Ancestors, de Hanna Haaslahti. Foto: Patri Rastenberger

O Centro Cultural FIESP recebe a exposição A Intercriatividade, do Festival Internacional de Linguagem Eletrônica – FILE, que chega à sua 26ª edição. Neste ano, o evento reúne cerca de 160 obras de artistas de 48 países para pensar na criatividade como um processo compartilhado entre humanos, sistemas inteligentes, organismos vivos e ambientes tecnológicos.

Conversamos com Paula Perissinotto, que criou o festival em 2000 ao lado de Ricardo Barreto e, juntos, assinam a curadoria desta edição com Clarissa Vidotto e Victor Sardenberg. Ela explica que, durante muito tempo, discutiu-se no FILE a relação entre homem e máquina como oposição. Hoje a discussão é outra: como diferentes criatividades e inteligências passam a criar juntas. Daí o título desta edição

O FILE surgiu antes da criação das redes sociais, dos smartphones e da popularização da inteligência artificial. Na primeira edição, a interação se dava exclusivamente por teclado e mouse. As pessoas chegavam, encontravam uma fileira de computadores era preciso sentar, navegar, escolher. Aquilo criou um comportamento que foi se transformando com o passar dos anos. Ao mesmo tempo, Paula afirma que o festival “nunca foi um evento de tecnologia. Ele sempre foi um um evento sobre a cultura contemporânea”, diz. “A tecnologia é o meio pelo qual nós observamos as transformações da sociedade e, dentro dessa transformação, a gente vai tentando acompanhar as produções estéticas que estão alinhadas com essa visão”.

Com essas transformações da inteligência artificial, Paula conta que não é otimista nem pessimista: “O nosso papel é criar um espaço onde ela [a IA] possa ser discutida criticamente através de expressões estéticas. E cada um tem uma realidade, cada um tem um parâmetro. Quando eu falo cada um, é cada realidade de mundo. Por isso essa relação internacional é importante”.

Algorithmic Perfumery, de Frederik Duerinck.

A seleção

Anualmente, artistas de todo o globo podem se inscrever por meio do edital do festival. Nesta edição chegaram mais de mil propostas, de mais de 40 países. O tema aparece depois que a seleção é feita: “Se a gente tematiza a priori, ele não expressa o conjunto das coisas que a gente gostaria de mostrar.” Primeiro se entende o que chegou e quais questões estão sendo tratadas, então se elabora o tema.

Uma das obras de destaque da mostra é a Algorithmic Perfumery, do holandês Frederik Duerinck. Nela, o visitante recebe um formulário com perguntas pessoais sobre  memórias, emoções, referências. O formulário gera um código. Esse  código vai para uma máquina, que combina essências e devolve um frasco com etiqueta própria. O perfume sai pronto e vai embora com quem o encomendou.

Paula também menciona a obra Ancestors, de Hanna Haaslahti, que propõe que o visitante se torne o primeiro membro de uma família que nunca existiu. Então, a máquina cria descendentes digitais e conecta a história à de pessoas que ele nunca conheceu. Ao longo da exposição, uma árvore genealógica coletiva é formada. 

Entre os brasileiros, estão Amir Admoni e Fabito Rychter com a obra Gravidade VR. Em realidade virtual, o público entra em um universo em que tudo está em queda. Não há horizonte, não há chão, não há referências de cima ou de baixo. A sensação impactante busca refletir sobre a existência, o tempo e a transformação.

O público ainda encontra obras como A Walled City, de Weidi Zhang e Rodger Luo e INEVITABLY BLUE, de Sophia Bulgakova.

    

Gravidade VR, Amir Admoni e Fabito Rychter

O brasileiro

Apesar de artistas brasileiros trabalharem com tecnologia, a falta de apoio não deixa de ser uma questão. O que o FILE observou em 26 anos de atuação é como outros países se desenvolveram com apoios, escolas específicas, cursos e pós-graduações dedicados. “Cada vez que eu vou [para outros países] e vejo, a gente fica deprimido, porque os caras têm tudo”, afirma em relação aos artistas norte-americanos e europeus. “É cruel a diferença.”

A brasilidade que interessa ao festival não é um repertório de símbolos nacionais, embora ela reconheça a importância disso, está na maneira como se pensa e se trabalha com tecnologia aqui. Improvisação, diversidade e questões ambientais são perspectivas distintas das que aparecem em centros mais industrializados. Muitos artistas brasileiros trabalham com baixa tecnologia, reaproveitamento de objetos, eletrônica experimental, inteligência coletiva. 

EchoVision, Jiabao Li e Botao Amber Hu

O que não se calcula

A abertura da exposição fica por conta de uma conferência inédita no Brasil, “Human Creativity versus Artificial Intelligence”, do matemático argentino-americano Gregory Chaitin, ao lado da epistemóloga Virginia Chaitin

O matemático, de acordo com Paula, inventou um número, o ômega, que é incomputável, uma fresta daquilo que, na matemática, não pode ser algoritmizado, por isso a sua importância. “Ele traz essa ideia fundamental de que existem limites para aquilo que pode ser calculado”, diz ela. “E esse limite é fundamentalmente humano.” Ligado à imaginação, à intuição. “A máquina até pode ser criativa, porque ela reinterpreta os dados e cria, mas ela não imagina. Chaitin nos lembra que nem tudo pode ser reduzido ao algoritmo.”

Para Paula, o que está acontecendo hoje é uma tomada de consciência mais efetiva, afinal “foram os seres humanos que inventaram tudo isso”. “Esses seres enlouquecidos que inventam coisas absurdas, coisas que o planeta não precisa mais, que a gente não precisa”, reflete.

Ancestors, de Hanna Haaslahti.

O público que se construiu

Todo ano, entre 30% e 40% dos visitantes são pessoas que nunca estiveram no festival. “Isso significa que a gente está vivo”, celebra Paula. É esse público que ela aponta como como seu ompromisso — junto com a equipe e com os fornecedores, que também aprendem interfaces, softwares e linguagens de instalação que nunca tinham manuseado. “É uma rede sutil de desenvolvimento. Não é uma rede explícita, porque inclusive somos uma organização independente. Se a gente tivesse um suporte maior, talvez fosse uma coisa bem mais efetiva.”

Recentemente o festival montou um repositório digital com interface do Tainacan, software brasileiro voltado para gestão e publicação de acervos digitais, utilizado por museus e instituições culturais. Ali entram tanto as propostas recebidas quanto o que já passou pelo evento. As obras, em geral, não funcionam mais, já que a obsolescência é o destino corrente da arte eletrônica, mas a documentação, ao menos, é preservada.

SERVIÇO
Centro Cultural FIESP –Galeria de Arte e Galeria de Arte Digital | Av. Paulista, 1.313 (em frente à estação Trianon-Masp do metrô)
Visitação: 20 de agosto a 11 de outubro de 2026
Funcionamento: Galeria de Arte, terça a domingo, das 10h às 20h; Galeria de Arte Digital, todos os dias, das 19h às 6h
Entrada gratuita: não é necessário fazer reserva para conhecer a exposição
Agendamentos de grupos e escolas: [email protected]
Informações: sesisp.org.br/eventos e file.org.br

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