A fotografia inicia o século XX como a arte revolucionária. Não à toa ela foi abraçada pelos vanguardistas, que viam em sua forma de representação de mundo uma maneira de renovar o olhar. As várias vanguardas se apropriaram da fotografia como forma de quebrar cânones. E assim também acontece com o artista russo construtivista Aleksandr Ródtchenko (1891-1956) que leva a fotografia para a ideologia artística da época num dos seus maiores expoentes.
A energia criativa da época é espantosa. Assim como seus colegas na Alemanha, França e Estados Unidos, Ródtckenko abusa – no bom sentido – das possibilidades de experimentar: múltiplas exposições, composições em diagonal, quebra de regras, fotomontagens, cartazes publicitários.
Parte deste seu pensamento fotográfico pode ser visto pela primeira vez no Brasil de forma bem didática. A exposição, organizada pela Moscow House of Photography, com curadoria de Olga Sviblova (diretora do museu), apresenta 170 obras entre fotografias, cartazes, fotomontagens, capas de livros e revistas, realizadas entre 1924 e 1954, dois anos antes de sua morte.
Ródtchenko nasce quando a fotografia já é popular no mundo todo e a escolhe como forma de expressão quando ela começa a ser vista como expressão de arte, linguagem autônoma, e quando, na década de 1920, muitos artistas discutem a importância da fotografia para a sociedade da época.
Experimentar é a palavra mote para todos eles. Câmeras de pequeno formato apresentam a possibilidade de maior movimentação dos fotógrafos. A câmera se torna uma extensão do olho, da mão, e novos ângulos, composições, são possíveis. O cotidiano e a banalidade se tornam o tema das imagens. Escreve Ródtchenko: “Vou resumir: para acostumar as pessoas a ver a partir de novos pontos de vista, é essencial tirar fotos de objetos familiares, cotidianos, a partir de perspectivas e de posições completamente inesperadas. Novos assuntos têm de ser fotografados de vários pontos, de modo a representar o assunto completamente”. Isso em 1928. E suas perspectivas diferentes são maneiras de distorcer o horizonte, fotografando na diagonal – um questionamento às regras estáticas de composição. Um porque estilístico e que, nos últimos anos, tem reaparecido na fotografia contemporânea muito mais como modismo do que como linguagem.
Sem dúvida, ele nos ajuda a compreender a importância comunicadora da fotografia e sua força como mola propulsora de um novo pensar. Incômodo, no fim da vida, é abandonado e traído por seus amigos, impedido de trabalhar e de participar de exposições. Sua primeira mostra é organizada um ano após sua morte. Mesmo assim, não conseguiram calá-lo: sua fotografia, que se apresenta hoje atual e mais contemporânea do que muitas imagens que se vêem por aí, é ainda um exemplo a ser seguido, ou pelo menos conhecido.





