A idealizadora e diretora da SP-Arte, Fernanda Feitosa. Foto: Divulgação

A poucos dias da abertura do SP-Arte Viewing Room, versão virtual da maior feira de arte do país, a idealizadora e diretora do evento, Fernanda Feitosa, demonstra grande satisfação com a nova plataforma digital que estreia neste 24 de agosto e com as possibilidades que se abrem no universo digital. Afirma não só que o evento virtual veio para ficar – e deverá ocorrer conjuntamente com o presencial nas edições futuras -, como defende que outros viewing rooms poderão ser realizados pela marca ao longo do ano, com diferentes recortes curatoriais.     

Cinco meses após o anúncio do cancelamento, por conta da pandemia de Covid-19, da feira presencial que ocorreria na primeira semana de abril, ela afirma que prefere deixar para trás alguns desentendimentos recentes que envolveram a SP-Arte e um grupo de galerias do país: “Foi um momento de muita complexidade para todos, e isso exigiu um exercício de compreensão e de diálogo muito grande. A incerteza do futuro naquele momento foi também um fator agravante. Foi um momento complicado e reconheço que tivemos dificuldades de comunicação. Discutir questões comerciais em público é sempre difícil”.

Sobre reclamações mais recentes quanto aos valores cobrados para a participação das casas no evento online, ela completa: “O desenvolvimento de um projeto digital como o Viewing Room, com a qualidade e as ferramentas que incluímos, é bastante complexo, demanda tempo e requer vários investimentos em tecnologia. Além disso, o trabalho e equipe necessários para um evento online desta dimensão é quase o mesmo que para um evento presencial”.

O site ao qual ela se refere é a plataforma que abrigará, entre os dias 24 e 30, os espaços dos 136 expositores – entre galerias de arte, design e publicações – nacionais e estrangeiros. Cada um deles montará uma espécie de exposição e contará, para além de fotos e textos, com recursos de vídeo e áudio. Um diferencial em relação à outras feiras, segundo Feitosa, é a tentativa de aproximar ainda mais o evento da linguagem dinâmica e direta da internet, sem necessidade de cadastramento dos visitantes, com transparência nos preços das obras e facilidade no contato entre compradores e galerias.

Como já é usual no evento presencial, haverá também uma programação de visitas guiadas à exposições e ateliês, agora de modo virtual, além de debates e lives organizados pela feira e pelas galerias (veja aqui). Em conversa com a arte!brasileiros, Feitosa falou ainda sobre as dificuldades vividas com a crise, mas também sobre a resiliência do mercado de arte. Leia abaixo a íntegra.

ARTE! – Essa é a primeira edição online da SP-Arte, que segue uma tendência global das feiras de arte após a pandemia de Covid-19. Queria começar perguntando como você enxerga esse momento e como foi esse processo que culminou no lançamento do SP-Arte Viewing Room.

Acho que foi um movimento relativamente rápido, no mundo todo, em que o mercado de arte se reestruturou. E após o cancelamento da feira presencial nós rapidamente nos mobilizamos para fazer a versão online. E eu diria que isso já estava mais ou menos engatilhado, porque a gente já tinha entendido que ir para o digital era um movimento importantíssimo que a SP-Arte teria que fazer. Ou seja, que mesmo os eventos presenciais – SP-Arte e SP-Foto – teriam que estar interconectados com a atuação digital ao longo do ano.

ARTE! – O lançamento da plataforma SP-Arte 365, em 2019, já era um movimento nesse sentido?

Sim. Nós já temos um profissional de marketing digital trabalhando conosco desde o ano passado, ajudando com essa parte de inteligência, de comunicação com o público. No ano passado já havíamos também feito uma série de conversas com as galerias de São Paulo e de fora sobre esse cuidado e atenção com o digital. Já era uma coisa que a gente vinha prestando muita atenção, puxando as galerias para que embarcassem também nesse modo, abraçassem o digital como um reforço nas suas atividades. E quando fizemos a 365 já foi uma evolução do próprio site. E da 365 para o Viewing Room é um pulo. Digamos que não é um pulo fácil, já que há toda uma complexidade de tecnologia e programação. Mas já tínhamos também um web developer (desenvolvedor web) na equipe desde 2019 justamente para agilizar o nosso próprio processo de digitalização dinâmica. Porque é um exercício diário. Então essa transição para o Viewing Room foi natural. Agora, a 365 funciona como um catálogo online permanente das galerias expositoras da SP-Arte, mas que ainda não tinha nele uma curadoria, um projeto forte de comunicação com o público nesse sentido da feira. O Viewing Room, então, é de certa forma uma fusão da 365 com o nosso Editorial (parte do site dedicada à produção de conteúdo). Porque ele é também um projeto editorial, em que cada galeria é participante com uma exposição. Então foi trabalhoso, mas foi um processo natural.

