Melania Olcina Yuguero, "Homo". FOTO: Juan Carlos Toledo

Quando foi criada pela galeria Vermelho, em 2005, a Verbo: Mostra de Performance e Arte surgiu muito mais como resposta à uma demanda dos artistas da casa do que como proposta de ser uma grande plataforma para as artes performáticas no Brasil. “A galeria tinha apenas três anos, com muitos jovens artistas saídos de cursos de arte como o da FAAP, e a performance era para eles uma das ferramentas de experimentação e de exercício”, explica Marcos Gallon, diretor artístico da mostra. “Como a coabitação entre a performance e uma exposição tradicional de artes visuais é um pouco complicada, a Verbo surgiu para proporcionar esse espaço de experimentação e de apresentação pública das ações.”

O fato é que ao longo de 15 anos de existência a Verbo expandiu sua atuação, criou parcerias institucionais, estabeleceu um sistema de chamada aberta para artistas, recebeu centenas de participantes de diversos países e se consolidou como evento de grande relevância na agenda artística do país. Em sua 15a edição, que acontece entre os dias 9 e 18 de julho em São Paulo e em São Luís do Maranhão, a Verbo apresenta 41 projetos de artistas de 11 países, com ações ao vivo, vídeos e filmes.

Na verdade, mesmo surgindo “de dentro para fora”, como afirma Gallon, como necessidade interna da galeria, a Verbo não deixava de estar conectada com um movimento mais amplo de iniciativas de investigação da expressão corporal, como a bienal PERFORMA e a mostra Seven Easy Pieces, de Marina Abramovic, ambas realizadas na mesma época em Nova York. Atenta às transformações nas linguagens artísticas e à crescente multidisciplinariedade nas artes visuais, a Verbo buscou imprimir em suas trajetória um “alargamento do conceito de performance em relação ao que tínhamos nos anos 1960 e 1970”, como explica Gallon.

“Trouxemos para dentro da plataforma a dinâmica da dança, a questão da reencenação – não apenas a performance que acontece somente uma vez –, o vídeo, produções de literatura e livros de artista”, conta o diretor. No recorte da atual edição, que teve projetos selecionados por Gallon e pela curadora Samantha Moreira, estão trabalhos com diferentes linguagens, muitos deles com temáticas referentes à questões de gênero ou raciais (veja a programação completa aqui).

Lolo y Lauti & Rodrigo Moraes, “Carmem”. FOTO: Divulgação

Para Gallon, é perceptível ainda um reflexo da edição de 2018, que em resposta ao conturbado contexto político vivido no Brasil foi a única até hoje com temáticas pré-estabelecidas, com projetos criados a partir de palavras-chave como censura, corrupção endêmica, desobediência civil, ditadura, Estado de direito e Estado de exceção, extremismo religioso, pós-feminismo, gênero LGBTQI, manipulação da notícia, polícia, pós-verdade e racismo.

Nesta edição de 2019, a primeira da Verbo sob um governo de extrema direita – que já travou diversos embates com a classe artística –, “surgem questões que refletem o momento atual, mas guardam uma característica de afeto”, como explica Gallon. “Acho que tudo que está acontecendo é muito perverso porque parece querer congelar as pessoas e deixa-las presas dentro de casa, olhando para o computador. E o que eu vejo nesse projeto é essa necessidade de colaboração, de participação. Também uma necessidade de se proteger, porque quando estamos juntos a gente está mais forte. E acho que dá para perceber que as pessoas precisam se encontrar, fazer coisas juntas.”

Como explica o diretor, sendo uma das linguagens artísticas menos incorporadas aos circuitos institucionais e mercadológicos – até mesmo por certa dificuldade de ser inserida em exposições e coleções –, a performance mantém uma potência política que muito pode incomodar os “defensores da moral e dos bons costumes”, como ficou claro com as reações violentas aos trabalhos de Dora Smék, na 13a Verbo, e de Wagner Schwartz, no MAM, ambos em 2017.

“O corpo é subversivo, e todo corpo público é político. E é isso que esses caras não querem, não querem tornar esse corpo público. Quando o cara sai de casa e cria uma ação, ele deixa a passividade privada, isolada, e passa a ser esse corpo político. E é isso que não querem quando criticam o Wagner Schwartz e outros artistas”, diz ele.

Realizada em três espaços na cidade de São Paulo – Galeria Vermelho entre os dias 9 e 13; CCSP nos dias 12 e 13; e Contemporão SP no dia 13 – a Verbo tem como grande novidade a realização de um braço do evento na cidade de São Luís, em um desenvolvimento de parceria iniciada em 2018 com o espaço Chão SLZ. “São Luís tem um sistema de arte ainda bastante frágil e a performance que vem de lá tem um vigor, uma energia ancestral que é de uma potência muito grande. Acho que essa parceria vai contribuir muito também para trazer novos elementos para a Verbo daqui, vai transformar a Verbo de São Paulo”, conclui Gallon.

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