De longe, se vê quadros. De perto, o olhar embaralha tudo e o que parecia pintado é feito com dominós, dados, peças de quebra-cabeça e pequenos azulejos retirados de paredes em ruínas. José Patrício não esconde a origem desses materiais. É justamente quando os reconhecemos que a imagem começa a mudar.

O artista pernambucano abre Juegos y otras construcciones na NG Art Gallery, no Panamá, com curadoria de Gerardo Mosquera. O título da exposição sugere duas ações recorrentes na obra de Patrício: jogar e construir. Uma pressupõe regras, mas admite o imprevisto. A outra pede controle, embora não se livre inteiramente do acaso.

Geralmente, uma peça de dominó confronta-se com outras peças. Um dado existe para ser lançado, no entanto, nas mãos de Patrício, deixa de cumprir essa função e integra sequências, ritmos e superfícies. O artista subverte o jogo para começar um outro, o da arte. A afirmação contém uma inversão: aquilo que deveria produzir resultado incerto pode agora compor uma ordem. O que parece obedecer a uma ordem às vezes surpreende o próprio artista.

José Patrício, Circuito tonal V, 2019

Gerardo Mosquera, crítico, teórico, historiador, Adjunt Curator do New Museum de Nova York, (1995 a 2009) destaca que “no trabalho de Patrício objetos bidimensionais, entendidos como quadros, são capazes de criar efeitos associados à pintura, como claro-escuro, gradações tonais e desenhos geométricos.” Ao mesmo tempo, ali não há tinta desempenhando o papel principal. A pergunta sobre ser ou não pintura interessa menos como disputa de classificação do que pelo desconcerto que provoca. Patrício leva o olhar a aceitar uma imagem para, logo depois, mostrar de que ela é feita. E surpreende até curadores experimentados.

Patrício lembra que sua relação com Mosquera começou no 28º Panorama da Arte Brasileira, no MAM/SP, em 2003, quando ele foi convidado a expor na mostra. A virada internacional do evento foi nessa edição com a curadoria de Gerardo Mosquera, quando a exposição deixou de ser exclusivamente nacional e passou a operar em diálogo internacional. A mostra teve um subtítulo pela primeira vez: “(desarrumado) 19 Desarranjos” o que Mosquera chamou de um “Panorama antipanorama”. Depois de São Paulo, a exposição fez itinerância em várias cidades brasileiras e no Museu de Arte Contemporânea de Vigo (MARCO), na Espanha, em 2005.

Em seu texto curatorial para o Panamá, Mosquera recorre à palavra grega pharmakon, que pode significar remédio e veneno. É uma maneira de pensar algo que sustenta sentidos aparentemente opostos. A aproximação pode ser deixada de lado por um instante. Diante dessas obras, percebe-se que a pintura continua presente mesmo quando seus materiais habituais saem de cena. “Não como técnica, mas como um modo de organizar luz, cor e espaço diante dos olhos”, diz Mosquera.

O uso da matemática trouxe a Patrício a definição, lembrada por Mosquera a partir de Paulo Herkenhoff, que o nomeou como Artista do Número.  Parece que o crítico não exagerou. “Quando eu concebo uma obra, geralmente a primeira coisa que vem em mente é uma fórmula matemática, que determina o resultado. Então, muitas vezes eu nem sei o que vai resultar, mas eu aposto, faço o jogo da arte e o da matemática, que me dão resultados satisfatórios”, garante. Fórmulas e séries ajudam a estabelecer relações entre as peças, mas o que fica na memória é também a vibração das cores, a passagem da luz pela superfície, a hesitação entre o detalhe e o todo. O próprio Mosquera reconhece a presença eventual do acaso, capaz de afrouxar o método. É nessa folga que a construção respira.

A fotografia, outra vertente da pesquisa de Patrício, prolonga esse interesse pelas coisas encontradas no mundo. “A fotografia é o jogo do olhar, e não serve apenas para registrar as obras prontas. Meu olhar procura encontros de formas e mudanças de luz que não dependem de uma fórmula para existir.” As fotografias presentes nas exposições, podem ter uma relação com o trabalho que ele faz com outros elementos que se repetem, composições em que há sequência numérica. “Isso é o jogo do olhar que conta quando estou fotografando, procurando e descobrindo coisas também”, ressalta Patrício.

A escolha de Mosquera para a curadoria aproxima duas trajetórias sem forçar uma identidade comum. Em torno do tema bastante discutido: Contra el arte latino-americano, o crítico questiona o hábito de se exigir que artistas da região carreguem marca de origem em cada trabalho. Durante a entrevista, ele retomou sua defesa de uma arte sem “sobrenome”, livre da expectativa de representar continuamente um continente. “A obra de Patrício nasce no Recife e conversa com a tradição construtiva brasileira. Também se oferece a qualquer olhar capaz de se deixar capturar por suas tensões. Sua procedência faz parte da história e não precisa funcionar como instrução de leitura”, defende Mosquera.

Em 2024, Patrício teve uma grande individual no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, com a curadoria de Paulo Herkenhoff, centrada na matemática. Agora, no Panamá, a aproximação proposta por Mosquera desloca o foco para essa convivência inquieta entre objetos comuns e ambição pictórica. Os dominós continuam sendo dominós. Os dados conservam a memória do lance. Os azulejos trazem consigo as paredes de onde foram retirados. Nenhum desses vestígios desaparece na composição. É por isso que as obras resistem à contemplação tranquila:  a imagem se forma e, ao mesmo tempo, revela cada peça de sua construção.

Talvez o jogo esteja aí. Patrício estabelece regras suficientemente precisas para que se possa pressenti-las, mas deixa espaço para aquilo que escapa a elas. O olhar oscila entre reconhecer cada objeto e perder-se no conjunto. Ao final, não é preciso decidir se estamos diante de pintura, escultura ou alguma categoria intermediária, dentro das ultrapassadas classificações da arte. Basta voltar um passo, chegar perto outra vez e perceber que a obra mudou sem que nenhuma peça saísse do lugar.


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