ARTE! – E como vai funcionar?

Cada expositor é convidado a criar uma exposição, um projeto, em sua página. Não tentando copiar uma mostra presencial, mas estamos propondo que as galerias façam uso das ferramentas tecnológicas para se comunicar com o público da melhor forma possível, dentro de uma linguagem da internet. Então se na 365 só havia fotos das obras e os preços, agora o expositor pode ter também texto, áudio e vídeo associados a cada obra. E eu diria que acessibilidade é a palavra-chave do evento. A facilidade de conexão entre o visitante e o expositor foi algo que levamos muito a sério. Todo visitante que quiser contatar a galeria pode fazê-lo por e-mail, por chat ou por WhatsApp, que é uma ferramenta muito poderosa hoje. E a gente busca estar sintonizado com o modo usual de comunicação das pessoas. E o outro ponto é a transparência. Nós fizemos a proposta a todos os expositores para que coloquem no site o preço das obras, ou ao menos a faixa de preço. Porque o comportamento do usuário da internet é esse, buscar informações claras e diretas, ter uma comunicação fácil. E acho que isso melhora muito a qualidade do contato entre o possível comprador e a galeria. Se o visitante já sabe que o preço está dentro de suas possibilidades, seu contato é muito mais assertivo, tem muito mais chances de dar certo.

ARTE! – A SP-Arte acontece após a realização já de uma série de outras feiras virtuais no Brasil e no mundo. Esse tempo ajudou na construção de uma plataforma mais interessante, no desenvolvimento de ferramentas mais práticas de navegação e venda?

Claro. A gente tem sempre que fazer uso das experiências anteriores a seu favor, para aprender tanto com os acertos quanto com os erros dos que te precedem. E por isso vimos que era importante oferecer às galerias essa oportunidade de falar com o público utilizando texto, áudio e vídeo como recursos que são complementares. Além disso, a SP-Arte online é aberta ao público em geral, sem necessidade de cadastro, pré-senha, sem público VIP com acesso antecipado. Porque nós achamos que o ambiente online é, por natureza, acessível, democrático. E quanto mais fácil for o acesso, melhor. Essa é a linguagem da internet.

Trecho do vídeo de divulgação da feira, que simula como será a plataforma. Foto: Reprodução


ARTE!
 – Isso pode trazer também um público que não é comprador, mas apenas que quer ver arte, como acontecia na feira presencial?

Exatamente. Claro que o objetivo é que as pessoas comprem arte. Mas acho que é interessante construir o seu público, que inclusive pode não ser comprador agora, mas sim daqui a alguns anos. E na SP-Arte presencial a maior parte das pessoas não ia para comprar, mas para ver arte. Porque aquilo também é uma enorme exposição, sem dúvida.

ARTE! – Sobre a escolha de obras apresentadas, muitos galeristas tem comentado que é um momento bom para vender trabalhos de valores mais baixos ou intermediários, até por conta de um novo público que vem com a internet. Você acha que isso deve alterar o tipo de trabalho que será apresentado, em relação às feiras presenciais?

Eu acho que cada galeria tem o seu posicionamento e vai adotar uma estratégia compatível com o momento. E evidentemente não estamos vivendo um momento em que todos vão colocar suas obras mais caras. Considerando ainda que é um evento online, com potencial de um alcance de público muito maior do que o evento físico, acho que as galerias vão levar suas obras de maior qualidade, mas fazendo um mix de preços. Agora, é fato também que na SP-Arte do ano passado, e esse dado é interessante, 57% das obras vendidas estavam abaixo de R$ 50 mil. Então acho que talvez o comportamento não seja tão diferente.

ARTE! –  Mesmo que ainda não tenhamos os resultados do evento, queria saber como você imagina esse formato de feiras virtuais daqui para a frente. Acha que é algo que veio para ficar?

