* Por Miriam Chnaiderman
O nome da exposição Registros/Records é significativo. Traz registros, rastros, marcas, fissuras…
No corpo, as marcas de bisturis e violações autorizadas e até desejadas. Assim é Nazareth. Seu corpo expressa um mundo onde sobreviver é imperativo categórico. Sua obra é a expressão dessa força de vida.
Essa exposição acompanhou o lançamento de um livro que reúne a obra de Nazareth e textos que marcaram suas exposições. É uma exposição que carregou a história de uma vida de criação. Ou a criação como possibilidade única de vida.
Intervenções cirúrgicas sucessivas para corrigir defeitos congênitos foram necessárias desde o seu nascimento. Em outras exposições, as marcas no corpo tornaram-se obras impactantes, sedutoras. Os vestidos construídos com lâminas cortantes e giletes afastam e fascinam. O jogo entre o impenetrável (referência clara a Hélio Oiticica) e o erótico impossível foi tema constante. A questão do corpo feminino sempre foi tema para Nazareth. Na última exposição, o tema é o luto de seus pais, mortos há cinco anos. A capacidade de elaborar dores tão atrozes através de sua linda produção comove.
Escrevi o texto do catálogo de sua exposição de 2003 na Galeria Brito Cimino, quando fiz o documentário “Gilete Azul”. Nessa exposição um imenso cortinado de giletes e navalhas rodeava a cama de acrílico. Agora, nessa exposição, os cortinados são feitos das radiografias que seus pais fizeram no decorrer do câncer que cada um viveu, com pouquíssima diferença de tempo. Foi quando os irmãos levavam as cinzas da mãe para Paris que souberam que o pai apresentava sintomas já avançados de um câncer. Nazareth conta sobre como era ligada ao pai. Na exposição na galeria Kogan Amaro, os instrumentos de trabalho de seu pai – que era neurologista – tornam-se esculturas de bronze. Homenagem tocante onde os gestos de um pai são eternizados. Como em todas as suas exposições, aqui também existe a presença de seu corpo: uma sequência de fotos que acompanham a plástica que fez ocupa uma das paredes da galeria. Em Nazareth há um constante renascer. Em outra parede, a carta que um cirurgião escocês escreveu a seu pai sobre o que deveria ser feito, Nazareth ainda pequena. Uma corrente é construída com as pulseirinhas que Nazareth usou nesse percurso pelos médicos. Alma sensível violentada pelas intervenções necessárias, agora Nazareth escolheu cuidar de seu rosto. Essa força de vida me encantou desde que a conheci.
Foi o que me levou a fazer o documentário “Gilete Azul”.
Trago aqui uma pequena amostragem do texto que está no livro que foi lançado na exposição Registros/ Records.:
* Miriam Chnaiderman é psicanalista e cineasta, produziu o documentário Gilete Azul, confira:
Inventando corpos e/ou desvelando o erótico em inquietante devassidão: o encantamento dolorido






