estrada sinuosa próxima ao aeroporto Charles de Gaulle em Paris, que se contrapõe às rotas traçadas pela aviação e O Caminho do Rio, feito no Jardim Botânico de São Paulo. O processo criativo dos últimos 20 anos de Ganem é narrado no documentário A Margem da Paisagem, de 52 minutos, dirigido por Eliane Caffé. Hoje seu trabalho integra o Parque das Esculturas da Serrinha, que reúne intervenções e esculturas a céu aberto, de artistas como Michelangelo Pistoletto, Luis Hermano, José Roberto Aguilar, Lucas Bambozzi, Bené Fontelles, Hugo França, Coletivo BijaRi, Fernando Limberger, Marcos Amaro, Laura Gorsky, Stela Barbieri, Eduardo Srur e Fábio Delduque.

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