Eu vejo isso com muita positividade. Veja bem, na feira presencial nós temos cerca de 35 mil pessoas na SP-Arte e 15 mil pessoas na SP-Foto. Ou seja, 50 mil pessoas vão aos nossos eventos presenciais no ano. E são cerca de 40 mil visitas ao site por mês. Inclusive porque o online está disponível 24 horas por dia, 365 dias por ano, sem necessidade de deslocamento, enquanto uma feira acontece durante alguns dias, algumas horas por dia, em determinado local. Então olha o potencial que temos nas mãos, de ter um alcance maior e mais globalizado. Penso também que ainda que a SP-Arte seja um evento internacional, é impossível que uma feira de arte presencial no Brasil, México ou Argentina tenha o alcance e a performance de uma feira que está na Europa ou nos EUA. O número de visitantes do exterior é sempre menor, naturalmente. Porém, agora você tem o mundo inteiro podendo visitar a SP-Arte online sem ter que sair de casa.

ARTE! – Muitos galeristas falam de um esgotamento de um modelo que existia em que é preciso viajar incessantemente ao longo do ano para feiras no mundo todo. É caro, cansativo, algo que estava se tronando inviável.

Sim, é interessante ver, também, que quando eu comecei a SP-Arte, abril era um mês tranquilo, que não tinha nada, não competia com outras feiras. Nesses últimos anos a gente passa a ter, mais ou menos na mesma época, feiras em Nova York, em Hong Kong, sem contar dezenas de outras que surgiram ao longo do ano. Quer dizer, não dá nem para os galeristas nem para os colecionadores viajarem tanto. E a logística virou o grande gargalo. O custo do estande, mais o transporte de obras, de gente etc. Então eu acho que isso ia asfixiar os expositores alguma hora, não tinha jeito.

ARTE! – Voltando a falar um pouco do processo todo até chegar no SP-Arte Viewing Room, nos últimos meses surgiram duas polêmicas, ou desentendimentos, que envolveram a feira. Eu gostaria de perguntar qual a sua percepção sobre elas. Em primeiro lugar, em relação à devolução ou não da totalidade do valor que já havia sido pago pelas galerias à feira, quando ela foi cancelada…

Para todos nós, a decretação, ou o reconhecimento, de que estávamos diante de uma pandemia, e que isso punha em risco todo o mundo, isso é um susto grande. E, no nosso meio cultural, sem dúvida foi um susto para todos que empreendem, que têm um negócio. Todos nós tínhamos uma programação de um trabalho a ser feito, tínhamos um comprometimento de um trabalho a ser entregue, eventualmente com vendas efetuadas e pagamentos recebidos. Lidar com a complexidade que é simplesmente dar um cavalo de pau, puxar o freio de mão e parar tudo não é simples. Então como fazer com o que você tinha que pagar, já que você não recebe o que esperava receber? E o mundo todo ficou nessa situação, claro que em contextos diversos. Mas foi um momento de muita complexidade para todos, e isso exigiu um exercício de compreensão e de diálogo muito grande. A incerteza do futuro naquele momento foi também um fator agravante. Foi um momento complicado e reconheço que tivemos dificuldades de comunicação. Discutir questões comerciais em público é sempre difícil. Enfim, o fato é que nós fomos o único evento deste tipo que foi cancelado na véspera da realização. Fomos pegos no pior momento possível, porque eu alugo um espaço, contrato a produção, o montador e assim por diante. Há uma rede de fornecedores com quem a gente trabalha e tudo isso já havia sido pago, ou na totalidade ou parcialmente. Por sorte, com o prédio da Bienal nós conseguimos, por conta do contrato, deixar o valor que já estava pago como crédito para o ano que vem.

ARTE! – Mas no fim o dinheiro acabou sendo devolvido na íntegra às galerias.

Sim. Porque de qualquer modo são meus clientes e parceiros de muitos anos e acho que foi importante sinalizar que o nosso comprometimento é tamanho que coloca em risco a própria saúde financeira da SP-Arte. E a vida segue, estamos juntos novamente em mais um projeto importante para todos e vamos nos reerguer.

