"Retiro de Caça ou um Outro Capelobo", 2019, de Gê Viana. Fotos: Karina Bacci

Como anunciado pela curadora Júlia Rebouças em entrevista para a edição 47 da ARTE!Brasileiros, o sertão sobre o qual o 36º Panorama da Arte Brasileira se debruça não é o lugar geográfico, mas sim um “modo de pensar e agir”. Com a abertura da exposição ao público em 17 de agosto, é certo que nem tudo está ou nem tudo chega em São Paulo: “É uma coisa que esse Panorama fala. Nem tudo está concentrado aqui, nem toda a inteligência está nesse lugar, nem toda a riqueza. Existe muita inteligência e muita sofisticação que a gente não vê”, ela declara em conversa durante a montagem da exposição.

Júlia optou por pedir que a expografia, feita em parceria com o Estúdio Risco, fosse mais aberta, exercitando a ideia do que seria um espaço público ou um espaço compartilhado entre todos os artistas: “Ou mesmo uma paisagem, mas não uma sala fechada ou um lugar privado”, ela explica. A curadora diz que a intenção é que o público possa ver vários trabalhos ao mesmo tempo e refletir sobre como eles se relacionam entre si. “Queria que as coisas tivessem que conviver, seja de forma harmônica ou mais conflituosa.”

Os trabalhos presentes na mostra convidam o público a ir para longe, sendo que dois o fazem literalmente. A artista Raquel Versieux, nascida em Belo Horizonte e radicada atualmente no Ceará, propõe que o público vá para o Cariri cearense. Ela apresenta o projeto Manejo Movente, realizado em colaboração com Elis Rigoni. A intenção é reunir o público em encontros junto a artistas, agricultores, estudantes e lideranças locais para a realização de práticas da terra, práticas sociais e práticas da imagem. Os encontros acontecem em quatro momentos: sendo três na região do Cariri e um último em São Paulo, no MAM, todos em finais de semana.

“My Life in a Bush of Ghosts”, 2012, de Luciana Magno

A obra da dupla catarinense Gabi Bresola e Mariana Berta leva quem se dispor a ir à cidade de Joaçaba, no interior de Santa Catarina, para participar o baile do Surungo, também título do trabalho das artistas. Elas oferecem ao público uma passagem de 14h de viagem de ônibus para o local na margem do Rio do Peixe para que os interessados se entreguem à experiência do baile do Surungo. “O nosso centro é outro”, Mariana escreve, “é para esse circuito de arte que decidimos apontar, porque não poderia ser diferente”.

Veterano entre os 29 artistas e coletivos que participam do Panorama, Gervane de Paula, natural de Cuiabá, apresenta três obras na exposição: Deus Ápis, suas esposas e seu rebanho ou O Mundo Animal (2016-2019), conjunto de esculturas em madeira, chifres e artesanato; Arte, Não Invente (2016); e Arte Aqui Eu Mato (2016), ambas pinturas à óleo sobre chapa de ferro. Esta última, capa desta edição da revista ARTE!Brasileiros. O título da obra é um trocadilho com o nome do livro da crítica de arte mato-grossense Aline Figueiredo, Arte aqui é mato, lançado em 1990. “Cuiabá, apesar de ser uma cidade bastante afastada dos grandes centros, tem um movimento forte de arte, principalmente de pintores. E esse livro dela fala dessa abundância de artistas”, ele conta. Mas, ao mesmo tempo, o artista percebeu o que ele chama de “uma decadência”: “Uma arte que é produzida e não tem ressonância, não tem público, seus autores vivem cheios de privações e, por estar fechada, ela é muito resistente ao novo. Arte Aqui Eu Mato também pode ser a mão do presidente, apontando uma arma para a arte, para nós, não é?”, ele questiona.

Gervane utiliza materiais característicos da região onde nasceu e mora, como arame farpado e a madeira dos mourões de curral. “Essa madeira vem com uma carga do tempo, uma carga poética, porque são mourões que estão lá há mais de 10 anos sofrendo as transformações do tempo. Eu não derrubo árvore para fazer as minhas obras. Eu recolho esse material antigo”, explica.

A videoinstalação Desaquenda (2016-2019), da artista Vulcanica Pokaropa, apresenta 12 canais com depoimentos de pessoas travestis, transexuais e não-binárias que atuam nas artes. A obra discute o posicionamento dessas pessoas nos espaços institucionais e a sua atuação em espaços não marginalizados. Além da série de vídeos, a obra também é composta por pinturas e impressões sobre lona. Nos depoimentos, participam artistas como Lyz Parayzo, Rosa Luz (também participante do Panorama) e Jota Mombaça.

Com origem em Ceilândia, no Distrito Federal, o artista Antônio Obá leva ao Panorama quatro pinturas, uma maior, intitulada Mama (2019), na qual uma mulher negra segura dois felinos num gesto maternal, propondo uma reflexão sobre a identidade do país, e uma série de três outras pinturas menores que remetem ao corpo negro e às tradições, aproximando-se também de um contexto religioso. Já a artista Gê Viana, natural do Maranhão, expõe três fotografias impressas como lambes e fixadas em enormes lonas penduradas ao teto. Retiro de caça ou um outro capelobo (2019), como a obra é intitulada, vem, segundo a artista, “da necessidade de falar sobre as coisas que aconteceram com nossos povos retirados do seu lugar de origem”. Ela conta que quando perguntou a uma de suas avós se a família tinha uma origem indígena a resposta foi: “A minha mãe era braba. Foi pega no mato”. A partir daí, Gê passou a questionar a história de algumas famílias nas quais a constituição se deu por meio de violências, como o aprisionamento e o estupro.

Por mais que os variados suportes, temáticas ou formatos das obras que compõem o 36º Panorama possam fazer pensar que elas se afastam uma da outa, é preciso estar atento a uma característica forte entre os 29 artistas e coletivos participantes: são pessoas que, como diz Gervane, escolheram assumir a sua região.

36º Panorama da Arte Brasileira – Sertão
Até 15 de novembro
Museu de Arte Moderna (MAM) – Av. Pedro Alvares Cabral, s/nº – Parque Ibirapuera

 

 

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