Ateliê de Gisele Camargo na Serra do Cipó
Ateliê de Gisele Camargo na Serra do Cipó

Cercada por cachoeiras, cânions, formações rochosas e espécies endêmicas do cerrado, Gisele Camargo foi convidada pela paisagem a refletir sobre os fundamentos da pintura. A artista carioca, nascida em 1970, mudou-se para a Serra do Cipó, nas proximidades de Belo Horizonte, e ali instalou um ateliê que funciona também como residência artística e espaço de pesquisa interdisciplinar. O trabalho que nasceu dessa imersão está na Mitre Galeria, em São Paulo, na individual “candeia”, com texto curatorial de Miguel A. López, em cartaz até 3 de outubro.

Gisele Camargo. Foto: Ícaro Moreno

A mostra desdobra duas linhas de investigação que vêm convergindo ao longo dos últimos anos na pesquisa de Camargo: a materialidade da cor e as forças intangíveis que conectam os corpos celestes à vida terrestre. A artista aborda a Serra do Cipó como um sistema de forças e condições que tornam a percepção possível. “Seu interesse deslocou-se gradualmente da representação para a investigação das próprias condições sob as quais ver, sentir e conhecer se tornam possíveis”, escreve López.

Nas duas extremidades da galeria, dois polípticos de grande escala ocupam posições opostas: Lua Cheia e Lua Nova. Cada um traduz, por meio de delicadas gradações tonais e sequências cromáticas moduladas, as variações de luz associadas a dois momentos opostos do ciclo lunar. A Lua Nova, quando a lua se posiciona entre a Terra e o Sol, tornando-se praticamente invisível, é dominada pela escuridão. A Lua Cheia, quando a Terra se encontra entre o Sol e a Lua, responde com uma luminosidade intensa. Os polípticos são construídos como grades de círculos suspensos sobre fundos planos, e sua escala monumental introduz uma dimensão que remete à magnitude das forças associadas à lua e ao seu papel na estruturação dos ritmos do mundo vivo.

A escolha da lua se deve ao fato de que ela representa o corpo celeste que acompanhou Camargo em sua experiência cotidiana na Serra do Cipó, tornando-se parte de sua vivência naquele território. Para López, a artista se posiciona num espaço em que, “mais do que observar uma paisagem, ela se dedica a uma densa rede de relações e interdependências“.

Na maior parede da galeria, posicionada entre os dois polípticos, quatro pinturas de médio formato apresentam formas sinuosas e ondulantes que emergem sobre fundos escurecidos. López as descreve como “forma-seres”: silhuetas que podem ser vegetais, correntes de água, sementes, sombras animais, campos magnéticos ou fenômenos atmosféricos. O interesse de Camargo está fora dessa classificação, ela se atrai pela presença de forças que escapam à determinação linguística.

Para o curador, a cor na pintura de Camargo “de ser um atributo estável e passa a constituir um acontecimento: uma vibração instável que oscila entre a experiência sensorial, a observação científica e a especulação poética. É precisamente nessa instabilidade que Camargo situa sua prática”.

De Erosões a candeia: do geológico ao astral

A exposição prolonga e reconfigura um vocabulário visual que Camargo vem construindo ao longo de sua trajetória. Sua produção se estrutura em séries que investigam tanto o repertório geométrico da cidade — planos definidos, linhas rígidas, estruturas brutalistas — quanto a instabilidade da natureza, especialmente a partir de sua imersão no cerrado mineiro.

Em “Erosões” (2019), na Central Galeria, a artista dirigiu sua atenção aos processos geológicos que modelam a superfície terrestre: rochas, sedimentos e os vestígios deixados pela chuva, pelo vento e pela erosão apareciam como inscrições materiais do tempo. Em “candeia”, o movimento é de dilatação. Do geológico ao astral, da matéria erodida às forças gravitacionais e luminosas, das camadas do solo às configurações cíclicas que excedem a temporalidade humana. “Camargo não pinta apenas aquilo que vemos, mas as condições que tornam o ver possível”, conclui López.

Um ateliê que é também residência e, no futuro, instituto

O ateliê na Serra do Cipó extrapola o espaço individual de criação. O projeto prevê uma residência multidisciplinar concebida para receber artistas, biólogos, botânicos, brigadistas de incêndio do cerrado, astrônomos e pesquisadores de diferentes campos em imersão real no território. “O que eu quero é que isso gere uma troca de conhecimentos, de saberes, de interesses”, explica Camargo. A longo prazo, a artista planeja constituir um instituto voltado ao estudo do meio ambiente da região, um espaço que, nas suas palavras, “possa eternamente receber essas pessoas e devolver algo ao próprio lugar”.

“Acredito que o artista contemporâneo tem uma função com a sociedade e com a humanidade”, afirma. “Faz parte do meu próprio trabalho poder fazer algo físico nesse sentido: conseguir trazer outras pessoas para vivenciar este lugar que eu amo tanto.”

Ateliê de Gisele Camargo na Serra do Cipó
Ateliê de Gisele Camargo na Serra do Cipó
A Mitre Galeria

A Mitre Galeria foi fundada em 2023 por Rodrigo Mitre, em Belo Horizonte, e inaugurou sua sede paulistana na Rua da Consolação em 2025. Em pouco tempo, acumulou reconhecimentos: recebeu o Focus Stand Prize na Frieze New York em 2025, com projeto individual de Luana Vitra — que também se destacou na 35ª Bienal de São Paulo —, e teve obras de seus artistas adquiridas pelo Dallas Museum of Art (Wallace Pato, 2025) e pela Phillips Collection de Washington (Diego Mouro, 2026). A galeria representa artistas de diferentes gerações e origens, entre eles Luana Vitra, davi de jesus do nascimento, Marcos Siqueira e a própria Gisele Camargo, e mantém participação em feiras como Frieze New York, EXPO Chicago e SP-Arte.

SERVIÇO

candeia — Gisele Camargo
Texto curatorial: Miguel A. López
Mitre Galeria São Paulo — Rua da Consolação, 2761, Jardins, São Paulo
Em cartaz até 3 de outubro de 2026
Terça a sexta, 10h–19h | Sábado, 11h–17h
Entrada gratuita


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