ARTE! – A outra questão que surgiu, mais recente, foi uma reclamação em relação aos custos de participação na feira e ao percentual cobrado nas vendas de obras. Galeristas disseram que isso não havia sido feito pelas outras feiras virtuais até o momento…

O desenvolvimento de um projeto digital como o Viewing Room, com a qualidade e as ferramentas que incluímos, é bastante complexo, demanda tempo e requer vários investimentos em tecnologia e desenvolvimento, como por exemplo “duplicar” o site em outro servidor, investir em aumento de capacidade e velocidade para sustentar picos de visitação, criar ferramentas de inteligência de dados e navegabilidade, design, apenas para citar alguns. Isso custa caro. Neste novo formato, o modelo de precificação comercial também acaba tendo que ser diferente do modelo tradicional de venda de espaço cobrado por m2. Além disso, o trabalho e equipe necessários para um evento online desta dimensão é quase o mesmo que para um evento presencial. Eu desconheço a estratégia comercial de outras feiras do exterior e por isso não gostaria de opinar, mas essa é a que adotamos na SP-Arte.

ARTE! – Ao fim, apesar dos desentendimentos, são 136 expositores que participam da feira. É um bom número?

Sim, temos 136 expositores participando, então acredito que esse estranhamento inicial foi superado. Porque acho que percebem também que há uma diferença muito grande entre plataformas digitais em que você paga 150 dólares e compra apenas uma página modelo, com um layout, onde coloca suas obras com um texto – o que é algo mais próximo a uma página de anúncio – e isso é muito diferente do que a SP-Arte está fazendo quando oferece o Viewing Room. Estamos oferecendo um evento digital que traz uma marca, uma plataforma sofisticada, um editorial comprometido, um mailing qualificado, uma rede de mais de 160 mil seguidores, uma força na imprensa, anúncios da feira na mídia e assim por diante. Isso tudo está a serviço do evento, das galerias.

ARTE! – Falando um pouco sobre o contexto político e econômico, vivemos um momento muito conturbado, com muitos negócios fechando, muita gente desempregada, com a economia muito fragilizada. Surpreendentemente o mercado de arte, após um baque inicial com a pandemia, parece ter se recuperado. Os galeristas dizem que seguem vendendo, algumas feiras tiveram bons resultados. A que você acha que se deve esse bom resultado?

Essa é uma crise de uma gravidade e de uma seriedade sem precedentes. Então não dá para achar que nenhuma área do mercado – mesmo de luxo ou de investimentos – vai passar imune a uma crise como essa. Mas o mercado de arte, na minha opinião, tem uma característica específica, porque ele é uma reserva de valor. Então numa situação de crise as pessoas que dispõem de recursos acabam buscando investi-los em ativos nos quais elas veem alguma estabilidade, uma possibilidade de preservação do valor. E a arte entra nessa categoria. Então comprar uma obra de um bom artista moderno ou contemporâneo pode significar estar relativamente protegido dessas crises. Um Volpi sempre será um Volpi, por exemplo. Sempre será um ativo ao qual você pode recorrer. E de modo geral o mercado de arte é muito resiliente. Historicamente costuma ser o último a ser afetado e, ao mesmo tempo, um dos primeiros a se recuperar. Mas não é imune, claro. E, além disso, acho que as galerias foram muito ativas, buscaram se comunicar com mais gente, surgiram parcerias entre as galerias, como o p.art.ilha. Vi também alguns tipos de promoções convidativas, por exemplo, então acho que as casas criaram essas dinâmicas que incentivaram as vendas. Na nossa página online da SP-Arte, por exemplo, o espaço era 70% editorial e 30% comercial. Depois da pandemia nós invertemos isso, também como uma forma de criar mais oportunidades de negócio. Do mesmo modo, intensificamos o envio de newsletters, que se tornaram também um pouco mais comerciais. E nelas tivemos um aumento de 126% de cliques em “contatar galerias”.

ARTE! – Por fim, você disse que a feira de 2021 já tem data confirmada, no mês de abril?

Sim, eu sou otimista de que no ano que vem nós vamos poder fazer a feira presencial em abril, funcionando dentro das normas de segurança, provavelmente com controle de público. Mas ela vai existir concomitantemente ao Viewing Room da SP-Arte. Ou seja, com uma exposição feita nas paredes, na Bienal, e uma exposição feita também no online para um público do mundo todo, para quem não vai visitar o pavilhão. E dando um passo adiante, acho que se abre para nós a possibilidade de fazer tantos viewing rooms quanto a gente achar necessário, em outras datas também, com novos recortes curatoriais, por exemplo. Acho que tem muitas possibilidades abertas. Quanto às palestras também, talvez a gente possa alcançar muito mais gente com o virtual.     

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